Em tempos de extremos e dominados pela “cloaca das redes sociais” , são muitas as asneiras que “vemos, ouvimos e lemos e não podemos ignorar”, escritas por aí.
Algumas são compreensíveis, quer pela revolta e indignação que nos
atinge a todos, face à criminosa invasão de um país soberano, a Ucrânia, por
uma potência nuclear e autoritária como a Rússia, e face à violenta destruição
de alvos civis e aos indesmentíveis crimes de guerra cometidos pelos invasores (ou"danos colaterais", se o tema fosse outra guerra iniciada ou apoiada pela NATO ou pelos Estados Unidos...mas essa é outra "história"!!!).
Mas alguns raiam a mera propaganda política, oportunismo ideológico ou,
pior ainda, falaciosa ignorância e má fé, como a de considerar que Putin é
“comunista”, e, com isto, trazer ao de cima o mais primário anticomunismo que
estava bem escondido nas entranhas de muitos.
Claro que se pode dizer que, por cá, o PCP foi o principal responsável
por essa reacção, pela ambiguidade demonstrada, até hoje, em relação ao seu
posicionamento perante a invasão russa, que desrespeitou toda a comunidade
internacional e o direito internacional, acentuada pela inconcebível e
desastrosa reacção da líder parlamentar, Paula Santos, ao discurso do
presidente Zelensky no Parlamento Português, uma nódoa, a juntar a muitas
outras dos últimos tempos, no património histórico do próprio PCP.
A melhor desmontagem da argumentação do PCP deve-se a José Pacheco
Pereira, num artigo publicado no jornal Público no passado dia 23 de Abril
(“PCP : ocultar que há um agredido e um agressor”).
Há quem diga que “o PCP se pôs a jeito”, e com isso iniciar ou
justificar a campanha contra o PCP, mas
essa é uma posição idêntica àqueles que tentavam “justificar” o ataque às
Torres Gémeas como o facto de “os Estados Unidos se terem posto a jeito”, ou
justificar o ataque terrorista em Paris como o facto de o “Charlie Hebdo se ter
posto a jeito”.
Como nada justifica os ataques terroristas, também as posições do PCP
não justificam a campanha anticomunista que vai por aí, principalmente na
“cloaca das redes sociais”, vendo em Putin um “comunista”, até porque o PCP
nunca apoiou o ditador russo, criticando-o até há muito mais tempo que críticos
recentes desse regime.
Claro que, em política “o que parece é”, uma verdade que devia ser
conhecida por um partido com uma vida politica tão longa.
Se as criticas à NATO ou aos Estados Unidos podem ser pertinentes, o
que é um facto é que, neste caso, o que está em causa não é mais uma invasão
ilegítima ou criminosa da NATO, dos Estados Unidos ou dos seus aliados (Israel,
Arábia Saudita…), mas estamos perante uma invasão ilegítima e criminosa da
Rússia, injustificável e condenável, “mesmo” que Putin fosse “comunista”.
A “santa ignorância” sectária que grassa para os lados do PCP não é
muito diferente da “santa ignorância” sectária dos extremos opostos.
Apelidar Putin como “comunista” como justificação para recorrer a todo
o argumentário do mais primário anticomunismo, acaba por prestar um mau serviço
à justa causa ucraniana.
Uma das atoardas mais ridículas, ignorantes e falaciosas que vi por aí
foi fazer um link para um discurso de Jirinovsky no Parlamento russo, onde ele
acusa o comunismo pelos crimes que são conhecidos do tempo da guerra civil e do
stalinismo, link apresentado como um manifesto contra o “comunista” Putin.
O que quem partilhou e divulgou esse vídeo desconhece, ou finge
desconhecer, é que Jirinovsky, falecido há poucos dias, foi um dos mais
fervorosos apoiantes da invasão da Ucrânia.
Recorde-se que, entre outras coisas, Jirinovsky defendia o regresso do
velho Império Czarista, do…Alasca (!!!) até à Polónia, defendia a negação da
Ucrânia como nação e a divisão deste
país pela Rússia, pela Polónia e pela Roménia.
