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quarta-feira, 25 de novembro de 2015

O meu 25 de Novembro de 1975


O que aqui escrevo hoje, escrevo de memória e ao correr da pena, não é  um ensaio histórico, é apenas a minha visão, pelo que pode conter algumas ligeiras incorrecções temporais.

Para falar do “meu” 25 de Novembro é necessário recuar um pouco no tempo.

Todo o período entre o 25 de Abril e o 25 de Novembro apanhou-me numa idade muito especial, entre os 18 e o 19 anos, uma idade que, em qualquer época e geração, é uma idade de descobertas e de utopia, situação que potenciou muito a esperança e a utopia desse período, que foi marcante para o destino da minha geração.

Para essa geração não havia ainda uma componente ideológica muito assumida, não havia uma grande consciência política ou das consequências económicas e sociais provocadas por um período de grande euforia e criatividade, avesso a qualquer lógica de poder e onde dominava o voluntarismo em todas as atitudes.

Também não trazíamos connosco as velhas rivalidades históricas no seio da oposição ao Estado Novo, entre republicanos e comunistas, comunistas e maoistas, e entre todos estes e os socialistas, sem esquecer os trotskistas, os anarquistas, os guevaristas .Estas só começaram a vir ao de cima ao longo do desenrolar do processo revolucionário.

Também não tínhamos uma  grande consciência sobre os impactos da Guerra Fria, cujos representantes se movimentavam na sombra e já eram marcantes nas decisões dos grandes partidos surgidos da revolução (PSD e CDS)  ou saídos da clandestinidade(MDP, PCP, PS).

Para a minha geração, educada no autoritarismo do Estado Novo, cujo destino cada vez mais próximo era ir combater nas colónias ou, entre os mais esclarecidos, exilar-se na Europa para fugir à tropa, o 25 de Abril surgiu como libertação desses medos e sempre associado à total liberdade, em oposição ao clima opressivo, no quotidiano, nas relações sociais e na cultura, que se vivia com o salazarismo.

Ao longo desse período a minha vida cruzou-se em várias realidades, uma como estudante do liceu e membro activo da sua associação de estudantes, outra como membro activo do Cine-clube local, actividade que vinha de antes do 25 de Abril, desde 1973 e outra como um jovem que despertava para a realidade política, esta também iniciada nos finais de 1973 participando activamente e na clandestinidade na organização local do MDP-CDE, colaborando com o PCP, mas não militando nesse partido.

Considerava-me então social-democrata e nutria alguma admiração por Mário Soares, pelo que aderi ao PS logo a seguir ao 25 de Abril, em Junho de 1974.

Se os primeiros meses foram de grande euforia e de grande voluntarismo, o tal “dia inicial inteiro e limpo” tão bem descrito por Sophia De Mello Breyner Anderson, a partir dos princípios de 1975, mas principalmente a partir do 11 de Março, a ingenuidade política começou a perder-se e as clivagens e conflitos começaram a avolumar-se, tendo como pano de fundo a radicalização do confronto político pelo poder entre os grandes partidos políticos e no seio dos próprios militares .

Nos finais de 1974 comecei a entrar em ruptura com o PS e, em Janeiro de 1975, acompanhei a saída de Manuel Serra, que, no primeiro congresso do Partido Socialista na legalidade, realizado em Dezembro de 74, havia perdido a sua candidatura à liderança do partido para Mário Soares.

Aderi então a um dos poucos partidos da esquerda radical que não era stalinistas, e trazia em si uma imagem romântica, a LUAR de Palma Inácio, que muitos consideravam que era uma espécie de “braço armado” do PS.

Devo dizer que só vi uma arma por uma ocasião, numa noite do verão de 75, onde se anunciava um golpe de estado iminente e nos “preparámos” para nos defendermos, passando uma noite em claro na “Galeria 70” com uma pistola, que nunca soube se estava carregada ou não, que eu mexia a medo, receando que disparasse por si, e que ficou á minha guarda até que, no principio da madrugada, um responsável da organização, conhecido por Fernando Belga, e que se deslocava num Porche de matrícula belga, a veio recolher, já que o tal golpe de Estado da direita não tinha tido lugar.

A situação política começou a azedar-se ao longo do ano de 1975, a sociedade dividiu-se em quatro grande tendências, a tendência terrorista de direita, do MDLP e do ELP, a tendência “democrática”, legitimada pelas eleições Constituintes de 25 de Abril de 1975, do PS, PSD e CDS, liderada por Mário Soares , com o apoio do embaixador dos Estados Unidos e da “europa” democrática, e à qual se juntou o chamado “Grupo dos Nove”, formalizado em Agosto de 1975 sob a liderança de Melo Antunes, a tendência "comunista", MDP , PCP e CGTP, organizada à volta de Vasco Gonçalves, e a tendência “esquerdista” e “revolucionária”, que juntava vários grupúsculos da esquerda radical, à volta de Otelo Saraiva de Carvalho, sendo nesta tendência que eu e a Luar então gravitávamos. Havia ainda outras tendências menos significativas, mas bastante activas e barulhentas, os maoistas do PCP(m-l) e do MRPP, para além dos anarquistas, um grupo já muito envelhecido e pouco activo, com quem tive alguns contactos, nomeadamente como assinante de "A Voz Anarquista"  e do jornal "A Batalha", tendo conhecido o velho e histórico Emídio Santana, célebre pelo atentado contra Salazar em 1937.

