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terça-feira, 16 de maio de 2023

O Clube de Bilderberg e uma anedota de Salazar


Já aqui escrevemos outros textos sobre o Clube Bilderberg. 

Acontece que esse "selecto clube" vai reunir-se esta semana em Lisboa, pouco se conhecendo, como é hábito na sua história, sobre o nome da maior parte dos convidados e sobre os temas aí tratados.

Apenas se sabe que essa organização "quase secreta" reune os homens mais influentes da política, da alta finança, da economia e do mundo universitário, os decisores mais poderosos do mundo.

Dessas reuniões apenas se sabe que saiem decisões que vão influenciar a vida da maior parte dos cidadãos do mundo, sem que estes tenham sido consultados para o efeito.

Não deixa de ser irónico que a maior parte dos participantes e organiadores desse evento, com caracteristicas quase mafiosas, passem a vida a falar em "democracia" e "liberdade" e se achem representantes do "mundo livre", mas tomam aí decisões pouco democráticas, não respeitando a liberdade de as conhecermos, achando-se no direito de estarem acima do escrutinio democrático.

Pelo contrário, muita dessa gente é responsável, por acção ou omissão, por muitas das desgraças que assombram este trágico século:  desigualdades e injustiças sociais; crescente militarização das relações internacionais; crimes ambientais...

Além disso, todo esse secretismo só serve par alimentar quer a desconfiança em relação às instituições democráticas que dizem defender, quer as teorias da conspiração que fazem crescer o populismo.

Não sei porquê, ironicamente, essa reunião de "poderosos" e "influentes" num único lugar, trás-me à memória uma anedota que corria nos tempos do Estado Novo:

Salazar, Américo Tomás e o Cardeal Cerejeira sobrovoavam o país num pequenos avião. Às tantas o cardeal Cerejeira abre a janela, atira uma nota de cem escudos e diz: - vou fazer um português feliz!. Não lhe querendo ficar atrás, Américo Tomás, faz o mesmo, só que desta vez com duas notas de cem escudos e diz: - vou fazer dois portugueses felizes!. Salazar, sovina como era,  a contragosto, mas não querendo ficar atrás do gesto dos outros dois, saca de três notas de cem escudos, abre a escotilha e, um pouco contrariado, atira-as pela janela, exclamando : - Vou fazer três portugueses felizes!. De dentro da cabine ouve-se o comentário do piloto para o co-piloto: - Se eu atirasse com esta merda por aqui abaixo fazia 10 milhões de portugueses felizes!.

Numa anedota idêntica que se passasse com alguns dos participantes do Clube de Bilderberg, era caso para dizer que o piloto não faria "apenas" 10 milhões de pessoas felizes, mas talvez uns 7 biliões...

segunda-feira, 12 de abril de 2021

A Corrupção é “um lugar estranho”.

 


A leitura da decisão instrutória da “Operação Marquês”, ao contrário do que uma opinião apressada, ignorante, tendenciosa e cega pode fazer crer, foi uma autêntica lição sobre a forma como a grande corrupção em Portugal funciona e como a nossa lei e a  nossa justiça se mostram incapazes de a combater eficazmente.

Mostra também que aquilo que qualquer cidadão comum, gozando de plenas capacidades mentais, identifica como corrupção, está, muitas vezes, protegido pela lei ou pela impossibilidade da prova.

Muito do que consideramos como eticamente reprovável, vulgo “corrupção”, é “apenas” isso, eticamente reprovável, mas está  protegido pela lei ou pelo silêncio.

Aliás, a grande corrupção não é mais nem menos que a “ética do capitalismo” e da “economia de mercado”.

Como diz a voz popular, uma grande fortuna esconde um grande crime.

Olhando para a história do capitalismo, este desenvolveu-se, ao longo dos seus vários séculos de história, com base nos crimes mais hediondos: na pirataria e no saque da propriedade e dos recursos alheios, no esclavagismo, no genocídio, no crime organizado, na guerra, na destruição dos ecossistemas e, mais recentemente, no branqueamento de capitais, na fuga aos impostos, nos negócios de armamento e da droga.

