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quinta-feira, 14 de março de 2019

O “Documento” de Macron sobre a Europa: uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma.



Só agora tive oportunidade de ler o tão badalado texto de Emmanuel Macron sobre o futuro da Europa, “Por um Renascimento Europeu”.

O que li não justifica o alarido à sua volta.

É um texto vazio, retórico, cheio de frases óbvias, sem uma única ideia nova para salvar  o trágico descalabro do projecto europeu.

Baseia-se em três temas fundamentais: Liberdade, Protecção e Progresso.

Em relação à liberdade meia dúzia de frases feitas, que ficam sempre bem em qualquer discurso bonapartista, culpando as “potências estrangeiras” (??)  e a internet pelo enfraquecimento da democracia na Europeia.

No capítulo da “protecção”, revela a mais abjecta cedência, embora de forma enviesada, ao discurso popular-nacionalista, enquanto, por outro lado, faz uma referência óbvia, mas inconsequente, ao dumping social que tem corroído o Estado Social europeu.

“Esquece-se” da responsabilidade que as chamadas “reformas estruturais”, por si defendidas em França, têm tido para a desprotecção do factor trabalho.

“Esquece-se” igualmente da cedência das instituições europeias ao sector financeiro, essa sim, a verdadeira causa pelo descrédito dos cidadãos europeus em relação às Instituições Europeia e que os têm atirado para os braços do nacional-populismo.

“Esquece-se” também de referir o papel dos paraísos fiscais no seio da União Europeia que estão na origem das crescentes desigualdades fiscais que beneficiam economicamente uns países em detrimento de outros, dentro da mesma comunidade e até da mesma zona monetária.

Por fim, quando fala do “Progresso”, apresenta as soluções óbvias, mas inconsequentes e cheia de frases retóricas que, espremidas, dão em nada.

Por exemplo, defendendo um “escudo social” que “garanta a mesma remuneração no mesmo local de trabalho e um salário mínimo europeu, adaptado a cada país”[sublinhado nosso], tem a preocupação de, ao contrário do que faz no resto do texto, pormenorizar que o mesmo salário não é extensível para todo a Europa e para o mesmo trabalho, mas apenas para o “mesmo local”, o que é bem diferente, o mesmo fazendo em relação ao salário mínimo, diferenciando para “cada país”.

Ora, o que seria novo e admissível era que, pelo menos nos países com a mesma moeda, que estão obrigados às mesmas regras financeiras e ao controle das “troikas”, o salário devia ser igual em toda a zona euro para a mesma actividade.

Tanta preocupação em limitar essa aparente “boa” idéia revela que é incapaz de questionar uma das causas do descrédito do actual projecto europeu que é a diferença de tratamento nos direitos sociais entre vários países, beneficiando sempre os mesmos países(Alemanha e…França) e os mesmos sectores sociais (grandes fortunas e sector financeiro e detrimento dos trabalhadores e reformados).

O resto é uma meia dúzia de verdades óbvias sobre o ambiente e a economia digital, que ficam sempre bem, mas suficientemente  vagas para não tocar nos verdadeiros interesses que beneficiam do descalabro ambiental (começando pelas opções energéticas francesas…) e da economia digital (que pode destruir empregos e desvalorizar o factor trabalho, “coisas” que pouco preocupam Macron).

Enfim, se é com este programa e este discurso que os “salvadores” do projecto Europeu contam para “renovar” a Europa e entusiasmar os cidadãos europeus pela sua construção, afastando-os dos braços do nacional-populismo que corrói esse projecto, é de temer o pior cenário.

terça-feira, 5 de junho de 2018

A “Moda” da acusação de “Populismo”



A acusação de “populismo” serve, nos dias que correm, para quase tudo.

Os mais assanhados defensores do actual situacionismo Europeu, isto é, os que defendem a desintegração do Estado Social Europeu, mesmo com a desculpa que o fazem par o “salvar” e “aperfeiçoar” e os que defendem as decisões antidemocráticas dos burocratas de Bruxelas, as tão apregoadas “reformas estruturais” (leia-se, cortes salariais, cortes nas pensões, desintegração do funcionalismo público, entregue aos negócios privados, onde pululam os boys do centrão, a retirada de direitos sociais, considerados “resquícios comunistas”, e as ajudas públicas ao corrupto sector financeiro), consideram “populistas” todos os que se opõem a essa deriva “austoritária” da  União Europeia.

