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terça-feira, 21 de novembro de 2023

No mundo da “rotulagem”


Fascistas, comunistas, social-fascistas, nazis, populistas, antissemitas, terroristas,  islamofóbicos, apoiantes de Putin, apoiantes do Hamas…e outros rótulos.

No mundo das redes sociais é mais fácil rotular que defender ideias, analisar factos, explicar acontecimentos, contextualizar, debater, de forma civilizada, opiniões divergentes.

Infelizmente, essa tendência para rotulagens apressadas, sobre quem pensa de forma diferente da nossa, está a fazer o seu caminho e, pior do que isso, está a provocar guerras criminosas e a tomada do poder por irresponsáveis.

Hoje não se discutem programas políticos, económicos ou sociais…discutem-se…rótulos!

Tentar contextualizar a guerra da Ucrânia é…”justificar” a criminosa invasão russa!!!

Curiosamente, essa invasão foi “justificada” pelo criminoso Putin com a rotulagem dos ucranianos como…”nazis”!!

Claro que, “para a mentira ser segura tem de trazer à mistura qualquer coisa de verdade”. Existem nazis na Ucrânia, como o tristemente célebre Batalhão Azov, mas também existem nazis do outro lado, entre as forças russas, sem esquecer a actuação criminoso e terrorista do Grupo Wagner.

Do outro, lado muitos se apressaram a colar o rótulo de “comunismo” a Putin, outra falácia ignorante sobre o que se passa na Rússia, um processo, esse sim fascizante, de tomada do poder por uma clique de oligarcas.

Agora, em relação ao criminosos, e ainda mal esclarecido, ataque dos terroristas do Hamas  a Israel e à criminosa resposta do governo de Israel, voltamos a assistir ao mesmo processo de “terrorismo intelectual”.

Quem chamar a atenção para as origens do problema palestiniano, para a origem do Hamas e condenar os crimes de guerra de ambos os lados em Gaza e na Cisjordânia, passa a ser considerado como “amigo do Hamas”, ou “antissemita”!!!

É mais fácil rotular, do que pensar!

É mais fácil rotular que admitir os nossos erros!

É mais fácil rotular do que admitir os crimes dos que consideramos pertencerem à nossa tribo!

Claro que todos aqueles rótulos tem uma origem histórica e conceptual, mas têm de ser usados com base no estudo da sua história e da sua concepção.

Usá-los como forma gratuita e ignorante de arremesso sobre os “adversários” políticos, mina o debate democrático e sereno que se deve ter sobre os temas de actualidade.

Todos nós podemos cair nesse erro, mas será bom que o procuremos corrigir e denunciar, ou, da barbaridade das palavras, depressa cairemos na barbaridade dos actos.

terça-feira, 18 de abril de 2023

Falar de paz é “estar ao serviço de Putin"??


..tanta gente “ao serviço de Putin”!!!: Guterres, o papa Francisco, Macron…e agora Lula!

Não deixa de ser curioso o terrorismo intelectual exercido pelas redes socias, pelos “comentadeiros” televisivos ou pela maior parte da classe política, sobre aqueles que acham que a paz é a melhor solução para acabar com uma guerra criminosa e mortífera, como aquela que está a decorrer na Ucrânia.

Defender a paz não é negar o direito de justa defesa de um povo agredido, nem o de levar a tribunal os responsáveis pelos crimes de guerra cometidos (de ambos os lados), nem o de condenar publicamente quem violou o direito internacional ao invadir um país soberano.

Contudo, o objectivo último é chegar o mais rapidamente possível a uma situação negociada que conduza à paz no terreno dessa guerra.

Sabemos que existem, na comunidade internacional, dois pesos e duas medidas, como vimos noutras guerras recentes ou que continuam, como na questão palestiniana, na destruição da Jugoslávia, na invasão do Iraque e do Afeganistão, na destruição do Líbano, da Síria,  da Líbia, e do Íemen, nas muitas guerras de África, com o desenvolvimento recente registado no Sudão.

Mas o objectivo final deve ser sempre o de obter a paz.

Claro que no caso da Ucrânia a questão é complexa, até porque não se pode beneficiar o infractor russo, residindo aqui uma das dificuldades em obter a paz.

Qualquer paz negociada deve ter no centro os interesses ucranianos em manter e recuperar territórios ilegalmente ocupados pelo invasor, alguns desde 2014.

Mas, com realismo, alguns desses territórios não podem ser recuperados nos anos (ou décadas) mais próximos.

Com realismo, a reconquista total dos territórios ocupados só será possível numa guerra ainda mais violenta, eventualmente com a entrada da NATO nessa guerra, com todas as consequências que isso acarreta para a paz no mundo e, mesmo, para a sobrevivência da vida humana.

Por isso é irrealista que, a curto ou médio prazo, a reconquistar do Donbass ou da Crimeia seja possível sem um banho de sangue, muito pior do que aquele vivido pela Ucrânia até hoje.

Isto não quer dizer que a situação no Donbass ou na Crimeia não tenha de ficar em aberto numa futura negociação, criando condições, quer para a futura autonomia desses territórios no seio do Estado Ucraniano, quer para um futuro referendo onde esses territórios possam decidir democraticamente o seu futuro (regiões autónomas dentro da Ucrânia, repúblicas integradas na Federação Russa ou mesmo a sua independência).

Um referendo desses, com todas as garantias, só pode ocorrer com acordo internacional, envolvendo a ONU, num futuro em que a Rússia tenha abandonado a sua politica imperialista e autocrática, e num futuro em que uma Ucrânia de facto democrática respeita a população russófona do seu território.

Todas essas condições parecem por agora impossíveis, mas tem de ficar em aberto em qualquer futura negociação de paz, sob o risco dessa mesma paz ser de pouca dura.

Por isso, mesmo com ambiguidades, falta de clareza, até de forma desajeitada ou injusta  para com uma das partes, é bom que, no meio do reforço da linguagem bélica dominante, que não vai levar a lugar nenhum, a não ser a mais destruição e sofrimento humano, a grandes negócios com a indústria do armamento, a um futuro cargo chorudo na estrutura da NATO, continuem a existir vozes a falar de paz.

Falar de paz, nos dias de hoje, é cada vez mais um dos últimos actos de coragem e sensatez, no meio do desvario geral provocado por esta guerra criminosa. 

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

O “sr.” “orgulhosamente” 1%...


 O “sr. orgulhosamente” 1%...sou eu, o próprio!

Quem diz 1% , pode dizer 5% ou, no máximo, uns 10%.

Pertenço a essa enorme minoria que só vota em partidos que rondam essas percentagens, no caso das últimas eleições, um pouco mais de 1%.

Pertenço ao restrito número dos cerca de 1% que veem o Canal 2, quando quase toda agente vê telenovelas, o big brother, ou debates com as mesma opiniões de sempre.

Também pertenço àquela imensa minoria que houve rádio, ainda por cima apenas a Antena 1 ou a Radar (às vezes lá me escapo para o M80 ou para a Antena 3).

