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quinta-feira, 23 de março de 2023

Um Problema de Cronologia (1)

Um dos maiores desafios para quem lê, investiga ou comenta a História ( a do H grande, mas também a de h pequeno) é balizar cronologicamente o tema estudado.

Dessa baliza cronológica depende muitas vezes a nossa interpretação, valorização ou o simples julgamento dos factos (embora a verdadeira missão da história não seja julgar).

Existem balizas cronológicas facilmente aceites pelos historiadores ou pelo senso comum, embora também estas possam vir a ser questionadas.

Por exemplo, é aceite, pela generalidade dos historiadores ou do cidadão comum, que a 2ª Guerra Mundial começou no dia 1 de Setembro de 1939 com a invasão da Polónia pelo exército alemão e acabou no dia 2 de Setembro de 1945 com a rendição formal do Japão.

Contudo, existem outras cronologias possíveis, à medida que se vão conhecendo outros contornos da vida política da época e posterior.

Há quem considere que a 2ª Guerra foi um prolongamento da “Grande Guerra Civil Europeia”, iniciada com a primeira guerra em 1914, ou da guerra civil na Rússia entre 1918 e 1921, onde se confrontaram vários exércitos, ou começou com a Invasão da Abissínia pelos Italianos em 3 de Outubro de 1935, desrespeitando a Liga das Nações, ou com a Guerra civil espanhola, entre 1936 e 1939, onde se ensaiaram novos armamentos,  as novas tácticas fundamentais para o desenrolara da 2ª Guerra e os confrontos ideológicos que a ela estiveram associados, ou iniciada com a segunda guerra sino-japonesa em 7 de Julho de 1937, ou com a transformação do conflito europeu em conflito realmente mundial quando as guerras no pacífico e na Europa se fundiram em 1941.

Há ainda quem considere que, verdadeiramente, a Grande Guerra só terminou em 1991 com o fim da União Soviética, já que esse país esteve no centro da grande luta ideológica que marcou o final da primeira guerra, desde 1917, motivou a ascensão do fascismo, em 1922, radicalmente anti-comunista, mas usando as “armas” do modelo que combatia, e levou à divisão ideológica da Europa após a derrota alemã.  

Há ainda quem culpe a passividade ocidental, face à ascensão do nazismo, que culminou nos acordos de Munique de 29 de Setembro de 1938, o mesmo ocidente que terá recusado negociar com a União Soviética para travar o expansionismo alemão, e que, segundo alguns, terá “obrigado” Stalin a assinar “pacto germano-soviético” em 23 de Agosto de 1939 para prepara a defesa do seu país.

Para outros foi este último pacto que abriu as portas para o início da 2ª Guerra que, ao contrário das interpretações mais comuns, tenta ver no resultado desse pacto, a divisão da Polónia entre alemães e soviéticos, como uma guerra iniciada por uma aliança contranatura, embora, no fundo, tanto alemães como soviéticos talvez se tenham limitado a adiar o confronto principal que marcou e decidiu a guerra, opondo os nazis à União Soviética, tentando, com esse pacto,  ganhar tempo para melhor se posicionarem nesse confronto decisivo.

Muitas vezes, no estabelecimento das balizas cronológicas para “limitar” determinado período, entram as opções político-ideológicas, por muito que os historiadores se classifiquem como “objectivos” ou “neutrais”, como acontece nos vários exemplos que demos acima sobre a dificuldade em estabelecer essas mesmas “balizas”.

Em parte, é a essa mesma dificuldade que estamos a assistir no debate sobre a guerra da Ucrânia.

Embora a invasão russa a um país soberano, a Ucrânia,  tenha sido um acto de desrespeito pelo direito internacional, será mesmo que esta guerra começo no dia 24 de Fevereiro de 2022?

Voltaremos a este tema.

quarta-feira, 8 de março de 2023

Uma revista para o Dia da Mulher

                                                      

Uma revista a não perder.