Tendo falecido cerca de um mês depois da invasão da Ucrânia, ainda foi
a tempo de afirmar que o dia 24 de Fevereiro (data do inicio da invasão) tinha
sido o dia mais feliz da sua vida e que o ano de 2022 era o ano em que a Rússia
ia “voltar à grandiosidade” (veja-se a referência a esse patético líder do
maior partido de extrema-direita na Rússia, representado na Duma por 21
deputados, no jornal Público de 10 de Abril: – “in Memoriam – O expoente
ultranacionalista russo que previu a invasão da Ucrânia”).
Um dos argumentos usados por Putin para enganar os incautos e para
propaganda interna, num país onde acabou de vez a liberdade de expressão e onde
acabou de vez a imprensa livre, onde impera a verdadeira “verdade única”, é o
de que iniciou “ uma operação militar especial” para “desnazificar” a Ucrânia.
Sabendo-se a influência de grupos nazis e fascistas junto do poder
ucraniano, sabe-se também que um dos objectivos do presidente Zelensky, no seu
mandato, era reduzir o poder desses grupos, reintegrando alguns deles no
exército para os controlar e combatendo politicamente o seu discurso, reduzindo
a sua representação parlamentar para quase nada.
Mas mesmo que o “nazismo” fosse um problema mais grave, era uma questão
que só dizia respeito aos próprios ucranianos resolver.
Aliás, a invasão russa veio permitir o renascimento e o fortalecimento
desses grupos terroristas, como o célebre Batalhão Azov, entre outros.
E que dizer dos criminosos batalhões de Tchetechenos e do Grupo Wagner,
este último a guarda pretoriana de Putin, uma espécie de SS dos nossos tempos,
responsáveis pela maior parte dos crimes de guerra que tem tido lugar na
Ucrânia?
Aliás, Putin não pode dar qualquer lição de “moral” e de “antinazismo”,
já que, no seu próprio país, apoia mais de 10 organizações assumidamente nazis
e fascistas, que desfilam publicamente frente ao Kremlin, todos os dias 4 de
Novembro, data que era a da celebração da Revolução de Outubro, mas que Putin
substituiu pelo Dia da Unidade Nacional de origem czarista.
Não nos devemos esquecer também que, na guerra civil que dura desde
2014 no leste da Ucrânia, , se do lado ucraniano combatem grupos de extrema
direita, do lado russo combatem 4 organizações fascistas apoiadas pelo
Kremelin, em maior número do que a sinistra Brigada Azov.
Há que recordar também todo o tipo de apoios que Putin tem dado a
organizações e partidos de extrema-direita na Europa e nos Estados Unidos.
Mesmo que Putin, por vezes, tente recuperar alguma retórica dos tempos
da União Soviética, não o faz por razões ideológicas mas, como em relação à 2ª
Guerra, por puro “fervor nacionalista”. Aliás, o único líder soviético que
Putin nunca criticou foi Stalin.
Ainda recentemente, no discurso onde tentou justificar a invasão da
Ucrânia, criticou violentamente Lenine, a União Soviética e Krutchev por terem “dado”
uma unidade política à Ucrânia no sei das Repúblicas Soviéticas.
O objectivo de Putin não é o de reconstruir a União Soviética, mas o de
reconstruir o Império czarista, para além de outros objectivos de politica internacional
que não pretendemos, porque não temos conhecimento suficiente para isso,
analisar aqui.
Se juntarmos a tudo isto o facto de os principais ideólogos lidos e citados
por Putin serem autores russos do século XIX ou do inicio do século XX (como Serguei
Soloviev ou Ivan ìllin), que defendiam
teorias ultra nacionalistas ou fascista e nazis, muitos deles vivendo exilados
após a revolução, mas recuperados pelo actual regime russo, então ainda é mais
evidente que Putin não é “comunista”.
Lamento, por isso, “desiludir” os dois lados extremos da barricada, os que se indignam contra Putin porque acham que ele é a “encarnação do mal comunista” (não os vi tão indignados noutras guerras criminosas!!), e os que, no minímo, hesitam em condenar a barbaridade das tropas de Putin na Ucrânia porque acham que ele pretende reconstruir o “paraíso comunista na terra”.
Sem comentários:
Enviar um comentário