O Verão de 1975 foi vivido sob constantes rumores de golpes e contra-golpes, com manifestações de rua cada vez mais descontroladas e violentas, com a extrema-direita muito activa, desencadeando vários ataques bombistas, assassinatos políticos e destruição de sedes de partidos de esquerda .

Em 8 de Agosto de 1975 tomou posse o V governo provisório, liderado por Vasco Gonçalves, com a oposição frontal do PS e dos partidos à sua direita e no qual, pela primeira vez, não participava nenhum representante do PS ou do PSD. Também não participava nenhum elemento de topo do PCP, embora fosse apoiado por este partido.

Se olharmos para a composição desse governo ficamos perplexos com a s acusações que sobre ele recaiu de “extremismo de esquerda”. Nela participaram figuras como Mário Ruivo, Mário Murteira, ou Pereira de Moura, ou ainda o conhecido economista, recentemente falecido José da Silva Lopes.

Esse governo, o único verdadeiramente “gonçalvista”,  durou pouco mais de um mês, sendo derrubado em 19 de Setembro e substituído por aquele que seria o último governo provisório, liderado por Pinheiro de Azevedo e com a participação activa do PSD e do PS.

Os meses que se seguiram à tomada de posse deste VIº governo foram de grande vertigem política e de grande radicalismo, uma luta cada vez mais acesa entre a “esquerda” , que fugia cada vez mais ao controle do PCP, e a “direita” que se mostrava cada vez mais agressiva .

A contagem de armas entre as três facções militares do MFA, “otelistas”, “gonçalvistas” e “melo-antunistas”, pareciam conduzir o país para a guerra-civil ou para um golpe militar.

Pessoalmente, comecei nessa altura a desiludir-me com  a vida política e a “fechar-me” mais noutro tipo de actividades, mais ligadas à vida cultural. Por outro lado, tinha acabado o liceu e iniciava um período de “travessia no deserto”, que durou até Outubro de 1976, e de espera para entrar na faculdade, pois tinha sido criado um ano de interregno para entrar no ensino superior, o chamado “serviço cívico”, que daria lugar, mais tarde, ao “ano propedêutico” e que “corresponde” ao actual 12º ano.

Pessoalmente sofreria um drama pessoal com o falecimento do meu pai, no dia 9 de Outubro de 1975, o que muito me destabilizou emocionalmente .

Durante algumas semanas, após o falecimento do meu pai, isolei-me voluntariamente de quase tudo, voltando à actividade cultural e política em  meados de Novembro, indo cair numa realidade cada vez mais tenebrosa e perigosa.

O mês de Novembro de 1975 foi fértil em acontecimentos preocupantes.

Entre 11 e 13 de Novembro os trabalhadores da construção civil cercaram a Assembleia Constituinte, exigindo aumento de salários, abandonando o cerco depois do governo ceder às suas reivindicações, mas deixando grandes marcas no clima crispado que então se vivia.

Depois de termos assistido a um governo que mandou fazer rebentar uma bomba no retransmissor da Rádio Renascença, que tinha sido há meses ocupada por trabalhadores conotados com a esquerda radical, esse mesmo governo, liderado por Pinheiro de Azevedo toma uma decisão mundialmente inédita, entra em “greve” suspendendo a sua acção, em protesto contra a oposição que lhe é feita nas ruas, isto no dia 20 de Novembro.

No dia seguinte, Otelo Saraiva de Carvalho é destituído de comandante da Região Militar de Lisboa, substituído por um homem dos “nove”, Vasco Lourenço, o que é visto como uma provocação pelos sectores militares mais à esquerda.

Também, por essa altura, o chefe do Estado maior da Força Aérea, Morais da Silva, decide passar à disponibilidade mil militares pára-quedistas de Tancos, o que provoca grande descontentamento nesta unidade, conhecida por ter sido apoiante de Spínola no golpe de 11 de Março, mas que agora estava virada à esquerda.

Na noite de 24 de Novembro, antecipando-se ao golpe de estado eminente, a CAP, ligada à extrema direita, corta as estradas de acesso a Lisboa na zona de Rio Maior.

Este foi um episódio nunca devidamente esclarecido e comprometedor para a narrativa dos que defendem que o 25 de Novembro resultou de uma conspiração da esquerda.

Este acto é uma das provas que o 25 de Novembro não foi um golpe perpetrado pela “esquerda”, de forma pensada e ponderada, mas que teve origem no objectivo do sector “moderado” do MFA de levar a esquerda  militar a cair na armadilha da provocação.

E foi isso que aconteceu no dia 25 de Novembro, quando os pára-quedistas, descontentes com a decisão de Morais e Silva, resolvem ocupar Tancos e várias bases aéreas.

Reagindo, mais na defensiva do que num qualquer movimento de tomada de poder revolucionários, várias unidades militares conotadas com a esquerda ocuparam posições. O RALIS toma posições em Lisboa, a Escola Prática de Administração Militar ocupa a RTP e a Polícia Militar toma a Emissora Nacional.

Mas não recebem, nem o apoio de Otelo, retido entretanto pelo Presidente Costa Gomes em Belém, nem do PCP, que, embora de prevenção, se recusa a mobilizar os seus militantes para qualquer acção revolucionária ou golpista.