Entre as 55 mulheres está Dália Summer, a primeira atleta olímpica portuguesa, que viveu em Torres Vedras e esteve ligada à Física de Torres.

sexta-feira, 8 de julho de 2022

"Desmontando" o "Nacional-Salazarismo"

                                

...ou ...Uma História do “Estado Novo” que não é “mais uma História do Estado Novo”.

Editado em Novembro de 2021, já em 2ª edição datada de Fevereiro de 2022, aí está o primeiro volume da nova obra histórica de Fernando Pereira Marques, “Quem Manda?...” Nacional-salazarismo e Estado Novo, editada pela Gradiva.

Não é “mais” uma História do “Estado Novo”, pois o livro faz uma abordagem inovadora sobre esse período da nossa História.

Este estudo analisa a consolidação e estruturação do regime salazarista em três dimensões, a ideologia doutrinária e programática, o sistema político do regime, e a forma como essas duas primeiras dimensões incidem sobre as relações sociais e a na vivência quotidiana das pessoas, incindindo o primeiro volume, agora editado, sobre aquelas duas primeiras dimensões.

Uma das abordagens originais desta obra é a utilização do conceito “nacional-salazarismo” como alternativa à banalização da classificação do regime como “fascista”, conceito aquele que permite ultrapassar os dois “extremos” do debate sobre o regime, “fascismo” versus “ditadura conservadora”.

De facto, existe uma urgência, no debate politico actual, em clarificar o conceito de  “fascismo”, tendo em conta o abuso propagandístico dessa designação.

No caso português, onde tivemos um regime de meio-século como o foi o “Estado Novo”, mais urgente se torna analisá-lo fugindo ao uso abusivo do conceito de “fascismo”.

O mérito do conceito de “nacional-salazarismo” , explicado pelo autor nesta obra, é o de ultrapassar os becos sem saída e os abusos na utilização desse conceito para analisar o caso português.

O livro agora editado mostra como o regime se alicerçou à volta de um projecto de poder pessoal, apoiado numa “camarilha” restrita, indo, é certo, buscar influência aos primórdios do fascismo, mas revelando uma construção original, baseada na formação conservadora, “anti-revolucionária”, “anti-política” e pragmática do “Chefe”, projecto que se resume na frase que serve de mote ao título da obra: “Quem Vive? Portugal, Portugal, Portugal! Quem Manda? Salazar, Salazar, Salazar!”.

Este mote é um exemplo propagandístico, usado pelo regime, para acentuar a combinação entre o nacionalismo e o poder pessoal, o “tal” “nacional-salazarismo”.

Uma das dimensões mais originais, que distingue o “nacional-salazarismo” das ditaduras fascistas e extremistas dos anos 30/40 é a aversão à política, contrastando com “Mussolini, chefe de partido e de milícia, exibicionista e caricatural, berrando e gesticulando numa espalhafatosa farda; ou com Hitler (...)- que subiria ao poder por via eleitoral- agitador de rua, orador de cervejarias, militarista, teatral, que cultivava o exagero Histriónico e a encenação, e sabia habilmente explorar a vulnerabilidade das massas fanatizadas (…); ou até de Pétain, velho militar envolto na aura de chefe de guerra” (Página 35).

Uma das características mais marcantes do modelo “nacional-salazarista” é a aversão à “política”, aversão que já o acompanhava na sua juventude, mas, como refere o autor, o que o ditador “repudiava, na realidade, era a democracia, as ideias de pluralismo e de pluralidade, a aceitação dos conflitos como inerentes à complexidade das sociedades abertas e que deveriam ser geridas por instituições legitimadas pelos cidadãos”.

O sentimento “anti-politico” de Salazar é uma das marcas mais fortes do discurso “nacional-salazarista” que ainda hoje influencia a “memória colectiva portuguesa” e “a mentalidade de gerações”, alimentando “uma desconfiança ainda hoje latente quando não manifesta hostilidade, a essa categoria “nefasta”, “suspeita”, “viciosa”, “corrupta”: os “políticos”” (pág.37).