Metem no mesmo saco os que defendem uma verdadeira reforma da Europa (que realize uma verdadeira reforma das instituições europeias, democratizando-as, um verdadeiro aperfeiçoamento do Estado Social e do sector público e do sistema de pensões, uma melhoria das condições sociais e salariais dos trabalhadores europeus, um controle efectivo sobre o sector financeiro e um combate consequente à corrupção e às desigualdades sociais), e os populistas de extrema direita (que visam, demagogicamente, aproveitar-se da crise dos refugiados e dos atentados bombistas para toda uma campanha xenófoba e islamofóbica, com uma critica “nacionalista” à União Europeia, procurando assim, e por agora por via democrática, chegar ao poder e impor o seu programa de intolerância e perseguição aos refugiados e, mesmo que o façam em nome do “combate à corrupção”, facilitando a vida ao grande poder financeiro, em nome de atrair “investimento”).

Mas o mais grave é quando os partidos do “centrão” europeu adoptam os projectos da extrema direita com a desculpa de anular o avanço do populismo.

Enquanto continuarem a culpar o “populismo” pelos males da Europa, em vez de olharem para a sua própria responsabilidade na crescente descrença dos cidadãos europeus pelas instituições europeias, enquanto continuarem a acentuar as desigualdades sociais, salvando o poder financeiro à custa da desintegração do Estado Social e dos Direitos Sociais, enquanto continuarem a alimentar a corrupção ética das elites politica do “centrão”, enquanto acharem que a melhor maneira de combater o populismo é integrar partes dos seu programa anti-social e xenófobo no programa e na acção dos partidos do sistema, legitimando o argumentário populista, o verdadeiro populismo (que os mesmos não têm coragem de chamar pelo nome: FASCISMO!) vai continuar a fazer o seu caminho e  o eurocepticismo a crescer e a alimentar a deriva populista.

Vejam lá se acordam! Ainda estão a tempo de salvar a "Europa" e melhorar a vida dos cidadãos europeus da deriva populista.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Eleições na Alemanha: A Europa JÁ NÃO SEGUE dentro de momentos...

O investigador francês Patrick Moreau, especialista no estudo da extrema direita alemã e autor do livro editado este ano em França "A Alemanha: o sonho da extrema direita", declarou em entrevista ao jornal Liberation, no passado dia 22 , que, se o AfD, o mais forte partido da extrema direita alemã, obtivesse uma votação de 14%, o sistema político alemão entrava em colapso.

Por sua vez o analista Joerg Farbig, ouvido em vésperas do acto eleitoral pala jornalista do Público Maria João Guimarães, referia-se à possibilidade de Merkel "perder mesmo vencendo"se o seu resultado se ficasse pelos 34-36%  (edição de 24 de Setembro) .

Ora, o pior acabou por se confirmar: não só a extrema direita entrou pela primeira vez no parlamento alemão desde o final da 2ª guerra, obtendo um resultado próximo daqueles 14%, como o resultado de Merkel ainda foi pior do que o previsto pelo analista alemão, quedando-se abaixo dos 33%...

O resultado final ( não o das projecções) acabou por ser o seguinte (Fonte- Spigelonline):

CDU ( os Democratas Cristão de Merkel em coligação com os conservadores de direita da Baviera) : 32,9%, elegendo 246 deputados, menos 65 que na anterior legislatura, o segundo pior resultado da sua história (pior só em 1949);

SPD (social-democratas) - 20,5%, elegendo 150 deputados (menos 40 que em 2013), o pior resultado da sua história;

AfD (extrema direita neo-nazi) - 12,6%, elegendo pela primeira vez deputados para o parlamento, um total de 94;

FDP ("liberais", radicais da direita neoliberal) - 10,7%, regressando ao parlamento, após um interregno de uma legislatura e elegendo 80 deputados;

Die Linke ( Esquerda, formada pelos antigos comunistas e por dissidentes do SPD) - 9,2%, elegendo 69 deputados, mais 5 que nas últimas legislativas;

Verdes - (centro esquerda) - 8,9%, elegendo 67 deputados, mais 4 que na eleições anteriores;

Outros partidos: 5% ( não elegeram deputados, mas aumentaram a votação em cerca de 1%).

