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terça-feira, 5 de novembro de 2019

SÓCRATES VAI-SE “SAFAR”!?!!!?



Que não restem dúvidas: nutro por José Sócrates e tudo o que ele representa o maior desprezo intelectual e político.

Sempre exprimi aqui tudo o que penso da “chico espertíce”, do oportunismo político e da falta de ética  que os anos da governação Sócrates representaram. Basta explorar o nosso tag “anti-Sócrates”.

Fi-lo numa época em que as suas políticas antissociais, o seu desprezo pelos professores, a sua bajulação pelo mundo da alta finança, a sua cedência aos ditames de uma União Europeia entregue às políticas de austeridade (pouco depois levadas ao limite por outra figurinha de triste memória, Passos “ir além da Troika” Coelho), eram incensadas e apoiadas com entusiasmo pela maioria dos comentadores e economistas do sistema, os mesmos que depois apoiaram com entusiasmo as medidas  desgraçadas da Troika, e que agora procuram sacudir Sócrates do “capote” .

Sócrates e Passos Coelho foram as duas faces da mesma moeda que tanto sofrimento causou neste país.

Contudo, essa “chico espertice”, esse oportunismo político e essa falta de ética e sentido de Estado na forma de fazer política, não só não são crime, como foram a base do cavaquismo, surgido nos anos de 1980, atitude que tanto fascinou e modelou toda uma geração de políticos formados nas “jotinhas” do centrão.

Contudo, sempre torci o nariz ao modo como foi conduzido o processo de acusação contra José Sócrates, a “Operação Marquês”.

Não porque tenha qualquer dúvida sobre os seus processos de actuação desonestos eticamente reprováveis, já revelados pelo próprio noutras circunstâncias, na forma como, junto de autarquias da Beira Interior, ainda antes de ser conhecido, deu cobertura a verdadeiras aberrações urbanísticas, ou no caso Freeport, nunca devidamente esclarecido.

O que me levantou dúvidas foi todo o modo como o processo foi conduzido, com uma prisão em directo na comunicação social, com o juiz que conduziu todo o processo até há pouco tempo mais interessado em comportar-se como uma estrela dos media e como comentador político, do que em fazer uma investigação célere e eficaz sobre as trafulhices de Sócrates, sem esquecer as fugas constantes de informação sobre o processo, que muito devem envergonhar o nosso sistema judicial, ao mesmo tempo que queimavam a validade das provas.

Mais preocupado em dar  espectáculo e dirigir um processo político, o herói da nossa extrema-direita, o juiz Carlos Alexandre, acabou por contaminar todo o processo, e agora, pelo que parece, Sócrates já pode sorrir.

O nosso Ministério Público devia ter aprendido com a forma como prenderam Al Capone.

Este não foi preso pelos seus crimes ou roubos, mas por fuga aos impostos.

Ou seja, um  criminoso inteligente, como o é José Sócrates, não deixou provas dos seus crimes financeiros e das suas obscuras negociatas, mas terá deixado rasto nos pequenos pormenores.

Infelizmente em vez de um Eliot Ness tivemos um Juiz Carlos Alexandre.

Se o juíz Carlos Alexandre, quisesse mesmo fazer justiça, em vez de exibir o espectáculo da sua vaidade pessoal, tinha construído um processo mais sólido , menos complicado, indo directo às acusações que podia provar, avançando logo para tribunal, em vez de criar um mega processos, onde se misturam acusações  fáceis de provar, com situações, talvez as mais mediáticas, difíceis de provar legalmente.

Primeiro reuniam-se as provas e depois prendia-se. O que se fez com Sócrates foi o contrário. Primeiro prendeu-se, com base em suspeitas previsíveis, iguais às que se podem apontar  a muito do políticos da “geração centrão”, e depois foi à procura de provas, atrás do “disse que disse” de uma comunicação social ávida de escândalos.

O resultado só podia ser desastroso, queimando a investigação nas labaredas dos títulos sensacionalistas do “Correio da Manhã”.