Essa aversão pelo “político”  justifica o desejo manifestado pelo ditador, em entrevista, de ser “um primeiro-ministro de um rei absoluto”.

Quanto muito, Salazar via a política como um “mal necessário”, considerando que “fazer política” não era governar, aquilo que se pode chamar da doutrina da “imobilização política” ou o “viver habitualmente”, ou seja “do ponto de vista doutrinário, o nacional-salazarismo era um pensamento de “imobilização” social através (…) da “disciplina”, da “unidade”, da “coesão”, da “homogeneidade” e da “concentração” de tipo fascizante e totalitário; nacionalista quanto à visão do mundo e aos valores, e pragmático quanto à forma de durar e governar” (pág.51).

A esta “aversão pela política” que permanece na nossa memória colectiva, como herança silenciosa do “nacional-salazarismo”, junta-se o mito, muito enraizado por aí em certos círculos, segundo o qual “não havia corrupção” no salazarismo, “esquecendo-se” instituições como a “censura”, as “leis” construídas à medida e os tribunais sem independência, que protegiam a “camarilha” do epiteto da corrupção de que se alimentavam e beneficiavam pela proximidade com o ditador.

A 2º parte da obra de Pereira Marques dedica-se à análise do sistema político “nacional-salazarista”, a sua Constituição corporativa, o funcionamento do semipresidencialismo e os organismos “ideológico-militarizados” que o sustentavam, como o “não-partido” União Nacional (UN), um “mal necessário”.

Uma das particularidades do sistema partidário salazarista, dominado pela UN, que o tornam “um caso de estudo é que, ao contrário da generalidade dos sistemas autoritários/totalitários, o partido destinado a suportar o regime era produzido por este, e não o inverso”, pois, com “efeito, a UN foi desde o início construído a partir do Governo ou, mais precisamente, do Ministério do Interior e da Presidência do Conselho” (pág.69).

Analisa-se também a relação do ditador com os governos por si presididos, governos personalizados concentrando o poder no próprio Salazar, sendo esta uma das características do regime, citando-se, a propósito o próprio Salazar, numa entrevista a António Ferro, onde o ditador clarifica “a sua concepção de governo do ponto de vista funcional” : “A orientação, a responsabilidade política do Governo diz respeito a duas pessoas – ao Chefe do Governo e ao ministro do Interior. Os restantes ministros têm preocupações técnicas demasiado importantes para serem obrigados a pensar ainda no problema político que devemos tentar reduzir à sua expressão mais simples se queremos mudar de vida” (pág. 136).

O próprio ditador estabeleceu uma hierarquia em  “matéria de governação”, distinguindo a “alta política”, da “média política” e da “baixa política”, segundo o registo de uma reunião do Conselho de Ministros, realizada em 1945 e anotada por Marcelo Caetano: a “Alta política” “compreendia a política externa, a “constitucional”, a “imperial” e a económico-social; a “Média Política” (…) abarcava a “influência externa na estrutura política portuguesa”, o sistema eleitoral, a censura à imprensa, a polícia política, a situação económica e a “política social”; e a “Baixa política” (…) reportava ao “estado da opinião pública”, “intrigas”, “agitação militar”, “vícios da organização corporativa”, etc.” (pág.137).

O relacionamento do ditador com os diversos ministros e as diversas pastas reflectia essa “classificação”, encarando o ditador o Conselho de Ministros “como um pequeno órgão colegial, um “pequeno parlamento”, que lhe bastava e era necessário aceitar e tolerar” (pág.137), daí a quase ausência de reuniões do concelho de ministros, a governação baseada em “conversas bilaterais” com os ministros, governando preferencialmente por decreto.

Um outro tópico que merece uma análise detalhada é o das “encenações eleitorais no funcionamento do sistema”, no capítulo terceiro do livro.

Distinguem-se dois momentos, uma primeira fase até 1945, o das “eleições” sem oposição, uma segunda fase após aquela data “com oposição”.