Costa Gomes decreta o Estado de Sítio em toda a região militar de Lisboa.

Entregues a si próprios, os militares que caíram na armadilha são rapidamente dominados, pois o “grupo do 9” tinha tudo preparado para aproveitar qualquer passo em falso da esquerda militar para tomar conta da situação e conseguir afastar de vez qualquer hipótese de tomada do poder por revolucionários.

O acontecimento mais sangrento aconteceu no dia 26, quando os comandos da Amadora, liderados por Jaime Neves, assaltaram o Regimento de Polícia Militar na Ajuda, provocando 3 mortos. A atitude de Jaime Neves, que terá agido por conta própria, contrastou com a de Ramalho Eanes que resistiu aos apelos de sectores da direita para bombardear as unidades de Lisboa.

Neste mesmo dia Melo Antunes trava a tentativa de aproveitamento revanchista da direita, declarando que o PCP era “indispensável à consolidação da Democracia”.

Pessoalmente, embora o ambiente fosse escaldante, de pré guerra civil, e frequentes os rumores de golpes de estado eminentes, fui apanhado de surpresa pelos acontecimentos desse dia que, inicialmente, encarei como mais uma mera manifestação de desagrado de sectores da extrema esquerda militar pela demissão de Otelo.

Ao longo do dia, entretanto, fui-me apercebendo que algo de mais grave se passava e recordo-me que, no início da noite, passando na Avenida 5 de Outubro, já não me lembro de/ou para onde ía, passar frente ao café Vera Cruz, situado frente ao local onde hoje está a Câmara Municipal de Torres Vedras, toda a gente virada para a televisão onde falava Duram Clemente e de repente este dizer que lhe estavam a fazer sinal, que a emissão tinha de ser interrompida e, de repente,  todo o écran ficar escuro e a  RTP passar a exibir um filme, para grande alegria dos que estavam nesse café, muito frequentado por gente da direita, alguns até, dizia-se, ligados ao MDLP.

Nessa noite, e perante a censura à imprensa então imposta, lembro-me que o pessoal da minha área se juntou na sede da UDP, o único partido da esquerda radical que possuía sede em Torres Vedras, situada no inicio da escadaria da rua dos Cavaleiros da Espora Doura, que dava acesso ao Castelo.

Não era militante da UDP, continuava ligado à LUAR,  mas tinha aí amigos que me tinham acompanhado na associação de estudantes no ano lectivo de 1974/75. Esta associação tinha, no inicio de 1975, sido vencedora das eleições contra um lista da UEC (do PCP), e tinha sido formada por uma coligação de gente de vários grupúsculos de esquerda para onde tinham ido muitos antigos militantes dissidentes  da Juventude Socialista, reunindo gente anarquista, do MRPP, da futura UDP, trostskistas, da LUAR, do PRP e outros sem filiação e com o apoio, não declarado, das juventudes do PSD e do CDS, que votaram na nossa lista.

Como a única informação que rompia a censura eram os comunicados da UDP, participei na distribuição, ao longo dessa noite de 25 de Novembro, pelas ruas de Torres Vedras , dos comunicados desse partido, com a sua versão dos acontecimentos.

Lembro-me de um episódio que me surpreendeu.

Fui distribuir esses panfletos no café Avenida, no final da Av. 5 de Outubro, onde hoje está o prédio com o túnel de ligação entre essa avenida e o Largo da Graça, e que era um café frequentado maioritariamente por gente do PCP, julgando que esse partido estava do mesmo lado do resto da esquerda, mas, para grande surpresa minha, fomos recebido com hostilidade, o que me levou a concluir que o PCP nada tinha a haver com o 25 de Novembro. Soube-se mais tarde que o PCP já se tinha comprometido em nada fazer nesse dia.

No dia seguinte, dia 26,  as notícias continuavam escassas e, à noite, junto ao Largo do café Império, onde me costumava encontrar com o pessoal amigo, alguns de nós resolvemos ir a Lisboa para saber o que se passava. Tínhamos de voltar cedo por causa do recolher obrigatório, mas lá partimos, num carro conduzido pela Guilhermina, nossa amiga e  professora no liceu, um Fiat 127, salvo erro de cor avermelhada, eu, o Carlos Ferreira, e o saudoso Jorge Barata.

Devemos ter partidos pouco depois das oito horas da noite. A viagem para Lisboa levava então cerca de hora e meia, não havia auto-estrada. Chegados a Lisboa, pouco depois das nove da noite, fomos a casa de um amigo da Guilhermina, o Carlos Godinho, que vivia na rua Actor Taborda , perto do Saldanha. Aí recolhemos mais informações, não sei se alguns documentos para distribuir em Torres e metemo-nos à estrada, já eram quase onze da noite, um pouco preocupados porque só chegaríamos a Torres depois da meia-noite, já com o recolher obrigatório em vigor.

Quando entrámos em Loures, numa curva pronunciada, junto ao posto da policia de viação, onde hoje há o desvio para a A8, junto ao jardim, o carro começou a derrapar porque havia uma fuga de água que atravessava o asfalto nesse sítio e o Barata, que segui ao lado do condutor, assustado, puxou o travão de mão e o carro começou a entrar em pião só parando contra uma árvore. A Guilhermina desmaiou com traumatismo na cabeça, eu parti a cabeça, os outros ficaram apenas aturdidos.Escusado será dizer que nessa altura ninguém usava cintos de segurança.