E assim  chegámos à situação actual.

Espero estar enganado, mas pelo que se vai sabendo, Sócrates vai safar-se desta e até se pode dar ao luxo de processar quem o acusa de falta de ética.

Perdem a democracia, a justiça e  os valores éticos.

terça-feira, 14 de março de 2017

Afinal as acusações a Sócrates existem ou não???!!!!


Sou daqueles a quem José Sócrates nunca inspirou um pingo de confiança.

Sócrates, o político, muito antes de ter sido badalado pelas más razões que agora vão sendo conhecidas, sempre representou, para mim, o pior da política: um político carreirista, deslumbrado pelo poder e pelo dinheiro, um exemplo acabado do célebre queirosiano Conde de Abranhos adaptado ao século XXI e às novas tecnologias.

Por isso nenhuma das acusações que vieram a lume contra ele me surpreenderam.

O que me surpreendeu foram duas coisas:

em primeiro lugar, não sendo o percurso de José Sócrates muito diferente do percurso de tanto político do centrão formado na abundância de fundos europeus e no crescente domínio do mundo financeiro sobre a política , surpreende-me que, até hoje, apenas sobre ele recaiam as atenções da justiça e dos media… “Cadé “ do Cavaco do BPN, do Coelho da Tecnoforma ou do Portas dos submarinos, para não recuar mais no tempo????;

em segundo lugar, fico estupefacto que a justiça esteja a trabalhar a contra-relógio esta semana, até à próxima 6ª feira, para o poderem acusar!!!! Mas afinal o homem esteve tanto tempo preso sem haver já suficientes provas para o acusarem? …e , passado este tempo todo, continuam sem ter acusações suficientes para o levarem a tribunal????

Parece-me bem que esta história anda mal contada, ou porque já se aperceberam que, para o acusarem, têm de acusar meio mundo do regime político do centrão, ou que, graças ao bom trabalho de alguns gabinetes de advogados que trabalham para o Estado, tudo aquilo que é eticamente condenável no mundo dos negócios em que se moveu Sócrates é perfeitamente legal e escapa à justiça, ou porque existem valores ainda mais altos ( a nível da União Europeia?)  que podem ser atingidos se acusarem Sócrates, ou um pouco de tudo isto...

Continuo a aguardar “cenas dos próximos capítulos”….

sábado, 24 de setembro de 2016

Eu , José Sócrates...e outros!


Falo das trafulhices económico-socias do governo de Passos Coelho…logo alguém me responde: - E o Sócrates!!!???.
Falo nas trafulhices políticas de Durão Barroso…logo alguém me responde: - E o Sócrates!!!???.
 
Vamos lá a perceber uma coisa: O Sócrates foi “só” quem abriu as portas ao programa social neoliberal que Passo Coelho executou com a desculpa da Troika.
 
Lembro-me na altura de muitos do que agora usam e abusam de Sócrates como arma de arremesso serem os mesmos que , então, elogiavam o programa “corajoso”  de ataque aos “privilegiados” da “classe média”(os professores, os médico e os funcionários públicos em geral), ou o inicio da retirada de direitos socias a quem trabalhava, elogiando a “coragem” de Sócrates em enfrentar os “interesses corporativos” (!!!!) dos sindicatos e os cortes a eito nas pensões, também iniciados no tempo de Sócrates e agravados no tempo de Passos Coelho.
 
Sócrates é “apenas” o caso mais mediático de vários casos que envolvem as negociatas de políticos com o mundo da alta finança, de   políticos que se servem da política para enriquecerem em troca de “favores” a amigos.
 
Mas isto não é apanágio exclusivo de Sócrates mas  de toda uma geração de políticos.
 
Por isso muito me tenho admirado que, depois de tantos casos conhecidos e de tantos bancos falidos, apenas José Sócrates esteja a merecer a atenção da comunicação social e da investigação criminal e da justiça. E pergunto-me, sem por as mãos no lume por José Sócrates, se o caso Sócrates não está a ser apenas usado como arma de arremesso político, para desviar as atenções de outra gente.
 