A principal característica do regime neste campo era o de impedir a livre concorrência entre partidos. O máximo que era permitido, principalmente na segunda fase, era uma concorrência entre “associações apolíticas” tendo por base o conceito de “democracia orgânica” segundo o qual “o Estado era a “Nação socialmente organizada”, onde o “partido” único, a União Nacional era “uma espécie de voluntariado da política sem interferência “na governação pública e [que] não aspira ao recrutamento do funcionalismo ou do pessoal político” (citação do autor na pág. 157).

Neste capítulo o autor analisa as características de cada um dos “actos eleitorais” organizados pelo regime, onde destaca o recurso à fraude, à falsificação e  à manipulação como forma de perpetuar a UN, acabando invariavelmente com a prisão dos opositores após o período eleitoral.

No último capítulo do livro abordam-se as características da vida parlamentar, ou, mais correctamente, o funcionamento do “não-parlamento”, sempre dominado pelo “partido” único e no qual, quem pretendesse usar o parlamento como palco de contestação ou crítica, ou levasse a sério esse espaço como tribuna de afirmação política, corria o risco de ostracização, levando a dissidências como a de Henrique Galvão, caso que é analisado em pormenor nesta parte da obra.

Destacamos ainda a publicação de um anexo com um exaustivo levantamento dos “detentores ou ex-detentores” de cargos políticos e públicos, durante o Estado Novo, uma espécie de lista dos que “mandavam naquilo tudo”, a tal “camarilha” que beneficiava da proximidade e da intimidade com o ditador. 

Enquanto aguardamos pela continuação desta bem documentada análise do Estado Novo, salientamos o facto de muita da documentação usada, de uma grande riqueza de conteúdo, estar disponível e publicada, embora seja muitas vezes ignorada por outros autores, documentação que Pereira Marques usa de forma certeira para explicar situações e conceitos complexos, e que tornam este estudo de leitura agradável.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

Putin “contra” Lenine, ou as “lições” de “história” de Putin


Um dos momentos mais significativos da comunicação de ontem de Vladimir Putin não foi o reconhecimento dos estados separatistas ucranianos, já que esta situação foi um mero reconhecimento de uma situação de facto, embora violando as leis internacionais e  criando condições para uma efectiva ocupação militar dessas regiões, situação que pode levar a uma escalada militar contra a Ucrânia, com consequências imprevisíveis na paz mundial.

Um dos momentos mais esclarecedores dessa comunicação foi a “lição de história” de Putin, uma visão que o mesmo já tinha escrito há alguns anos.

Curiosamente poucos se debruçaram sobre o conteúdo dessa lição, talvez porque põe em causa dois discursos dominantes que, por razões diferentes, procuram colar Putin ao legado “soviético”, de um lado os que anseiam pelo seu regresso, e, do outro, os que o usam para diabolizar o “socialismo”.

Em termos gerais, nessa comunicação Putin acusou Lenine de ter criado uma Ucrânia autónoma, que, até à “traição” da Revolução Bolchevique, era parte “integrante” e “indivisível” do Império Russo.

Esse principio levou-o mesmo a reforçar o argumentário a favor da  invasão da Crimeia em 2014, recordando que este território tinha sido integrada “à força” no Estado Soviético federal da Ucrânia, por outro líder soviético, Krutchev, líder comunista de origem ucraniana.

Ou seja, acaba por considerar a Ucrânia um Estado “inventado” pelos bolcheviques e reforçado ao longo do regime soviético.

Mas a sua narrativa foi ainda mais longe, dizendo que, os ucranianos, ao derrubarem as estátuas de Lenine, estavam a derrubar quem lhes deu “razão” para a sua independência e, acrescentou, se querem mesmo “descomunizar” a Ucrânia devem ir “até ao fim”, estando ele, Putin, “pronto para vos mostrar o que significa para a Ucrânia a verdadeira descomunização”, ou seja, essa “descomunização” só estará completa, se acabar com essa “invenção” bolchevique de uma Ucrânia independente e autonoma, integrando-a na “mãe” pátria, o grande império Russo, “destruído” pelos bolcheviques e que Putin visa reconstruir.