Pertenço àquela gente rara que compra jornais e lê livros e os leva para todo o lado.

Acho, aliás, que é mais importante descobrir e ser curioso que “comer” o que todos comem e que estudar e criar é mais importante que consumir acriticamente.

Devo ocupar uma percentagem muito pequena, em comparação com a média, a frequentar redes socias e, nestas, costumo ser selectivo, pouco dado a fake new, gatinhos e pores do Sol…

Sou ainda dos raros cidadãos que acha que pagar impostos é um acto cívico, nunca fugindo a pagá-los, só não concordando que eles sejam usados para salvar bancos ou grandes empresários.

Tirei a carta depois dos 40 e só o fiz porque (o cavaquismo) me destruíram o meio de transporte preferido, o caminho-de-ferro, deixando-me sem alternativa.

Assim que voltarem a reconstruir o transporte ferroviário e melhorarem os transportes públicos, conto deixar o carro, a maior parte do tempo e já agora, gostava que, cada vez mais, o transporte ferroviário pudesse ser alternativa à aviação, pelo menos nos pequenos percursos, e, nisso (como noutra coisas) estamos muito atrasado em relação ao resto da Europa.

Também não escolho o carro pelo tamanho ou pelo prestigio da marca. Desde que ande, com segurança, qualquer calhambeque em segunda mão me serve.

Gosto muito de cinema, mas pertenço àquele pequeno número de cinéfilos que escolhe os filmes pela qualidade do tema, do argumento ou do realizador, dando pouca importância às modas do momento, ao nome dos famosos que participam nos filmes, aos milhões do casting e ao número de explosões por metro de fita.

Gosto de passar férias longe dos lugares da moda e visitar o que ninguém visita.

Aliás, sou dos poucos que frequenta museus e exposições, principalmente aquelas que fogem à massificação.

Na musica, não nego a nostalgia, mas procuro o que é inovador e minoritários, longe dos top’s, nem sou daqueles de acham que os anos 60 e 80 é que eram bons. Nesses anos, como agora, havia coisas boas, que ainda são audíveis, mas, à custa da nostalgia, também se anda a recuperar muita “trampa”.

Sou dos poucos que continua a comprar e a ler Banda Desenhada, sem o fanatismo dos coca-bichinhos que acham que tudo é bom nessa área e só comem “Marvel” e “Manga”.

Enfim…pertenço a essa imensa minoria que acha que, se não fossem as minorias, ainda vivíamos na Idade de Pedra, pois são estas que podem descobrir, fomentar e sonhar com a novidade que pode transformar o mundo.

Orgulho-me de pertencer a essa minoria, na política, na cultura, no pensamento económico e social, que não está “orgulhosamente só”, mas é uma imensa minoria…

....e já agora, sobre o cartoon da Mafalda que ilustra esta post, é apenas metafórico...eu gosto dos Beatles!

terça-feira, 3 de março de 2020

O Fim de "O Fio da Meada" na Antena 1

Somos da geração da "rádio", hábito que mantenho regularmente.

Até hoje, a Antena 1 era uma companhia de referência.

Infelizmente, apesar de bater aos pontos o panorama desse meio de comunicação, esta semana, ela, a Antena 1, e nós, ouvintes mais ou menos atentos, ficámos todos mais pobres.

Uma decisão ignorante da uma qualquer anónima Direcção de programação decidiu antecipar o fim de um conjunto de rubricas intituladas "O Fio da Meada".

Era um dos momentos altos da comunicação da palavra, ajudando-nos a reflectir sobre o mundo que nos cerca, um mundo cada vez mais perigoso, intolerante e liderado por  ignorantes.

Com o fim dessas crónicas radiofónicas é a ignorância que ganha terreno.

A actual série era para terminar apenas em Julho, mas a actual direcção de programação dessa rádio resolveu acabar com um iniciativa da direcção de informação, antecipando a data prevista para o seu encerramento.

Ao que parece, a independência e a irreverência dos cronistas, terá incomodado algum "poderoso".

Esta última série contava com as reflexões sempre actuais e pertinentes de Paulo Alves Guerra, Rui Cardoso Martins, Patrícia Portela, Joel Neto e Alexandra Lucas Coelho, a quem coube a despedida de "O Fio da Meada".

Alexandra Lucas Coelho despediu-se com uma interessante crónica, reflectindo sobre a "diminuição da palavra", sobre um mundo onde  "a palavra vale cada vez menos", dominado pelos "influenciadores" do Youtube, que se gabam de não ler um livro, ou pelo Istagram, que tornou o facebook numa "rede velha", e onde a palavra conta muito pouco.

Vale a pena "perder" 3 minutos para ouvir essa crónica de despedida de Alexandra Lucas Coelho:

O Fio da Meada: A gente continua, em algum lugar. A última crónica do Fio da Meada com assinatura de Alexandra Lucas Coelho - (Série de Crónicas matinais na Antena 1)

terça-feira, 21 de maio de 2019

O Sr. Comendador



Em Portugal sempre se valorizou muito o uso de títulos.

Claro que existem títulos merecidos, mas a vulgarização do seu uso acaba por retirar o prestígio que se é suposto atingir-se com a sua exibição.

Quando o liberalismo procurou acabar com os privilégios dos títulos de nobreza, rapidamente se inventaram os “barões”.

Com o Estado Novo rapidamente se expandiram os “comendadores”, título chique para distribuir aos “vassalos” do regime e aos velhos caciques de sempre.

A democracia não alterou muito essa feira de vaidades, quanto muito criando títulos mais de acordo com os novos tempos, “democratizando” a sua atribuição.

Leu-se por aí que, nos últimos 40 anos, foram atribuídas quase 10 mil “comendas”, por “bons e excelentes serviços prestados ao país”.

Sem entrar no debate do merecimento ou não desse reconhecimento, é caso para dizer que, com tantos milhares a prestarem tão relevantes serviços ao país, não seria caso para, em proporção,  termos um país de excelência!!??

…No 10 de Junho haverá mais!

quarta-feira, 21 de março de 2018

Ainda há espaço para celebrar a poesia?



Hoje é o Dia Mundial da Poesia.

Um dia depois de chorarmos a morte do último rinoceronte branco, símbolo de uma humanidade incapaz de preservar um planeta perdido para consumos egoístas, ainda há espaço para celebrar a poesia?

Quando se repetem imagens de atentados no Afeganistão, de crianças mortas na Síria, de perseguições à liberdade, de vidas indignas, ainda há espaço para celebrar a poesia?

Num mundo governado por nomes sem rima como Putin ou Trump, Erdogan ou Orban, Maduro ou Temer, pergunto-me se ainda há espaço para celebrar a poesia?

Numa Europa que rima com cifrão e corrupção, ainda há espaço para celebrar a poesia?

Talvez, se procurarmos a rima pela nossa janela e o verso pelos nossos sonhos.

Sim, ainda há espaço para celebrar a poesia, o último grau de esperança para  reencontrar a nossa humanidade perdida.

terça-feira, 14 de março de 2017

Afinal as acusações a Sócrates existem ou não???!!!!


