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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Da “Beleza” do Extremismo


“Terrorista”, “nazi”, “comunista”, “putinista”, “antisemita”,tudo adjectivos com que somos brindados todos os dias para nos “identificar” como “extremistas”,  quando temos opiniões firmes, radicais ou, simplesmente contra a corrente,.

Politólogos, comentadores, analistas políticos, especialistas de relações internacionais, usam e abusam de tais adjectivos para reforçar as suas opiniões “moderadas” a “cientificas”, para se distinguirem da turba da populaça “extremista”.

Confundir o extremismo com opiniões firmes, radicais, e convictas é uma das armas argumentativas dessa gente.

Então se formos para as redes sociais, onde a opinião de um leigo vale o mesmo que a opinião de um cientista, e ganha a ignorância atrevida de quem berra mais alto, de quem leva mais likes e conquista mais seguidores, a confusão entre conceitos agrava-se.

Ser radical nas suas convicções não é a mesma coisa que ser extremista.

Posso ser radical (isto é, profundo, convicto e assertivo na defesa das minhas ideias) sem ser intolerante.

A intolerância, irmã gémea do extremismo, não é exclusivo de quem habita nas franjas mais afastadas do “centro” politico”. Vejo por aí, nas redes sociais  e na comunicação social, muito opinador, mais ou menos encartado, oriundo no chamado “centro politico”, muito mais extremista e intolerante para com os que pensam de maneira diferente do que muitos ditos “radicais”.

Mas, melhor do que ninguém, aqui deixo uma das melhores definições do que é ser extremista, da autoria de um dos fundadores dos Monty Python:

“A maior vantagem do extremismo é, ao fornecer-lhe inimigos, fazê-los sentir-se bem. A grande vantagem de se ter inimigos é poder fingir-se que toda a maldade do mundo está nos nossos inimigos e toda a bondade do mundo está em nós. Irresistível, não é? Se já possuirmos bastante raiva e ressentimento dentro de nós e, por essa razão, gostarmos de abusar das pessoas, podemos fingir que só o fazemos porque os nossos inimigos são pessoas muito más. Se não fossem eles, seriamos sempre bem-dispostos, amáveis e racionais. Assim, se quer sentir-se bem, torne-se num extremista. Agora, há que fazer uma escolha: se se juntar à extrema-esquerda, ser-lhe-á disponibilizada a lista dos inimigos autorizados – quase todos os tipos de autoridade, especialmente polícias, juízes, empresas multinacionais, estabelecimentos de ensino, donos de jornais (vários), caçadores de raposas, generais, traidores de classe e, claro, os moderados. Mas se preferir ser um extremista de extrema direita, não há problema. Serão apenas diferentes: grupos minoritários barulhentos, sindicatos, russos, gente esquisita, manifestantes, assistência social, parasitas da assistência social, clérigos intrometidos, pacifistas, a BBC, grevistas, assistentes sociais, comunistas e, claro, moderados e actores com mania. Uma vez abraçada uma destas superlistas de inimigos, pode ser tão desagradável quanto quiser e ainda assim sentir que o seu comportamento é moralmente justificado. Poderá pavonear-se por aí usando as pessoas e dizendo-lhes que poderia comê-las ao pequeno-almoço, sem deixar por isso de se considerar um campeão da verdade, um combatente do bem maior, e não o triste esquizofrénico paranoico que realmente é”. (John Cleese, Das Vantagens do extremismo, 1987).

Mais actual do que nunca, basta acrescentar alguns “inimigos” à lista!

quinta-feira, 20 de março de 2025

O Novo "nazifascismo"


Não deixa de ser curioso.

Os Estados Unidos e a Rússia (herdeira da antiga União Soviética, que então incluía a Ucrânia), foram os principais responsáveis pela derrota do nazi-fascismo no século XX.

Os judeus,  os povos do leste e da antiga União Soviética foram os que mais sofreram como a violência do nazismo.

Os judeus fundaram Israel como consequência da violência que sobre eles se abateu com o Holocausto.

E o que vemos hoje?

Estados Unidos,  Rússia, Ucrânia e Israel,  nesse passado “antifascista” os principais combatentes ou vitimas do nazi-fascismo, são hoje os responsáveis pela disseminação, a nível mundial, dos ideais da extrema-direita, um novo "Nazismo", com várias vertentes e variantes, nalguns casos combatendo-se entre si, adaptado aos dias de hoje (a Rússia de Putin, algumas milícias e batalhões  ucranianos, os Estados Unidos de Trump e Israel de Nethanyhu).

Uma total e preocupante inversão e desrespeito pelo  passado histórico dessas nações e povos.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2024

O Fascismo “nunca existiu”!??...ou existiu “apenas” num país!???...ou “ainda anda por aí”!??..

 


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Nunca, como nos últimos tempos, o debate sobre o fascismo e a utilização desse termo, para interpretar a situação actual, foi tão usado. Na verdade, a definição de “fascismo”, continua por esclarecer e clarificar e é, desde longa data, tema de debates acalorados envolvendo historiadores, politólogos (seja lá o que isto for) e sociólogos.

Nos anos 90 chegou-se a um relativo consenso entre investigadores.

O Fascismo, na “pureza” das suas características, "apenas existiu" na Itália de Mussolini.

Tanto o nazismo, à sua “direita”, e o franquismo e o salazarismo (entre outros) à sua “esquerda” não encaixavam nas características puras do fascismo teórico.

O nazismo, embora seguindo o modelo de Mussolini, era, acima de tudo, “totalitário”, um conceito que, embora defendido teoricamente pelo fascismo italiano, só se teria concretizado, sem qualquer controle (da Igreja ou do rei, como aconteceu na Itália) na Alemanha de Hitler.

Contudo, o conceito de “totalitarismo” foi-se tornando pouco operativo, por um lado porque podia ser igualmente aplicado a regimes diferentes, como ao estalinismo na União Soviética ou à China do tempo da “revolução cultural”, por outro, porque o seu termo se generalizou e vulgarizou como argumento da propaganda ocidental, durante o período da Guerra Fria, contra os regimes do “socialismo real” do leste europeu.

Por sua vez, regimes como o salazarista e o franquista não se encaixavam totalmente na classificação e no tipo de estrutura política e social do fascismo.

O regime salazarista era um regime autoritário, antiliberal e antidemocrático, mas faltava-lhe o caracter de movimento de massas do fascismo, embora recorresse a estas sempre que necessitava do apoio da rua (lembram-se das célebres “manifestações espontâneas?”).

Apesar disso, pelo menos a partir da Guerra Civil de Espanha até ao final 2ª Grande Guerra, principalmente até ao momento em que se tornou evidente a derrota dos nazis, o salazarismo exacerbou a retórica e o modelo do fascismo italiano (Salazar era grande admirador do ditador italiano), altura em que se fundaram movimentos de características fascistas, baseados em organizações do nazismo e do fascismo, como a Mocidade Portuguesa e a Legião Portuguesa. Esta última organização foi mesmo a única organização do Estado Novo que fez, abertamente, o elogio do nazismo.

A partir do final da guerra essas organizações perderam as suas características fascistas, muito por influência da Igreja e do Exército e, claro, para branquear a sua origem quando o antifascismo saiu vitorioso da Guerra, e o regime alterou habilmente a sua natureza dos anos 30/40 para poder sobreviver, tendo mesmo conseguido tornar-se fundador da NATO.

A definição do que é o fascismo enforma de duas dificuldades:

- se o resumirmos ao culto da violência contra os inimigos, ao governo autoritário e ditatorial e à rejeição da democracia e do liberalismo, teríamos de alargar o conceito a um universo mais vasto, que incluiria os regimes do “comunismo real”, as ditaduras militares de todas as cores e muitos dos regimes autoritários dos nossos dias (na Turquia, na Rússia, no Irão, na Arábia Saudita, na Hungria… e o que dizer do actual governo de Israel?);

- se desenvolvermos muito essas características, apenas o Fascismo Italiano e um certo número de movimentos nacionais, fixados nos anos 30, podem ser classificados como tal, com a agravante que, nem mesmo o fascismo italiano, pela sua evolução e adaptação, se encaixaria plenamente nessas características retóricas.

E quais são elas (resumidamente)?

Recorremos a Stanley Payne:

- “As negações fascistas”: antiliberal, anticomunista, anticonservador;

- “Ideologia e objectivos” : criação de um novo Estado nacionalista autoritário; organização de estruturas económicas nacionais integradas, reguladas e “pluriclassistas”, numa palavra, corporativista; a criação e a defesa de um Império que implicará uma relação de força com as outras nações; um novo credo idealista e voluntarista, impondo um novo tipo de cultura secular, moderna e "autodeterminada";

- “Estilo e Organização” : Importância estética dos símbolos, dos mitos e da coreografia politica; mobilização das massas, militarizando as relações sociais e da vida politica, através de organizações de massas; uso da violência contra os “inimigos”; dominação masculina; exaltação da juventude, fomentando o conflito de gerações, pelo menos na sua fase inicial de transformação politica; tendência para uma liderança pessoal, autoritária e carismática, mesmo recorrendo inicialmente à via eleitoral.