Registe-se que a abstenção foi inferior a 25%. 

Como se vê, deu-se a impensável derrocada do "centrão" alemão, o que muito vai dificultar a vida a Merkel.

Esta só pode governar em três cenários:

- retomando a grande (cada vez "menos grande") coligação com os social-democratas;

- governando em coligação como os verdes e os "liberais";

- governando em minoria, com acordos parlamentares.

O primeiro dos casos, aquele que mais podia agradar aos europeístas, em especial a Macron e que podia garantir um mudança de rumo no projecto europeu, em favor dos cidadãos e dos países do sul, não parece provável, visto que o líder do SPD já anunciou o fim dessa coligação, pois arriscava-se a fazer o seu partido desaparecer do mapa eleitoral e deixava a oposição entregue à extrema direita e à esquerda do Die Linke, este último partido disputando o eleitorado dos social-democratas.

O segundo caso é o que é apontado como mais provável, mas é uma grande incógnita, dado o antagonismo entre verdes e "liberais" , nos antípodas políticos no que diz respeito ao modelo económico, financeiro e social. Se for para a frente este modelo, pode revelar-se desastroso para o futuro da CDU e até para a Europa inclusiva defendida por Macron e Juncker. A actual liderança "liberal" está mais próxima da extrema-direita e dos eurocepticos e é defensora da continuação das "reformas" estruturais "austeritárias" que devastaram o sul da Europa.

Um governo minoritário com acordos pontuais à direita e à esquerda no parlamento não faz parte da tradição alemã e conduziria a eleições antecipadas a breve prazo.

Uma "geringonça" à alemã também não é possivel, já que os três partidos de esquerda, SPD, Die Linke e Verdes, que juntos recolheram quase 40% dos votos, e que estão unidos nalguns parlamentos regionais, não conseguem uma maioria parlamentar.

Ou seja, seja qual for o cenário que se segue, a tradicionalmente estável Alemanha entra numa deriva politicamente caótica`à qual as suas elites tradicionais não estão habituadas e que vai ser explorada até à exaustão pela extrema-direita.

E com essa deriva deitam para o lixo da história os projectos de Macron e Juncker em relação a uma renovação do projecto europeu, com graves consequências a prazo para todos, em especial para os países do sul.

É caso para dizer, contrariando alguns "europtimistas", que consideravam que, depois da vitória de Macron (que está também em queda em França, tendo sofrido ontem uma pesada derrota na eleições para o Senado), e da "previsivel" vitória confortável de Merkel a Europa ía ser salva, que, afinal....a Europa JÁ NÃO SEGUE DENTRO DE MOMENTOS...

terça-feira, 28 de março de 2017

Contra as "troikas" a o Politburo de Bruxelas, Eu, EUROPEU me confesso


A minha cultura, as minhas memórias, os meus valores e as minhas convicções são todas “europeístas”.

Nasci num país que ligou a Europa ao mundo, nem sempre pelas melhores razões e raramente da forma mais humana.

Nasci num país e fui criado num regime que copiou os tiques e os métodos de uma ideologia que nasceu na Europa, o fascismo  ( como nasceram na Europa o anarquismo, o liberalismo, a democracia, o comunismo, a social-democracia...).

Nasci num país e fui criado num regime que, na minha juventude, era ainda a última encarnação de uma atitude europeia face a outros povos, uma regime colonialista que sonhava com a preservação de um Império.

Nasci num país que tinha como religião oficial o cristianismo e onde a Igreja, para o bem e para o mal, tinha um poder imenso sobre os valores incutidos e o quotidiano de todo um povo.

Nasci e vivi num  país outro que lutou pelo ideal democrático e liberal ou partilhou ideologias alternativas ao Estado Novo, todas, para o bem e par o mal, criadas e fomentadas no espaço Europeu.