E para que não restem dúvidas, podem ler, seguindo o meu tag “anti-sócrates” , tudo aquilo que aqui escrevi quando muitos que agora o usam como arma de arremesso eram admiradores escrupulosos das suas políticas anti-sociais.
 
José Sócrates já esta a contas com a justiça...mas outros também lá deviam estar e ainda continuam por aí a debitar opinião...e afazer negócios...

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Correio da Manhã - o jornalismo de sarjeta também tem direito à vida…


O jornal “Correio da Manhã” é um nojo em termos jornalísticos, que envergonha o jornalismo português e devia envergonhar quem nele trabalha, pelo menos aqueles que ocupam cargos de chefia.

Copia o pior do que se faz no jornalismo ocidental e, pior do que isso, deu o mote à maior parte do “estilo” jornalístico que campeia na comunicação social televisiva e até já contaminou o jornalismo escrito de “referência”, que usa e abusa dos títulos bombásticos e sensacionalistas para vender papel.

Podem argumentar que o “Correio da Manhã” é o jornal que mais vende em Portugal, e portanto é daquilo que o povo gosta. Mas,para mim, isso não é argumento e só mostra a indigência cultural deste país.

Mas daí a proibir o jornal de dar as notícias no estilo nojento como as costuma dar, vai uma grande distância. Vivemos num país livre e democrático e, desde que não me obriguem a nada, cada um come do que gosta.

O que aconteceu é que aquele jornal, usando um método eticamente reprovável, mas legal, se constituiu como assistentes no processo que decorre contra José Sócrates, tendo acesso ao conteúdo do mesmo para passar a informação para ser publicada do jornal.

Que essa informação seja divulgada fora de contexto, de forma cirúrgica e acompanhada por comentários ou títulos bombásticos que são mera opinião, não espantará ninguém. Esse é o estilo do jornalismo que se faz por aquele lado.

Penso até que o facto do principal “ataque” a Sócrates vir daquele jornal até pode ser uma vantagem para o arguido, tendo a conta a falta de credibilidade do “Correio da Manhã”.

Mas não foi isso que aconteceu e a defesa de José Sócrates resolveu actuar de um modo que se aproxima da simples censura.

O que tudo isto revela de grave é que aquele processo, eticamente reprovável, de ter acesso a processos judiciais é habitualmente usado por aquele jornal  ( e não só) para lançar lama conta qualquer cidadão anónimo deste país que tenha um processo a decorrer em tribunal.

Fosse o arguido um pobre e miserável pequeno delinquente ou pequeno criminoso, daqueles que enchem as páginas daquele jornal, e nada acontecia àquele jornal.

Mas, mesmo aquela situação eticamente reprovável  não é da responsabilidade do “Correio da Manhã”, existe porque é legal e porque a justiça em Portugal funciona com funciona, neste caso, como noutros, muito mal.

Por isso, quanto a nós, mesmo um vómito jornalístico como o “Correio da Manhã” tem direito à vida e deve ser livre de divulgar as alarvidade e do modo alarve e boçal a que nos acostumou, pois é isso que faz parte da sua identidade e  esse é o custo de vivermos em liberdade.


quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Livre/Tempo de Avançar leva pizza aos jornalistas à porta de Sócrates

(foto Público on-line)

Aqueles que nos seguem sabem que nunca nutrimos grande estima pela governação de José Sócrates.

Também não vemos na conduta de José Sócrates grande diferença em relação à da maior parte da classe política portuguesa, especialmente a do "centrão".

Até hoje também não nos sentimos devidamente esclarecidos sobre as acusações formuladas contra José Sócrates.

Se olharmos para o currículo da maior parte dos políticos profissionais que dominam os dois partidos do poder, também não vemos aí grande diferença em relação à "carreira" e aos "negócios" em que José Sócrates está envolvido.