Sou daqueles a quem José Sócrates nunca inspirou um pingo de confiança.

Sócrates, o político, muito antes de ter sido badalado pelas más razões que agora vão sendo conhecidas, sempre representou, para mim, o pior da política: um político carreirista, deslumbrado pelo poder e pelo dinheiro, um exemplo acabado do célebre queirosiano Conde de Abranhos adaptado ao século XXI e às novas tecnologias.

Por isso nenhuma das acusações que vieram a lume contra ele me surpreenderam.

O que me surpreendeu foram duas coisas:

em primeiro lugar, não sendo o percurso de José Sócrates muito diferente do percurso de tanto político do centrão formado na abundância de fundos europeus e no crescente domínio do mundo financeiro sobre a política , surpreende-me que, até hoje, apenas sobre ele recaiam as atenções da justiça e dos media… “Cadé “ do Cavaco do BPN, do Coelho da Tecnoforma ou do Portas dos submarinos, para não recuar mais no tempo????;

em segundo lugar, fico estupefacto que a justiça esteja a trabalhar a contra-relógio esta semana, até à próxima 6ª feira, para o poderem acusar!!!! Mas afinal o homem esteve tanto tempo preso sem haver já suficientes provas para o acusarem? …e , passado este tempo todo, continuam sem ter acusações suficientes para o levarem a tribunal????

Parece-me bem que esta história anda mal contada, ou porque já se aperceberam que, para o acusarem, têm de acusar meio mundo do regime político do centrão, ou que, graças ao bom trabalho de alguns gabinetes de advogados que trabalham para o Estado, tudo aquilo que é eticamente condenável no mundo dos negócios em que se moveu Sócrates é perfeitamente legal e escapa à justiça, ou porque existem valores ainda mais altos ( a nível da União Europeia?)  que podem ser atingidos se acusarem Sócrates, ou um pouco de tudo isto...

Continuo a aguardar “cenas dos próximos capítulos”….

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Estamos “Trumpados” ….”God Save America”…e o Mundo também!!!


Percebo agora o que muitos alemães e cidadãos europeus sentiram, na década de 30, quando Hitler chegou ao poder, também por via democrática.

A ignorância, a intolerância e a arrogância venceram mais uma vez por via democrática e, desta vez, num país que pode influenciar a vida de todos os cidadãos do mundo.

Venceu uma explosiva mistura de Nicolas Maduro com Rodrigo Duterte e umas pinceladas de Vladimir Putin .

A vitória eleitoral de Trump vai incentivar todos os populistas e xenófobos que ganham terreno por essa Europa e pelo mundo fora, a começar já em França  por Sarkozy e LePen.

O mais grave de tudo, e que vai ter efeitos dramáticos à escala global, é a posição do novo presidente em relação às alterações climatéricas. Se levar adiante o que promete, é melhor começarmo-nos todos a prepara para um cenário parecido com o do filme “O Dia Depois de Amanhã”.

Depois, e não menos grave, se o novo presidente for coerente com a sua agressiva retórica eleitoral, vamos ter um agravamento das tensões militares e da corrida armamentista à escala global, não se podendo por de lado que assistamos, pela primeira vez após a Segunda Guerra, a um ataque nuclear a um qualquer país que irrite o novo presidente da América.

Nos Estados Unidos, o efeito principal, no imediato, vai ser um enorme retrocesso social, que vai começar pela destruição do “ObamaCare”, pelo aumento de ataques racistas, homofóbicos e xonófobos, gerando um aumento generalizado da insegurança, da violência e de medo, que alimentará a retórica do “novo” partido Republicano e do presidente eleito, que resvalará cada vez mais para um Estado proto-fascista, apoiado pelo complexo militar norte americano e pelo grande poder financeiro.

O lobbie do armamento vai sair reforçado, com consequências cada vez mais dramáticas.

No fim, e se não se envolverem numa guerra com alguém, que disfarce a crise social que se vai agravar, os Estados Unidos vão sair de tudo muito mais enfraquecidos e isolados, levando consigo todo o mundo ocidental.

A única recomendação que dou aos Americanos de bem, progressistas e inovadores, é que, enquanto é tempo e se puderem …fujam para o México [Canadá e Europa] enquanto não se constrói o Muro!!!

A única coisa positiva, no meio desta catástrofe, é o facto de, com a vitória de Trump, não se atirar apenas fora o “bébé”, mas atira-se também fora a “àgua do banho”, isto é, a globalização neoliberal, que nos conduziu a esta catástrofe, e a cegueira do politburo de Bruxelas, descredibilizado com tudo isto, mais o seu malfadado TTIP.

A única esperança é que tudo não tenha passado de retórica eleitoral, mas, a ser assim, é o próprio candidato que vê comprometido o seu futuro político.

Como dizem nos Estado Unidos, que “Deus salve a América”, e o Mundo também!

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Uma “história” dos comentadores neoliberais: da “revolução permanente” neo-stalinista à “reforma estrutural” neoliberal.


Antes de mais nada, começava por recomendar a alguns políticos, economistas e comentadores da nossa praça que, antes de darem qualquer opinião sobre a crise, lessem com atenção a Declaração Universal dos Direitos do Homem.

Depois que lessem a Constituição Portuguesa e, já agora a História da Europa, principalmente a dos anos 30, mas também a do pós guerra, nomeadamente a da própria construção das democracias ocidentais e da então CEE.

Recomendo essas leituras principalmente àquele que se dizem “liberais” e são defensores assanhados do “austeritarismo” actualmente dominante na Europa e que atinge, principalmente, quem trabalha ou trabalhou e visa retirar direitos de cidadania e reduzir os “Estado Social” à mera dimensão caritativa.

Esse “austeritarismo”, que esses “liberais” tanto defendem, tem em vista salvar bancos que se meteram  em negócios especulativos  e obscuros , salvar os salários e pensões de luxo dos seus gestores e ex-gestores ou os seus grandes accionistas, que visam apenas o enriquecimento rápido e sem esforço, sendo os riscos assumidos pelos “contribuintes” , pelos pequenos e médios depositantes, e pelos trabalhadores em geral.

Para atingirem esses objectivos de salvar o “bandido”, tais “liberais” não olham a meios argumentativos.

Oriundo, muitos deles, das revoltas estudantis dos anos 60 e/ou, no caso português, do maoismo do tempo do PREC, o seu radicalismo neo-stalinista de formação  mudou apenas de bandeira.

Hoje falam em nome de um radicalismo “liberal”, que nada tem de liberalismo. 

Não passam de radicais, fanáticos e intolerantes neoliberais, usando o mesmo radicalismo, fanatismo e intolerância que aprenderam nos tempos da sua juventude maoista.

Durante os últimos anos em Portugal andaram a defender, com todo o fanatismo habitual, as “reformas estruturais”, um eufemismo desses neoliberais de formação neo-stalinista para a permanente “revolução na revolução” com que romperam os equilíbrios e direitos sociais conquistados em décadas de evolução democrática .

