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sexta-feira, 24 de abril de 2026

O 25 de Abril de 1974 e as “novas”narrativas

                                        
Nos últimos tempos tenho tido a oportunidade de assistir, nalguns casos até a participar, em várias sessões comemorativas do cinquentenário do 25 de ABRIL.

Muitas dessas sessões tem tido, como actividade central, a apresentação de estudos universitários, com as mais diversas origens, de historiadores a sociólogos e de antropólogos a politólogos, abordando e interpretando esse evento histórico.

Muitas dessas intervenções, principalmente quando têm origem em gerações que nunca viveram esse momento histórico, em especial se oriundos da chamada ciência política, não tanto da ciência histórica, têm tendência, acredito que involuntariamente, para fazerem um certo branqueamento e enviesamento histórico, eivado de preconceitos ideológicos actuais, sobre esse período.

Percebo que muita da dificuldade em estudar um determinado momento histórico, que não vivemos, advém de se tentar interpretá-lo com base num determinado esquema académico e mental preconcebido, contaminado pelo conhecimento à posterior do resultado de alguns desses factos estudados e pelas opções ideológicas dominantes em épocas diferentes, assim como pelo abuso da moda contrafactual.

Noto, aliás, uma grande diferença entre historiadores e politólogos na forma como interpretam o tema.

Os primeiros, mais experientes na análise e interpretação de documentos, cientes da evolução historiográfica, são os que mais se aproximam da realidade, principalmente se despidos de preconceitos ideológicos, como é timbre da historiografia moderna.

Já os segundos, mais preocupados em estabelecer modelos rígidos e muitos marcados pelas temáticas e pelas tendências e debates ideológicos contemporâneos, revelam uma narrativa mais preconceituosa, tendenciosa  e selectiva.

Tentar arrumar as dinâmicas do período do 25 de Abril em modelos muito rígidos de interpretação, dividindo essa realidade em “bons” e “maus”, ou fazendo comparações com os modelos das modernas “democracias liberais”, muitas vezes interpretados a partir das acções e memórias das elites e dos líderes políticos, é esquecer as principais originalidades desse processo.

Talvez, não por acaso, a melhor definição/síntese sobre esse processo se deva, não a um historiador, não a um politólogo, não a um sociólogo, não a um líder político, mas a uma poetisa. Refiro-me a Sophia de Mello Breyner Andresen, que, num poema, justamente intitulado “25 de Abril”, melhor o definiu: “Esta é a madrugada que eu esperava/O dia inicial inteiro e limpo/Onde emergimos da noite e do silêncio/E livres habitamos a substância do tempo”.

Esse “dia inicial” foi mesmo assim vivido pelos portugueses desse tempo, onde todos os desejos e todos os sonhos pareciam estar ao alcance de cada um, mesmo que muitos desses desejos e sonhos fossem diferentes, de pessoa para pessoa, tornando difícil um efectivo controle politico sobre as muitas acções emancipadoras.

A “liberdade”, entendida muitas vezes de forma diferente pelos quase 10 milhões de portugueses que então habitavam o solo pátrio, foi outra das principais componentes desse movimento que extravasava partidos, ideologias e lideranças.

As muitas tentativas de travar ou controlar esse ímpeto só tiveram êxito à custa de muita propaganda, paga pelas mais diversas agências internacionais, e de uma intervenção militar musculada, mas limitada, pois não conseguiu travar o carácter transformador, democrático e libertário desse processo.

O desejo de “paz,  pão, habitação, saúde, educação”, que define a “liberdade a sério” que só se atinge “quando houver liberdade de mudar e decidir”, resumida nos versos da conhecida canção de Sérgio Godinho, ficaram para além da realidade imposta e marcaram em definitivo o carácter inovador e transformador desse processo, fazendo do 25 de Abril, ao contrário de outras datas, uma data sempre em aberto, sempre “composta de mudança” (Camões cantado por José Mário Branco).

Perceber o 25 de Abril, para além de só poder ser percebido por quem o viveu, por quem, numa data, viveu todos os momentos transformadores e contraditórios de uma Revolução Francesa, de uma Revolução Russa, da Libertação do fascismo/nazismo do pós guerra, do Maio de 1968 e, por antecipação, da Queda do Muro de Berlim, só se pode perceber consultando os seus poetas, artistas e cantores, mais que a interpretando   todos os discursos políticos e preconcebidas grelhas de análises “sociológicas” , “historiográficas” e da “ciência política”.

Por isso é tão difícil resumir o 25 de Abril aos ideários preconceituosos dos nossos dias.

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