Para aqueles, nostálgicos da “grandeza” da  União Soviética,  que viam em Putin uma espécie de regresso à “grandeza” do “comunismo” soviético, espero que este discurso tenha sido revelador e esclarecedor sobre quem é de facto Putin, uma espécie de Hitler dos nossos tempos.

Aquela revisão da história revela toda a natureza política de Putin, um autocrata imperialista, um populista nacionalista, que bebeu o pior de Stalin e o pior do fascismo para construir a sua narrativa histórica.

Basta ver quem tem estado activamente do seu lado ou tem sido por ele apoiado: Le Pen, Trump, Bolsonaro…

Claro que, como já dissemos noutro texto, o “ocidente” e a NATO não estão isentos de responsabilidade na escalada bélica, nem podem dar grandes lições de história ao ditador russo. 

Aliás, muito da estratégia e da narrativa Russa para se apoderar de parte da Ucrânia (veremos, no futuro, se não de toda a Ucrânia) não é muito diferente da utilizada pelo “ocidente”, em especial pelos Estados Unidos, e mais recentemente pela NATO, para várias intervenções militares por esse mundo fora, ao longo da história.

Durante as últimas décadas humilharam a Rússia, apoiando todas os movimentos separatistas e independentistas que enfraquecessem esse país, colocando armamento às suas portas, ao mesmo tempo que fechavam os olhos e beneficiavam dos investimentos financeiros no Ocidente, feitos pelos corruptos oligarcas, que são a principal base de apoio de Putin.

Claro, também, que, se aceitamos que vários estados se tenham separado da Rússia para fundarem novos estados, sem ter em conta outros “direitos internacionais” e sem qualquer referendo popular para os tornar independentes, temos de aceitar que certas regiões, algumas integradas à pressa nesses novos Estados, tenham direito a escolher a sua autonomia ou a sua integração noutra região.

Mas, contudo, tal só poderá ser aceitável com recurso a referendos democráticos, e respeitando a negociação, situação que não é aquela que se passou, ou passa, quer na Crimeia quer nos actuais estados agora reconhecidos pela Rússia.

O diálogo e a verdade histórica não são, como já sabemos, e aquela comunicação confirma, as principais preocupações de Putin.

quinta-feira, 30 de maio de 2019

D. António Prior do Crato desembarcou em Peniche e avançou sobre Lisboa, há 430 anos:

29 de Maio de 1589:  há 430 anos D. António, prior do Crato, ocupou Torres Vedras, depois de desembarcar em Peniche, para cercar Lisboa, apoiado por tropas inglesas e uma marinha comandada por Francis Drake(Clicar para ler essa história).

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Acaba de sair o 4º volume de "Álvaro Cunhal - uma biografia política" de José Pacheco Pereira




Acaba se ser editado o 4º volume da Biografia de Álvaro Cunhal da autoria do historiador José Pacheco Pereira.

Tivemos ocasião de ler os três primeiros volumes dessa obra monumental e esperamos em breve iniciar a leitura deste novo volume.

Daquilo que lemos dos volumes  anteriores esta é, não só a mais completa e bem documentada biografia de Álvaro Cunhal, como a obra mais completa sobre a história da oposição ao Estado Novo, já que o autor não se limita à figura de Cunhal, mas analisa, com base em muita documentação inédita e até então desconhecida, tudo o que gravitava à volta de ´Álvaro Cunhal
E o que gravitava à volta de Álvaro Cunhal não era apenas o PCP e a Internacional Comunista, mas práticamente toda a oposição que com ele de perto privou.

Tive a oportunidade de confrontar o rigor da obra de Pacheco Pereira com a prova viva de um velho, e entretanto já falecido, militante do PCP que viveu  a história desse partido, na prisão e na clandestinidade e me comprovou a veracidade de tudo o que está escrito nesta monumental obra.