Conseguir o pleno destas características, só mesmo no Fascismo italiano de Mussolini.

Mas, para ser classificado como fascismo não é necessário fazer o pleno, basta a existência da maioria dessas características.

Assim, para Stanley Payne o fascismo, nos anos 30/40 do século XX, é uma das famílias daquilo que ele classifica como as “três caras do nacionalismo autoritário”, sendo as outras duas a “direita radical” e a “direita conservadora”.

Como “fascistas” classifica, entre outras, o Partido nacional-socialista alemão, o Partido Nacional Fascista Italiano, a Falange em Espanha e o Nacional-sindicalismo português.

Na “Direita radical” coloca, entre outros, a figura de Papen na Alemanha, os Integralistas em Portugal e os Carlistas em Espanha.

Na “direita conservadora” cabem, entre outros, o presidente Hindenburg na Alemanha,  o governo de Vichy em França, o presidente Horthy da Hungria, Pilsudski na Polónia, a União Nacional e Salazar em Portugal e a CEDA em Espanha.

Recorde-se que, em Portugal, a maior parte dos nacional-sindicalistas  e dos integristas, mais ou menos forçados, mais ou menos voluntariamente, acabaram por integrar o regime salazarista, sendo, por outro lado, significativo o caso de Rolão Preto, líder dos nacional-sindicalistas, que, depois de preso, veio a apoiar a candidatura de Humberto Delgado.

O caso espanhol também é peculiar. Franco conseguiu fundir as várias organizações acima citadas, durante a Guerra Civil, numa falange mais abrangente, que se tornou o partido único do regime e que, na transição para a democracia, se integrou, quase todo, no actual Partido Popular, ganhando novo alento no recém criado Vox.

O caso português tem sido muito estudado por vários historiadores, destacando os trabalhos, divergentes nalguns pontos, de Fernando Rosas, Manuel Loff, António Costa Pinto e de Irene Flunser Pimentel.

Contra a corrente vai a tese de Jorge Pais de Sousa, que defende o salazarismo como um “fascismo de cátedra”, ou seja, um fascismo sem movimento de massas.

De qualquer modo, toda a problemática referida coloca o fascismo como uma situação histórica “irrepetível”.

Não é essa a tese de Umberto Eco, no seu ensaio de 1997, mas mais actual do que nunca, “como reconhecer o fascismo”, que mostra até que ponto o fascismo “ainda anda por aí”.

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Nos anos 90, depois da derrota do comunismo real, e com o fim da Guerra Fria, parecia que a democracia e a liberdade iam vencer por todo o mundo.

Recorde-se que na década anterior se tinham desmoronado as ditaduras militares na américa latina e o apartheid na África do Sul.

Era o “fim da história” de Fukuyama.

Também por essa altura estudava-se afincadamente o fascismo, chegando a maior parte dos investigadores à conclusão que este regime estava datado histórica e geograficamente.

O fascismo puro só tinha existido em Itália.

Estabeleciam-se as diferenças entre os vários regimes que até aí tinham sido “misturados” sob a designação de “fascistas”: o Estado Novo português, o governo de Vichy em França e o franquismo espanhol, entre outros, não encaixavam no modelo fascista dos investigadores.

Mesmo o nazismo era uma excrescência totalitária do fascismo.

Não deixa de ser, contudo, curioso, que, encontrando-se tantas diferenças entre esses regimes, nunca ninguém tenha feito o mesmo exercício para distinguir os regimes e os movimentos comunistas, quer do ponto de vista cronológico, quer do ponto de vista sincrónico.

É que, na realidade, existem tantas diferenças, em termos práticos, em termos de violência ou em termos económicos e sociais, entre o Estado Novo português, o nazismo alemão ou o fascismo italiano, como entre a União Soviética de Lenin, de Stalin ou Gorbachev, ou entre Cuba e a Coreia do Norte, ou entre o chamado eurocomunismo e o Partido Comunista Português…

Mas a preocupação em fazer esta distinção não terá motivado da mesma maneira os investigadores dessa altura.

Era mais importante retirar certos regimes e certos partidos da família fascista, do que fazer o mesmo exercício em relação aos regimes ditos comunistas.

Não questiono a seriedade desses estudos. Apenas noto a diferença de prioridades.

Claro que pode haver uma situação que explica essas opções.

A maior parte dos regimes que se inspiraram, com maior ou menos convicção, no modelo do fascismo italiano, raramente se designaram ou classificaram como fascistas, ao contrário do que aconteceu com os regimes comunistas ou com os vários movimentos comunistas, mesmo quando se combatiam entre si.

A maior parte dos regimes autoritários de direita e os futuros partidos de extrema-direita, principalmente depois da 2ª Guerra, não se gabavam, pelo menos publicamente, de admirarem Mussolini ou Hitler, a não ser em casos muito marginais.

Pelo contrário, apesar de todas as suas diferenças, tão grandes ou maiores do que as que existiram ou existem entre regimes e partidos da direita autoritária e antiliberal, os regimes do “comunismo real” e os partidos assim designados, todos invocavam a mesma origem comum, mesmo que aplicada ou interpretada de forma diferente, como mínimo denominador comum, em Engels, Marx e Lenine.

Nos anos 90 o fascismo era considerado assunto histórico encerrado e irrepetível, ao contrário do “comunismo real” que continuou a sobreviver até hoje na China, no Vietname, na Coreia do Norte e em Cuba, e em Partidos Comunistas que continuam a ter um peso significativo em muitos países democráticos.

Contudo, houve um autor que remou contra a maré.

Esse autor foi Umberto Eco que em 1997 publicou um ensaio intitulado “O fascismo eterno”, publicado e traduzido em Portugal com o título “Como reconhecer o fascismo”.

Para Umberto Eco, o fascismo não estava morto e enterrado, ao contrário do nazismo.

Começava por desmentir que o fascismo, ao contrário do nazismo, tivesse uma filosofia própria, mas apenas “retórica”.

Demonstrou que o fascismo italiano não era fácil de classificar ou de caracterizar, pois, ao contrário do modelo coerente em que muito o tentavam encaixar, era um movimento pragmático, muitas vezes contraditório e incoerente.

Ora, essa capacidade camaleónica do fascismo, permitiu a sua sobrevivência e a capacidade de reaparecer em qualquer outro lado ou época sob outras “vestes”.

A partir destas premissas, Umberto Eco identifica um conjunto de características do “novo fascismo”, que ele apelida de “Ur-fascismo”, avisando, contudo, que essas “características não poderão ser ordenadas num único sistema: muitas contradizem-se reciprocamente, e são típicas de outras formas de despotismo ou fanatismo. Mas basta que esteja presente uma delas para fazer coagular uma nebulosa fascista”.

Hoje, esse ensaio, com mais de vinte anos, veio revelar-se mais actual do que nunca, quando assistimos ao renascimento de regimes, partidos e retóricas de extrema direita, pondo em causa a existência das democracias liberais que se julgavam eternas e em expansão naquela década.

Aliás, o próprio termo de “democracia liberal” é defensivo, como se a democracia não fosse liberal.

O que é um facto é que a maioria desses movimentos substituíram a rua e os golpes militares pela campanha em redes socias e pela participação democrática e, onde chegam ao poder, como na Hungria, por exemplo, criaram um novo conceito, o de “democracia ileberal”, ou seja, manipulam as regras democráticas, mantendo a fachada de actos eleitorais para se legitimarem e legitimarem o controle sobre a justiça e a comunicação social.

Vemos isso também na Turquia, na Rússia, na Índia, nas Filipinas…

Quais as são características do “Ur-fascismo” apontadas por Umberto Eco?

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Registámos as características históricas do fascismo e a forma como a investigação histórica dos anos 90 caminhou no sentido de demonstrar que o fascismo estava morto e enterrado.

Referimos a excepção de Umberto Eco que, remando conta a maré dominante, explicou num ensaio de 1997, que o fascismo podia ressurgir com novas roupagens.

Tentamos agora explicar quais eram as características, apontadas por Eco, desse “novo fascismo”, que ele designa com “Ur-fascismo”.

Depois de analisar o exemplo do fascismo italiano, mostra que o fascismo não era coerente do ponto de vista ideológica, “não era uma ideologia monolítica, mas uma colagem de diversas ideias políticas e filosóficas, uma amalgama de contradições”, ao contrário do nazismo.

Por isso considerava que, se o nazismo não iria reaparecer “como movimento que envolva uma nação inteira”, pelo contrário o fascismo mantinha condições para renascer sob novas roupagens.