A dificuldade em seguir as movimentações de dinheiro , obtido pela corrupção, agravou-se pela   forma como funciona a globalização e a circulação de capitais, e pela forma como o poder financeiro está, há muito, contaminado pela origem duvidosa da maior parte dos seu capital (branqueamento de capitais oriundo do crime organizado, da especulação financeira , da fuga de impostos, do negócio ilegal de armamento, alimento do terrorismo internacional e de regimes criminosos…), pela manutenção de paraísos fiscais, não deixando de ser “surpreendente” que a própria União Europeia, sempre pronta ao discurso “politicamente correcto” do “ataque à corrupção”, permita a existência, no seu seio, desses mesmos paraísos fiscais, como acontece, por exemplo, com a Holanda, cujos governos estão sempre prontos a defender a retirada de direitos socias aos países pobres da UE e a defender a austeridade dos outros, mas que é um país historicamente fundado nos lucros da pirataria, do esclavagismo e do colonialismo, devendo , actualmente, a sua prosperidade económica à forma como protege as grandes empresas de pagarem impostos no território onde operam, prejudicando países como Portugal. Mas não é caso único no seio da UE.

Infelizmente, as “alternativas” históricas ao modelo capitalista mostraram-se tão criminosas como este, nalguns casos ainda mais corruptas e desumanas.

Uma outra vantagem deste processo é mostrar que, apesar de tudo, a forma como a democracia enfrenta este tema da corrupção é sempre superior ao de qualquer ditadura. Pelo menos os cidadãos sabem agora com que justiça contam e podem agora exercer, com mais coerência, o seu direito de cidadania, que é o de exigir alterações na lei, principalmente no que respeita à obtenção de provas, na alteração ao escandaloso arrastamento dos processos e  ao ignóbil principio da “prescrição” da prova.

Acima de tudo, o cidadão tem o dever de não pactuar com a corrupção, que começa nos actos mais simples do dia a dia e termina no favorecimento de fortunas ilícitas.

Muitos dirão, do alto da sua ignorância e da sua intolerância, que na “ditadura” não havia corrupção.

“Não havia” porque não se podia falar nela, sob ameaça da censura ou de prisão, para além dos corruptos serem protegidos pelo poder, com leis, tribunais e uma polícia politica que obrigava ao silêncio

Mas a ditadura, qualquer uma, é a pior de todas as corrupções, que é a usurpação do poder sobre um país ou um povo, em benefício de uma pessoa, de uma elite, de uma religião, de uma ideologia, de  uma classe ou de um partido.

Por isso, apesar de a decisão instrutória da “Operação Marquês” poder não ser o que esperávamos, embora a história ainda não tenha terminado, ela teve o condão de nos alertar sobre os “caminhos da corrupção”, para as limitações da lei e da justiça no combate à grande corrupção, e para a necessidade de estarmos todos muito mais atentos ao que se passa à nossa volta.

Agora é a vez da cidadania.

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Deixem Greta Thunberg em paz!



Tudo o que é “bicho neoliberal”,  por esse mundo fora (Portugal incluído), iniciou um ataque sem escrúpulos à jovem activista Greta Thunberg.

Talvez porque ela conseguiu explicar, com palavras simples, mas firmes, falando de cima, que a sociedade que os neoliberais construíram nas últimas décadas é  responsável pela acelerada degradação ambiental.

Não conseguindo desmontar ou desmentir cientificamente as preocupações ambientais de Greta, acusam-na de populista por  criticar os políticos “democráticos” (Trump e Bolsonaro???), pondo assim em causa o sistema politico “liberal”.

Acusam-na de por em causa a “liberdade” de escolha das sociedades ocidentais, ou seja o “consumismo” em que assenta o modelo económico capitalista actual.