Por cá, essas “reformas estruturais” foram apenas usadas para criar instabilidade social e económica, virar portugueses contra portugueses, empregados contra desempregados, jovens contra velhos, trabalhadores com contrato contra trabalhadores precários, assalariados bem pagos contra assalariados mal pagos, trabalhadores do privado contra funcionários públicos, ao mesmo tempo que criavam condições para cortar salários, desvalorizando o factor trabalho em benefícios dos grandes gestores e empresários, dos banqueiros e accionistas.

Essas “reformas estruturais” conduziram ao enfraquecimento da classe média, ao empobrecimento generalizado da população, ao aumento dramático da emigração, com a “expulsão” do país dos mais jovens e qualificados, num país já de si envelhecido e iletrado, ao mesmo tempo que vendiam ao desbarato tudo o que ainda podiam vender, sem olhar à origem dos capitais dos compradores.

Fazendo tábua rasa da estabilidade social, dos compromissos assumidos com trabalhadores e pensionistas, todos os dias assistimos à violação da lei e do seu documento fundamental, a Constituição, e tudo isso alegremente justificado pela maior parte dos comentadores políticos e económicos.

Por isso não deixa de ser irónico ouvi-los agora tão preocupados com o "desfazer" dessas políticas pelo actual parlamento e pelo actual governo.

Os mesmos, que todos os dias apelavam às “reformas estruturais”, com o mesmo fanatismo com que noutros tempos apelavam à “revolução permanente”, sem olhar à instabilidade social e económica provocadas por essas medidas, vêem agora defender a “estabilidade” e a permanência, apelando a que não se “desfaça” o que foi feito neste últimos quatro anos.

Também nós somos defensores da estabilidade nos contractos socias, nas decisões políticas e no funcionamento da economia e das finanças.

Mas, quem nos últimos anos andou a instaurar a instabilidade permanente, foi a direita neoliberal com a aplicação de medidas de austeridade que tanto agradaram a esses comentadores.

Na altura não se preocuparam muito com a “estabilidade” ou com o respeito pelos compromissos sociais consignados na Constituição, antes pelo contrário. 

Para esses, a  estabilidade e a Constituição da República não passavam de empecilhos à ”grandeza”  de tais “reformas estruturais”.

O que o actual parlamento e o actual governo estão a fazer não é “desfazer”, mas, pelo contrário , “refazer” essa estabilidade violentamente quebrada pela revolução radical neoliberal que nos andaram a impor nos últimos anos, e que, enganosamente, intitularam como “reformas estruturais”.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Cimeira de Paris – Entre as boas intenções e o cinismo das elites político/económico/financeiras.



Parece que desta vez, finalmente, os líderes políticos mundiais reconheceram a gravidade das alterações climatéricas e, pelo menos por agora, se uniram para tomar medidas que evitem a anunciada e quase irreversível catástrofe climatérica.

Todos assinaram o documento final e todos prometeram tomar medidas drásticas para reduzir a emissão de combustíveis fósseis e os substituírem por energias renováveis e limpas.

Mas o optimismo acaba aqui.

Em primeiro lugar, o documento só será ratificado em…2020…

Depois, nada garante que, pelo menos num dos maiores poluidores do mundo, os Estados Unidos, uma hipotética vitória de um candidato republicano não possa reverter todo o processo, já que todos os candidatos desse partido, que controla o congresso e o senado, revelam-se da mais confrangedora ignorância sobre o assunto, todos defendendo o lobbie das grandes industrias petrolíferas.

Mexer a sério nos grandes interesses poluidores do mundo, a industria do petróleo, a industria de armamento, a industria automóvel , a industria das madeiras e mineiras, e a industria de criação de gado, todas controladas pelo poder financeiro mundial, provocaria um grande abano no tipo de sociedade e de economia que “paga” o estilo de vida dos políticos, economistas, gestores  e banqueiros , os mesmos que podem aplicar os acordos.

A defesa do ambiente não se compadece, por exemplo , com o modelo de sociedade consumista que guia o objectivo de vida da maior parte das populações do mundo, cujos valores são propagandeados todos os dias na publicidade, nos meios de comunicação de massa, na cultura popular e que fazem parte do “modelo ocidental” que é vendido aos países “emergentes”.

Por último, a defesa do ambiente implica uma mais activa intervenção dos Estados contra os grandes interesses privados e em defesa das leis ambientais, o que implica uma inversão total da ideologia neoliberal dominante entre as mesmas elites politicas, económicas e financeira que estiveram por detrás da realização da Conferência de Paris.

Neste caso, é ver para crer, mas o problema é que, o tempo de inverter a situação está a esgotar-se…

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

O regresso da velha direita boçal, caciqueira, trauliteira e radical


Já aqui exprimi as minhas dúvidas e até desconfianças sobre o êxito da formação do actual governo de esquerda, embora lhe deseja que tudo corra pelo melhor, para bem do país e dos portugueses que trabalham e cumprem com os seu deveres.

Assistimos a quatro anos de radicalismo neoliberal de direita, que destruiu a classe média,  e o próprio centro político, aumentou as desigualdades sociais até níveis nunca vistos na história recente deste país, pelo menos na sua história democrática, aumentou a precariedade no emprego, lançou na pobreza milhares de portugueses, crianças incluídas, fez o PIB nacional recuar décadas, vendeu ao desbarato os poucos bens públicos, tudo em beneficio dos infractores da especulação financeira e dos foragidos ao pagamento de impostos que lançaram o país na mais grave crise económica, social e financeira que o país conheceu.

Nos últimos meses assistimos a essa mesma direita neoliberal num afã de distribuição de empregos e nomeações por centenas de fiéis, sendo o caso SérgioMonteiro “apenas” a mais escandalosa “cereja em cima do bolo”.

E quando não andaram a garantir a carreira e o emprego dos amigos, andaram a falsificar ou esconder estatísticas que lhe eram eleitoralmente ( e, quem sabe, criminalmente) desfavoráveis, como a história da “redução” da taxa de IRS.

E tiveram ainda tempo para “armadilhar” ao máximo, com a ajuda de Cavaco,  o caminho que este governo vai ter de percorrer para inverter a trágica situação do país.

Se tudo isso não chegasse para provar que a manutenção do  governo de direita estava a conduzir o país para um desastre irreversível, aí está a prova da atitude dessa mesma direita, agora na oposição.

O seu verniz disfarçado atrás de vozezinhas paternalistas e falinhas mansas, de fatinhos feitos à medida e gravatas reluzentes, disfarçando a sua falta de patriotismo e revanchismo de bandeira portuguesa à lapela, estalou totalmente neste dois últimos dias.

O que assistimos estes dias, no debate parlamentar,  é a uma direita troglodita, mal educada, sem respeito pelo parlamento, revanchista, caciqueira,  trauliteira e radical.

Se outra razão não existisse para afastar esta gente do poder, aquilo a que estamos a assistir no parlamento é, para além de grave, a melhor prova da urgência em manter essa gente, por muitos e longos anos, longe do mesmo poder.