Muito da cultura que me incutiram na infância e na juventude, ora como modelo, ora com contraponto a esse modelo, foi toda ela uma cultura europeia ou “ocidental”, na musica, na literatura, no cinema, na banda-desenhada, nas artes plásticas…
 
Por isso não alinhei na euforia provinciana à volta da adesão a um dos modos possíveis de ser Europeu, pertencer à então CEE, como aconteceu em 1986.

Na altura existiam outros organismos parecidos, a EFTA, mais a norte e dominada pela Grã-Bretanha, e da qual o Estado Novo salazarista tinha sido um estado fundador e o COMECON, o equivalente económico nos estados do leste da Europa, ditaduras ditas “democracias populares”, lideradas pela União Soviética.

Curiosamente a EFTA ainda existe, formado apenas por 4 países, mas que são os países mais prósperos da Europa, a Noruega, a Islândia, a Suiça e o  Liechtenstein.

Para mim sempre pertencemos, para o bem e para o mal, à história, cultura e sociedade Europeias, um conjunto mais vasto e abrangente e culturalmente mais diverso e rico do que a actual União Europeia.

Por isso também não embarco na actual confusão reinante de rotular toda e qualquer crítica à deriva anti-democrática e anti-social reinante nas decisões tomadas pelas instituições “europeias”, como sendo “populismo” ou “eurocepticismo”.

Criticar o modelo “austeritário” imposto pelo politburo de Bruxelas, criticar a falta de democracia reinante nas instituições europeias, ou criticar as desigualdades crescentes provocadas pela forma como o “euro” foi implementado,  não é ser “euroceptico” ou “populista”, mas é, pelo contrário, alertar para os verdadeiros perigos que um projecto, com uma origem generosa de defesa na abertura de  fronteiras, no combate às  desigualdades sociais e na garantia de direitos sociais humanos e políticos, está a correr às mãos da actual elite que a dirige, cativada pelo corrupto poder financeiro.

De facto, é essa mesma deriva “austeritária” e “financista” que leva a fenómenos como o “Brexit” e está a gerar e a dar força ao verdadeiro populismo, que tem um nome que muitos temem pronunciar: neo-fascismo.

Criticar e encontrar alternativas a essa deriva da União Europeia, protagonizada por instituições burocratizadas  e reféns do poder financeiro,   e pelas suas actuais elites coniventes com  esse poder, é a única maneira de salvar um projecto que tem potencialidades para melhorar a vida dos cidadãos europeus e para se tornar uma verdadeira alternativa que, como o fez noutras alturas, combine a democracia e a liberdade com o combate às desigualdades sociais e a manutenção de direitos sociais, universais e humanistas.

Continuar na deriva actual, isso sim é condenar o projecto europeu à sua destruição e abrir caminho às derivas “populistas” xenófobas e neo-fascistas, fazendo a Europa regressar às suas guerras fratricidas de sempre.

Por isso, parem de me chamar “populista” e “eurocéptico” cada vez que defender uma Europa mais justa e humana, ou criticar a deriva “austeritária” imposta pelo “politburo” de Bruxelas.

Ser Europeu é defender a democracia, a liberdade, a justiça social e os direitos socias.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

A Pátria da Democracia deu uma lição à “Pátria” do nazismo…


A vitória do Syriza na Grécia é a última oportunidade para travar este desastroso caminho que tem sido seguido na Europa nos último anos, por imposição de políticos corruptos e ignorantes, sob a liderança de Merkel, do banco central alemão, do Eurogrupo e da Comissão Europeia, nomeadamente enquanto esta foi liderada por Barroso, que apenas se preocupam em agradar à máfia do sistema financeiro (os tais “mercados”) e nos tem vendido a mentira do caminho único da austeridade, do empobrecimento, do desemprego, do emprego precário, dos cortes brutos em pensões e ordenados e da destruição do Estado Social como via para a “salvação” da Europa.