É que aquilo que Greta demonstra e denuncia mostra a forma como o funcionamento sem freio dos “mercados”, cuja “liberdade” é tão querida àquela seita neoliberal, se revela o principal factor que tem contribuído para a rápida destruição do planeta.

Não perdoam que a simplicidade e a verdade do discurso de Greta Thunberg mobilize milhões de crianças, jovens e adolescentes, despertando-os para a denuncia do modelo económico neoliberal, como um sistema de rapina dos recursos da Terra e que conduzirá essa geração a viver num mundo inabitável.

De facto, os neoliberais esqueceram-se de um principio do liberalismo que dizem defender, que é aquele que diz que a liberdade de cada um acaba quando começa a liberdade do vizinho, ou seja, a liberdade de destruir os recursos da terra, em nome de um desenvolvimento permanente do consumismo neoliberal, termina quando põe em causa o futuro da vida na terra e da vida das próximas gerações.

Ou, parafraseando um velho ditado índio, Greta vem recordar-nos que “herdámos a Terra…dos nossos filhos”!

terça-feira, 24 de setembro de 2019

Cimeira da Acção Climática. Até onde estamos disposto a abdicar do nosso estilo de vida para salvar o planeta?



Tudo o que até agora nossa geração tem feito para salvar o clima da catástrofe ambiental que  já se adivinha, não passa de retórica, boas intenções ou discurso balofo.

Há também aqueles que olham para o lado, como se não tivessem nada a haver com a situação.

Pior ainda, é a forma ignorante como alguns países, os mais responsáveis pela catástrofe ou o que têm dimensão suficiente para mudar alguma coisa, continuam a ser governados, como é o caso do Japão, da Índia, dos Estados Unidos e do Brasil ( a China, a França, a Alemanha, O Canadá e a Rússia parece que já perceberam o que se passa, se bem que, até agora, pouco mais fazem que promessas de boas intenções).

Em artigo editado no suplemento Ípsilon do Público, na passada 6ª feira 20 de Setembro, António Guerreiro assinava uma crónica, intitulada “A Terra é redonda” (que pode ser lido integralmente AQUI), colocando o dedo na ferida sobre o que verdadeiramente está em causa:

“Curioso, e até divertido, é ver como nos vão sendo ministrados todo os dias ecopaliativos:. 
Dizem-nos: viaja o menos possível de avião, vai para a escola ou para o emprego de bicicleta, bebe só água da torneira, reutiliza os sacos plásticos, não deixes a torneira aberta enquanto lavas os dentes, toma atenção a todos os teus gestos quotidianos, torna-te um herói da salvação do planeta (como se o planeta estivesse interessado nos nossos esforços e não continuasse a existir depois de nós, tal como já existia antes de nós). Tudo isto não passa de formas de exorcismo e de recalcamento do medo, ao mesmo tempo que cria a ilusão de que estamos a responder à urgência.

“(…) Se olharmos com atenção e utilizarmos o bom senso (nem é preciso muita ciência) facilmente concluímos que muito pouco se faz porque era preciso virar os nossos modos de vida de pernas para o ar para se fazer alguma coisa eficaz (se ainda há tempo para isso porque obviamente não se pára de um dia para o outro um processo que começou há séculos). Não é que devamos continuar a agir como sempre agimos, mas todas estas ideias de boa vontade que surgem todos os dias como injunções acabam por esconder a questão política essencial.

“Na verdade, passámos em pouco tempo de uma política com pouquíssima ecologia a uma ecologia de boa vontade à qual falta política. E essa falta torna vãs todas as boas intenções. O que vemos é que continua a ser difícil declinar essas duas palavras - ecologia e política - sob a forma de uma ecopolítica digna desse nome. Uma ecopolítica à altura dos desafios com que estamos confrontados terá de ser capaz de mostrar que as situações ecológicas, políticas, sociais, económicas, institucionais, tecnológicas e psíquicas estão em total conexão umas com as outras. Sem agir sobre todas estas dimensões, o “impasse planetário” mantém-se. Por isso é que são tão ingénuos os regulamentos avulsos e o pretenso “regresso à natureza” de tonalidade romântica.
Se já estamos a viver em pleno “perigo absoluto”, como afiançam até os cientistas colapsólogos e os catastrofistas esclarecidos, então só podemos concluir que não saímos ainda da imobilidade nem se vislumbra que iremos sair (…)”.