Mesmo todos aqueles que, como eu, à partida, tinham algumas dúvidas sobre a sobrevivência (ou mesmo sobre a legitimidade) deste governo de esquerda, fica bem evidente que, a partir de agora temos de fazer tudo para o maior êxito desse governo.

Para bem de todos nós, esta direita do radicalismo neoliberal, que destruiu o centro político, não pode regressar ao poder.

Seria bom, para todos nós, que dentro do PSD surgisse alguém para por cobro ao poder dessa gente e voltasse a colocar esse partido no centro-direita, pelo menos por respeito para com a memória de Sá Carneiro.

terça-feira, 24 de novembro de 2015

TENHAM LÁ CALMA !!! (Parte 5) – É só mais um governo do PS!


A histeria que se apoderou da direita nestes dois últimos meses, alimentada pela atitude presidencial, pode abrandar a partir de agora…ou não!

Pelo menos estes meses contribuíram para a direita tirar a máscara e mostrar o seu lado mais trauliteiro.

Mas sejamos realistas: o que António Costa vai formar é apenas mais um governo do PS, na linha ideológica e programática habitual nesse partido.

Não foi o PS que virou à esquerda.

O que aconteceu é que foi a direita que, nestes últimos quatro anos, virou demasiado à direita, deixando o centro político desguarnecido e, no caso do PSD, abandonando os valores social-democratas do seu fundador.

O PS não se moveu, continua no centro-esquerda onde sempre esteve.

O que aconteceu também é que, à esquerda do PS, o PCP e o Bloco de Esquerda perceberam que é preferível  encarar  de forma pragmática um governo PS, igual a tantos outros, a continuar a aturar um governo de direita que fez o país recuar décadas .

Como se diz, os partidos à esquerda do PS perceberam, finalmente, que mais vale "um pássaro na mão" do que dois (Coelho e Portas...??) a voar..

PCP e BE podem continuar a ser a “reserva moral” da esquerda, mas devem agir com pragmatismo, para não deitarem tudo a perder.

O que é agora fundamental é recuperar o país, a sua economia e a sua sociedade, aproximando o país dos níveis europeus, retirando a iniciativa à direita que estava a conduzir o país para o empobrecimento, a desigualdade e o desrespeito pelo direito dos cidadãos a uma vida melhor e que andaram a virar portugueses contra portugueses para melhor "reinarem".

Para isso não é prioritário nem necessário à esquerda romper com quaisquer compromissos  internacionais, como a direita trauliteira anda por aí a meter medo ao povinho.

Basta aperfeiçoar e rentabilizar o aparelho de Estado, valorizar o económico e social em detrimento do poder financeiro, combater a fuga ao fisco, penalizando fortemente as empresas que recorrem a off-shores , combater a corrupção, levando até ao fim as investigações sobre o BES, o BPN , os “submarinos” e outros casos que envolvem a velha classe política portuguesa (à direita e à esquerda, diga-se em abono da verdade...), melhorar as condições de trabalho e de produção para fazer subir o PIB e, deste modo, reduzir o deficit e a dívida.

Ao mesmo tempo, basta ir para as instituições europeias defender o país e os seus cidadãos, abandonando a postura subserviente dos últimos anos, e ganhar poder negocial.

É só aproveitar as mudanças que se estão a observar na Europa, em vez de se tentar ser o aluno bem comportado que até ía “além da troika”.

E é “fazer figas” para que o poder político em Espanha mude de mãos.

Agora é preciso  é calma e, da parte da esquerda, pragmatismo e …juizinho.


O “terceiro-mundismo” de alguns comentadores da direita neoliberal


São legitimas as dúvidas, as desconfianças e as divergências , à esquerda e à direita, sobre a hipotética formação de um governo de “esquerda”.

Infelizmente, contudo, os termos em que essas dúvidas e desconfianças têm sido formuladas por muitos cronistas e comentadores da direita  neoliberal, roça a intolerância, o fanatismo , a boçalidade e a ignorância, distorcendo o uso de argumentos.

Já assistimos à gestação de uma novilíngua dessa direita revanchista ao longo destes últimos anos, invertendo o significado das palavras, no sentido de ajudar à sua argumentação ou de as esvaziar da sua força .

Inverteram o significado de palavras, como aconteceu como o “irrevogável”, transformaram o “reformismo” num método de “destruição criativa” dos equilíbrios sociais conquistados em democracia ,tornando-o sinónimo de “contra-revolução” neoliberal , substituíram a designação “trabalhador” por “colaborador”, para melhor desvalorizarem o factor trabalho, tudo embrulhado numa bem orquestrada e oleada campanha propagandística.

Agora vêm, mais uma vez, distorcer o significado de uma classificação,  a classificação de “terceiro-mundo”, ao considerarem que a formação de um governo de esquerda que advogue uma alternativa ao modelo “austeritário” vigente imposto pela “troika”  , apoiado em partidos que “contestam” as “regras” antidemocráticas das instituições europeias, que questionam a “bondade” do euro, que discutem  outras alternativas de relacionamento internacional que não passe em exclusivo pelo “ocidente", é uma atitude “terceiro-mundista”.

Aprendi a identificar, como características do “terceiro mundo”,  as tremendas desigualdades sociais, o desrespeito pelos mais básicos valores sociais e democráticos,  os enormes níveis de pobreza, a corrupção das sua elites, os altos níveis de desemprego, a grande desregulação do trabalho, sem direitos nem regras e pago miseravelmente.

Ora, se assistimos  nos últimos tempos  a um verdadeiro retrocesso “terceiro-mundista” foi nos países europeus, em especial nos da  zona euro, que aplicaram as regras “austeritárias” impostas por instituições não democráticas .

Esse retrocesso “terceiro-mundista” tem sido bem evidente em Portugal, onde não param de crescer as desigualdades sociais, onde o empobrecimento gerado pelo aumento do desemprego e pelos cortes em salários e nas pensões, não pára de se agravar e atingir cada vez mais camadas da população, levando o país para níveis de emigração que já ultrapassam os piores tempos da década de 60, onde os direitos sociais atiram o país para níveis verdadeiramente terceiro-mundistas.

E é contra esta deriva “terceiro-mundista” que se manifesta a esquerda europeia e a portuguesa.

Portanto, se existe alguém que está a conduzir o país para o “terceiro-mundo” é esta  direita neoliberal e revanchista,  defensora entusiástica do modelo “austeritério” , que nos tem governado estes últimos anos, na Europa e em Portugal,  com o apoio propagandístico  desses comentadores e cronistas que agora usam e abusam da classificação “terceiro-mundo”, em mais uma das suas campanhas de branqueamento político.

Enfim…comentadores do “terceiro-mundo”…


sexta-feira, 20 de novembro de 2015

As Consultas de Cavaco: "Perguntar à peixeira se o peixe é fresco"


Vitor Bento, Daniel Bessa, João Salgueiro,  Luís Campos e Cunha,  Teixeira dos Santos, Bagão Félix , Augusto Mateus  e o governador do Banco de Portugal, Carlos Costa foram os 7 economistas que Cavaco escolheu ouvir ontem em Belém.