Quando chegou a ambulância já estávamos todos fora do carro, a Guilhermina já tinha acordado e fomos levados para o Hospital de Santa Maria. Aqui a Guilhermina, como tinha desmaiado, teve de ficar internada, eu fui cozido na cabeça  com 5 pontos, e deram-me alta juntamente com o Carlos e o Barata.

Só que agora tínhamos um problema. Lisboa já estava sob recolher obrigatório e não havia transportes.  O polícia de plantão no hospital não nos deixou telefonar para casa e só se comprometeu em telefonar para que uma ambulância nos viesse buscar para nos deixar nalgum sitio em Lisboa. Nós só conhecíamos um lugar, a casa do Carlos Godinho, mas também não lhe podíamos telefonar. O Policia lá mandou vir a ambulância.

Estávamos eu, o Carlos e o Barata sentado no lado de fora das urgências do hospital, quando entra uma ambulância em grande velocidade e a apitar muito, tendo eu comentado “vem aí alguém muito mal”. Para grande surpresa nossa sai o condutor da ambulância a perguntar “onde estão os feridos para levar?”. Olhámos uns para os outros e dissemos: “Ah!! Devemos ser nós!!!”. O polícia deve ter-se explicado mal no telefonema que fez, pois os homens da ambulância esperavam alguém em pior estado e ficaram aborrecidos connosco, mas lá nos levaram à casa do Carlos Godinho.

Atravessámos a cidade de Lisboa, entre o Hospital de Stª Maria e a Rua Actor Taborda, atravessando o Campo Grande, o Campo Pequeno e o Saldanha, conseguindo ver,  atrás das janelas da ambulância, a grande quantidade de  tanques,  carros militares e tropas que estavam nas ruas, com  a ambulância sempre a apitar para não serem parados pelo exército.

Ainda antes de nos deixarem na casa do Carlos Godinho, fomos à sede da “Ordem de Malta” aí perto, à qual pertencia a ambulância,  para poder telefonar para casa, já que só se podia fazer um telefonema. Falei com a minha mãe e pedi-lhe  para avisar o pai do Carlos  e a mãe do Barata, mas, como o recolher obrigatório já estava a decorrer  também em Torres Vedras, a minha mãe só pode avisá-los na manhã seguinte. Era esta a situação numa época em que não havia telemóveis.

Lá fomos na ambulância para casa do Carlos Godinho que nos recebeu com surpresa, pois também não o tínhamos podido avisar.

No dia seguinte de manhã, andámos por Lisboa, antes de apanhar o comboio para Torres e lembro-me que avida nas ruas decorria com a normalidade do costume, só com a interrupção frequente dos voos rasantes dos aviões militares, os célebres "Fiat's".

Regressados a Torres, na noite do dia 27, ainda andámos a vender as edições proibidas do jornal “República” , então ocupado por trabalhadores da esquerda radical, rompendo com a censura geral à imprensa.

Neste mesmo dia Ramalho Eanes é nomeado Chefe de Estado-Maior do Exército.

Reconheço que tememos pelo desenlace desse momento. Ver Ramalho Eanes de óculos escuros, fazendo lembrar Pinochet, ao lado de um cowboy camuflado, Jaime Neves, remetia-nos para o pior dos cenários.

Felizmente havia um Melo Antunes e um Costa Gomes que souberam evitar qualquer revanchismo da direita e o próprio Ramalho  Eanes, apesar da sua figura, que na altura nos parecia algo sinistra, era um militar responsável e moderado.

O Estado de Sítio foi levantado a 2 de Dezembro.

A pouco e pouco tudo voltou à normalidade e a democracia prosseguiu o seu caminho de consolidação.

Em 1976 realizaram-se eleições legislativa, eleições municipais e Ramalho Eanes foi eleito Presidente da República.

Há muito que o “dia inicial, inteiro e limpo” se tinha transformado num “dia penoso, esfrangalhado e muito escuro”, à beira do precipício, e o 25 de Novembro foi o resultado óbvio desse final de “festa”.

Hoje, a esta distância, reconheço que o 25 de Novembro foi um momento necessário para a consolidação da democracia e para se evitar que o país tivesse entrado em guerra civil ou se desse um golpe militar sangrento  ao estilo da América Latina.

terça-feira, 22 de abril de 2014

Homenagem a Gabriel Garcia Marquez: recordando uma sua passagem por Lisboa em plena Revolução de Abril:

Ao retomarmos a edição deste blogue, não podiamos deixar de referir um dos acontecimentos passados nestes dias de ausência, a morte de Gabriel Garcia Marquez, a sua passagem por Lisboa em 1975, aqui recordada numa reportagem do jornalista Ricardo J. Rodrigues do Diário de Notícias:

"A HISTÓRIA DE GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ EM LISBOA



Por: Ricardo J. Rodrigues, na Colômbia, Diário de Notícias on-line 17/04/2014

"No Verão Quente de 1975, Gabriel García Márquez veio passar duas semanas a Portugal. Encontrou-se com escritores e poetas, comoveu-se com o processo revolucionário e escreveu três reportagens para a revista que ele próprio tinha fundado, um ano antes, na Colômbia. Relato de uma viagem esquecida, reconstruída a partir de Lisboa, Bogotá e Cartagena de Índias.

