segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Charles Aznavour e a Piscina do Vimeiro

Nada como uma canção ou um musico para nos avivar a memória e viajar no tempo.
Quando, há alguns meses atrás, vi na televisão o anuncio televisivo do concerto de Charles Aznavour em Portugal, que teve lugar no passado Sábado no Meo Arena, dois pensamentos me ocorrerem, o primeiro de espanto, pois pensava que Aznavour já não era vivo, muito menos que ainda dava espectáculos, o segundo levou-me à infância e às tardes de verão na piscina do Vimeiro, na Maceira.
De facto, não posso recordar esses dias de verão passados à beira da piscina do Vimeiro, localizada na Maceira, sem os associar ás canções de Aznavour, que se repetiam até à exaustão, como fundo musical que animava aquele espaço.
Nessa altura, nos idos dos anos 60 do século passado, a rádio era o principal meio de comunicação que nos acompanhava durante o dia, pois a televisão, dando ainda os primeiros passos em Portugal, apenas iniciava as suas emissões no final da tarde, encerrando à meia-noite.
E na rádio de então, para além da musica portuguesa, entre o fado e a chamada musica ligeira e romântica, apelidada também, com algumas injustiças, de nacional cançonetismo, apenas se ouviam canções espanholas, italianas e francesa. Os temas em inglês eram raros, quanto muito  um Frank Sinatra,  um Louis Armstrong ou algum tem de filme famoso.
Entre os músicos franceses mais divulgados estava o nosso Aznavour. Pessoalmente nunca foi dos meus autores franceses preferidos, e só me recordaria dele depois de citar um Reggiani, um Férre, uma Piaf ou um Brel.
Mas são dele algumas das canções que mais me ficaram no ouvido, muito por culpa do ambiente musical que passava repetidamente na piscina do Vimeiro, que eu frequentava regularmente no Verão.
O meu pai era amigo do “Ferreira do Vimeiro”, que era, como se diria hoje, o “CEO” da Empresa das àguas do Vimeiro que geria também as piscinas na Maceira e o Hotel Golf Mar em Porto Novo.
Aliás, as àguas do Vimeiro e as suas piscinas não se localizam no Vimeiro, uma aldeia do concelho da Lourinhã, mas  na aldeia vizinha da Maceira, pertencente já ao concelho de Torres Vedras.
A escolha do nome “Vimeiro” foi uma questão de marketing, por causa da célebre batalha das Invasões Francesas.
Voltando ao “sr. Ferreira”, este oferecia ao meu pai e à sua família, durante o verão, entradas grátis na piscina, que eu me lembro de frequentar desde muito pequeno. Penso, aliás, que foi lá que aprendi a nadar.
A viagem de Torres Vedras era uma aventura, nas camionetas do “João Henriques”, outras vezes era uma aventura, num dos coupés do “sr. Ferreira” que muitas vezes era quem me levava ao “Vimeiro”.
O “Ferreira do Vimeiro”, era um homem bonacheirão, que, para além de ser um grande amigo do meu pai, homem da oposição e fumador impulsivo de pequenas cigarretes pretas de cheiro intenso e de cachimbo, era um entusiasta por livros e possui a maior biblioteca privada do concelho, pelo menos a maior que eu conheci, numa escritório imenso, em forma circular, com vários andares e com estantes rodeadas de varandins na sua imensa vivenda do Amial, perto do Ramalhal.
Essa biblioteca, bem como todos os elementos da sua família, tiveram destinos trágicos depois da sua morte, mas isso é outra história, que se confunde com rumores sobre a sua vida de juventude, ligada ao vício pelo jogo, que teria destruído a fortuna da família, e a sua paixão por mulheres.
Quando o conheci já era um homem que se tinha refeito desse passado e , como braço direito dos donos das àguas do Vimeiro, ganhava bem para a época, investindo muito em livros e em carros, bem como nas amizades que cultivava.
Tudo isto a propósito de Aznavour e das suas canções que se faziam ouvir até à exaustão durante os dias de verão na piscina do “Vimeiro”.
Anos mais tarde, depois da morte do meu pai, o “sr. Ferreira” deu-me um emprego sazonal, durante a época de verão da piscina do Vimeiro, em 1976, como forma de apoiar economicamente a minha família numa fase complicada.
A minha função era a de vigilante/salva-vidas, embora não houvesse muito para salvar naquelas piscinas. Por vezes ficava na bilheteira a substituir o velho porteiro, e era esse o momento mais esperado pelos míudos que estavam hospedados numa espécie de campo para “retornados”, pois eu facilitava-lhes a entrada. Mas, também nessa altura cabia-me a função de por a musica ambiente na piscina e foi então que descobri a razão de só se ouvir Aznavour.
É que só havia uma velha cacete, um cartucho maior que as cassetes vulgares de então, que reunia os êxitos de Aznavour. Claro que tentei alterar a situação, colocando musica rock, mas sem êxito, devido às queixas dos mais velho que frequentavam a piscina.
Então lá tive de repor o velho Aznavour, e, desde então até hoje, nunca mais o ouvi, pelo menos com a frequência de então.
Não sei se foi o "sr. Ferreira" que comprou aquela cassete para passar no circuito sonoro da piscina, mas se o fez, quero acreditar que o fez  porque aquelas cancões lhe recordavam os seus tempos de jovem boémio.

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