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segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

2020 – para esquecer ou recordar?


 Nas minhas mais de seis décadas de vida sempre pensei que não escaparia ao impacto de uma guerra em larga escala ou a um terramoto.

Felizmente, até agora nenhum desses cenário se concretizou na minha vida, apesar da violência de conflitos locais, mas distantes, ou do impacto de fenómenos naturais cada vez mais violentos,  mercê do agravamento da catástrofe ambiental,mas, por enquanto, também distantes.

O que nunca previ foi uma situação como a que vivemos ao longo de 2020 e que se irá prolongar ainda ao longo de todo o ano que agora se inicia.

Na minha geração sempre estiveram presentes as memórias das duas guerras mundiais do século XX, transmitidas por avós e pais,  e a perspectiva de ter de ir combater para a Guerra Colonial, enquanto se mantinha viva a memória colectiva do grande terramoto de 1755 e a sua possível repetição, de cujos efeitos tivemos uma pálida experiência em 1969.

Claro que também existia a memória do efeito de grandes epidemias, tendo-me cruzado com muita gente que se lembrava bem da pneumónica de 1918.

Contudo, os grandes avanços da medicina e dos conhecimentos sobre o funcionamento das epidemias, fez-nos acreditar que se controlaria facilmente um fenómeno dessa natureza, até porque o mundo conheceu muitas outras epidemias ao longo do tempo, mas, geralmente, ou muito localizadas geograficamente, ou de curta duração, sem os efeitos devastadores da “pneumónica”.

Claro que, se compararmos os efeitos da pneumónica com os efeitos do Covid-19,  esta ainda está muito longe daquela, nomeadamente em relação ao número de mortos.

A grande diferença talvez resida na velocidade de propagação, no facto de ter uma expansão a nível mundial, não havendo lugares seguros, e na forma como se tem prolongado no tempo, sem baixar de intensidade, ao contrário, por exemplo, da pneumónica, cujos efeitos se concentraram em cerca de três meses e não ao mesmo tempo em todos os lugares.

Mas talvez o efeito mais nefasto deste epidemia, para além da tragédia dos que morreram e continuam a morrer, seja o seu impacto em duas características principais do seres humanos, a socialização e o simples acto de respirar sem constrangimentos.

O medo e a desconfiança do outro vão acentuar um clima de intolerância, explorado por grupo extremistas, situação agravado pelo efeito nefasto da epidemia na economia e na sociedade. 

Por outro lado, esta epidemia teve pelo menos o condão de nos alertar para as muitas deficiência das sociedades modernas e, no caso português e europeu, para ao efeitos nefastos de décadas de neoliberalismo selvagem que quase destruíram os sistemas de saúde.

Penso que, pelo menos por muito tempo, esta epidemia teve o condão de calar os defensores do modelo ultraliberal do sistema de saúde norte-americano.

Teve também o condão de revelar toda a incapacidade dos modelos populistas preconizados por Trump ou Bolsonaro para liderar, de forma responsável e humanista, com catástrofes com esta.

Demonstrou também o aspecto nefasto da deslocalização de grandes empresas produtivas para fora da Europa, à procura do lucro fácil da mão-de-obra barata e sujeita muitas vezes a modos de trabalho humanamente indignos, e à procura de escapar à fiscalização, mostrando uma Europa dependente e refém de outras economias para adquirir muitos das matérias-primas necessários para enfrentar crises sanitárias como esta.

Em Portugal ficou evidente, com a crise sanitária,  a precariedade de uma economia dependente quase exclusivamente do turismo e das exportações, a forma como foi enfraquecido o SNS ao longo de anos de polítcas antissociais, para “ir além da Troika”, assim como as condições indignas em que trabalham e habitam muitas pessoas, em que funcionam muitos lares, sem esquecer a generalização do trabalho precário e dos salários baixos.

Se não houver coragem pera reforçar os sectores sociais, os direitos sociais, de idealizar uma sociedade menos dependente do consumismo e mais humana e ambiental, o impacto social e económico da epidemia, depois desta controlada, será ainda mais devastador.

Haja esperança de que possamos todos sair desta crise mais solidários e humanos e de que os nossos líderes políticos, económicos e socias tenham aprendido alguma coisa.

Um Bom Ano de 2021.

 

 

 

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

2020 : O “primeiro da década” ou o “primeiro do fim do mundo”?



O Ano começou com uma daquelas discussões de “sexo dos anjos”: 1920 é o primeiro ano da década de 20 ou o último da década de 10?.

Cientificamente, 2020 é de facto o último ano da década de 10, a segunda do século XXI, um século que começou de facto em 2001.

Claro que tudo não passa de uma convenção.

Não deixa de ser curioso é ver o tipo de argumentos usados por “comentadeiros”, de Miguel Sousa Tavares a João Miguel Tavares que, em vez de, humildemente, reconhecerem que se enganaram, na pressa em arranjar tema para comentar, se apressaram “rosnar” uma série de ameaçadoras diatribes contra aqueles que defendem o rigor dos conceitos, logo eles que se apresentam como verdeiros justiceiros do “rigor”.

Mas, se 2020 não é, em rigor, o primeiro de uma nova década, o ano surgiu logo ameaçador, com dois acontecimentos que nos alertam para vulnerabilidade da espécie humana: a tragédia dos incêndios na Austrália e o aumentar da tensão o Médio Oriente, um verdadeiro barril de pólvora para a paz mundial.

As coisas não deixam de estar ligadas: a dimensão dos incêndios australianos é uma prova da evidência científica das consequências das alterações climatéricas, provocadas pelo consumo humano; o conflito entre norte-americanos e o Irão tem na sua origem os interesses que andam à volta do petróleo, produto cujo uso é um dos principais responsáveis pelas dramáticas alterações climatéricas.

Não deixa de ser significativo que no meio dos dois debates, o das alterações climatéricas e o da instabilidade militar no Médio Oriente , esteja uma mesma figura, Donald Trump!

Voltando à situação na Austrália, ficámos a conhecer um outro criminoso ambiental, pela forma como boicotou a Cimeira de Madrid, que se pode juntar a Putin, Trump ou Bolsonaro. Referimos-nos ao primeiro-ministro australiano, Scott Morrison.

Quando soube que a Austrália tinha sido um dos países a boicotar a Cimeira do Clima em Madrid, confesso que fiquei surpreendido, tanto mais que, já nessa altura, a Austrália estava a enfrentar a grave situação dos incêndios, drama que se tem vindo a acentuar nos últimos anos, atingindo uma dimensão muito mais grave do que aquela que se viveu no ano que findou na Amazónia.

Ao conhecer essa figura, percebi a atitude do governo australiano. Mais um idiota ignorante e  perigoso, a juntar a um Trump ou a um Bolsonaro.

É caso para dizer que o ano começa mal.

Aceitemos ou não 2020 como o último de uma década, esperamos que este não seja o primeiro do “fim do mundo”!

Apesar das ameaças, daqui desejamos um Bom Ano para os nosso leitores.