Já por aqui dissemos que, as mesmas razões que foram apontadas para deter Sócrates e para o manter agora em prisão domiciliária não são muito diferentes daquelas que justificariam a prisão domiciliária de muitos dos actuais politicos da coligação no poder ou de alguns dos actuais governantes.

Por tido isso achamos no mínimo indecoroso e éticamente repugnante o cerco que certa imprensa faz à casa onde Sócrates ficou a cumprir a prisão domiciliária e ao destaque que a comunicação social, nomeadamente os "tablóides" da televisão, continuam a dar ao assunto.

Por isso prece-nos bastante original a iniciativa da "Livre/Tempo de Avançar" que coloca assim em ridículo  esse tipo de jornalismo.

Ao que parece, os jornalistas presentes, revelando falta de sentido de humor e portando-se como virgens ofendidas, recusaram-se a aceitar as pizzas...

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

“Finalmente a Justiça chegou aos poderosos”…chegou mesmo???


A detenção e posterior prisão preventiva de José Sócrates gerou uma onda de lugares comuns sobre a justiça : “finalmente a justiça enfrenta os poderosos”, “a justiça é igual para todos”, “a justiça funciona”.

Mas será de facto assim?

A primeira pergunta é se, neste momento, Sócrates é, de facto, um homem poderoso, ou se este processo seria possível se José Sócrates tivesse o poder que já teve?

 Parece-nos bem que não.

 Nos últimos três anos Sócrates foi uma figura acossada pela triste herança política que deixou, ao ponto de até ser incómodo para o próprio partido que o gerou.

Sócrates, nem sempre com razão, era acusado por todos os males do país nos últimos anos e era politicamente correcto desancar na sua herança política, como desculpa para a incompetência do actual governo e das medidas desastrosas impostas pela troika.

Na opinião pública Sócrates era alvo da chacota geral e ninguém o levava a sério.

Por isso não estamos perante um caso em que a justiça enfrenta os “poderosos”, coisa que Sócrates já não é.

Enfrentar os poderosos seria a justiça ter agido desta maneira quando Sócrates estava no poder e foi alvo de processos ainda mais graves do que este que o levou à prisão preventiva.

Enfrentar os poderosos seria, usando os mesmos critérios que justificaram a detenção e prisão preventiva de José Sócrates, deter e prender preventivamente uma série de figuras que estão actualmente no poder, por envolvimento presumível e publicamente conhecido em casos como o BPN, o BES, a tecnoforma, os “submarinos” ou os Vistos Gold.

Ou seja, por aqui se vê que a justiça enfrenta apenas os que já foram poderosos, não os que ainda são poderosos.

Também, pela forma como tem tratado os políticos envolvidos noutros processos e tratou agora José Sócrates, se revela a existência de formas diferentes de tratar quem está no poder ou quem já não o tem, o que deita por terra a “igualdade de tratamento”.

Por último, também ainda está por provar se a justiça de facto funciona.

Tem agora a possibilidade de o provar, se, por um lado, no caso Sócrates, chegar a conclusões definitivas que nos convençam da culpabilidade ou da inocência de José Sócrates, sem deixar qualquer dúvida sobre o desfecho, sem se deixar enredar em “prescrições”, erros processuais, recursos infindáveis e interpretações cabalísticas do mundo jurídico, e se, por outro, usando os mesmos critérios que justificaram a detenção e prisão preventiva de José Sócrates, demonstrar coragem para deter a gente ainda poderoso que está envolvida nos casos do BPN, do BES,  da tecnoforma, dos “submarinos”,dos Vistos Gold, entre outros…


Ou seja, ainda está por provar se, de facto, a justiça finalmente está a enfrentar os poderosos, a tratar todos por igual e a funcionar…ou se não continua a ser um mero joguete de interesses políticos e financeiros!!!

terça-feira, 25 de novembro de 2014

“História” da Corrupção ética da politica portuguesa – do “cavaquismo” ao “socratismo” (com “remake” no “passoscoelhismo”).


Tudo começou quando a entrada de Portugal na então CEE coincidiu com o início de cerca de 10 anos de consulado cavaquista.