Seis deles já foram ministros, das Finanças ou da Economia.

Com uma ou duas excepções, todos têm em comum a defesa assanhada e fanática do modelo “austeritário” e são “amigos íntimos” da TINA (as iniciais inglesas do “não há alternativa”).

Quase todos defendem cortes salariais e nas pensões, se bem que todos ele aufiram reformas douradas e/ou rendimentos acimas das nossas possibilidades.

Quase todos são, ou foram, administradores de grandes empresas, não tanto por mérito, ou para nelas trabalhar (muitos limitam-se a deixar a sua assinatura e a receberem “avenças” milionárias por reunião, funcionando apenas como lobistas da TINA junto da comunicação social e da classe política, em defesa dos interesses dessas empresas), mas pela sua fidelidade à política “austeritária”.

Fazem parte dos comentadores de serviço, onde ganham mais uns “trocos” (várias vezes um salário mínimo) para nos convencerem que a TINA tem razão.

Quase todos, aposto, votaram no PAF e, os poucos que votaram no PS, estão contra uma coligação à esquerda, por preconceito ou fanatismo ideológico.

E a pergunta que se faz é: porque ouviu Cavaco Silva estes economistas e não outros?

Porque Cavaco só ouve aqueles que estão na sua área política, como se viu com  as outras audiências a banqueiros e grandes empresários, recebendo os sindicatos “para não parecer mal”, esquecendo-se que,  é para estas ocasiões que existe um Conselho de Estado, representativo e pago por todos para esse fim.

Acontece que nesse Conselho de Estado não podia encontra a unanimidade de opiniões sobre a crise política e , a economia e a situação financeira que encontrou com essa consulta de “personalidades” escolhidas a dedo, como se Cavaco quisesse desenterrar a salazarista Câmara Corporativa.

Ou seja, é como aquele velho ditado : “é como perguntar à peixeira se o peixe está fresco”
Assim se vê a independência do Presidente…


segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Como se chocou o “Ovo da Serpente” do terrorismo islâmico?


O acto hediondo e cobarde perpetrado pelos terroristas em Paris na passada 6ª feira tem de ser, no imediato, esclarecido, combatido e condenado.

Mas, paralelamente, é importante que se procure perceber a origem e o desenvolvimento da combinação explosiva que gerou esta situação, sem esquecer as conivências directas e indirectas, os erros militares e políticos, as ligações financeiras e económicas que geraram o ovo da serpete do terrorismo islâmico internacional.

Ao mesmo tempo também, há que procurar uma solução imediata para um problema imediato que é a propagação do autoproclamado “Estado Islâmico” (para saber mais sobre o "Estado Islâmico" leiam AQUI).

Não chega um encadeado de adjectivações na conversa de políticos e comentadores para condenar o acto de Paris (seguido aliás de muito outros actos recentes do mesmo teor como o abate de um avião russo de passageiros no Egipto ou o sangrento atentado no Líbano, que, hipócrita e cinicamente, não mereceram a mesma veemente condenação que o atentado de Paris).

É preciso ir à origem do problema e apontar responsáveis, pelo menos para que esses não escapem impunes à veemente e legitima condenação do terrorismo islâmico que tem marcado este século.

O “ovo de serpente” foi sendo chocado desde a  década de 80, com o apoio e financiamento do Presidente norte-americano Ronald Reagan, que não teve então problemas em receber no seu gabinete os líderes talibans da época, aos radicais islâmicos do Afeganistão para combater os soviéticos, tendo dado origem ao nascimento da Al-Quaeda, financiada inicialmente pelo principal aliado dos Estados Unidos na região, a Arábia Saudita, e treinados e armados pela CIA.

Na Palestina, perante a crescente credibilidade da OLP, o governo de Israel apostou também no apoio clandestino a radicais islâmicos, que deram origem ao Hamas, para tentar retirar protagonismo à OLP e para descredibilizar a causa palestiniana.

Com o tempo, os criadores perderam o controle do monstro que criaram e o feitiço virou-se contra o feiticeiro.

Na década de 90 um novo conflito, a Guerra da Jugoslávia, voltou a fortalecer o radicalismo islâmico, com o apoio do ocidente, nomeadamente da NATO,  à Bósnia e ao Kosovo,  base do treino militar dos veteranos  islamitas, ainda hoje um dos principais focos de fornecimento clandestino de armamento aos radicais islâmicos na Europa, para além da guerra da Tchetchénia na Rússia que este país teve de resolver sozinho e com a desconfiança ocidental.

Mas o pior estava para vir, com os atentados do 11 de Setembro de 2001, ainda hoje com zonas por esclarecer e com a irresponsável reacção a esses terríveis atentados.

Um conjunto de líderes mundiais, que se reuniram nos Açores em 15 de Março de 2003, George W. Bush, Aznar, Durão Barroso e Tony Blair resolveram, de forma irresponsável, aproveitar a situação para , passando por cima da ONU, organização que a partir de então perdeu capacidade de intervenção, invadir o Iraque e lançar a ideia de impor a “democracia” pelas  forças das armas.

O que seguiu no Iraque é de todos conhecido: centenas de milhares de mortos civis, crescimento e disseminação do terrorismo islâmico, que encontrou no Iraque uma base de recrutamento e onde nasceu o “Estado Islâmico”.

Mas os erros do ocidente não se ficaram por aqui. Embandeirando em arco com a chamada Primavera árabe que teve início em 2010, não se limitaram a apoiar e fortalecer a revolta legítima na Tunísia e no Egipto, mas ganharam freio nos dentes e de forma irresponsável,  resolveram intervir militarmente para impor a vitória artificial desse movimento na Líbia e na Síria, mais preocupados em derrubar artificialmente dois ditadores de estimação, do que em saber quem ajudavam ou armavam.

E foi assim que teve origem o Estado Islâmico, em Junho de 2015, com acesso a armamento e financiamento do ocidente, de forma directa ou indirecta ( neste caso através do apoio da Arábia Saudita aos fundamentalistas sunitas da Síria).

Aliás, uma das questões que mais me intriga e para a qual até hoje ainda não vi resposta credível, é saber quem financia e quem arma esse autoproclamado Estado Islâmico.

Leio que eles conseguem financiar-se com a venda do petróleo e do saque de obras de arte e que se armam através de grupos “moderados”  que se opõem a Assad na Síria, “ingenuamente” armados pelo ocidente com o material mais moderno e sofisticado, e que acabam por cair nas mãos do ISIS.

Se houvesse vontade política era fácil, com os actuais e sofisticados  meios tecnológicos de espionagem, descobrir como funciona essa rede de financiamento. Por isso, e perante o silêncio sobre essa dúvida, só posso desconfiar que existe algo que se esconde por detrás do apoio ao ISIS.

Em primeiro lugar, parece-me que o ocidente visa , com  essa falta de esclarecimento, proteger o seu aliado na região, nomeadamente  a Arábia Saudita, que se desconfia ser o principal financiador desse bando bárbaro de terroristas .