De facto, a pergunta que todos nós, que temos consciência da catástrofe anunciada, que queremos que os nossos filhos e netos possam ter um futuro neste planeta, é se estamos de facto dispostos a prescindir, de forma abrupta e urgente, do nosso estilo de vida, a nível universal, isto é, se estamos preparados para deixar de usar transportes motorizados individuais, de consumir tanta carne, de viver com menos energia e menos àgua, cortarmos na maior parte dos nossos consumos?

Muitas das medidas para alterar rapidamente os nosso hábitos consumistas, porque a resposta é urgente, num prazo máximo de 10 a 15 anos, só podem resultar mudando radicalmente a sociedade capitalista-consumista em que vivemos, por imposição legal e, nalguns casos, repressiva, que vai limitar a liberdade dos “mercados” e penalizar, a doer, os prevaricadores.

Outra medida é a criação de um Tribunal Penal Internacional para os crimes ambientais e quem os fomenta, podendo, desde já, começar a preparar o julgamento nesse tribunal de criminosos ambientais como Bolsonaro ou Trump, assim que deixem o poder, aos quais se podem juntar outros líderes e gestores de empresas responsáveis pela crise ambiental.

Estamos dispostos a isso?

Estamos dispostos, nós que vivemos na parte “rica” do Mundo, a pagar por tudo isso, ou vamos reagir como os “coletes amarelos” em França?

Ou vamos a continuar a “limpar” a nossa consciência com pequenos gestos que pouco vão mudar no trágico destino anunciado do planeta, continuando a escolher políticas de “desenvolvimento” em vez de políticas ecológicas (veja-se, por cá, o debate sobre o aeroporto do Montijo ou sobre a plantação de eucaliptos..), continuando a optar por transportes privados poluentes, em vez de exigirmos mais e melhores transportes públicos, menos poluentes (como o transporte ferroviário)?

O tempo escasseia e, um dia, se houver esse dia, a nossa geração será responsabilizada por pouco ter feito para mudar o rumo deste capitalismo suicida. Vamos ser vistos ainda pior do que os alemães face ao nazismo ou os franceses face ao colaboracionismo.

E os nosso líderes, que nada fizeram ou, pior ainda, negaram a realidade e fomentaram a ignorância ambiental, serão vistos com o mesmo desprezo e horror com que hoje vimos um Himmler, um Hitler ou um Stalin, até porque as suas politica vão provocar um holocausto ainda maior.

Vamos continuar, (nós, humanos, no geral) a escolher políticos ignorantes, criminosos ambientais, como os Trump´s e Bolsonaros, deste mundo?

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

“Crescimento”



É a palavra mais usada por políticos e economistas.

É de tal modo uma palavra “mágica” que existe um exército de técnicos e de instituições só para o estudar e o prever.

Interrogo-me muitas vezes se “crescer” em termos económicos e em quantidade é mesmo o grande objectivo civilizacional da humanidade, uma justificação para um desordenado crescimento do consumo que alimenta a máquina “capitalista”, onde somos alegremente triturados.

Pergunto-me também se é possível continuar a “crescer” sem destruir definitivamente, não só os equilíbrios sociais, como, e principalmente, o ambiente e a natureza.

Para mim “crescer” pode ser aceitável se tiver como objectivo melhorar a nossa saúde, a nossa educação, a nossa compreensão dos outros e do mundo, a nossa cultura e o nosso conhecimento, combater as desigualdades, melhorar as nossas condições de vida e, principalmente, acentuar o urgente e necessário equilíbrio entre nós e o ambiente natural que nos rodeia.

