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segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Catalunha - A caminho da Independência?


Quem já esteve na Catalunha, em Barcelona por exemplo, sabe que aquela região é muito diferente do resto da Espanha. 

Aí nem o espanhol é falado e, quando visitei pela primeira vez Barcelona, deparei-me com um cidade que tinha uma dinâmica que nos remetia mais para a realidade nórdica do que para aquilo que era a realidade ibérica, comparativamente, por exemplo, quer com Portugal, quer com a Galiza ou Castela.
Por isso o desejo independentista da Catalunha era um desejo latente desde sempre, ainda por cima numa região que nunca simpatizou com a monarquia espanhola como regime.

O que me surpreende é a histeria que tomou conta da Comissão Europeia, chegando ao desplante de chantagear os independentistas catalães.

É que a União Europeia e o bando antidemocrático que a dirige na Comissão e no Conselho não tem qualquer moral para interferir com a escolha, que será democrática, do povo catalão.

Foi com o apoio da União Europeia, com a Alemanha à frente, que se destruiu o estado da Jugoslávia.
Foi com esse apoio que a Checoslováquia foi dividida, isto já no seio do espaço da própria UE.

Foi ainda a UE que integrou apressadamente, com custos para todos nós, os estados báltico que se libertaram da Rússia.

Alguns desses histéricos vêem agora com alivio o facto de a CyU, o partido nacionalista que tem dirigido os destinos da Catalunha, não ter obtido a maioria absoluta. “Esquecem-se”, convenientemente, que aquele partido da direita conservadora catalã perdeu essa maioria para partidos, como a Esquerda Republicana, que são ainda mais consistentes na defesa da independência. 

A fuga de votos da CyU aconteceu porque muitos, que defendem a independência, desconfiam do histórico oportunismo político da CyU e da sua sinceridade em relação à defesa da independência. 

Até porque, os grandes derrotados foram os partidos “espanhóis”, o Partido Socialista e o PP.

Por isso não percebo muito bem a histeria e as falácias daquela gente em relação à Catalunha. 

Claro que a independência daquela nação vai trazer problemas, para os quais alerta o meu amigo Manuel Monteiro (ver em baixo), com quem divirjo quase sempre nesta e noutras questões. Mas é importante reflectir sobre as suas ideias, mesmo aqueles, como eu, que são defensores do direito da Catalunha à independência.


sexta-feira, 18 de junho de 2010

O Respigo da Semana - Henrique Monteiro e a Europa


São mais as vezes que discordo das opiniões do meu ex-colega de curso Henrique Monteiro, do que aquelas com que concordo.

De qualquer modo, Henrique Monteiro, tal como um José Manuel Fernandes, um Pacheco Pereira, um Bagão Félix ou um Vasco Pulido Valente, apresentam argumentos, com os quais não concordando quase sempre, são sempre estimulantes pelo tipo de argumentação utilizada, obrigando-nos a um esforço intelectual para os desmontar (ao contrário de uma Helena Matos, de um Miguel Sousa Tavares, de um José Miguel Júdice ou de um Vital Moreira, que usam argumentos baseados em preconceitos culturais, sociais ou ideológicos ).

Um desses textos estimulantes, embora possa não concordar pontualmente como uma ou outra afrimação, mas que subscrevo na sua genaralidade, foi o editorial da última semana do Expresso da autoria de Henrique Monteiro, cujo texto escolhemos para o “respigo da semana”, um texto muito actual se tivermos em conta a incapacidade dos líderes europeus em verem alguma coisa para lá do PEC:


Por uma Europa que sobreviva

Por Henrique Monteiro
in Expresso, 12 de Junho de 2010

"A sobrevivência da Europa corresponde à salvação de um modelo. Esse modelo é o da Declaração Universal dos Direitos do Homem, visa a paz, a liberdade, a responsabilidade e a fraternidade dos indivíduos.
A maior diferença entre grandes e pequenos políticos está na capacidade de ver para lá do curto prazo, do interesse mesquinho e da opinião do momento. Foram qualidades assim que fizeram de Churchill a referência que é, ou que deram a Jean Monnet (que nunca exerceu cargos públicos) o título de pai da unidade europeia que hoje todos lhe reconhecem.
A Europa actual tem virtudes únicas: auxílio na doença, apoio a deficientes, subsídio aos que perderam emprego, etc. Tem educação e rede hospitalar gratuitas e Justiça acessível (bem sei que em muitos países, nomeadamente em Portugal, há ainda caminho por fazer, mas comparados com China, Índia, Brasil e mesmo com os EUA, têm incontáveis vantagens).
O modelo europeu (e de muitos outros países que o melhoraram, como a Noruega, a Suíça ou o Canadá) é agora um sistema em risco. Ou se muda radicalmente e alarga, de modo a que, da China ao Brasil, todos possam dele usufruir, ou morre, porque os custos de produção de países sem solidariedade nem assistência social (ou com apoios débeis) serão sempre muito mais baratos.
A alteração do sistema não passa apenas por terminar com os abusos e facilitismos que todos sabemos existirem (isso está mais ou menos previsto nos PEC). É necessário que o sistema se torne além de solidário... sustentável. Para isso, não só é imperioso acabar com os abusos e dotá-lo de racionalidade económica, como afirmá-lo como o poderoso exemplo de pacificação social e de interajuda humana que é. Para o realizar, a Europa carece de um centro de decisão único, de uma voz poderosa não só na economia, como na Defesa, na Justiça, nas relações externas - o que significa um Governo único, ou seja, o federalismo europeu.
Não são possíveis mais egoísmos nacionais. A reforma não pode ser aos 55 anos na Grécia e aos 70 na Alemanha; a agricultura francesa não pode ser intocável; não é possível países viverem acima das possibilidades sabendo que outros os salvarão. Não haverá moeda única sem uma só autoridade.
Naturalmente, isto retira poder aos estados nacionais e aos pequenos políticos que gostam de defender os seus pequenos poderes, os seus privilégios e os seus clientes. É por isso que a Europa precisa de grandes líderes, de pessoas que conheçam, saibam interpretar e se orgulhem dessa construção da nossa civilização que é a Declaração Universal dos Direitos do Homem, a qual começa assim: "Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade". Em suma, é isto que nos diferencia da China".

terça-feira, 10 de novembro de 2009

O Respigo da Semana - Denuncia e Calunia (Henrique Monteiro- Expresso)


Aproveitar as Denuncias de Marinho e Pinto


“Denúncia e calúnia são duas palavras substancialmente diferentes que alguns querem confundir. Em Portugal é necessário denunciar um enorme número de coisas e isso não pode ser confundido com caluniar.

“O caso do bastonário da Ordem dos Advogados, Marinho e Pinto (que aqui no Expresso trabalhou como jornalista) é bem significativo desta confusão.

“Aqueles que acham que o lixo pode ser varrido para debaixo do tapete pensam que ele deveria estar calado e falar apenas quando - e se - estiver na posse de todos os documentos e provas que, sem margem para dúvidas, incriminem alguém.

“Mas há, felizmente, quem pense, não obstante o tom incendiário que o bastonário dá, por vezes, às suas palavras, que vale a pena ouvi-lo. Felizmente, o Presidente da República é uma dessas pessoas.

“E vale a pena ouvi-lo porque o que diz, longe de contribuir para o descrédito da política ou dos políticos, pode servir para inverter esse descrédito em que os responsáveis do país foram progressivamente caindo. Não se trata tanto de saber se é legal ou ilegal um ex-ministro (como Ferreira do Amaral) tutelar uma empresa com a qual fez um contrato. Claro que é legal. O problema é se o código ético dos políticos deve ou não reprovar esse comportamento. Ou o comportamento de Pina Moura, ou de Armando Vara ou de tantos outros que nenhuma ilegalidade cometeram mas que chocam as consciências de pessoas bem formadas. Porque, dos que são suspeitos de cometer ilegalidades (como Valentim, Isaltino, Fátima Felgueiras), não trata a política mas os tribunais.

“No dia em que a coisa pública, - ou seja, a política -, for apenas regulada por leis, sem que seja atendível nenhuma norma ética, nenhuma cláusula de consciência, nenhum princípio de transparência, nenhum impulso de serviço à comunidade, de cuidados aos outros, a política morrerá e os políticos não mais serão do que uma tecnocracia, uma casta na qual ninguém se reverá e na qual muito menos alguém encontrará legitimidade para governar a sociedade, cobrar-lhe impostos ou impor-lhe leis e restrições.

“É este desplante de alguns políticos (ao nível local, regional e nacional e de muita gente na administração), que não é devidamente sancionado quando prevaricam, que é necessário denunciar. Não se trata de calúnias, trata-se de uma necessidade vital para que possamos manter uma sociedade livre na qual nos reconheçamos.

“Tentar reduzir isto à mera má-língua ou ao disparate é um simples suicídio”.

Henrique Monteiro (EXPRESSO)