A vitória do Syriza é também a última oportunidade para salvar a democracia na Europa, pois só há democracia com alternativas e a vitória do Syriza mostra que se pode fugir ao destino que nos traçaram da alternância do centrão, onde se mudava de liderança para que tudo continuasse na mesma. Se o Syriza falhar como alternativa ao colete de forças da austeridade a extrema-direita já aí está à espreita (os neo-nazis ficaram em terceiro lugar nas eleições gregas), não só na Grécia, mas um pouco por toda a Europa.

A vitória do Syryza pode ser também a última alternativa para salvar o euro e a Europa, pois pode obrigar o BCE e a União Europeia a mudarem de política económica e financeira, recuperando o apoio dos cidadãos e afastando a idéia de que o euro é uma moeda que só pode agravar as condições de vida dos cidadãos e dos trabalhadores que vivem nos países do eurogrupo (com a excepção da Alemanha e da Finlândia…).

Pode até acontecer que, se o BCE e a Comissão Europeia continuarem no caminho da pressão e da chantagem sobre os gregos, a Grécia opte por abandonar o euro e, depois de alguns meses de turbulência, a Grécia, com uma moeda própria, venha a recuperar a sua economia e melhorar as condições de vida dos seus cidadãos, o que descredibilizava totalmente a chantagem da mensagem catastrófica que os defensores da manutenção da austeridade têm vindo a fazer para nos obrigarem a aceitar o nosso empobrecimento para salvar o euro.

A vitória do Syriza, para além de ser a derrota do modelo “austeritário” imposto aos cidadãos do sul da Europa é também da derrota da terceira-via “social-democrata” e um aviso sério para os partidos Socialistas que se têm prestado a fazer servicinhos ao corrupto sector financeiro, continuando as políticas anti-sociais da direita europeia liderada por Merkel , como aconteceu em Portugal, na Espanha e em França. O destino do PASOK pode vir a ser o destino certo dos velhos Partidos Socialistas e Social-democratas que traíram os seus ideais e o seu eleitorado em nome do carreirismo e das negociatas e se acobardaram face aos “mercados” financeiros. É de referir que parte dos eleitores do PASOK transferiram-se de armas e bagagens para o Syriza.

Por último, seria bom que os nosso comentadores do costume, os pequenos “gobelzinhos” da propaganda “austeritária”, deixassem de fazer confusão, não sei se por ignorância, se por pura má-fé, entre esquerda radical e extrema-esquerda, coisas bem diferentes.


quarta-feira, 16 de julho de 2014

No Dia em que Juncker substitui Barroso, sabe-se do pacto secreto de Merkel para destruir direitos socias: El Pacto de Competitividad europeo: la nueva arma de Merkel para imponer políticas neoliberales


Durão Barroso foi ontem formalmente substituido por Jean-Claude Juncker à frente do Conselho da Europa, após o  nome deste ter sido confirmado pelo Parlamento Europeu.

Pela primeira vez a presidência do Conselho da Europa resulta da escolha dos eleitores nas últimas eleições europeias, o que é, em princípio, um bom sinal para o futuro democrático da União Europeia.

Um outro sinal positivo é a saida daquele que foi o pior e mais incompetente de todos os presidentes da comissão europeia, Durão Barroso, mais preocupado em agradar aos mercados financeiros do que aos interesses dos cidadãos da União e,ainda por cima, o homem de mão da srª Merkel.

Pelo contrário, Jean-Claude Juncker, apesar de alinhar com o neoliberalismo dominante na Europa, fez, apesar de tudo, a diferença, sendo uma das vozes críticas contra as políticas austeritárias impostas por Merkel e Barroso a países como Portugal.

Contudo, a tomada de posse da Juncker fica desde já manchada com a notícia, ontem divulgada, sobre um secreto "Pacto de Competividade", forjado mais uma vez nas costas dos Europeus, pela srª Merkel e com o aval da anterior comissão Europeia (com Barroso e Rhen à cabeça).

Segundo essa notícia e esse documento secreto, ontem denunciado pelo jornal espanhol Publico, Merkel pretende impor a toda a Europa as políticas de austeridade levadas à prática em Portugal e na Grácia, reduzindo salários, acelerando privatizações do sistema público, destruindo direitos sociais, fortalecendo o poder do grande patronato e do sistema financeiro.