Só foi de lamentar, até agora, que o próprio PCP nunca tenha facultado o acesso de Pacheco Pereira ao seu arquivo ou que Álvaro Cunhal sempre se tivesse recusado a ser entrevistado pelo historiador. 

Mas as grandes qualidades de Pacheco Pereira como investigador conseguiram ultrapassar e contornar essa lacuna, ao ponto de o próprio Álvaro Cunhal em vida e os responsáveis do PCP nunca desmentirem ou encontrarem motivo para desacreditar a obra histórica que agora conhece a edição do seu 4º volume.

Para além de ser impossível fazer a história do século XX português ( e até europeu) sem consultar esta obra, ela própria inclui um vasto manancial de documentação e de orientação bibliográfica imprescindível para  qualquer investigação séria sobre a época.

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

História - Jornal de Notícias : uma nova revista de História nas bancas

Saiu hoje para as bancas o primeiro número da revista "HISTÓRIA - Jornal de Notícias".

Trata-se de um projecto editorial que sai da redacção do "Jornal de Notícias" do Porto, de periodicidade trimestral.

É uma revista de divulgação sobre temas ligados à "História, à historiografia e ao património histórico, material ou imaterial", conforme se pode ler no seu estatuto editorial".

Não se considera uma publicação científica, mas que se pauta pelo rigor, que pretende fazer "jornalismo da História", partindo da redacção daquele jornal centenário, mas com "vida própria".

Para isso conta com um Conselho Editorial integrados por nomes de prestígio na investigação histórica, na àrea dos estudos sobre o património e na arqueologia, como Fernanda Rolo, Irene Pimentel, Germano Silva, Joel Cleto e Luis Miguel Duarte.

É um projecto editorial baseado no Porto e no Norte, que se junta assim ao "lisboeta" projecto da revista Visão, "Visão - História".

Neste seu primeiro número destaca-se um dossier sobre o período do "PREC" , acompanhado por fotografias do já de si histórico Alfredo Cunha, 

Mas também existem outros temas em destaque, como os Castros do Noroeste e a Conquista de Ceuta.

Este número inclui também uma interessante entrevista como historiador José Pacheco Pereira.

Apresenta ainda um variado lote de rubricas, como  notícias de actualidade, onde a história é o centro, uma reportagem sobre um museu, neste trimestre o Museu Nacional Machado de Castro, em Coimbra, a gastronomia na história, um  ensaio fotográfico, tendo o património histórico como tema, de Reinaldo Rodrigues, a história e o cosmos, de Miguel Gonçalves, o panorama editorial no campo da História e uma evocação a Marc Bloch, entre tantos outros temas de interesse.

Sendo parco o panorama editorial português de publicações periódicas dedicadas à História, esta publicação é bem vinda e uma lufada de ar fresco.

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Cheias em Albufeira - As imagens que explicam tudo:

Como já aqui referi, tenho na memória as condições geográficas e o caos urbanistico de Albufeira, potenciadores da tragédia que agora se abateu sobre aquela cidade algarvia.

Na altura em que lá vivi, nos finais da década de 80, vivia-se o auge do modelo caótico de urbanismo que vigorava no Algarve e um pouco por todo o litoral do país, um dos pilares do "espírito cavaquista" de enterrar em betão os chamados "fundos estruturais" europeus, que então afluiam em barda a  Portugal.

Essa estratégia urbanística errada e esse modelo de "desenvolvimento", que hoje estamos a pagar caro, contaminou práticamente todo o poder autárquico de então, mesmo quando este era gerido pelo Partido Socialista, como acontecia nessa altura em Albufeira.

Nessa época estava à frente da Câmara de Albufeira um tal Xavier Xufre, que, anos depois, em 1996, seria forçado a renunciar ao seu longo mandato à frente daquela Câmara, a contas com a justiça devido a "alegadas irregularidades" com empreiteiros e que se tornou no autarca maldito do PS, passando a dedicar-se aos bares à restauração e à imobiliária.

Na altura em que lá estive já corriam muitos "rumores" e "histórias" sobre as relações do autarca com a construção civil, situação nunca provada ou, as que foram provadas, prescritas e arquivadas pela justiça.