Escreveu Eco que houve “um único nazismo”, mas, em” contrapartida, “pode-se brincar ao fascismo de muitos modos”, porque o “termo “fascismo” adapta-se a tudo porque é possível eliminar de um regime fascista um ou vários aspectos, e poder-se-á reconhecê-lo com fascismo”.

Apesar da confusão e da dificuldade em definir fascismo, é “possível indicar uma lista de características típicas do que poderei chamar o “Ur-fascismo” ou o “fascismo eterno”. Estas características não poderão ser ordenadas num único sistema: muitas contradizem-se reciprocamente, e são típicas de outras formas de despotismo ou fanatismo. Mas basta que esteja presente uma delas para fazer coagular uma nebulosa fascista”.

E quais são essas características apresentadas no ensaio de Eco?

Ei-las, de forma resumida:

-1. O culto da tradição, embora seja “mais velho do que o fascismo”;

-2. A rejeição do modernismo e do mundo moderno, que também se pode referir como “irracionalismo”.

-3. O culto da “acção pela acção”: “A acção é bela em si, e portanto, tem de ser realizada antes de e sem qualquer reflexão. Pensar é uma forma de castração. Por isso a cultura é suspeita na medida em que se identifica com comportamentos críticos”, atitude identificada com o “uso frequente de expressões como “Porcos intelectuais”, “Convencidos”, “Snobs radiais”, “As Universidade são covis de comunistas”(…)”.

-4. O desacordo “é traição”.

-5. O Medo da diferença. “O Ur-Fascismo é (…) racista por definição”.

-6. A exploração da “frustração individual ou social”, apelando “às classes médias frustradas, sentindo mal-estar por qualquer crise económica ou humilhação política, assustadas pela pressão dos grupos sociais subalternos”.

-7. O nacionalismo, com apelo à xenofobia e que procura inimigos externos e internos que “conspiram” contra a identidade nacional.

- 8 . A defesa face a um inimigo que humilha o “povo” pela “riqueza ostentada”.

- 9 . A critica ao pacifismo.

- 10 . O elitismo de massas e o “desprezo pelos fracos”. Quem se identifica com o “chefe” ou com “o partido” é o “melhor povo do mundo” e os que pertencem ao “movimento” são “os melhores cidadãos” (como os “portugueses de bem” do Chega).

- 11 . O culto do “herói”, “todos são educados para se tornarem heróis”.

-12 . o “machismo”, que implica o “desprezo pelas mulheres” e a “condenação” da homossexualidade.

- 13 . O “populismo qualitativo”, ou seja, “os indivíduos enquanto indivíduos não têm direitos” e é o líder que interpreta a vontade do povo. Já então Eco avisava que no “nosso futuro perfila-se um populismo qualitativo na Tv ou na internet, em que a resposta emotiva de um grupo selecionado de cidadãos pode ser apresentada e aceite como a “voz do povo”. Devido ao seu populismo qualitativo, o Ur-Fascismo tem de opor-se aos “putrefactos” governos parlamentares”. E conclui: “sempre que um político lança dúvidas sobre a legitimidade do parlamento por já não representar “a voz do povo”, já podemos dizer que cheira a Ur-fascismo”.

- 14 . “O Ur-Fascismo fala a “neolíngua”, um termo inventado por George Orwell para o seu romance “1984”, uma crítica ao stalinismo então dominante entre os movimentos comunistas, mas que, segundo Eco, tem elementos comuns “a formas diferentes de ditaduras”, referindo o léxico pobre, de frase feita, com fins propagandísticos e de doutrinação, que procura alterar o significado da palavra com o objectivo de “limitar os instrumentos para o raciocínio complexo e crítico”, avisando para a necessidade de estarmos preparados “para identificar outras formas de neolíngua, mesmo quando toma  a forma  inocente de um talk- show popular”.

Conclui Eco que o “Ur-fascismo ainda pode voltar sob as vestes mais inocentes . O nosso dever é desmascara-lo e apontar o dedo a cada uma das suas novas formas –diariamente, em todo o mundo”.

Aquilo que parecia então uma mera divagação intelectual, está hoje mais actual do que muito.

Muitos dos 14 pontos apontados por Eco estão aí mais do que presentes no discurso populista de líderes políticos e movimentos de várias vestes e cores, da Venezuela ao Brasil e à Argentina, da Coreia do Norte à Hungria, da Rússia à Ucrânia, da Turquia às Filipinas, da Grã-Bretanha aos Estados Unidos, da França à Itália, de Israel aos Estados do fundamentalismo Islâmicos (Irão, Afeganistão, Arábia Saudita)….

As redes sociais, que substituem a rua como lugar de manifestação da violência e do ódio de tipo fascista, estão cheias de um discurso acima identificado por Eco como o “Ur-fascismo” dos nossos dias :

-o apelo irracional ao ódio contra quem não pensa como nós;

- o discurso saudosista do “antigamente [leia-se por cá, no tempo de Salazar] é que era bom”;

- a diabolização e ridicularização das ditas questões fracturantes [a critica à modernidade];

- a disseminação das fake news  [a mentira várias vezes repetida para se tornar “verdade”];

- a criação de um clima de medo [exagerando, pela repetição e pelo destaque, à existência de uma sociedade “dominada pelo crime”];

 -a desvalorização do Estado de Direito, com apelos à judicialização da sociedade, renegando a presunção de inocência ou fazendo dos tribunais espectáculo, recorrendo à divulgação de processos em segredo de justiça, conduzindo à defesa de uma justiça popular e a uma justiça feita pelas próprias mãos, atitude potenciada pelos títulos de tablóides;

- a desvalorização de um pensamento crítico, atacando os “intelectuais”, o conhecimento cientifico (evidente na negação da alteração climática), o papel das universidades “tomadas pela esquerda”;

- o desprezo pelos fracos, que culpa pela sua fraqueza, “vivendo dos subsídios”, apenas tolerados como alvo de campanhas de caridade para limpeza de consciências;

- o nacionalismo exacerbado, cercado de “inimigos” [os “venezuelanos”, os “comunistas”, os “islâmicos”, os “terroristas”, os “emigrantes”, os “homossexuais”…];

- a superioridade “democrática” das redes sociais, a “verdadeira” “voz do povo”, como contraponto da democracia “corrupta” e “putrefacta” dos regimes parlamentares e dos políticos;

- etc., etc., etc….

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Uma actualização fundamentada  do perigo de um “novo fascismo” está presente na recente obra de Madelene Albright, “Fascismo um Alerta”.

Historiando a origem histórica do fascismo e mostrando o que este teve de comum com o comunismo real (na sua versão stalinista) no desdém pela democracia, encontra diferenças assinaláveis entre as duas ideologias.

Faz igualmente o historial do MacCarthismo e da forma como, durante a Guerra Fria, os regimes democráticos pactuaram com as mais criminosas ditaduras, mostrando a forma como, no seio de regimes democráticos sólidos, o perigo das pulsões fascistas está presente e se pode transformar a democracia numa “ditadura da democracia”.

Faz um historial recente da presença dessas pulsões fascistas em regimes actuais, que , mesmo quando de origem ideológica aparentemente diferente, transportam em si o vírus do fascismo: o recurso à mentira, o desdém pela liberdade e pela democracia, o carisma do líder, o recurso ou apelo ao genocídio, o combate à diferença e o nacionalismo exacerbado.

Percorre a história recente do chavismo venezuelano, do regime turco de Erdogan, da ascensão de Putin, da “democracia iliberal “ de Órban na Hungria, da liderança omnipresente da dinastia Kim na Coreia do Norte, entre muitas outras referências a outros regimes “proto fascistas” como o de Sissi no Egipto, o de Kaczynski na Polónia, o de Zeman na República Checa, o de Duterte nas Filipinas (só não falando em Bolsonaro porque ainda não era notícia à data da escrita do livro), chegando à principal preocupação para o seu alerta contra o fascismo, a situação que se vivia ( e se volta a viver) nos Estados Unidos com a vitória de Trump.

Claro que nenhum desses regimes é classificado por Albright com “fascista” ( apenas classifica como tal o da Coreia do Norte), mas todos transportam em si a semente de um novo fascismo, principalmente pela forma como banalizam um determinado discurso e uma determinada atitude que justifique as pulsões “fascistas”.

Em muitos desses governos e noutros movimentos de tipo populista por esse mundo fora, e citando Robert Paxton, da Universidade de Columbia, “ouvimos ecos de temas fascistas clássicos: medos da decadência e do declínio; afirmação de uma identidade nacional e cultural; uma ameaça à identidade nacional e à boa ordem social por parte de estrangeiros não assimiláveis; e a necessidade de maior autoridade para liderar com esses problemas” ( pág.222).