Em segundo lugar, parece-me que os compradores de arte saqueada estão sedeados no ocidente, pois só estes terão meios financeiros e interesse nessas aquisições.

Em terceiro lugar, se houvesse vontade , também seria fácil seguir o rasto do petróleo vendido pelo ISIS, mas , para isso, era preciso atingir um dos principais lobbies da economia mundial, o energético.

Em quarto lugar, tocar no tráfico de armamento é pôr em causa um dos maiores negócios à escala mundial , que envolve muitos estados e políticos do ocidente .

Em quinto lugar, e por detrás de tudo isto, está um poder financeiro, cada vez mais poderoso, que vive da lavagem de dinheiro sujo, que, como se vê na Europa, controla o poder político e não tem uma réstea de humanidade.

Sem se tocar no negócio de armamento, no corrupto poder financeiros, nos interesses que movem a economia do petróleo, não se vai conseguir erradicar a influência do ISIS, mesmo que se consiga expulsá-los dos territórios ocupados.

Se juntarmos a tudo isto a situação económico-social explosiva em bairros de imigrantes , principalmente na França e na Bélgica, situação que se tem agravado nos últimos anos como reflexo da crise financeira, nomeadamente entre os jovens, onde grassa um  desemprego que, nesses bairros, atinge 40% desses jovens, o ISIS vai continuar a poder contar, na Europa, com um vasto campo de recrutamento para o seu campo e a sua estratégia de terror.

Para não agravar a situação, seria bom que, paralelamente à condenação firme do terrorismo, se combatesse o crescimento da xenofobia, que se vai aproveitar do medo para espalhar a sua mensagem de ódio.

Para já é necessário não confundir a situação dos refugiados da Síria, com o terrorismo. Aliás, esses refugiados estão na linha da frente como  vítimas do terrorismo islâmico e fogem daquilo a que assistimos agora em Paris e que, nas suas cidades ,nas suas ruas e nas suas aldeias, são uma realidade diária.

Por último é necessário que a comunidade internacional, no imediato, reactive o poder da ONU, destruído pela quarteto do Açores, e se una para combater o ISIS, distinguindo o inimigo principal , o “Estado Islâmico” , do inimigo  secundário, o ditador Assad.

Aqueles que gostam tanto de citar Churchill em defesa do derrube de ditadores como Assad, melhor fariam se percebessem a estratégia desse líder britânico, que, na sua época, percebeu que o inimigo principal a abater era Hitler e, para isso, não hesitou em aliar-se a Stalin.

O radicalismo islâmico é o “nazi-fascismo” do nosso tempo.

Aprendam com a história!

(este texto foi escrito de memória, sem consulta a fontes, mas esperemos  que sirva de base para uma reflexão sobre  o que está em causa na resposta que se  der a estes bárbaros actos terroristas, para além da retórica do momento).

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Tenham lá Calma !..(parte 4) ….é só a democracia a funcionar!!


Que os trauliteiros da direita que pontificam nas redes socias usem e abusem do seu radicalismo , raiando muitas vezes o mau gosto, o puro nojo e a boçalidade mais troglodita, para manifestar o seu desacordo pela queda do seu governo, não nos espanta muitos.

Agora que políticos, com responsabilidade no país, ainda em funções no governo, usem os mesmos métodos e a mesma retórica, isso já é grave e digno do mais veemente repudio.

Depois da triste figura que fizeram na Assembleia da República, onde, em vez de defenderem o programa político do governo, que era para isso que ela se tinha reunido, usaram a Assembleia como palco de um comício radical de ataque à sua esquerda, continuam agora, pelo país, e , mais grave ainda, por essa Europa fora,  na sua senda radical em encontros comicieiros.

Afirmar que o PS está refém do Comité Central do PCP é próprio dos títulos do jornal “O Diabo” mas não é digno de um político que se diz “ponderado” e “educado”. É pura demagogia política.

Mas, pior ainda, vir apelar a uma revisão da Constituição para a dissolver e convocar novas eleições, só porque a maioria que se formou não lhe é favorável, é da mais despudorada falta de respeito pela democracia e pelo seu funcionamento.

Ou seja, a Constituição, que eles nunca respeitaram nos últimos quatro anos,  servia agora para legitimar uma situação de “eleições permanentes”, até se obter um resultado que agradasse à direita.

Costuma dizer-se que é nos momentos difíceis que as pessoas revelam a sua verdadeira natureza, Neste momento difícil é a direita que está a revelar a sua verdadeira natureza, mostrando que pouco evoluiu desde 1975.

A atitude radical dos seus líderes, para além de revelar desespero, vem dar razão à aliança do PS com a sua esquerda e àqueles que acham que é impossível qualquer ponte de entendimento ao centro, porque, pura e simplesmente, esse centro desapareceu, não tanto por uma qualquer “espectacular “ viragem à esquerda do PS, mas porque, como se vê agora, esta direita abandonou o centro para se radicalizar na direita “neoliberal”.

Se se chegou tão longe neste radicalismo da direita, muito se deve agradecer à conivência e à cobardia do actual Presidente da República, o mesmo que tanto fala em “consensos”, mas apenas tem contribuído, com as suas jogadas de bastidores , os seus silêncios,  e as suas “indirectas” para a actual radicalização em que o país mergulhou.

É caso para dizer, tenham lá calma, porque tudo isto é apenas a democracia a funcionar, como acontece nas democracias mais avançadas e mais maduras da Europa, onde, muitas vezes, não é o partido mais votado que exerce o poder, mas aquele que tem apoio para governar na casa da democracia, o Parlamento.

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Tenham lá calma!!!...(Parte 3) …Cavaco ainda é líder de facção e “nunca erra e raramente se engana”!!!


Ainda é cedo para comemorar o que quer que seja, ou voltar a ter esperança de ver o país a sair do buraco em que o meteram os último dez anos de governação (mais as consequências da herança cavaquista dos finais do século XX)…

É que Cavaco ainda está aí e tem a faca e o queijo na mão..

O homem que contribuiu para afundar o país por duas vezes, não vai abandonar o poder para o salvar:

- Da primeira vez como “homem rico”, enquanto primeiro-ministro, destruindo o aparelho produtivo do país e esbanjando os fundos europeus em betão, em empregos e negócios para os “boys” da facção e da banca , fazendo do consumo desenfreado e do empreendedorismo de “pato bravo” a sua ideologia de “capitalismo popular”,  cujos custos nos estão agora a ser cobrados, ideologia que contaminou a própria “esquerda;

- Da segunda vez , enquanto Presidente da República de facção, que deixou terreno livre a um governo que, governando para “além da troika”, destruiu a “classe média”, empobreceu o país, destruiu equilíbrios sociais, desrespeitou sistematicamente os compromissos constitucionais, correu com a juventude mais qualificada para a emigração, enfim, andou a “roubar aos pobres e remediados” cidadãos deste país para dar aos “ricos” mercados.

