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segunda-feira, 14 de março de 2011

"COMPLEXO - Universo Paralelo" - um grande documentário a não perder.


“Complexo - Universo Paralelo” é um documentário sobre a célebre favela do “Complexo do Alemão”, uma das mais perigosas do Brasil e onde vivem cerca de 300 mil pessoas.

Os autores deste documentário, Mário e Pedro Patrocínio, viveram durante meses nessa favela, ganhando assim a confiança dos seus habitantes para poderem filmar quase todos os recantos da favela e seguirem a vida de alguns deles.

Sem os paternalismos a que nos habituamos a ver em muitas reportagens sobre os “pobres” da sociedade, a forma como se conta a história da vida das pessoas revela, pelo contrário, um grande carinho e um grande respeito por elas.

Quatro personagens se destacam na narrativa do filme:

A Dona Célia, mãe de oito filhos e com um marido alcoólico, que luta todos os dias por manter alguma dignidade na sua “barraca”, recolhendo ferro-velho para ter dinheiro para a comida e que se refugia na religião para ganhar forças para cada dia que passa;

O rapper McPlayboy que canta a vida dos habitantes da favela que ele tão bem conhece e que foi o responsável pelo interesse que os dois portugueses tiveram por este projecto, já que foi através de um documentário sobre esse músico que eles ficaram a conhecer melhor a realidade do “Complexo”;

O “Seu Zé” líder da Associação de Moradores do “Complexo do Alemão”, que todos os dias calcorreia a favela para tentar, com entusiasmo e determinação, resolver os problemas que surgem todos os dias e que desconfia dos políticos que por ali aparecem em época eleitoral, com promessas vãs;

Por último um grupo de jovens traficantes, anónimos, que mostram o lado negro do bairro e que explicam a razão de terem optado por essa vida de crime. Ficamos a saber no final do filme que todos eles estão mortos e um desaparecido.

A reportagem foi realizada em 2007, muito antes daquela favela se ter tornado mundialmente famosa pela mega-operação policial de Novembro último.

Um documentário destes já valia só pelo tema ou por dar voz às pessoas, mas os seus autores acrescentam-lhe um cuidado estético de grande qualidade, quer na forma como filmam e montam as cenas, quer na excelente fotografia. A beleza estética do filme até se arrisca a que encontremos beleza no que é horrendo.

Estamos perante um grande filme, feito com paixão e muito respeito pelos seus personagens.

É obrigatório ver.

Podem consultar AQUI o site oficial do filme.

(o documentário está em exibição em Torres Vedras, no Shoping Arenas, até ao próximo Sábado, com uma sessão diária, sempre às 19 horas).

(Uma nota à parte: soube recentemente que os dois jovens irmãos são filhos de um meu amigo de juventude e escola, que não vejo há alguns anos, e que têm família aqui em Torres Vedras).

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

A Pobreza em Portugal

A propósito da cimeira que hoje tem início na ONU para debater o resultado dos chamados “Objectivos do Milénio”, um programa de luta contra a pobreza à escala global, recordo aqui um interessante livro recentemente editado no Porto, intitulado “O que sabemos sobre A Pobreza em Portugal?”, organizado por uma equipa de investigadores destes temas e que tem por objectivo homenagear Leonor Vasconcelos Ferreira.

Editado pela “Vida Económica”, este livro reúne “um conjunto de contributos de elevada qualidade e rigor científico sobre as questões da Pobreza e Distribuição de Rendimentos”, numa “perspectiva multidisciplinar e integrada”, que integra “os aspectos económicos, sociólogos e políticos” relacionados com esse tema.

Esta obra devia ser de leitura obrigatória para os nossos economistas, políticos e comentadores, pois questiona muitas das ideias feitas sobre o tema, e que tão bem servem a costumada demagogia dominante.

Destaco aqui o texto assinado por Manuela Silva, intitulado “Pobreza, Direitos Humanos e Democratização da Economia”, uma interessante reflexão teórica sobre o conceito de pobreza, onde se defende a relação do combate à pobreza com a defesa dos Direitos Humanos e onde, entre muitas outras ideias interessantes, se sugere um novo modelo de empresa.

Aqui transcrevo algumas das partes mais significativas desse artigo, que merecem a nossa reflexão.