Em comum, Albright encontra nalgumas das atitudes daqueles governos o caminho para um novo fascismo:

“Rapidamente o Governo que silencia um meio de comunicação acha mais fácil silenciar um segundo. O parlamento que ilegaliza um partido político passa a ter um precedente para banir o seguinte. A maioria que priva determinada minoria dos seus direitos não para por aí. A força de segurança que espanca manifestantes e fica impune não hesita em voltar a fazê-lo” (pág.278).

Albright recorda-nos que, como aconteceu ao longo da história, os fascistas podem chegar ao poder por via eleitoral. Hoje em dia, aliás, não se atrevem a fazê-lo de outro modo. Geralmente chegados ao poder, vão dando passo a passo a estocada final na democracia, sendo o primeiro passo minarem “a autoridade de centros de poder que compitam com eles, incluindo o Parlamento”.

Deve-se a Albright uma definição simples e concisa do que é um fascista: “alguém que reclama falar em nome de uma nação ou de um grupo, que não se preocupa nada com os direitos dos outros e que está disposto a recorrer à violência e a quaisquer outros meios necessários para alcançar os seus objectivos” (pág.296).

Albright, que iniciou o seu livro com um conjunto de perguntas feitas aos seus alunos, cujas respostas esclarecem o que foi o fascismo em termos históricos, conclui a sua obra reformulando as perguntas, para responder onde podemos encontrar, nos líderes políticos de hoje, os novos arautos no novo fascismo:

“Vêm ao encontro dos nosso preconceitos, sugerindo que tratemos as pessoas de outra etnia, raça, credo ou partido como se não merecessem dignidade e respeito?;

“Querem que alimentemos a ira contra quem acreditamos que nos fez mal, esfreguemos os ressentimentos até ficarem em carne viva e ponhamos os olhos na vingança?;

“Encorajam-nos a sentirmos desprezo pelas instituições que nos governam e pelo processo eleitoral?;

“Procuram destruir a nossa fé em elementos essências à democracia, como uma imprensa independente e uma magistratura profissional?;

“Exploram os símbolos do patriotismo – a bandeira, o juramento – num esforço consciente  de nos virar uns contra outros?;

“Se forem derrotados nas urnas, aceitam o veredicto ou insistem sem provas de que foram eles os vencedores?;

“Fazem mais do que pedir os nossos votos e gabam-se da sua capacidade para resolver todos os problemas, acalmar todas as ansiedades e satisfazer todos os desejos?;

“Solicitam os nossos aplausos falando despreocupadamente e com entusiasmo machista sobre o uso da violência para aniquilar os inimigos?;

“Repetem a atitude de Mussolini: “A multidão não precisa de saber” , tudo o que tem a fazer é acreditar e “aceder a ser moldada”?” (pp.304-305).

Quem responder positivamente a estas questões trás consigo e alimenta a semente do novo fascismo.

Como se pode concluir do que nós escrevemos e citámos, não é fácil definir, nem ontem nem hoje, o que é o fascismo.

Nem o fascismo dos anos 30 é repetível na nossa época.

Mas o desprezo pela democracia, pela liberdade, pelo outro, pela verdade, pelas instituições sociais e democráticas, pelos direitos humanos e sociais, é uma carcteristica comum à extrema-direita populista, seja a dos anos 30, seja a actual, mesmo quando, como na Venezuela, se veste  de roupagens pseudo-esquerdistas.

Ao mesmo tempo o apelo à violência e ao ódio, físico ou verbal, a atitudes irracionais, ao que de pior existe no ser humano, é comum a tudo aquilo que, legitimamente, podemos classificar de fascismo.

Não vamos ver milícias nas ruas perseguindo judeus, negros, comunistas, socialistas ou democratas (ou será que vamos? Bolsonaro prometeu algo parecido no Brasil...). Hoje as redes socias prestam bem esse serviço.

Não vamos ver a destruição total do formalismo democrático, pois podem bem conciliar o acto eleitoral em sociedades manipuladas por uma comunicação social controlada pelo poder financeiro e político (Rússia, Turquia, Hungria, Argentina...).

Ao contrário dos anos 30, em que economicamente o que era viável aos poderes que financiaram o fascismo contra o socialismo, a democracia e os direitos sociais, era a estatização da economia, hoje esses mesmo poderes apostam no neoliberalismo que lhes permite escapar ao fisco, às regras ambientais, à legislação e os direitos laborais e ao controle democrático da sua acção pelos parlamentos.

Este “novo fascismo”, ou “ur-fascismo” ou “populismo”, não precisa hoje de recorrer ao aparato cénico propagandístico e espectacular dos anos 30. Basta manter-nos alienados, agarrados às redes socias e aos talk shows.

Ao contrário da esquerda, a extrema direita populista conseguiu adaptar-se aos novos tempos e renascer das cinzas, voltando a colocar o mundo á beira do abismo e da barbárie.

Bibliografia:

ALBRIGHT, Madeleine, Fascismo – um alerta, ed. Clube do autor, 2018;

ECO, Umberto, Como reconhecer o fascismo. Da diferença entre migrações e emigrações, ed. Relógio d’Àgua, 2017 (texto original de 1997, numa tradução de grande qualidade de José Colaço Barreiros);

PAYNE, Stanley G., El fascismo, Alianza Editorial , Madrid 1996 (1ª edição em 1980);

PINTO, António Costa, O Salazarismo e o Fascismo Europeu, ed. Estampa;

segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

O Vandalismo antidemocratico dos bolsonaristas (...e o silêncio da "nossa" direita).


Goste-se ou não de Lula, ele foi eleito democraticamente, tal como, anteriormente, Bolsonaro tinha sido eleito democraticamente.

Contudo, desta vez os bolsonaristas mostraram o seu verdadeiro rosto, a sua aversão à democracia, a sua violência, a sua irresponsabilidade, que usam a aceitam apenas quando esta lhes é favorável.

Já tínhamos visto isso noutros lados, como há dois anos no Capitólio.

Que a extrema direita de Bolsonaro é constituída por arruaceiros, jagunços e vândalos, ficou ontem provado em definitivo.

Agora é aplicar a mão pesada da justiça democrática.

Além de arruaceiros e antidemocráticos, essa gente também é estupida, como se prova pelo facto de revelarem os seus rostos e os seus actos repugnáveis nas redes sociais, facilitando assim a missão das autoridades para os deter e os obrigar a devolver o que roubaram e pagarem o que estragaram, para além do terem de ser julgados por insurreição contra a democracia.

Um último reparo. Onde pára, por cá, a direita portuguesa, sempre tão pronta a indignar-se com outras “causas”, e que está tão caladinha com este atentado à democracia??.

segunda-feira, 9 de maio de 2022

Putin é “comunista”?


Em tempos de extremos e dominados pela “cloaca das redes sociais” , são muitas as asneiras que “vemos, ouvimos e lemos e não podemos ignorar”, escritas por aí.

Algumas são compreensíveis, quer pela revolta e indignação que nos atinge a todos, face à criminosa invasão de um país soberano, a Ucrânia, por uma potência nuclear e autoritária como a Rússia, e face à violenta destruição de alvos civis e aos indesmentíveis crimes de guerra cometidos pelos invasores (ou"danos colaterais", se o tema fosse outra guerra iniciada ou apoiada pela NATO ou pelos Estados Unidos...mas essa é outra "história"!!!).

Mas alguns raiam a mera propaganda política, oportunismo ideológico ou, pior ainda, falaciosa ignorância e má fé, como a de considerar que Putin é “comunista”, e, com isto, trazer ao de cima o mais primário anticomunismo que estava bem escondido nas entranhas de muitos.

Claro que se pode dizer que, por cá, o PCP foi o principal responsável por essa reacção, pela ambiguidade demonstrada, até hoje, em relação ao seu posicionamento perante a invasão russa, que desrespeitou toda a comunidade internacional e o direito internacional, acentuada pela inconcebível e desastrosa reacção da líder parlamentar, Paula Santos, ao discurso do presidente Zelensky no Parlamento Português, uma nódoa, a juntar a muitas outras dos últimos tempos, no património histórico do próprio PCP.

A melhor desmontagem da argumentação do PCP deve-se a José Pacheco Pereira, num artigo publicado no jornal Público no passado dia 23 de Abril (“PCP : ocultar que há um agredido e um agressor”).

Há quem diga que “o PCP se pôs a jeito”, e com isso iniciar ou justificar a campanha contra o PCP,  mas essa é uma posição idêntica àqueles que tentavam “justificar” o ataque às Torres Gémeas como o facto de “os Estados Unidos se terem posto a jeito”, ou justificar o ataque terrorista em Paris como o facto de o “Charlie Hebdo se ter posto a jeito”.

Como nada justifica os ataques terroristas, também as posições do PCP não justificam a campanha anticomunista que vai por aí, principalmente na “cloaca das redes sociais”, vendo em Putin um “comunista”, até porque o PCP nunca apoiou o ditador russo, criticando-o até há muito mais tempo que críticos recentes desse regime.