"O postal de García Márquez chegou ao destino três semanas depois de enviado. Era uma fotografia da Ponte 25 de abril, com o Cristo Rei em fundo, e dizia apenas isto: «Lisboa é a maior aldeia do mundo. Quando chegar, conto-te desta revolução.» Juan Gossaín – um dos mais notáveis jornalistas colombianos e amigo do escritor desde os anos cinquenta – recebeu o correio na sua casa de Cartagena de Índias e não pôde deixar de sorrir. Gabriel, a quem trata carinhosamente por Gabo, tinha chegado à Colômbia muito antes da correspondência. E a viagem a Portugal já tinha sido largamente discutida numa conversa telefónica, dias antes. «Tenho pena, perdi esse postal há décadas, numa mudança de casa.» Mas, por uma questão de provocação, Gossaín nunca o esqueceu: «Desde esse tempo, sempre que nos encontramos, despeço-me de Gabo dizendo que ele ainda me deve uma conversa sobre Lisboa.»

"García Márquez aterrou no aeroporto da Portela no primeiro dia de junho de 1975, proveniente de Roma. «Tive a sensação de estar a viver de novo a experiência juvenil de uma primeira chegada. Não só pelo verão prematuro em Portugal e pelo odor a marisco, mas também pelos ventos e pelos ares de uma liberdade nova que se respiravam por toda a parte.» Estas palavras publicou-as ele, um mês mais tarde, na revista Alternativa, um semanário criado por si e por um grupo de intelectuais da esquerda colombiana, no ano anterior. «Por esta altura já tinha escrito Cem Anos de Solidão, era um romancista reputado e estava envolvido em muitas organizações internacionais», conta em Bogotá o jornalista Antonio Caballero, outro dos fundadores. «Viajava pelo mundo fora, ou a promover a sua obra ou em reuniões de trabalho. E às vezes ficava mais dois ou três dias num sítio para fazer peças jornalísticas.» Em Portugal, permaneceu duas semanas.

"É preciso dar muitas voltas à capital colombiana para encontrar os textos que Gabo escreveu sobre Lisboa. Na Rua 21 há uma série de alfarrabistas, mas é praticamente impossível encontrar uma edição da Alternativa. «Tivemos governos de direita muito fortes, e ter uma edição destas podia indicar que a pessoa era subversiva e perigosa», conta don Jimeno, dono da Libreria Mundial, que todos conhecem por Libreria Obscura – porque era ali que no final dos anos setenta se vendiam as obras da esquerda mais radical. Não só não tem uma única cópia para vender, como há anos não põe os olhos em cima de uma dessas revistas. Tente-se a biblioteca do Centro Cultural García Márquez, no bairro histórico da Candelária. Nada.

"Dois quarteirões acima reside a derradeira esperança: a hemeroteca. E é então que, encadernados num livro azul e pesado, se encontram os números 40, 41 e 42, publicados em 30 de junho, 7 e 14 de julho de 1975, respetivamente. Não podem ser digitalizados, mas podem ser fotocopiados. Fazem-se algumas fotografias à socapa, com o telemóvel. Um artigo chama-se «Portugal, território livre da Europa» e é pura reportagem, descrições de ambientes, de cheiros e das vivências de rua. Outro, «O socialismo ao alcance dos militares», um ensaio sobre a revolução portuguesa e o facto de as Forças Armadas terem organizado um golpe sem quererem guardar o poder para si. E ainda há um texto sobre o xadrez político do período revolucionário, as pressões europeias e americanas, os movimentos de organização popular. O título dessa reportagem, a segunda, encerra uma daquelas perguntas que ficaram até hoje por responder: «Pero que carajo piensa el pueblo?»

"Gabo tinha chegado a Lisboa depois de um voo atribulado. «Ele tinha um medo danado de viajar de avião, até chegou a escrever uma crónica sobre o assunto», conta Jaime García Márquez, irmão do escritor, no alto de um terraço com vista para a catedral de Cartagena de Índias. Está um dia quente e húmido, como são todos os dias na cidade caribenha. O escritor mora parte do ano ali perto, numa casa de muros vermelhos e altos. Não dá entrevistas, não faz aparições públicas e, anunciou o irmão mais novo, não voltará a escrever. Tem 86 anos e um diagnóstico de demência que lhe secou as palavras. «Pois Gabo, que nunca foi religioso, nesse voo para Portugal encomendou duas ou três vezes a alma à Virgem de Guadalupe. Ele costumava dizer que o único medo que um latino confessa é o de viajar de avião. E é verdade.»

"Ao lado de Gabriel García Márquez viajava Alfonso Fuenmayor, um jornalista de Barranquilla, de quem se tornara amigo, duas décadas antes, na redação do El Heraldo. Nesse tempo, Gabo era vice-presidente do Tribunal Russell, o tribunal internacional de crimes de guerra. Com a chegada de Pinochet ao poder no Chile e a ditadura militar brasileira numa das fases mais ferozes, havia a hipótese de abrir uma secção para a América Latina em Lisboa. Alfonso, que andava em viagem pela Europa, veio para dar uma ajuda na avaliação. Mas com o Verão Quente em pleno, a instabilidade política no país encarregar-se-ia de anular o projeto.