Ora, não me parece que seja isso que está na base do uso conceito de “crescimento” saído da boca e da pena de economistas, políticos e comentadores , conceito usado apenas para defender os apelos cada vez mais selvagens ao consumo desenfreado (tão comum nesta descaracterizada época “natalícia”), para o saque descontrolado de recursos naturais, e para acentuar desigualdades socias, desrespeito todas as formas de vida humana ou animal que não se enquadrem no modelo económico neoliberal.

E assim, em contínuo “crescimento” cá vamos alegremente caminhando e consumindo para o  abismo ambiental e civilizacional...

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Holocausto Ambiental.



Foi o mais recente e último aviso.


Havia uma velha máxima índia segundo a qual todos “herdamos as terras dos…NOSSOS FILHO!”.

Ou seja, para quem não percebeu ( e as redes sociais estão cada vez mais cheias de gente que, ou não percebe ou não quer perceber), temos a responsabilidade de “devolver” a Terra às gerações futuras com qualidade para eles poderem viver em paz e harmonia.

Infelizmente não é isso que temos feito nos últimos tempos.

Temo que, mais uma vez, como tem vindo a acontecer há décadas, os avisos só sejam escutados quando for tarde de mais ou alguma catástrofe nos atinja pessoalmente.

Da actual classe politica e económica  que governa o mundo nada ou pouco podemos esperar.

Leiam-se as opiniões e atitudes de Trump, que preside à nação que é a maior poluidora do mundo.

No Brasil, uma das maiores economias do mundo, vamos ter, ao que tudo indica, um presidente que tem, como principal tarefa do seu programa, acabar com a protecção ambiental e entregar a Amazónia aos madeireiros e criadores de gado, ameaçando os índios que a habitam e a preservam, e o próprio mundo, pois a Amazónia é um dos últimos pulmões do nosso planeta.

A África está a ser vendida aos interesses chineses que prometem continuar o trabalho de destruição ambiental desse continente iniciado pelas grandes multinacionais ocidentais.

Na maioria dos países asiáticos e na Rússia, a economia está entregue às industrias poluidoras.

No ocidente, os interesses financeiros da industria automóvel ,da  petrolífera, da criação de gado e da extração mineira, mandam mais do que a vontade dos ambientalistas.

O cumprimento das decisões do tratado de Paris não tem passado de mera retórica folclóricas.

Infelizmente, a defesa do ambiente não é compatível com o modelo económico dominado pelo capitalismo selvagem e pelo neoliberalismo.

Quando, em termos mais locais, vemos tanto afã em derrubar árvores, criticar medidas que visam afastar o automóvel dos centros históricos ou urbanizar nas poucas zonas florestais que restam, sem se melhorar o sistema se transportes públicos ou a preservação dos ambientes naturais (veja-se o caso recente do "aeroporto do Montijo" ou do porto de Setúbal), então a esperança de escaparmos à catástrofe é cada vez menor.

Um dia, se ainda houver humanos, quando se fizer a história deste principio de século, os causadores do anunciado e cada vez mais provável holocausto ambiental para onde nos conduzem irão figurar ao lado dos grandes criminosos do século XX, como Hitler ou Stalin.

Até lá, a cada um de nós só nos resta remar contra a maré, à espera que o bom senso ainda nos possa salvar. 

segunda-feira, 11 de junho de 2018

G7 – E se Trump tivesse razão?



Cimeiras com a do G7 apenas servem para legitimar politicas financeiras e comerciais ilegítimas e prejudiciais aos cidadãos do mundo.

A realização de tal cimeira, a coincidir com a anual reunião secreta de Bilderberg ,não terá sido mera coincidência, e terá servido para coordenar os esforços das elites “globalistas” mundiais para programarem a sua acção em prol do obscuro interesse financeiros e económicos e para fazer frente às previsíveis reacções populares.

Os cidadãos e a melhoria da suas condições de vida não costumam estar na agenda dessas reuniões, antes pelo contrário.