Claro que, em política “o que parece é”, uma verdade que devia ser conhecida por um partido com uma vida politica tão longa.

Se as criticas à NATO ou aos Estados Unidos podem ser pertinentes, o que é um facto é que, neste caso, o que está em causa não é mais uma invasão ilegítima ou criminosa da NATO, dos Estados Unidos ou dos seus aliados (Israel, Arábia Saudita…), mas estamos perante uma invasão ilegítima e criminosa da Rússia, injustificável e condenável, “mesmo” que Putin fosse “comunista”.

A “santa ignorância” sectária que grassa para os lados do PCP não é muito diferente da “santa ignorância” sectária dos extremos opostos.

Apelidar Putin como “comunista” como justificação para recorrer a todo o argumentário do mais primário anticomunismo, acaba por prestar um mau serviço à justa causa ucraniana.

Uma das atoardas mais ridículas, ignorantes e falaciosas que vi por aí foi fazer um link para um discurso de Jirinovsky no Parlamento russo, onde ele acusa o comunismo pelos crimes que são conhecidos do tempo da guerra civil e do stalinismo, link apresentado como um manifesto contra o “comunista” Putin.

O que quem partilhou e divulgou esse vídeo desconhece, ou finge desconhecer, é que Jirinovsky, falecido há poucos dias, foi um dos mais fervorosos apoiantes da invasão da Ucrânia.

Recorde-se que, entre outras coisas, Jirinovsky defendia o regresso do velho Império Czarista, do…Alasca (!!!) até à Polónia, defendia a negação da Ucrânia como nação e  a divisão deste país pela Rússia, pela Polónia e pela Roménia.

Tendo falecido cerca de um mês depois da invasão da Ucrânia, ainda foi a tempo de afirmar que o dia 24 de Fevereiro (data do inicio da invasão) tinha sido o dia mais feliz da sua vida e que o ano de 2022 era o ano em que a Rússia ia “voltar à grandiosidade” (veja-se a referência a esse patético líder do maior partido de extrema-direita na Rússia, representado na Duma por 21 deputados, no jornal Público de 10 de Abril: – “in Memoriam – O expoente ultranacionalista russo que previu a invasão da Ucrânia”).

Um dos argumentos usados por Putin para enganar os incautos e para propaganda interna, num país onde acabou de vez a liberdade de expressão e onde acabou de vez a imprensa livre, onde impera a verdadeira “verdade única”, é o de que iniciou “ uma operação militar especial” para “desnazificar” a Ucrânia.

Sabendo-se a influência de grupos nazis e fascistas junto do poder ucraniano, sabe-se também que um dos objectivos do presidente Zelensky, no seu mandato, era reduzir o poder desses grupos, reintegrando alguns deles no exército para os controlar e combatendo politicamente o seu discurso, reduzindo a sua representação parlamentar para quase nada.

Mas mesmo que o “nazismo” fosse um problema mais grave, era uma questão que só dizia respeito aos próprios ucranianos resolver.

Aliás, a invasão russa veio permitir o renascimento e o fortalecimento desses grupos terroristas, como o célebre Batalhão Azov, entre outros.

E que dizer dos criminosos batalhões de Tchetechenos e do Grupo Wagner, este último a guarda pretoriana de Putin, uma espécie de SS dos nossos tempos, responsáveis pela maior parte dos crimes de guerra que tem tido lugar na Ucrânia?

Aliás, Putin não pode dar qualquer lição de “moral” e de “antinazismo”, já que, no seu próprio país, apoia mais de 10 organizações assumidamente nazis e fascistas, que desfilam publicamente frente ao Kremlin, todos os dias 4 de Novembro, data que era a da celebração da Revolução de Outubro, mas que Putin substituiu pelo Dia da Unidade Nacional de origem czarista.

Não nos devemos esquecer também que, na guerra civil que dura desde 2014 no leste da Ucrânia, , se do lado ucraniano combatem grupos de extrema direita, do lado russo combatem 4 organizações fascistas apoiadas pelo Kremelin, em maior número do que a sinistra Brigada Azov.

Há que recordar também todo o tipo de apoios que Putin tem dado a organizações e partidos de extrema-direita na Europa e nos Estados Unidos.

Mesmo que Putin, por vezes, tente recuperar alguma retórica dos tempos da União Soviética, não o faz por razões ideológicas mas, como em relação à 2ª Guerra, por puro “fervor nacionalista”. Aliás, o único líder soviético que Putin nunca criticou foi Stalin.

Ainda recentemente, no discurso onde tentou justificar a invasão da Ucrânia, criticou violentamente Lenine, a União Soviética e Krutchev por terem “dado” uma unidade política à Ucrânia no sei das Repúblicas Soviéticas.

O objectivo de Putin não é o de reconstruir a União Soviética, mas o de reconstruir o Império czarista, para além de outros objectivos de politica internacional que não pretendemos, porque não temos conhecimento suficiente para isso, analisar aqui.

Se juntarmos a tudo isto o facto de os principais ideólogos lidos e citados por Putin serem autores russos do século XIX ou do inicio do século XX (como Serguei Soloviev ou  Ivan ìllin), que defendiam teorias ultra nacionalistas ou fascista e nazis, muitos deles vivendo exilados após a revolução, mas recuperados pelo actual regime russo, então ainda é mais evidente que Putin não é “comunista”.

Lamento, por isso, “desiludir” os dois lados extremos da barricada, os que se indignam contra Putin porque acham que ele é a “encarnação do mal comunista” (não os vi tão indignados noutras guerras criminosas!!), e os que, no minímo, hesitam em condenar a barbaridade das tropas de Putin na Ucrânia porque acham que ele pretende reconstruir o “paraíso comunista na terra”.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

Não se combatem aberrações, como o CHEGA, com proibições.

Em democracia não se combatem ideias aberrantes proibindo a sua difusão, mas combatendo-as e denunciando-as com argumentos sólidos.

Por isso, discordo totalmente da tentativa liderada pela ex-candidata presidencial Ana Gomes, de propor a ilegalização dessa aberração que é o Chega, até porque esse tipo de iniciativas, em democracia, tem o condão de vitimizar o alvo dessa medida e dar-lhe mais força.

A superioridade moral da democracia reside no facto de permitir que se manifestem e organizem todo o tipo de tendências políticas, representativas de todo o tipo de ideologias, mesmo  antidemocráticas.

Claro que existem limites e tudo o que ultrapasse a manifestação e divulgação de ideias, por mais aberrantes que sejam, como as representadas pelo Chega, cairá na alçada da justiça e da lei.

Tentativas insurrecionais, do tipo daquela a que assistimos recentemente no Capitólio, nos Estados Unidos, manifestações de violência racista ou politica, organização de milícias armadas, actos de terrorismo, devem ser punidos exemplarmente em qualquer democracia.

Apesar de esse tipo de acções serem preconizadas por algumas das figuras tenebrosas que lideram esse partido, havendo entre elas antigos terroristas do MDLP/ELP, criminosos condenados por violência racista,  figuras obscuras ligadas à corrupção financeira, uma coisa é  a condenação judicial desses crimes, outra coisa é ilegalizar um partido que, tendo gente dessa na sua liderança, oficialmente não defende nem organiza esse tipo de actos no seu programa.

É preferível ter esse tipo de gente a agir legalmente do que na clandestinidade. Pelo menos conhecemos  cara dos facínoras.

quarta-feira, 4 de março de 2020

O Dia [ mais um…??] em que os líderes da União Europeia cederam ao Populismo e à Xenofobia.



As declarações dos principais líderes da União Europeia, com destaque para as proferidas pelo presidente do Conselho europeu, (velho conhecido nosso dos tempos da Troika),  com a honrosa excepção do Presidente do Parlamento Europeu, roçou a mais reles e vergonhosa cedência ao discurso xenófobo da extrema direita.

Defender o tratamento desumano dado pelas autoridades gregas aos desesperados migrantes, refugiados de conflitos alimentados militar, politica e financeiramente pelo Ocidente e por um país membro da NATO, como é o caso da Turquia, demonstra o total desnorte que reina pelas bandas dos líderes desta União Europeia sem rumo.

Ao negociarem com um ditador sanguinário como Erdogan, pagando-lhe com o dinheiro dos contribuintes europeus para conter, de forma desumana, os migrantes em solo turco, revela toda a cegueira e irresponsabilidade das lideranças europeias, incapazes de solucionar essa grave situação humana, pela qual são os principais responsáveis, dando ao ditador turco uma poderosa arma para chantagear os países europeus.

Desculpar-se da situação apenas pela chantagem do neofascista que governa a  Turquia é uma forma vergonhosa de limpar as mãos da responsabilidade europeia pelo caos vivido pelos desesperados migrantes.