Mas já então já estava à vista  o "patopbravismo" urbano em que tinha mergulhado a antiga vila de Albufeira, seguindo aliás o "modelo"  que grassava por todo o litoral Algarvios (com as excepções dos limites ocidental, a partir de Lagos, e oriental, a partir de Faro e Tavira).

A propósito não resisto a contar uma história, reveladora desse caos urbanístico algarvio, esta passada numa localidade vizinha de Albufeira, Portimão, 

Portimão é talvez o pior exemplo desse tipo de urbanismo(só ultrapassado por Armação de Pêra e Quarteira).

Tinha visitado essa localidade, uma formosa e calma vila de pescadores, aí por meados da década de 70 , voltando a deslocar-me aí no final da década de 80, onde já se notavam as aberrações urbanas caracteristicas do litoral algarvio, mas onde ainda era possível detectar alguma harmonia. Ora, no princípio deste século, voltei a Portimão, com o objectivo de ir ao porto e à prai dessa localidade. Pois andei uma hora ás voltas, entre o caos urbano e viários e, com muito custo,consegui sair, sem ter conseguido ver uma réstia de mar, nem saber por onde ir para chegar ao cais... claro que nunca mais lá voltei.

Mas voltando a Albufeira, consegui recolher aqui da net algumas imagens e mapas antigos de Albufeira que falam por si sobre as razões daquilo que aconteceu no passado fim-de-semana naquela cidade.
Convém aqui salientar que, aquela tipo de urbanização vai potenciar outras situações parecidas, um pouco por todo o país, não só devido ao previsto agravamento das condições climatéricas,  ainda mais graves junto ao litoral por causa da previsivel subida do nível do mar  e  que, no Algarve, terá de ter em conta uma previsivel repetição das condições que proporcionaram o maremoto de 1755, por ironia do destino também ocorrido num dia 1 de Novembro...
É caso para dizer que "palavras para quê" se as imagens aí estão para demonstrar o que potenciou a tragédia e pode repeti-la, de forma ainda mais grave, se não se arrepiar caminho:

O Percurso principal das àguas pela ruas de Albufeira no dia 1 de Novembro de 2015:

(vista aérea de Albufeira. 1 - Avenida da Liberdade; 2 - Largo Eng. Duarte Pacheco; 3 - Av. 25 de Abril; 4 - Praça e Praia dos Pescadores)

1 - AVENIDA DA LIBERDADE: O "ANTES", O "DEPOIS" E AS "CHEIAS":

O "ANTES":
...O DEPOIS..
(A seta indica a casa onde vivi entre 1988-1989, a mais pequena entalada entre prédios altos)

...E AS CHEIAS:

2- LARGO ENGENHEIRO DUARTE PACHECO: O "ANTES", O "DEPOIS" E "AS CHEIAS":

O "ANTES":


....O "DEPOIS"...:


...E AS "CHEIAS":

3 - AVENIDA DE ABRIL :
O "ANTES", O "DEPOIS" E "AS CHEIAS":

O "ANTES" ...:

...O "DEPOIS" ...:

...A "AS CHEIAS" :

4 - PRAÇA E PRAIA DOS PESCADORES:O "ANTES", O "DEPOIS" E "AS CHEIAS":

O "ANTES" ...:

...O "DEPOIS"...:
...E AS "CHEIAS" :

Penso que as imagens  acima divulgadas são bem elucidativas da situação.

Em baixo transcrevemos também um mapa medieval de Albufeira e uma comparação entre o que era a antiga Al Buhera muçulmana e a zona inundada...

(Mapa retirado de AQUI)



... é caso para dizer que quando não se respeita a natureza e o passado estas voltam sempre para cobrar...

(Todas as fotos, postais e gravura foram retiradas da internet, numvariado número de sites, explorando as "Imagens" com as palavras e frases "Albufeira", "Cheias na Albufeira", "História da Albufeira" e também o site de venda de postais "Delcampe")