A chegada de Cavaco ao poder coincidiu com a entrada em barda de “uma pipa de massa” em Portugal de fundos europeus para “desenvolver” o país, ao mesmo tempo que se iniciava a privatização de grande parte da banca e de grandes empresas estatais que controlavam “sectores estratégico”.

A chegada de Cavaco coincidiu também com a teoria do “capitalismo popular” iniciado uns anos antes na Grã Bretanha com Margaret Thatcher, que tinha por cá grandes admiradores, entre ao quais o “nosso” Cavaco.

Os bancos recém privatizados precisavam de aumentar capital e nada melhor do que controlar os fundos europeus e os investimentos, canalizando-os para o lucro fácil e imediato, participando activamente na privatização e controle das empresas estatais ligadas aos sectores estratégicos, beneficiando do “boom” da construção civil, fomentando o capitalismo popular através do facilitismo com que se distribuíam cartões de crédito ou empréstimos para a compra de carro e casa.

Era o tempo dos novo- ricos, construídos com os fundos europeus, que se exibiam nos seus jipes e carros topo de gama, as suas mega casas, as férias em praias paradisíacas da moda.

O país, embora tenha investido na educação, na saúde e num esboço de “Estado Social”, acabou por esbanjar a maior parte da “pipa de massa” europeia em projectos megalómanos e em auto-estradas que desenvolveram, de forma desproporcional, o sector da construção civil, ao mesmo tempo que destruía o sector dos transportes públicos e o aparelho produtivo nacional, destruindo os  sectores da industria e da agricultura e desertificando o interior do país.

Era o tempo em que se ridicularizavam as actividades ligadas à agricultura e à industria, enquanto se endeusava a terciarização do país.

A cereja no topo do cavaquismo foi idealizar a Expo 98, enquanto já se sonhava com Jogos Olímpicos e outros eventos mundiais e que desembocaria, no início do século XXI, no descalabro financeiro que foi o Europeu de 2004.

Foi neste clima eufórico de capitalismo popular e de fundos sem fim que a política se tornou uma actividade facilitadora de grandes negócio, onde as ligações cada vez mais estreitas entre a alta finança e a política deixou de ter qualquer limite ético.

A assembleia da República e os governos passaram a servir os interesses das grandes fimas de advogados, dos grandes bancos, das grandes empresas de construção civil, por onde circulavam, em roda viva, políticos do centrão.

Era o tempo do conveniente “fim das ideologias”, dos políticos profissionais gerados nas “jotas”, dos “jobs for the boys” .

O primeiro governo de Guterres ainda tentou remar contra a maré, mas rápidamente soçobrou aos “boys” do PS que não queriam ficar fora da festa.

E foi um desses “boys” gerados nas “jotas” e no poder autárquico que veio a “elevar” ainda mais alto o ideal cavaquista, que entretanto já havia contaminado o PS.

Chamava-se José Sócrates e foi mais um produto da comunicação social (como o tinha sido o seu antecessor, Pedro Santana Lopes), comprovando aquela máxima segundo a qual a televisão até conseguiria eleger um sabonete para presidente da República.

Bem falante, sabendo “passar a imagem”, manipulando com mestria  a justiça e uma comunicação social cada vez mais dependente do grande poder financeiro, Sócrates conseguiu impor um modelo de governação que mostrava que o mundo dos negócios não era apanágio da direita e que a “esquerda” podia lidar e agradar aos grandes interesses financeiros e fazer o trabalho da direita na destruição dos direitos sociais, na destruição da influência sindical e no combate à influência de sectores profissionais “privilegiados”.

Era o tempo dos “varas”, dos “pina moura”, dos “constâncios”.

Para isso contou com a conivência e colaboração de toda uma máquina de propaganda implantada na comunicação social de referência, com comentadores que faziam passar a imagem de que os direitos eram um privilégio, que os funcionário públicos eram preguiçosos, que os trabalhadores portugueses viviam acima das suas possibilidades, enfim, que era preciso impor um modelo de austeridade para “modernizar” a sociedade.