Há momentos em que sinto vergonha de ser Europeu!!!

segunda-feira, 8 de julho de 2019

O “Fascismo Difuso” de Maria de Fátima Bonifácio.

(fonte: Jornal de Negócios)
Lemos, e não acreditámos, mesmo que já estejamos habituados à agressividade retórica, herdada do seu passado maoista, da principal ideóloga do neoconservadorismo indígena, a historiadora Maria de Fátima Bonifácio.

Essa historiadora, especialista no estudo do século XIX português, ultimamente trasvestida em comentadora politica, lidera uma miríade de historiadores (como Rui Ramos) que  usam os seus conhecimentos, cultura e inteligência para servir a propaganda retrograda do neoconservadorismo nacional.

Partindo da discussão sobre um tema pertinente, e que merece ser analisado, a proposta, com alguns laivos demagógicos, do sociólogo e secretário do Partido Socialista Rui Pena Pires, sobre a necessidade de descriminar positivamente as minorias étnico-raciais portuguesas, a historiadora, nas páginas do jornal Público, no passado Sábado dia 6 de Julho, deixa-se levar pelo entusiasmo da sua retórica neoconservadora e escreve alguns dos mais lamentáveis e abjectos parágrafo de teor racista que nos foi dado a ler nas páginas de um jornal dito de “referência”.

Fátima Bonifácio, exibindo toda a esplendorosa retórica da sua “superioridade moral” cristã, “europeia” e “ocidental” ,escreve vários  disparates eivados de abusivas generalizações, ignorantes, intolerantes e falaciosas.

Contestando a comparação que Pena Pires faz entre o efeito conseguido com a imposição, por decreto, da igualdade e paridade de género e a que se pode conseguir tomando o mesmo tipo de medidas em relação à igualdade étnico-racial, Fátima Bonifácio considera essa comparação falaciosa porque as mulheres “partilham, de um modo geral, as mesmas crenças religiosas e os mesmos valores morais” (!!???).

E continua: as mulheres “fazem parte de uma entidade civilizacional e cultural milenária que dá pelo nome de Cristandade. Ora isso não se aplica a africanos nem a ciganos” (sic).

Ou seja, a historiadora Fátima Bonifácio ignora que em África existem quase tantos cristãos como na Europa e que, ao contrário da Europa, a África é um dos continentes, juntamente com o asiático, onde o cristianismo mais tem crescido.

Também desconhece que, se existe grupos étnico  que abraça com fé redobrada o cristianismo é o “povo” cigano.

E quanto à superioridade “civilizacional e cultural” do cristianismo, é melhor não revolver muito nos manuais de história!!!

Mas Fátima Bonifácio não se fica por aí, no seu entusiasmo javardo pela  exibição esplendorosa  da sua “superioridade moral”.

Para ela, nem africanos nem ciganos “descendem dos Direitos Universais do Homem decretados pela Grande revolução Francesa de 1789”, ou seja, os tais Direitos Universais não se devem aplicar… a todos os Homens.

Tão edificante prosa continua pelas restantes linhas e parágrafos de tão abjecto artigo, digno de qualquer colonialista do século XIX, século onde Fátima Bonifácio parece ter parado no tempo, ou de qualquer discurso fascista ou nazi do século XX, bastando trocar “negro” e “cigano” por “judeu”.

É este “fascismo difuso”, hoje renascido das cinzas da crise civilizacional em que mergulhámos desde o inicio deste século XXI, que alimenta a retórica de tais “comentadores” que povoam cada vez mais o espaço comunicacional português, onde se destacam figuras com a dimensão de uma Maria de Fátima Bonifácio.

Esse discurso e a retórica neoconservadores são a adaptações actualizada do discurso racista do fascismo histórico.

A divulgação do ideário fascista beneficia mesmo dessa ambiguidade pragmática que torna difícil fixar aquele modelo politico.

Mas não tenhamos duvidas. Os ideólogos do nazismo, do fascismo e do salazarismo do século XX também eram pessoas cultas, inteligentes, “civilizadas”, “educadas”, de “bom gosto” e muito “católicas”, tal como o são hoje figuras como Fátima Bonifácio ou Rui Ramos.

Vale a pena ouvir a crónica de Paulo Moura, lida hoje na Antena 1 no "Fio da Meada", sobre "como conhecer um fascista". Também  recomendo AQUI a leitura da crónica de Rui Tavares, onde analisa o mesmo texto de Fátima Bonifácio.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

“Portugal Grande de Novo”??



Este é o título do manifesto de convocação da manifestação “apartidária” que está  prevista para esta 6ª feira:
A primeira pergunta a colocar é…, para além do título cheirar a “trumpismo” ou “bolsonarismo”, sem esquecer a sua origem numa frase dos nacionalismos fascistas  dos anos 30, quando é que Portugal foi “grande”? A época dos descobrimentos já lá vai e as razões pelas quais Portugal foi pioneiro (tese também discutível) estão mais que escrutinadas nas mais variadas teses históricas. Depois disso, só se estiverem a pensar na propaganda colonial do Estado Novo, um mítico Portugal “do Minho a Timor”!!

Para disfarçar a origem da convocação dessa “manifestação silenciosa” ( mas  que desta vez pretende ser ruidosa, cortando estradas e vias de acesso num dia de trabalho…), usam depois um conjunto de reivindicações que qualquer pessoa pode subscrever, mas que são contraditórias entre si.

Propõem, justamente, o aumento do salário mínimo para 700 euros e das pensões mínimas para os 500 euros, cortando as pensões para ( primeira contradição) ora  2 mil, ora 5 mil euros. (provavelmente algum dos proponentes assustou-se com a própria proposta e lançou a confusão…). Mas, porquê 700 ou 500? Com base em que critério? Pela nossa parte já aqui demonstrámos várias vezes que não devia haver salários abaixo do 800 euros, que podiam ser acima de mil euros se não se tivesse negociado tão mal a adesão ao euro, um euro que veio a acentuar as desigualdades na Europa, mas para cuja manutenção se exige o cumprimento de regras a uns (os países do sul) e se fecha os olhos a outros (França e Alemanha)…mas isto é outra história!

Propõe, por outro lado, uma atabalhoado conjunto de medidas sociais (para além do aumento das pensões mínimas), como a reforma do SNS e, por outro, contraditoriamente, a baixa dos impostos!!

Mas não um imposto qualquer: o IVA e o IRC. É revelador do tipo de interesses económicos que podem estar por detrás desta manifestação!.

Também é revelador que, quando falam na justa redução da taxa de electricidade, estraguem tudo quando especificam a taxa sobre emissão de dióxido de carbono! Então os manifestantes são daqueles que acham que não existem alterações climatéricas, não sendo, por isso, necessário tomar medidas para as combater, como a contenção no consumo energético?

E podíamos ir por aí fora!

Para quem duvida que a origem da convocatória parte de grupos de extrema-direita, basta consultar o histórico do conteúdo da maior parte dos site e das páginas dos promotores mais activos dessa manifestação.

Historicamente  o populismo de extrema direita sempre se caracterizou por uma propaganda contraditória, misturando justas reivindicações sociais, a denuncia, politicamente selectiva, da corrupção politico-partidária que mina as democracias, embrulhado numa mítica retórica nacionalista.

Claro que toda a gente tem direito de manifestação, nem este é um direito exclusivo da esquerda, e que existem muitos e bons motivos de descontentamento popular.

Mas esta não é um manifestação normal, convocada com hora e local, para desfilar ordeiramente pelas ruas do país.

Ela apela de imediato para o corte de estradas e vias, atitude que, apesar do hipócrito apelo que fazem à “não violência”, só se pode concretizar com violência, violência essa que está no gene dos mais entusiastas apoiantes e organizadores dessa manifestação (basta consultar o histórico das páginas dessa gente nas redes sociais).


quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

A extrema-direita à nossa porta.



A Andaluzia é uma das regiões espanholas que partilha uma grande parte da nossa fronteira com a Espanha e é uma das regiões que, a par da Galiza, mais contactos mantém com Portugal.

A população dessa província espanhola , 8 milhões de habitantes, é quase tanta como a totalidade da população portuguesa e elegeu um número inédito de deputados da extrema-direita, do partido Vox, para o parlamento local, dando assim um forte incentivo ao crescimento nacional desse partido, recém criado, e que dá voz à extrema direita espanhola, até agora muito marginal ou dissolvida no PP.

Para os comentadores que, até há pouco tempo, juravam a pés juntos que a Península Ibérica não seria contaminada pelo fenómeno do populismo da extrema-direita, argumentando como justificação para isso a vacina dos povos ibéricos contra essa mesma extrema direita, por causa de se terem livrado recentemente de duas ditaduras dessa área política, o resultado do Vox destruiu esse argumento.

O crescimento da extrema direita por cá só espanta quem anda mal informado e afastado das “massas”.