A srª Merkel tem como modelo social para a Europa, excluindo dele a Alemanha e os países nórdicos seus aliados desse pesadelo social, o modelo chinês que ela tanto admira, como se confirma pelas suas frequentes visitas àquele paraíso financeiro e económico dos neoliberais, pouco sensibilizados para a falta de direitos humanos e sociais daquela nação...o que interessa são os negócios (tal como cá, em ponto mais pequeno, com  a forma como o nosso sistema financeiro lida com o corrupto governo angolano).

A forma como Juncker irá lidar com esse pacto anti-europeu vai ser a prova de fogo do novo Conselho Europeu. Se o apoiar, frustará mais uma vez um futuro de estabilidade social na Europa e mostrará mais uma vez que os políticos europeus têm um discurso para as eleições e têm outra prática quando chegam ao poder, abrindo caminho para o populismo e o extremismo anti-democrático.

Juncker é a última oportunidade para a Europa voltar ao caminho do progresso social, ambiental e económico que é desejado pela maioria dos cidadãos europeus.

Se não enfrentar as intenções anti-socias e, a prazo, anti- democráticas e anti-europeias, de Merkel e dos seus mercados financeiros, Juncker frustará mais uma vez  o sonho de construção de uma Europa próspera, socialmente equilibrada, com responsabilidades ambientais,  pacífica e democrática.

Se falhar, está aberto o caminho para a destruição do modelo social europeu, para a destruição da democracia tal como a conhecemos e para a tomada de poder da extrema-direita, do que resultará, a prazo, o regresso do clima de guerra e destruição que marcou a Europa na primeira metade do século XX.

terça-feira, 27 de maio de 2014

"Eurocépticos" somos todos…ou quase todos


As palavras “eurocéptico” e “anti-europeu” têm sido o rótulo mais utilizado para comentar o resultado das últimas eleições para o parlamento europeu.

Nessa designação misturam-se os conformistas que não foram votar (onde cabem, no mesmo saco, os mortos que não foram retirados dos cadernos eleitorais, os que emigraram e não alteraram o seu recenseamento, os anarquistas, os doentes graves que não se puderam deslocar à mesa de voto,  os indigentes de todo o género que nem sabem que há eleições, o chamado lúmpen proletariado, os que estão sempre contra tudo e contra todos, os que se acham tão acima de tudo e que só votariam num partido que os tivesse como líder, alguns nazis e fascistas que não se revêem no modelo democrático, acompanhados nessa intensão por alguns stalinistas puros, os indiferentes e conformistas de todo o tipo, e claro, muitos intelectuais que, à custa de complicarem tanto o seu pensamento, não sabem em quem votar, e ainda alguns ingénuos que passam a vida à procura do partido puro e ideal que represente a sua pureza e ainda muitos antigos salazaristas que, por uma questão de princípio, nunca votaram depois do 25 de Abril…), os que, ao fim de 40 anos de democracia, ainda não sabem usar um voto e vão parar ao monte dos votos nulos  dos que resolvem descarregar toda a sua raiva e frustração inutilizando o seu próprio direito de escolha e os que, num acto de consciência cívica, não abdicam do seu direito de voto, um direito que em Portugal custou a vida e o conforto de muita gente para que ele fosse obtido e, não se identificando com o actual sistema partidário, mesmo assim se dão ao trabalho de se deslocar à sua secção de voto e votam em branco, o único dos três casos que merecia resultar em consequência política (por exemplo, retirando lugares eleitos…).

Nesta designação os nosso comentadores e jornalistas também metem no mesmo saco os votantes nos partidos fascistas e neo-nazis que, pura e simplesmente, defendem o fim da União Europeia e o regresso a ditaduras antidemocráticas e nacionalistas, os partidos populista, das mais variadas matrizes, que se dividem entre os que defendem o fim da União Europeia,  os que “apenas” defendem o fim do “euro”, os que defendem simplesmente um novo caminho, mais próximo dos cidadãos, para a União Europeia, os partidos à esquerda que defendem a renegociação da dívida, subdividindo-se ainda, entre eles, entre os que estão contra a União Europeia, os que defendem a saída do euro,  os que defendem uma nova política em defesa dos cidadãos europeus e/ou os que defendem pura e simplesmente a manutenção do  Estado Social Europeu.