A “crise financeira” inventada pela grande finança europeia, o roubo colectivo mais bem organizado  da história, acabaria por prescindir dos serviços de Sócrates e impor ao país um governo mais subserviente , que assumisse de forma mais activa e entusiástica um programa de austeridade que permitisse uma mais rápida transferência de capital para a grande finança, e impusesse um modelo de empobrecimento do país que Sócrates já não tinha capacidade para executar.

E é assim que chegamos ao dia de hoje, onde Sócrates se torna no bode expiatório conveniente e politicamente correcto para que essas políticas se possam continuar a concretizar…mas isso é outra história à qual voltaremos.

No essencial, do cavaquismo ao socratismo, o que aconteceu é que se perderam todas as referência éticas e culturais que permitiam criar um cordão sanitário entre o mundo dos grandes negócios e a um ideal de uma política ao serviço da sociedade.

E , neste aspecto, Sócrates não é o único culpado nem o principal actor!!!!

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

O Estranho caso de José Sócrates

(foto de Alberto Frias/Expresso)

Nunca votei em José Sócrates, mas, logo no início do seu mandato, quando deu ao PS a sua primeira maioria absoluta, que lhe foi oferecida pelos portugueses fartos dos governos do descalabro de Barroso/Santana Lopes, tive alguma esperança que algo mudasse na política nacional.

Pela primeira vez o PS ía governar com maioria absoluta e podia, também pela primeira vez desde o 25 de Abril, implantar o seu programa social-democrata sem constrangimentos.

Infelizmente essa esperança desde cedo de esfumou, com a governação autoritária de Sócrates, com o início da destruição do já de si fraco Estado Social e a retirada de direitos socias, virando portugueses contra portugueses, fazendo dos professores o bode expiatório do seu autoritarismo, iniciando o discurso da austeridade , dando início ao descalabro que nos levou à troika e ao governo de zombies actualmente no poder sob a “liderança” fantasma de Cavaco Silva.

Ou seja, se com Barroso e Santana Lopes pensávamos que tínhamos atingido o grau zero da política, o pior estava para vir com os governos que se sucederam, os de Sócrates e de Coelho (…e, sempre, Portas, que já vinha dos tempos de Barroso..).

Com Sócrates a submissão do poder político aos obscuros poderes financeiros, aos ditames de uma Europa cada vez menos solidárias, sob orientação de Merkel (então acompanhada por Sarkozy), aos negócios milionários com os novos ricos de Angola, da Venezuela e da China (à custa da miséria e da exploração das populações e dos trabalhadores desses países) e a distribuição dos dividendos assim obtidos pelos boys do costume, atingiu o seu ponto de não retorno, que encontrou no actual governo um fiel e entusiasta seguidor .

O nosso blogue surgiu a meio do primeiro mandato de Sócrates e desde logo manifestámos a nossa feroz oposição ao socratismo (basta clicar na etiqueta “anti-sócrates”, e ir clicando no final da página em “mensagens antigas” para poderem ler o que aqui escrevemos ao longo desses tempos).

Por isso estamos hoje à vontade para escrever o que vem a seguir.

A detenção de José Sócrates na noite da passada 6ª feira foi um acontecimento que não nos surpreendeu, dado o historial do ex-primeiro-ministro, mas mereceu-nos desde logo alguma estranheza pelo momento escolhido e pelo modo como decorreu.

Ficámos desde logo perplexos quando, cinco minutos depois de termos ouvido na SIC-notícias, no noticiário da meia-noite, já no Sábado, a notícia da detenção de Sócrates, terem desde logo aparecido imagens com o presumível carro da polícia que o transportava após a detenção no aeroporto, ao mesmo tempo que o jornalista referia o secretismo da investigação.

Ou seja, como é que, se a investigação e a prisão tinham sido conduzidas de forma tão secreta ,havia no local, “por acaso”, uma câmara da SIC que filmava o “momento”?