Contudo o “furacão” Trump acabou por desviar a atenção sobre os verdadeiros objectivos e decisões desse encontro dos mais poderosos do mundo.

Trump marcou a cimeira com duas questões: a forma como questionou a liberdade de comércio e o modo como a Rússia foi expulsa dessa reunião.

E se, nestas duas questões, apesar de corresponderem a uma estratégia irresponsável e errada, Trump até tivesse razão, apesar de tomar decisões de forma, aparentemente, pouco racional ?

Claro que o título que usamos em cima é uma provocação.

Mas não nos deixamos de interrogar sobre a ausência dessa cimeira de outras potências mundiais, como a Rússia e a China, isto já para não falar da Índia, do Brasil ou da África do Sul.

É o velho mundo, decadente, abalado por crises que não consegue resolver, mas que ainda mantém um grande peso económico, financeiro e militar, o que está representado na cimeira do G7.

Por isso, não existe grande razão para isolar as potências emergentes ou, no mínimo, tão decadentes como aquelas representadas nessa cimeira.

A justificação para afastar a Rússia podia ser usada para afastar ao Estados Unidos, a Grã-Bretanha ou a França, todas envolvidas recentemente em intervenções militares e financeiras, ou apoiando regimes párias,  não legitimadas pela única organização internacional com mandato legítimo, a ONU.

Por isso, e apesar de não nutrir qualquer simpatia por Putin, a afirmação de Trump em defesa da presença da Rússia tem toda a razão de ser.

Mas, para mim, mais importante do que estar numa cimeira de países decadentes e onde se tomam decisões ilegítimas, seria mais importante reforçar organizações internacionalmente legítimas, como a ONU, começando por alargar o número de países do Concelho de Segurança e o poder da Assembleia Geral.

No Conselho de Segurança, como membros permanentes, deviam ser incluídos países como o Canadá, a Alemanha, a África do Sul, o Brasil e a Índia. E o direito de veto devia ser revisto, aumentando o poder da Assembleia da ONU.

O que têm feito organizações como G7 e outras do género é tentar esvaziar a importância da ONU, com todas as consequências que temos visto em termos de instabilidade económica, social e politica mundial e de aumento das desigualdades.

Também, na outra questão levantada por Trump ,  no que respeita à injustiça da organização do comércio mundial, embora na forma irresponsável que é peculiar nesse líder, também acaba por ter alguma razão.

A "liberdade de comércio", tal como está estabelecida, favorece os mais fortes, desenvolve o dumping social, e agrava as desigualdades sociais.

O “comércio livre” baseia-se no acentuar das injustiças socias e na destruição de direitos humanos e sociais, e é ela própria a principal responsável pelo descalabro ambiental do planeta.

Também não se percebe que os que tanto defendem tal “liberdade” de comércio, só aceitem essa liberdade para a circulação de capitais e matérias-primas, mas imponham todo o tipo de restrições à liberdade de circulação de pessoas, como se tem visto na actual crise dos refugiados .
Claro que não são estas as preocupações de Trump.

Mas teve pelo menos o mérito de agitar e desestabilizar uma cimeira que apenas serve para aplicar as decisões politica impostas pelo sector financeiro, de forma ilegítima.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Estamos Solidários com a "Revolução dos Guarda- Chuvas" (em Hong Kong)

Um dos grandes mistérios com que os historiadores e politólogos do futuro se vão confrontar, é o de perceber o fascínio que a China e o seu modelo politico-económico-social exerceu sobre grande parte dos decisores políticos e económico-financeiros do capitalismo ocidental e das elites da União Europeia no início do século XXI.

De facto, tem sido o fascínio por esse modelo a contribuir para destruir o tecido sócio-económico do Ocidente democrático, nomeadamente o Estado Social construído na Europa ao longo do século XX.

A desculpa é o de atrair o capital dos países “emergentes”, penetrar nos seus mercados e as necessidades de um mercado  “competitivo” num “mundo globalizado”, onde o modelo chinês é cada vez mais o dominante.