"Ficaram instalados no Ritz e, escreveu García Márquez no seu artigo, durante uma boa parte da estada só havia dois hóspedes no hotel – eles. «Lisboa é uma das mais belas cidades do mundo e, até há um ano, era também uma das mais tristes, por obra de uma rara ditadura medieval que durou quase meio século e cuja força se fundava numa polícia política inclemente. É um país de pobres que enfrenta obstáculos terríveis e uma pressão tremenda. Por causa da sua posição geográfica, está obrigado a sentar-se de sapatos rotos e casaco remendado na mesa dos mais ricos e sofisticados do mundo.» Gabo considerava que a sociedade portuguesa era mais próxima da sul-americana, mas que o país tinha uma espada sobre a cabeça para se tornar europeu. «Nos restaurantes caros, os mariscos exibem-se como joias nas vitrinas, mas são intocáveis, um luxo burguês. Nos restaurantes populares, onde se come um delicioso arroz com sangue de galinha, os empregados debatem-se com uma dúvida: no regime atual, é justo que recebam gorjeta?»

"Um dia depois da sua chegada a Lisboa, os primeiros deputados eleitos em liberdade tomavam posse no Parlamento. Gabo decidiu fazer a cobertura da sessão solene de abertura da Assembleia Constituinte e, aí, cruzou-se com alguns dos mais emblemáticos nomes das letras portuguesas. Juntou-se um grupo que acabaria por ir jantar nessa noite à Varanda do Chanceler, um restaurante de Alfama (o mesmo onde Natália Correia haveria de apresentar Francisco Sá Carneiro a Snu Abecassis). No repasto estavam José Cardoso Pires, Fernando Namora e Luís de Sttau Monteiro. Também estava presente o poeta José Gomes Ferreira, na altura presidente da Sociedade Portuguesa de Escritores.

"Esse encontro com García Márquez causou forte impressão em Gomes Ferreira. O poeta português – cujo poema Acordai, musicado por Lopes-Graça, tem servido de hino a vários protestos recentes – escreveria até algumas notas, após uma conversa com o escritor colombiano. Estes escritos nunca foram publicados, são inéditos e íntimos, papéis em bruto. Foram cedidos pelo seu filho, o arquiteto Raul Hestnes Ferreira. «García Márquez, à despedida, disse-me: “Buena sorte!” Tremi. O García Márquez: “Os portugueses são muito parecidos com os latino-americanos. Os espanhóis são mais severos, mais hirtos. Mais senhores solenes. Anos de tempestades”.» Em 3 de junho, nova entrada no diário, um quase-poema: «Quando o García Márquez se despediu, desejando-me buena sorte, lembrou-se do Chile. Felizmente é a própria morte que me defende da morte. Que me importa viver mais um dia ou menos um dia? Sim, importa – diz-me a boca de uma nuvem que me acompanha noite e dia.»

"O QUE VAI DAR CABO DA REVOLUÇÃO É A CONTA DA LUZ

"A partir daquele jantar na Varanda do Chanceler, Gabo não voltou a estar sozinho em Lisboa. «Entre entrevistas com Vasco Gonçalves, Melo Antunes e Saramago, que nessa altura estava no Diário de Notícias [era director adjunto]», lembra Ernesto Santos Calderón, um dos mais importantes jornalistas da Colômbia, um dos melhores amigos de García Márquez e um dos fundadores da Alternativa, «também fez muitos amigos e divertiu-se bastante em Lisboa».

"José Carlos Vasconcelos, diretor do Jornal de Letras, lembra-se de ver o escritor colombiano na festa de aniversário de José Gomes Ferreira, na noite de 9 para 10 de junho, e novamente na Varanda do Chanceler. «Brincávamos todos juntos a dizer que o Gomes Ferreira tinha a mania das grandezas, queria nascer no dia de Camões.» Maria Velho da Costa conheceu García Márquez em casa de Sttau Monteiro. «Aquilo era para ser uma festa, mas estava a tornar-se numa tertúlia, era uma chatice tremenda. Às tantas Gabo perguntou-me se queria fugir dali.» Despediram-se rapidamente, saíram, apanharam um táxi para o Bairro Alto. «A minha memória funciona por imagens fotográficas», diz a escritora. «Lembro-me de descermos a rua em conversa animada. Lembro-me de que ele usava um fato de ganga, calças e casaco. E lembro-me de ficarmos umas boas horas num bar, a conversar e a beber whisky.» Às tantas, o colombiano disse que à revolução portuguesa não faltava heroísmo, faltava prudência e imaginação. «Então estamos bem tramados», respondeu Maria Velho da Costa. «Porque o povo português é como o diabo, sabe mais por velho do que por ser povo.» Essa sentença, descobriu a escritora portuguesa há uns dias, foi a frase com que García Márquez rematou a sua última reportagem em Portugal.

"A amizade mais estreita de Gabo em Lisboa era, no entanto, com o autor de Balada da Praia dos Cães. Tinham-se conhecido anos antes em Londres, quando ambos trabalhavam para o serviço internacional da BBC. Edite Cardoso Pires recorda-se dos encontros no terraço do Hotel Mundial, com vista para o Martim Moniz, epicentro da multiculturalidade da cidade. «A influência negra é notável em Portugal, manifesta-se mesmo no caráter dos portugueses», escreveu García Márquez. «E todo o país está saturado pela música quente de Cabo Verde e Angola, que parece a música do nosso trópico.» Era 1975, ano de independência das colónias. Gabo apanhou em cheio a chegada de refugiados, portugueses e africanos, e o regresso de soldados do ultramar. Em 1976, haveria de viajar várias vezes para Angola e escrever um artigo para a Alternativa sobre os novos ares de liberdade e as pressões que vinham de fora, fossem elas de Cuba ou da África do Sul.