SOBRE O CONCEITO DE POBREZA

“O conceito de pobreza mais frequente nos estudos académicos ou nos relatórios institucionais continua a ser a pobreza monetária, que consiste em considerar como pobres os indivíduos ou agregados familiares cujo rendimento ou despesa é inferior a um certo limiar (…). Não obstante (…) o conceito de pobreza monetária enferma de várias limitações (….). Com efeito, a um baixo nível de rendimento ou despesa idêntico correspondem situações de privação muito diferentes, no caso de uma pessoa ou agregado familiar que tenha de prover a todas as suas necessidades na base de uma economia mercantil ou outra situação em que parte das necessidades essenciais da população, como sejam a saúde, a educação, a segurança social, se encontrem cobertas pelo Estado.

“Por outro lado, não basta dispor de certo rendimento monetário para deixar de ser pobre. O reconhecimento desta realidade tem levado a adoptar um conceito de pobreza assente no grau efectivo de privação, em que a privação do rendimento é apenas um elemento de um indicador compósito que contemple os diferentes défices de satisfação relativamente a um conjunto de necessidades essenciais correspondentes ao estilo de vida corrente. Entre outros, a qualidade da habitação e a respectiva inserção no espaço urbano, a par da segurança física, do acesso à educação e qualificação profissional, do acesso a cuidados de saúde, do lazer, da participação e da inserção social”.

POBREZA E DIREITOS HUMANOS

“(…) desde o início do milénio, tem vindo a impor-se a ideia de que a pobreza involuntária constitui uma violação de direitos humanos fundamentais e, como tal, deve ser colocada na agenda política.

“(…) Podemos perguntar-nos: que valor acrescenta este enfoque ao conhecimento da pobreza e, sobretudo, às estratégias para a sua erradicação?

“Em primeiro lugar, este conceito traz para primeiro plano o valor da dignidade de toda a pessoa humana, fundamento dos direitos humanos universalmente reconhecidos, e afirma que a pobreza involuntária ofende a dignidade e põe em causa o valor da vida humana”

UMA NOVA RESPONSABILIDADES PARA AS EMPRESAS

“A ideia de que o mercado, só por si, é o garante da democracia económica presidiu ao pensamento liberal e neoliberal das últimas décadas, mas hoje não resiste à verificação empírica: as grandes desigualdades, o risco ambiental, o desemprego massivo, só para referir alguns exemplos de disfunções que o mercado não previne nem corrige (…)

“Também o conceito de empresa carece de profunda revisão. Com efeito, a empresa não é apenas um capital, mas uma realidade social complexa, que envolve múltiplas relações : entre os diferentes sujeitos que nela intervêm (trabalhadores, fornecedores, clientes, além dos detentores do capital), bem como com a sociedade onde está implantada e onde opera. Assim sendo, os gestores não devem responder apenas, como hoje sucede, perante os accionistas que os nomeiam, mas devem também assumir responsabilidades perante os demais elementos que integram a empresa.”

Ficam aqui as ideias principais desse estudo e a recomendação para uma leitura mais atenta deste texto e dos outros, igualmente estimulantes, que integram este livro fundamental.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Pordata, a maior base de dados sobre Portugal

No principio da manhã viviam no país 1o milhões 649 mil e 771 de pessoas.
À hora em que escrevemos estas linhas, ao principio da tarde, já podiamos somar àquele número mais 23 portugueses.
Provávelmente quando publicarmos este post esse número já terá sido alterado.

Esta é uma das informações, organizadas em tempo real, que podemos consultar no site lançado ontem pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, intitulado PORDATA - Base de Dados Contemporâneo.

O projecto é dirigido por Maria José Valente Rosa e foi ontem apresentado pelo presidente administrativo dessa fundação, António Barreto.
O objectivo do site é o de reunir todas as informações estatísticas de Portugal do últimos 50 anos, que estavam dipersos por vários organismos.

População, Saúde, Educação, Protecção Social, Emprego, Empresas, Despesa Familiar, Habitação, Justiça, Cultura, Contas Nacionais e Contas do Estado, são os temas sobre os quais podemos consultar esses dados estatísticos.
O projecto é um projecto em construção e, em breve, será acrescentado com dados comparativos entre Portugal e a Europa e com dados a nível regional e concelhio.

É de saudar esta iniciativa que é um importante contributo para a democratização do conhecimento.