
Nos últimos tempos tenho tido a
oportunidade de assistir, nalguns casos até a participar, em várias sessões
comemorativas do cinquentenário do 25 de ABRIL.
Muitas dessas sessões tem tido,
como actividade central, a apresentação de estudos universitários, com as mais
diversas origens, de historiadores a sociólogos e de antropólogos a
politólogos, abordando e interpretando esse evento histórico.
Muitas dessas intervenções,
principalmente quando têm origem em gerações que nunca viveram esse momento
histórico, em especial se oriundos da chamada ciência política, não tanto da
ciência histórica, têm tendência, acredito que involuntariamente, para fazerem um
certo branqueamento e enviesamento histórico, eivado de preconceitos
ideológicos actuais, sobre esse período.
Percebo que muita da dificuldade
em estudar um determinado momento histórico, que não vivemos, advém de se
tentar interpretá-lo com base num determinado esquema académico e mental
preconcebido, contaminado pelo conhecimento à posterior do resultado de alguns
desses factos estudados e pelas opções ideológicas dominantes em épocas
diferentes, assim como pelo abuso da moda contrafactual.
Noto, aliás, uma grande diferença
entre historiadores e politólogos na forma como interpretam o tema.
Os primeiros, mais experientes na
análise e interpretação de documentos, cientes da evolução historiográfica, são
os que mais se aproximam da realidade, principalmente se despidos de
preconceitos ideológicos, como é timbre da historiografia moderna.
Já os segundos, mais preocupados
em estabelecer modelos rígidos e muitos marcados pelas temáticas e pelas
tendências e debates ideológicos contemporâneos, revelam uma narrativa mais
preconceituosa, tendenciosa e selectiva.
Tentar arrumar as dinâmicas do
período do 25 de Abril em modelos muito rígidos de interpretação, dividindo
essa realidade em “bons” e “maus”, ou fazendo comparações com os modelos das
modernas “democracias liberais”, muitas vezes interpretados a partir das acções
e memórias das elites e dos líderes políticos, é esquecer as principais
originalidades desse processo.
Talvez, não por acaso, a melhor
definição/síntese sobre esse processo se deva, não a um historiador, não a um
politólogo, não a um sociólogo, não a um líder político, mas a uma poetisa.
Refiro-me a Sophia de Mello Breyner Andresen, que, num poema, justamente
intitulado “25 de Abril”, melhor o definiu: “Esta é a madrugada que eu
esperava/O dia inicial inteiro e limpo/Onde emergimos da noite e do silêncio/E
livres habitamos a substância do tempo”.
Esse “dia inicial” foi mesmo
assim vivido pelos portugueses desse tempo, onde todos os desejos e todos os
sonhos pareciam estar ao alcance de cada um, mesmo que muitos desses desejos e
sonhos fossem diferentes, de pessoa para pessoa, tornando difícil um efectivo
controle politico sobre as muitas acções emancipadoras.
A “liberdade”, entendida muitas
vezes de forma diferente pelos quase 10 milhões de portugueses que então
habitavam o solo pátrio, foi outra das principais componentes desse movimento
que extravasava partidos, ideologias e lideranças.
As muitas tentativas de travar ou
controlar esse ímpeto só tiveram êxito à custa de muita propaganda, paga pelas
mais diversas agências internacionais, e de uma intervenção militar musculada,
mas limitada, pois não conseguiu travar o carácter transformador, democrático e
libertário desse processo.
O desejo de “paz, pão, habitação, saúde, educação”, que define
a “liberdade a sério” que só se atinge “quando houver liberdade de mudar e
decidir”, resumida nos versos da conhecida canção de Sérgio Godinho, ficaram
para além da realidade imposta e marcaram em definitivo o carácter inovador e
transformador desse processo, fazendo do 25 de Abril, ao contrário de outras
datas, uma data sempre em aberto, sempre “composta de mudança” (Camões cantado
por José Mário Branco).
Perceber o 25 de Abril, para além
de só poder ser percebido por quem o viveu, por quem, numa data, viveu todos os
momentos transformadores e contraditórios de uma Revolução Francesa, de uma
Revolução Russa, da Libertação do fascismo/nazismo do pós guerra, do Maio de
1968 e, por antecipação, da Queda do Muro de Berlim, só se pode perceber
consultando os seus poetas, artistas e cantores, mais que a interpretando todos os discursos políticos e preconcebidas
grelhas de análises “sociológicas” , “historiográficas” e da “ciência política”.
Por isso é tão difícil resumir o 25 de Abril aos ideários preconceituosos dos nossos dias.
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