Fez tudo isso, colaborou em toda essa festa da “direita” e nunca se arrependeu. Antes pelo, contrário, está empenhado em defender, com unhas e dentes, a sua obra .

Para ele é mais importante garantir os compromissos com os especuladores financeiros (os “mercados”) do que os compromissos com os cidadãos (como se vê pelo modo como fechou os olhos às medidas anticonstitucionais do governo agora em gestão).

Cavaco vai lutar até ao fim para resistir a dar posse a um governo de “esquerda”, e por isso vai:

- primeiro, arrastar todo o processo pelo máximo tempo que puder, esperando qualquer desentendimento entre a “esquerda”, explorando, com a ajudazinha preciosa dos gobelzinhos do comentário politico e de uma  comunicação social nas mãos, ora da sua facção, ora dos “mercados” que defende, todas as contradições e vírgulas postas fora do lugar nos acordos à esquerda, como, aliás, já está a acontecer;

- segundo, ouvir todas as “personalidades” beneficiados por aquela política, que lhe dirão exactamente o que quer ouvir, e lhe darão os argumentos de que precisa para decidir contra a vontade do voto popular e dos seu representantes no parlamento ;

- terceiro,  através da sua  influência, com uma ajudinha de  Durão Barroso  e do PPE, colocar em movimento toda a máquina europeia da chantagem e do medo para travar qualquer tentativa em sonhar, sequer, com o fim do modelo “austeritério”.

- quarto, explorar até ao limite todas as possibilidades legais ou semi-legais para impedir a tomada de posse de um governo de “esquerda” e manter, nem que seja no modo de  “zombie”, a coligação de direita em gestão do país.

Mas, se mesmo assim não conseguir evitar a chegada ao poder de um governo do PS com apoio parlamentar à esquerda, vai deixar o terreno o mais minado que lhe seja possível e dificultar, quanto puder, a acção desse governo.

Quem ajudou o país a fundar-se por duas vezes, pode voltar a fazê-lo pela terceira vez.

Por isso, ainda é cedo para festejar…

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Tenham lá calma! (Parte II) …os comunistas “já” não “comem criancinhas”…mas há quem ande a comer a comida das “criancinhas”…


Se, por um qualquer absurdo digno dos Monty Python, os únicos “documentos” históricos que sobrassem para escrever a história portuguesa deste último mês fossem as crónicas de um Vasco Pulido Valente, de um António Barreto , de uma Fátima Bonifácio, de um José Manuel Fernandes , de um José Carlos Espada, de uma Clara Ferreira Alves  e de uns tantos imitadores baratos da proza destes, pensar-se-ia que um qualquer Lenine estava na iminência de  assaltar a Assembleia da República, um imitador de Fidel Castro tinha descido com os seus guerrilheiros da Serra da Estrela  em seu auxilio, aguardando-se a todo o momento que um exército de camponeses liderado por uma espécie de Mao Tsé Tung, iniciando a sua longa marcha a partir de uma remota aldeia de Trás-os-Montes, chegasse a Lisboa para completar a tomada do pode pelos “comunistas”.

Ainda, seguindo a "interpretação" da proza daqueles, o governo "legítimo"  preparava-se para passar à clandestinidade, e o Presidente da República, ficando esquecido  no seu  gabinete a consultar “personalidades”, corria o risco de ser metido num Gulag no interior do Alentejo e todos os jornais iam passar a ter “Avante” no título (“Avante Público”, “Jornal do Avante”, “Diário do Avante”, “Avante Expresso”, “I-Avante” , “Avante Manhã”…).

Felizmente aqueles ” lutadores” pela “democracia” e pela “liberdade” tinham passado á clandestinidade e continuavam a informar o povo da acção "diabólic" dos comunistas, através das suas crónicas clandestinamente divulgadas na internet pelo site “Observador”.

Agora falando a sério, reina por aí  uma doentia e delirante  histeria “anti-comunista”, como se os comunistas estivessem prestes a tomar o poder, como se entretanto o Muro de Berlim já não tivesse caído (fez ontem anos), ou a Guerra Fria não tivesse  terminado.

Para eles os Comunistas continuam a comer criancinhas ao pequeno almoço.

Nunca perceberam que a natureza profunda do PCP , mais pela prática e pela história do que pela ideologia, afirmou-se muito diferente da natureza da maior parte dos partidos comunistas do leste da Europa, pois, ao contrário destes, não foi o executante de ditaduras ferozes, mas vítima de uma feroz  ditadura de direita que combateu com firmeza, e, ao contrário daqueles,  acabou por se construir entranhado na luta pela liberdade e pela democracia, e, por  isso, continua a gozar do respeito entre os cidadãos e goza de forte  implantação popular, o que explica a sua sobrevivência,  única na Europa.

Talvez não seja por acaso que o único “cronista” de “direita” (?) que não vê qualquer drama no facto do PCP se aproximar do poder seja Pacheco Pereira, pois é dos poucos que conhece, com profundidade e rigor, a natureza desse partido.

Claro que muitas das criticas que são feita ao PCP eu também as podia subscrever, como a retórica demasiado passadista em relação à dramática e triste história do movimento comunista internacional ,  ao uso e abuso de palavras de ordem políticas esvaziadas de conteúdo, ou por nunca se ter demarcado de forma clara dos crimes cometidos em nome do comunismo.

Contudo, essas críticas, por puro facciosismo,  por intolerância, por radicalismo ou por ignorância, não conseguem separar aquilo que é a triste  história do comunismo internacional do que é a história particular e até diferente do PCP, ou aquilo que é a origem e a doutrina comunista do que foi a pratica e o desvirtuamento do “stalinismo”.

Também não referem que o abandono dos valores social-democratas por parte do “centrão” deixou  ao PCP, actualmente acompanhado pelo Bloco de Esquerda, a exclusividade  na defesa desses valores, nomeadamente a defesa dos mais pobres , dos que trabalham e dos direitos sociais, isto num país e numa conjuntura onde o empobrecimento , a desvalorização do trabalho e a destruição de direitos sociais têm sido a prática e a retórica dos governos do “centrão” dos últimos dez anos.

Mas, mais importante do que tudo isso, o que essa primária retórica “anti-comunista” disfarça é o facto de, na realidade, não estarmos a assistir a qualquer previsível tomada de poder pelos “comunistas”, mas apenas ao legitimo apoio parlamentar do PCP a um possível governo do PS.

Ou será que existem grupos parlamentares de primeira e grupos parlamentares de segunda?

Ao contrário do que tem sido a história de outros partidos, e por muitas críticas que se possam fazer ao PCP, existem pelo menos três coisas em que este partido é diferente dos partidos do “centrão”: é coerente na defesa dos seus valores, tem uma postura ética de combate à corrupção e cumpre os compromissos assinados.

Para aqueles que ainda “acreditam” que os “comunistas” comem “criancinhas” ao pequeno-almoço, melhor seria que estivessem atentos e preocupados com os que andam a "comer o pequenos-almoço" de muitas “criancinhas” deste país…