Pesquisar neste blogue

Mostrar mensagens com a etiqueta Inimigo Público. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Inimigo Público. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

O Fim do "Inimigo Público"

 

A desculpa é a de sempre. Dificuldades económicas, novas prioridades, alterações editoriais...

Enfim...o blá! blá" do costume par justificar o silenciar de vozes incómodas, irreverentes e independentes.

Porque será que, em Portugal, quando chega o aperto financeiro, muitas vezes mera desculpa para uma censura disfarçada, é sempre o elo mais fraco da cultura, da criatividade e da inovação que tem de ser descartado?

De facto, durante 18 anos, o "Inimigo Público", suplemento humorístico do Público, incomodou muita gente.

A desculpa das dificuldades financeiras para acabar com o suplemento das 6ªas feiras, não convence.

Se o problema é finaceiro, talvez pudessem começar por cortar no excesso opinativo, algum mera propaganda política ou obedecendo a agendas de carreirismo pessoal.

O humor em Portugal tem sido sempre incómodo para todos os poderes.

Noutros tempos, em condições mais difícies, enfrentando uma censura real, e não a actual censura disfarçada, recordamo-nos da coragem editorial do "Diário de Lisboa", com a edição de "A Mosca", um dos mais criativos suplementos humoristicos.

Mas esse era um tempo, apesar da censura e da PIDE, em que existia um jornalismo feito por jornalistas e onde o trabalho destes era respeitado e influente na linha editorials, ao contrário dos nossos dias em que os jornalistas se têm de submeter a editores que, muitas vezes, são meros  mercenários ao serviço do poder económico ou político.

Ficam as boas recordações das leituras do "Inimigo Público" ao longo dos últimos 18 anos.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

“ANDRÉ VENTURA PELA VERDADE”, onde começa o humor e acabam as fake news?



Ontem caí na esparrela de divulgar uma fake new.

Era um texto, publicado num site credível, onde se reproduzia uma presumível afirmação de D. Manuel Clemente.

Punha na boca do Patriarca de Lisboa a seguinte afirmação:

“Esta narrativa de ódio aos nossos irmãos promovida pelo André Ventura e o seu partido Chega é totalmente contrário aos ensinamentos de Jesus, sendo uma aberração nesta sociedade que se pretende mais justa e mais fraterna. O Santo Padre foi claro quanto a isso na sua Encíclica Fratelli Tutti”.

Acontece que esse post fora retirado de um site intitulado “André Ventura pela Verdade”, acompanhado de um presumível comentário do “próprio” candidato da extrema-direita: “Também tu a atacar-me? Era só o que faltava…”.

Seguiam-se depois dezenas de comentários entre o apoio ao presumível Ventura atacado pelo presumível patriarca e a defesa do “ofendido” com ataques à Igreja.

Eu próprio caí na esparrela de acreditar que aquilo era verdade, mas, se tivesse parado um pouco para raciocinar, devia ter-me apercebido da estranheza daquela frase, por um lado porque aquele não é, não só o estilo de D. Manuel Clemente, que ainda  há poucas semanas se deixou fotografar ao lado do  líder do Chega em recepção cordial, por outro, porque a Igreja portuguesa costuma assumir uma postura mais metafórica e ambígua em termos políticos.

Também me deixei cair na esparrela porque me pareceu que uma frase como aquela era coerente com a nova atitude e a coragem do exemplo do Papa Francisco. Mas isto sou eu que sou um ingénuo…

Espantado fiquei com algumas reacções a esse texto no meu post. Algumas não se indignavam tanto com o facto de ser uma fake new, mas mais com a possibilidade de alguém da Igreja pensar nesses termos. Alguém até considerava aquelas palavras como um incitamento ao ódio (!!!).

Curioso e apercebendo-me do erro, procurei a origem e encontrei-a num site autointitulado “André Ventura pela Verdade”. É um site de humor que, explorando a arma da criação de “factos alternativos”, como se fosse um site do próprio candidato, e usando as próprias armas e argumentos do Ventura e dos seus apoiantes, desmonta assim, pelo ridículo da situação, os próprios argumentos.

Observando com tenção por baixo do cabeçalho, lá está o aviso que me escapou e a muita gente : "Sátira/Paródia" e no próprio cabeçalho outro aviso, em tom humorístico : "As Nossas Fake News São Mentiras Necessárias":



É curioso ver também a quantidade de gente que cai na esparrela de comentar tudo aquilo como se fosse verdade (como eu próprio, aliás, acabei por fazer), mas é um bom barómetro para ver o impacto do fenómeno “Ventura” e os próprios perigos do mesmo.

No fundo, este site faz aquilo que fazem páginas como o “Inimigo Público” ou, lá fora, um “Charlie Hebdo”, embora de forma mais disfarçada e não assumida.

O próprio título goza e glosa  com as muitas páginas “pela Verdade”, de divulgação de fake News e “verdades alternativas”, surgidas durante a actual crise, muita delas controladas pela extrema-direita.

Os extremistas não gostam de serem gozados este site mostra uma das formas mais eficazes de combater os "venturas" deste mundo.

(Em baixo o post falso):