Ou seja, para muitos comentadores e jornalistas, eurocépticos e “antieuropeus” são todos os que defendem ideias diferentes daquelas que são defendidas pelos chamados partidos do arco do poder, isto é, os “liberais” do sr. Juncker ou os “socialistas” do sr. Schulz, que, no essencial, estão de acordo, ou seja, defendem as políticas de austeridade, com pequenas nuances , a “reforma” do Estado Social, a vontade dos “mercados” e a liderança alemã.

Se consideram que ser Europeu é apenas defender o que essas duas famílias políticas do “arco da austeridade” defendem, e reduzir as hipóteses de sobrevivência do projecto de União Europeia ao pensamento único neoliberal, então eu, e todos os atrás citados, somos “antieuropeus e eurocépticos”, e podem colocar todos no mesmo saco.

Se ser antieuropeu e eurocéptico é considerar que o Estado Social não deve ser limitado, para agradar aos “mercados” e fazer as vontades ao dumping social praticado pelos países emergente, procurando “adaptar” esse mesmo Estado Social ao “modelo social chinês”, então eu e todos os atrás citados, somos “antieuropeus e eurocépticos”.

Se ser antieuropeu é questionar a forma antidemocrática das grandes decisões, tomadas nas costas dos cidadãos pelo Conselho Europeu, pela Comissão Europeia, pelo Eurogrupo, pelo BCE e pelo FMI da srª Lagarde, escolhendo para os cargos de presidente do Conselho Europeu e da Comissão Europeia e para outros cargos burocratas gente que não foi sujeita ao sufrágio dos cidadãos europeus, então eu e todos os atrás citados, somos “antieuropeus e eurocépticos”.

Se ser antieuropeu e eurocéptico é considerar que a União Europeia tem de tomar um novo rumo, alterando os errados modelos de austeridade impostos pelas troikas, combatendo as crescentes desigualdades no seu seio, o escandaloso número de desempregados, nomeadamente entre os mais jovens, e a pobreza crescente, então eu e todos os atrás citados, somos “antieuropeus e eurocépticos”.

Se ser antieuropeu e eurocéptico é defender que, para que o euro possa sobreviver como moeda única, é necessário corrigir os erros do seu nascimento através de uma aproximação dos preços, dos salários, das pensões, dos juros e no sistema fiscal (não se pode admitir que se exija um deficit igual, não ultrapassando os 3%, a todos os países do euro, e depois existam disparidades de preços, juros, pensões, salários e de impostos que ultrapassem em muito aquele valor…), então eu e todos os atrás citados, somos “antieuropeus e eurocépticos”.

Se ser antieuropeu e eurocéptico é defender o fim  de paraísos fiscais no seio da própria União Europeia,  defender a penalização de  um sistema financeiro corrupto , combater  a fuga aos impostos de grandes empresas e criticar uma política de baixos salários e de redução de direitos laborais, então eu e todos os atrás citados, somos “antieuropeus e eurocépticos”.

Seria bom que os senhores comentadores soubessem distinguir o trigo do joio, aqueles que querem mesmo destruir a Europa e o seu projecto, daqueles que querem “apenas” um rumo diferente para o projecto europeu, alguns apenas a reposição do seu ideário fundador, combatendo o actual sistema antidemocrático de decisão, que afasta os cidadãos do projecto europeu.

Se esses comentadores ou, mais grave ainda, os burocratas da União Europeia e os partidos do “arco do poder” não distinguirem as diferenças e o significado político destas eleições, vão ser eles, e não os “eurocépticos” e “antieuropeus”, os principais responsáveis pela falência do projecto europeu.

Infelizmente as primeira declarações de Durão Barroso, de Lagarde e de Draghi após estas eleições vão no sentido de continuarem a não perceber (ou fingirem que não percebem) que, como muito gostam de dizer, “o mundo [a Europa] mudou” no dia 25 de Maio.