"A teoria que Gabo expressou nos seus textos não era apenas a de um país cercado, era também o de um país dividido. «Desde a praça do Rossio até ao canto mais remoto e esquecido da província, não há um centímetro de parede, nem um sinal de trânsito, nem o pedestal de uma estátua que não tenha sido pintado com uma mensagem política. Os comunistas pedem unidade sindical. Os socialistas dizem que socialismo sim, mas com liberdades. A extrema-esquerda protesta contra o imperialismo capitalista, os liberais dizem que o voto é a arma do povo e os anarquistas contestam,que a arma é que é o voto do povo. À noite, a reação lança granadas contra as lojas, envenenando o mundo inteiro com o rumor infame que o Portugal formoso e tranquilo das canções morreu.».

"Ao mesmo tempo, o povo parecia querer ignorar as rivalidades, entregando-se à embriaguez feliz de Abril: «O erotismo invadiu os cinemas e os quiosques de jornais, fazendo que milhares de espanhóis atravessem ao fim de semana a fronteira para poderem ver o filme mais proibido em Madrid, O Último Tango em Paris. Lisboa tornou-se uma cidade movimentada, com acidentes de viação espetaculares, não só porque os portugueses conduzem de uma maneira intrépida, mas também porque estão genuinamente contentes – e por isso deixaram de respeitar os semáforos.».

"Há uma prudência enorme nos textos de Gabo sobre Lisboa, o escritor quase anuncia que a Revolução tem os dias contados, que a Europa, os Estados Unidos e as divisões internas arrastarão inevitavelmente o país para longe da sua essência. García Márquez teme o rumo que as elites estão a tomar, mas encontra nobreza no povo. «Toda a gente fala e ninguém dorme, às quatro da manhã de uma quinta-feira qualquer não havia um único táxi desocupado. A maioria das pessoas trabalha sem horários e sem pausas, apesar de os portugueses terem os salários mais baixos da Europa. Marcam-se reuniões para altas horas da noite, os escritórios ficam de luzes acesas até de madrugada. Se alguma coisa vai dar cabo desta revolução é a conta da luz.»


"O MAIS BELO DOS OFÍCIOS

«Sou fundamentalmente um jornalista», disse o maior romancista colombiano, há 22 anos, numa entrevista a uma rádio de Bogotá. «O jornalismo é uma paixão insaciável que só pode ser digerida e humanizada no confronto descarnado com a realidade. Quem não tiver nascido para isto, quem não estiver disposto a viver exclusivamente para isto, jamais poderá permanecer neste ofício incompreensível e voraz, cuja obra termina após cada notícia, como se fosse para sempre, mas que não concede tréguas até começar tudo de novo, com mais ardor do que nunca, no minuto seguinte.» Gabo, que se tornou um dos escritores mais influentes do mundo, que ganhou um Nobel a escrever ficção, sempre considerou que a melhor das narrativas era a realidade.

"As suas reportagens sobre Lisboa não tiveram grande impacte na Colômbia, mas ele insistiu sempre na necessidade de escrever histórias como aquelas para que lentamente os horizontes dos cidadãos se abrissem. «As edições que tinham estes temas internacionais eram as que menos vendiam», recorda Enrique Santos Calderón. «Mas Gabo tinha avançado com o dinheiro e queria escrever sobre Portugal, como depois quis escrever sobre Cuba e mais tarde sobre Angola.» O seu interesse sobre o país tinha mais de um ano. «Entre 1968 e 1974, García Márquez viveu em Barcelona, foi lá que escreveu OOutono do Patriarca. Logo a seguir à Revolução dos Cravos, ele pegou no carro e foi até à fronteira portuguesa, mas não o deixaram entrar porque não tinha visto.».

"Desde o final de 1973 que o homem andava em trânsito: Barcelona, Bogotá e Cartagena de Índias. No ano anterior tinha ganho, com Cem Anos de Solidão o prémio literário venezuelano Rómulo Gallegos, o mais importante da América Latina, no valor de cem mil dólares. Uma parte desse dinheiro foi usada para fundar a revista Alternativa. «Depois da morte de Allende e da subida ao poder de Pinochet, tornara-se claro que a esquerda na América Latina precisava de esquecer as divisões e de se unir em torno de um projeto comum», explica Antonio Cavallero. «No primeiro número, em fevereiro de 1974, esgotámos a edição e num instante chegámos aos quarenta mil exemplares. A nossa filosofia era dar uma visão de esquerda, mas tratar os assuntos com rigor.».