Basta ouvir as conversas de rua e ler os comentários das redes sociais para se perceber que o caminho está aberto para o aparecimento de um qualquer “salvador” e populista da extrema-direita.

Em Espanha foi o descalabro do PSOE e do PP que muito contribuíram para o “fenómeno”.

Na Andaluzia os socialistas, que dominavam a região há 36 anos, apesar de ganharem as eleições, perderam centenas de milhares de votos, principalmente par a abstenção, e não têm maioria para governar, face à soma dos partidos da direita (“Cidadanos”, PP e Vox), estando o caminho aberto para uma “geringonça” de direita, com o Vox a crescer em protagonismo e a lançar-se para um bom resultado a nível nacional já nas eleições para o parlamento europeu.

O PSOE da Andaluzia representa o que há de mais corrupto nesse partido e apresentaram uma candidata que é uma espécie de equivalente local de José Sócrates!

Por sua vez a facção liderada pela candidata local, a principal adversária interna de Pedro Sanchez, representa a tendência socialista que, um pouco por toda a Europa, abdicou dos seus princípios para se render ao poder financeiro e ao neoliberalismo, com o resultado que todos conhecemos.

Fartos dessa gente, os eleitores da Andaluzia quiseram varrer o PSOE, dando assim aval ao crescimento do extrema-direita.

Mas também o PP e o “Cidadanos” saíram derrotados da contenda, o primeiro deixando fugir grande parte do seu eleitorado para a extrema-direita. O Vox tem, aliás, origem numa cisão do próprio PP, que deixou cair a máscara democrática, mostrando que a origem do próprio PP  enraíza na falange franquista.

O “Cidadanos” que nunca se demarcou do próprio PP, mostrando que não passa de um PP.2, ficou também muito aquém do seu objectivo, que era o de ultrapassar o PP, começando provavelmente aqui o esvaziamento de um projecto “cheio de nada”!

Claro que o Vox ficou longe dos três mais votados, mas o simples facto de conquistar 12 lugares no parlamento andaluz vai dar-lhe uma visibilidade nacional que o irá catapultar para outros voos.

A corrupção que tem minado os regimes democráticos, devido à rendição dos partidos históricos aos mais obscuros interesses financeiros, a forma como a União Europeia lidou com a crise financeira, lançando no desespero milhões de cidadãos só para salvar esse mesmo sector financeiros e os “mercados”, e o grave problema da emigração, despoletado pela forma como o ocidente lidou com África e o Médio Oriente nas últimas décadas, contribuindo para a miséria do continente negro e as guerras no mundo de maioria muçulmana, contribuíram para acordar o monstro adormecido que era até há pouco tempo o populismo de extrema-direita.

Portugal passa a ser um caso isolado, até na Península Ibérica, mas o vírus que já anda à solta nas redes sociais, não demorará muito a espalhar-se pela frágil democracia portuguesa.

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

O Fascismo “nunca existiu”!??...ou existiu “apenas” num país!???...ou “anda ainda por aí”!?? -3º parte



Registámos, em dois posts anteriores, as características históricas do fascismo e a forma como a investigação histórica dos anos 90 caminhou no sentido de demonstrar que o fascismo estava morto e enterrado.

Referimos a excepção de Umberto Eco que, remando conta a maré dominante, explicou num ensaio de 1997, que o fascismo podia ressurgir com novas roupagens.

Ficámos de explicar quais eram as características, apontadas por Eco,  desse “novo fascismo”, que ele designa com “Ur-fascismo”.

Depois de analisar o exemplo do fascismo italiano, mostra que o fascismo não era coerente do ponto de vista ideológica, “não era uma ideologia monolítica, mas uma colagem de diversas ideias politicas e filosóficas, uma amalgama de contradições”, ao contrário do nazismo.

Por isso considerava que, se o nazismo não iria reaparecer “como movimento que envolva uma nação inteira”, pelo contrário o fascismo mantinha condições para renascer sob novas roupagens.

Escreve Eco que houve “um único nazismo”, mas, em” contrapartida, “pode-se brincar ao fascismo de muitos modos”, porque o “termo “fascismo” adapta-se a tudo porque é possível eliminar de um regime fascista um ou vários aspectos, e poder-se-á reconhecê-lo com fascismo”.

Apesar da confusão e da dificuldade em definir fascismo, é “possível indicar uma lista de características típicas do que poderei chamar o “Ur-fascismo” ou o “fascismo eterno”. Estas características não poderão ser ordenadas num único sistema: muitas contradizem-se reciprocamente, e são típicas de outras formas de despotismo ou fanatismo. Mas basta que esteja presente uma delas para fazer coagular uma nebulosa fascista”.

E quais são essas características apresentadas no ensaio de Eco?

Ei-las, de forma resumida:

-1. O culto da tradição, embora seja “mais velho do que o fascismo”;

-2. A rejeição do modernismo e do mundo moderno, que também se pode referir como “irracionalismo”.

-3. O culto da “acção pela acção”: “A acção é bela em si, e portanto tem de ser realizada antes de e sem qualquer reflexão. Pensar é uma forma de castração. Por isso a cultura é suspeita na medida em que se identifica com comportamentos críticos”, atitude identificada com o “uso frequente de expressões como “Porcos intelectuais”, “Convencidos”, “Snobs radiais”, “As Universidade são covis de comunistas”(…).

-4. O desacordo “é traição”.

-5. O Medo da diferença. “O Ur-Fascismo é (…) racista por definição”.

-6. A exploração da “frustração individual ou social” , apelando “às classes médias frustradas , sentindo mal-estar por qualquer crise económica ou humilhação política, assustadas pela pressão dos grupos sociais subalternos”.

-7. O nacionalismo, com apelo à xenofobia e que procura inimigos externos e internos que “conspiram” contra a identidade nacional.

- 8 . A defesa face a um inimigo que humilha o “povo”  pela “riqueza ostentada”.

- 9 . A critica ao pacifismo.

- 10 . O elitismo de massas e o “desprezo pelos fracos”. Quem se identifica com o “chefe” ou com “o partido” é o “melhor  povo do mundo” e os que pertencem ao “movimento” são “os melhores cidadãos”.

- 11 . O culto do “herói”, “todos são educados para se tornarem heróis”.

- 12 . o “machismo”, que implica o “desprezo pelas mulheres” e a “condenação” da homossexualidade.

- 13 . O “populismo qualitativo”, ou seja, “os indivíduos enquanto indivíduos não têm direitos” e é o líder que interpreta a vontade do povo. Já então Eco avisava que no “nosso futuro perfila-se um populismo qualitativo Tv ou internet, em que a resposta emotiva de um grupo selecionado de cidadãos pode ser apresentado e aceita como a “voz do povo”. Devido aos seu populismo qualitativo, o Ur-Fascismo tem de opor-se aos “putrefactos” governos parlamentares”. E conclui: “sempre que um politico lança dúvidas sobre a legitimidade do parlamento por já não representar “a voz do povo”, já podemos dizer que cheira a Ur-fascismo”.

- 14 . “O Ur-Fascismo fala a “neolíngua””, um termo inventado por George Orwell par o seu romance “1984”, uma crítica ao stalinismo então dominante entre os movimentos comunistas, mas que, segundo Eco, tem elementos comuns “a formas diferentes de ditaduras”, referindo o léxico pobre, de frase feita, com fins propagandísticos e de doutrinação, que procura alterar o significado da palavra com o objectivo de “limitar os instrumentos para o raciocínio complexo e crítico”, avisando para a necessidade de estarmos preparados “para identificar outras formas de neolíngua, mesmo quando toma  a forma  inocente de um talk- show popular”.

Conclui Eco que o “Ur-fascismo ainda pode voltar sob as vestes mais inocentes . O nosso dever é desmascara-lo e apontar o dedo a cada uma das suas novas formas –diariamente, em todo o mundo”.

Aquilo que parecia então uma mera divagação intelectual, está hoje mais actual do que muito.

Muitos dos 14 pontos apontados por Eco estão aí mais do que presentes no discurso populista de líderes políticos e movimentos de várias vestes e cores, da Venezuela ao Brasil, da Coreia do Norte à Hungria, da Rússia à Turquia, das Filipinas à Polónia, da Grã-Bretanha aos Estados Unidos, da França à Itália….