Grande parte do capital desses países emergentes tem origem mais que duvidosa ( desde o oriundo de obscuros negócios de máfias locais, da corrupção dos seus líderes políticos, do “dumping social” neles praticado, da inexistência de direitos socias e até dos democráticos).

Por seu lado, as grandes empresas ocidentais, cada vez menos eticamente escrupulosas, do ponto de vista social [essa preocupação, quando a houve, durou apenas enquanto existiu a “sombra” da União Soviética….], sentem-se atraídos por esses países emergentes, com a China à cabeça, onde não existem greves nem contestação, nem preocupações ambientais, onde o trabalho sem regras e a exploração de mão-de-obra infantil foge a qualquer controle, garantindo assim lucros fabulosos a essas empresas.

Mas, num mundo capitalista sem regras, onde os políticos são meros “facilitadores” dos negócios financeiros, um dos atractivos, nunca assumido, pelo modelo Chinês passas pelo facto de estarmos num país, que para além de oferecer uma mão-de-obra barata e sem direitos, um vasto território sem o “entrave” das regras ambientais do ocidente, oferece a possibilidade de todo o tipo de negócios sem o “empecilho” do controle democrático ou da liberdade de expressão.

A China é, sem dúvida, a “melhor” síntese entre o pior do capitalismo, com o pior do comunismo, “pior” na perspectiva dos cidadãos e dos trabalhadores, porque para a ganância do grande capital financeiro internacional e das corruptas elites dirigentes do gigante asiático este é o melhor de todos os mundos.

Por isso é da mais absurda hipocrisia toda a “indignação” manifestada pelas elites políticas ocidentais em relação àquilo que se passa em Hong Kong. Uma China democrática, onde houvesse liberdade de expressão, com direitos sociais e respeitadora das preocupações ambientais era o pior de todos os pesadelos para essa gente, pois deixavam de ter desculpa para continuar a retirar direitos aos trabalhadores dos seus países e a desvalorizar o trabalho para “responder” ao “dumping social” dos “países emergentes”.


Pelo nosso lado, estamos do lado das forças democráticas da China, pois a sua vitória ´só podia fortalecer a luta dos cidadãos da Europa pelo reforço dos seus direitos socias, políticos e económicos.

(Podem ler mais sobre a "revolução dos Guarda-Chuvas" AQUI e seguir os acontecimentos em Hong Kong , em directo, AQUI)

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

A Crónica de Daniel Oliveira: Manifestação de amanhã ainda há vida fora das redes sociais?

É já amanhã que se realiza a manifestação organizada pelo colectivo "QUE SE LIXE A TROIKA", que tem início às 15 horas, partindo do Rossio até à Assembleia (o percurso pode ser visto em baixo).

Entretanto sugerimos a leitura AQUI do blog do grupo, onde pode encontrar depoimentos bastantes interessantes, bem como a crónica de Daniel Oliveira, que pode ser lida clicando em baixo:



terça-feira, 9 de abril de 2013

RECORDAR O PENSAMENTO DE JOSÉ LUIS SAMPEDRO, falecido no Domingo:

 Foi hoje conhecida a notícia do falecimento do escritor, pensador, economista e humanista espanhol José Luis Sampedro, acontecido no Domingo em Madrid.

O pensador espanhol tinha 96 anos e era um dos mais cativantes crítico da situação económica actual.

Critico do pensamento neoliberal, que ele responsabilizava pelo actual clima de barbárie social, considerav que o modelo capitalista tinha chegado ao seu limite e era necessário encontrar um alternativa credível rápidamente, sob o risco de os valores humanos entrarem rápidamente em declinio.

Nos tempos que correm é estimulante ler as idéias deste quase centenário pensador, que podem ser consultados nos dois arttigos em baixo:


Uma outra entrevista do pensador espanhol, das ao El Publico, pode ser lida AQUI