"Portugal foi a primeira grande reportagem no estrangeiro da Alternativa. Nos anos seguintes, García Márquez haveria de escrever artigos sobre Cuba, Angola, Espanha, Panamá, Rússia e Vietname. «Não quero um boletim sindical, quero um jornalismo sério e comprometido até ao tutano», repetia uma e outra vez, nas reuniões que se prolongavam até altas horas da noite, em casa de Enrique Santos Calderón. As rivalidades internas e as pressões do governo fizeram Gabo desistir do projeto em 1980 e mudar-se para a cidade do México. Até 1978, a presidência de Alfonso López tinha dado alguma margem de manobra à Alternativa. A subida ao poder do governo conservador de Julio César Turbay coincidiu com o aperto do cerco ao escritor. Algumas figuras poderosas do país, nomeadamente a família Santo Domingo, anunciaram cortes de relações. «A saída da Colômbia foi um exílio não declarado», diz Jaime Abelló, presidente da Fundação de Novo Jornalismo Ibero-Americano, que ambos fundaram em Cartagena de Índias há 19 anos.
Jaime García Márquez é perentório: «O período mais político da vida do meu irmão começou com a revolução cubana e terminou com o fim da revista Alternativa.» Ao contrário do senso comum, diz ele, Gabo nunca foi comunista. «Era amigo de Fidel Castro, sim, mas também se dava com Henry Kissinger [secretário de Estado norte-americano entre 1969 e 1977], apesar de discordar dele. Fascinavam-lhe as lutas de classes, as transformações sociais, a ascensão do povo, tanto quanto era fascinado pelo poder. Toda a sua obra, de Cem Anos de Solidão a OOutono do Patriarca, passando por O General no Seu Labirinto e Ninguém Escreve ao Coronel, fala da solidão do poder, da subida ao poder e das vítimas do poder.».

"Juan Gossaín, o jornalista que recebeu um postal lisboeta de Gabo, acredita que houve um pouco desse fascínio no seu encantamento por Portugal. «A ele sempre lhe fascinou a ideia do ditador e, comparado a Franco, Salazar era mais tropical. Lisboa parecia uma cidade do Caribe e a figura de Spínola, que no fim do século xx ainda usava monóculo, era digna do realismo mágico dos seus livros.» Esta, diz Gossaín, era a conversa antes de partir para Portugal. Quando voltou, vinha doido com três descobertas: o Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa, os fados de Amália e o despojamento dos militares em relação ao poder. «Mas a primeira coisa que ele me disse foi que, ao contrário do que eu pudesse pensar, a feijoada não era um exclusivo brasileiro. E garantiu-me que comeu a melhor feijoada da sua vida num restaurante que não tinha mais de seis mesas, num bairro pobre de Lisboa.».

"CRÓNICA DE UMA MORTE ANUNCIADA

"O anúncio feito por Jaime García Márquez em julho do ano passado causou alguma consternação no mundo literário. Aos 85 anos, o mais lido dos autores latino-americanos e um dos romancistas mais reconhecidos do mundo deixou de escrever. Não é bem uma morte, mas é um ponto final em tudo o que definiu a sua vida. A sua autobiografia chamava-se, precisamente, Viver para Contá-la.

"Nascido em 1927 em Aracataca, no Caribe colombiano, Gabriel foi o mais velho de 12 irmãos. Estudou Direito em Bogotá, mas, aos 21 anos, decidiu abandonar os estudos para se dedicar ao jornalismo. Mudou-se para Cartagena de Índias e empregou-se no El Universal. Daí rumou a Barranquilla, outra cidade caribenha, onde escreveu uma crónica que deu nas vistas, «Septimus». Até que, ao serviço de um dos principais jornais do país, El Espectador, se tornou conhecido em todo o país. Ao longo de uma série de 14 episódios contou a história do naufrágio de um barco e conseguiu com isso pôr em causa todo o governo colombiano. Os fascículos haveriam de ser reunidos no livro Relato de Um Náufrago.

"Depois da afronta ao executivo, o jornal decidiu enviá-lo como correspondente para a Europa. Foi aí que o homem começou a dedicar-se seriamente à escrita. Em 1955, já tinha publicado um romance que escrevera aos 18 anos, LaHojarasca e, em 1967, edita Cem Anos de Solidão, um romance centrado na imaginária terra de Macondo e das sete gerações da família Buendía. Considerada a obra maior do realismo mágico, até hoje, é indubitavelmente o livro de referência de Gabo. Graças a este romance e a O Outono do Patriarca [1975], ganhou todos os prémios que podia ganhar, incluindo o Nobel da Literatura, em 1982.

"Voltou ao jornalismo em 1974, para fundar a revista Alternativa, aventurando-se no jornalismo político. Aproveitou a sua reputação para viajar pelo mundo e, nesse contexto, veio a Lisboa em 1975, perceber a revolução e o período que se lhe seguiu. Apesar de ser já uma figura de proa das letras mundiais, essa viagem foi praticamente ignorada em Portugal, merecendo referências brevíssimas no Diário de Notícias, Jornal de Letras e no extinto Diário Popular. Em 1980, abandonaria o jornalismo, ao qual só voltaria em 1994, para fundar com Jaime Abelló uma fundação em Cartagena de Índias que promovesse a ética profissional e a investigação na América Latina e na Península Ibérica.

"Crónica de Uma Morte Anunciada, Do Amor e Outros Demónios, O General no Seu Labirinto, O Amor nos Tempos de Cólera e Memórias das Minhas Putas Tristes são algumas das suas obras mais relevantes. Há um mês, saiu na Colômbia uma coletânea de reportagens de Gabriel García Márquez, com o título Gabo Periodista. Reúne crónicas, reportagens e ensaios. Entre os trabalhos publicados não há registo de nenhuma das histórias que escreveu sobre Portugal".

[Publicado originalmente na edição de 28 de abril de 2013]