As redes sociais, que substituem a rua como lugar de manifestação da violência e do ódio de tipo fascista, estão cheias de um discurso acima identificado por Eco como o “Ur-fascismo” dos nossos dias :

-o apelo irracional ao ódio contra quem não pensa como nós;

- o discurso saudosista do “antigamente [leia-se por cá, no tempo de Salazar] é que era bom”;

- a diabolização e ridicularização das ditas questões fracturantes [a critica à modernidade];

- a disseminação das fake news ( a mentira várias vezes repetida para se tornar “verdade”);

- a criação de um clima de medo ( exagerando, pela repetição e pelo destaque, a existência de uma sociedade “dominada pelo crime”);

 -a desvalorização do Estado de Direito, com apelos à judicialização da sociedade, renegando a presunção de inocência ou fazendo dos tribunais espectáculo, recorrendo à divulgação de processos em segredo de justiça, conduzindo à defesa de uma  justiça popular e a uma justiça feita pelas próprias mãos, atitude potenciada pelos títulos de tablóides;

- a desvalorização de um pensamento crítico, atacando os “intelectuais”, o conhecimento cientifico, o papel das universidades “tomadas pela esquerda”;

- o desprezo pelos fracos, que culpa pela sua fraqueza, “vivendo dos subsídios”, apenas tolerados com alvo de campanhas de caridade para limpeza de consciências;

- o nacionalismo exacerbado, cercado de “inimigos” ( os “venezuelanos”, os “comunistas”, os “islâmicos”, os “terroristas”, os “emigrantes”…);

- a superioridade “democrática” das redes socias, a  verdadeira “voz do povo”, como contraponto da democracia “corrupta” e putrefacta” dos regimes parlamentares e dos políticos;

- etc., etc., etc….

Uma actualização fundamentada  do perigo de um “novo fascismo” está presente na recente obra de Madelene Albright, “Fascismo um Alerta”.

Historiando a origem histórica do fascismo e mostrando o que este teve de comum com o comunismo real (na sua versão stalinista) no desdém pela democracia, encontra diferenças assinaláveis entre as duas ideologias.

Faz igualmente o historial do MacCarthismo e da forma como, durante a Guerra Fria, os regimes democráticos pactuaram com as mais criminosas ditaduras, mostrando a forma como, no seio de regimes democráticos sólidos, o perigo das pulsões fascistas está presente e se pode transformar a democracia numa “ditadura da democracia”.

Faz um historial recente da presença dessas pulsões fascistas em regimes actuais, que , mesmo quando de origem ideológica aparentemente diferente, transportam em si o vírus do fascismo: o recurso à mentira, o desdém pela liberdade e pela democracia, o carisma do líder, o recurso ou apelo ao genocídio, o combate à diferença e o nacionalismo exacerbado.

Percorre a história recente do chavismo venezuelano, do regime turco de Erdogan, da ascensão de Putin, da “democracia iliberal “ de Órban na Hungria, da liderança omnipresente da dinastia Kim na Coreia do Norte, entre muitas outras referências a outros regimes “proto fascistas” como o de Sissi no Egipto, o de Kaczynski na Polónia, o de Zeman na República Checa, o de Duterte nas Filipinas (só não falando em Bolsonaro porque ainda não era notícia à data da escrita do livro), chegando à principal preocupação para o seu alerta contra o fascismo, a situação que se vive nos Estados Unidos com a vitória de Trump.

Claro que nenhum desses regimes é classificado por Albright com “fascista” ( apenas classifica como tal o da Coreia do Norte), mas todos transportam em si a semente de um novo fascismo, principalmente pela forma como banalizam um determinado discurso e uma determinada atitude que justifique as pulsões “fascistas”.

Em muitos desses governos e noutros movimentos de tipo populista por esse mundo fora, e citando Robert Paxton, da Universidade de Columbia, “ouvimos ecos de temas fascistas clássicos: medos da decadência e do declínio; afirmação de uma identidade nacional e cultural; uma ameaça à identidade nacional e à boa ordem social por parte de estrangeiros não assimiláveis; e a necessidade de maior autoridade para liderar com esses problemas”( pág.222).

Em comum, Albright encontra nalgumas das atitudes daqueles governos o caminho para um novo fascismo:

“Rapidamente o Governo que silencia um meio de comunicação acha mais fácil silenciar um segundo. O parlamento que ilegaliza um partido politico passa a ter um precedente para banir o seguinte. A maioria que priva determinada minoria dos seus direitos não para por aí. A força de segurança que espanca manifestantes e fica impune não hesita em voltar a fazê-lo” (pág.278).

Albright recorda-nos que, como aconteceu ao longo da história, os fascistas podem chegar ao poder por via eleitoral. Hoje em dia, aliás, não se atrevem a fazê-lo de outro modo. Geralmente chegados aos poder, vão dando passo a passo a estocada final na democracia, sendo o primeiro passo  minarem “ a autoridade de centros de poder que compitam com eles, incluindo o Parlamento”.

Deve-se a Albright uma definição simples e concisa do que é um fascista: “alguém que reclama falar em nome de uma nação ou de um grupo, que não se preocupa nada com os direitos dos outros e que está disposto a recorrer à violência e a quaisquer outros meios necessários para alcançar os seus objectivos” (pág.296).

Albright, que iniciou o seu livro com um conjunto de perguntas feitas aos seus alunos, cujas respostas esclarecem o que foi o fascismo em termos históricos, conclui a sua obra reformulando as perguntas, para responder onde podemos encontrar, nos lideres políticos de hoje, os novo arautos no novo fascismo:

“Vêm ao encontro dos nosso preconceitos, sugerindo que tratemos as pessoas de outra etnia, raça, credo ou partido como se não merecessem dignidade e respeito?

“Querem que alimentemos a ira contra quem acreditamos que nos fez mal, esfreguemos os ressentimentos até ficarem em carne viva e ponhamos os olhos na vingança?

“Encorajam-nos a sentirmos desprezo pelas instituições que nos governam e pelo processo eleitoral?

“Procuram destruir a nossa fé em elementos essências à democracia, como uma imprensa independente e uma magistratura profissional?

“Exploram os símbolos do patriotismo – a bandeira, o juramento – num esforço consciente  de nos virar uns contra outros?

“Se forem derrotados nas urnas, aceitam o veredicto ou insistem sem provas de que foram eles os vencedores?

“Fazem mais do que pedir os nossos votos e gabam-se da sua capacidade para resolver todos os problemas, acalmar todas as ansiedades e satisfazer todos os desejos?

“Solicitam os nossos aplausos falando despreocupadamente e com entusiasmo machista sobre o uso da violência para aniquilar os inimigos?.

“Repetem a atitude de Mussolini: “A multidão não precisa de saber” , tudo o que tem a fazer é acreditar e “aceder a ser moldada”?” (pp.304-305).

Quem corresponder à resposta positiva a  estas questões trás consigo e alimenta a semente do novo fascismo.

Como se pode concluir do que nós escrevemos e citámos, não é fácil definir, nem ontem nem hoje, o que é o fascismo.

Nem o fascismo dos anos 30 é repetível na nossa época.

Mas o desprezo pela democracia, pela liberdade, pelo outro, pela verdade, pelas instituições sociais e democráticas, pelos direitos humanos e sociais, é uma carcteristica comum à extrema-direita populista, seja a dos anos 30,seja a actual, mesmo quando, como na Venezuela, se veste  de roupagens pseudo-esquerdistas.

Ao mesmo tempo o apelo à violência e ao ódio, físico ou verbal, a atitudes irracionais, ao  que de pior existe no ser humano, é comum a tudo aquilo que, legitimamente, podemos classificar de fascismo.

Não vamos ver milícias nas ruas perseguindo judeus, negros, comunistas, socialistas ou democratas (ou será que vamos? Bolsonaro já prometeu algo parecido no Brasil...). Hoje as redes socias prestam bem esse serviço.

Não vamos ver a destruição total do formalismo democrático, pois podem bem conciliar o acto eleitoral em sociedades manipuladas por uma comunicação social controlada pelo poder financeiro e politico (Rússia, Turquia, Hungria...).

Ao contrário dos anos 30, em que economicamente o que era viável aos poderes que financiaram o fascismo contra o socialismo, a democracia e os direitos sociais, era a estatização da economia, hoje esses mesmo poderes apostam no neoliberalismo que lhes permite escapar ao fisco, às regras ambientais, à legislação e os direitos laborais e ao controle democrático da sua acção pelos parlamentos.

Este “novo fascismo”, ou “ur-fascismo” ou “populismo”, não precisa hoje de recorrer  ao aparato cénico propagandístico e espectacular dos anos 30. Basta manter-nos alienados, agarrados às redes socias e aos talk shows.

Ao contrário da esquerda, a extrema direita populista conseguiu adaptar-se aos novos tempos e renascer das cinzas, voltando a colocar o mundo á beira do abismo e da barbárie.

Bibliografia:

ALBRIGHT, Madeleine, Fascismo – um alerta, ed. Clube do autor, 2018;

ECO, Umberto, Como reconhecer o fascismo. Da diferença entre migrações e emigrações, ed. Relógio d’Àgua, 2017 (texto original de 1997, numa tradução de grande qualidade de José Colaço Barreiros);

PAYNE, Stanley G., El fascismo, Alianza Editorial , Madrid 1996 (1ª edição em 1980);

PINTO, António Costa, O Salazarismo e o Fascismo Europeu, ed. Estampa;