Poucas horas depois ficávamos ainda mais perplexos ao sabermos que dois órgãos de informação, o “Sol” e o “Correio da Manhã”, pespegavam nas primeiras páginas, preparadas antes da notícia ser conhecida pelo público, informações presumivelmente retiradas do processo, o tal processo “conduzido com secretismo”.

Ou seja, estamos mais uma vez perante um gravíssimo caso de violação de segredo de justiça, que tanto tem contribuído para “queimar” e contaminar processos judiciais que envolvem políticos e grandes interesses económico-financeiros.

Também, ao longo deste fim-de-semana, fomo-nos apercebendo que, a acompanhar este processo, existe uma guerra entre órgão de comunicação social, o “Sol” e o “Correio da Manhã” por um lado, a SIC  e o “Expresso” por outro, o que põe desde logo em causa a “independência” como esse caso vai ser acompanhado nesses órgãos de comunicação.

Ou seja, para além do próprio caso em si, vamos ter uma violenta guerra de tubarões da comunicação social que vai fazer deste caso uma arma de arremesso.
Outra perplexidade prende-se com o aparato da prisão. Ao que parece Sócrates não foi apanhado a fugir no aeroporto, mas a regressar, pelo que a detenção, feita como foi, parece visar a simples humilhação do detido.

Mas a  nossa  perplexidade adensa-se quando nos apercebemos do momento escolhido para essa detenção, o fim-de-semana em que o PS escolhia um novo secretário geral, no culminar de uma semana marcada por um outro escândalo de grandes repercussões, o dos chamados Vistos Gold, que tinha atingido o governo com grande estrondo.

Como se pode ver, acompanhando a comunicação social, casos gravíssimos como o dos Vistos Gold ou o do BES, para já não falar do BPN,  da Tecnoforma ou o dos “submarinos”, passaram de imediato ao quase esquecimento.

Contudo, e por aquilo que se sabe sobre as razões da detenção de José Sócrates, sendo graves, não atingem a gravidade dos outros casos que passaram par segundo plano,  nem tem os custos, para os portugueses e para o erário público, que esses outros casos anteriores têm.

Agora a justiça tem, pelo menos neste caso, de levar o caso Sócrates até às últimas consequências, sem deixar qualquer duvida ou sobre a culpabilidade, ou sobre a inocência de José Sócrates.

E, para que o caso não se politize, tem de agir célere, não se podendo arrastar até ao período eleitoral que se avizinha.

Ao mesmo tempo, tanto a justiça, como a comunicação social, não podem deixar cair no esquecimento os casos dos Submarinos, do BPN, do BES, da Tecnoforma ou dos Vistos Gold e devem ser igualmente céleres a esclarecer esses casos.

Caso contrário é a justiça e, a prazo, a democracia que passam a estar em causa, abrindo o caminho ao populismo e à demagogia e, mais depressa do que se pode pensar, em vez de uma dezenas de desordeiros de extrema-direita a manifestarem-se á porta do campus de justiça, veremos rapidamente esse número a aumentar.

A credibilidade das instituições democráticas joga-se neste caso.




terça-feira, 2 de abril de 2013

As 4 "Amêndoas" da Páscoa...



Ausente deste espaço voluntariamente durante a última semana, não deixei de acompanhar a importância de acontecimentos que marcaram a semana. Destaco, por cá o regresso de Sócrates e a chantagem do governo sobre o tribunal constitucional, lá por fora a situação em Chipre e a bazófia do ditador da Coreia do Norte.

Sócrates, o ressuscitado

Muito se falou e comentou por cá sobre o regresso de José Sócrates.
Para mim, o seu regresso serviu para nos confrontar com o deserto de ideias e projectos que marcaram estes dois últimos anos de governo e oposição.
Ouvir um homem com convicções, com coragem e capaz de agitar a mediocridade dominante, mesmo que se tenha discordado da sua actuação governativa, como foi o nosso caso, não deixa de ser uma lufada de ar fresco, mesmo que os argumentos sejam os de sempre, os da vitimização e da autojustificação.
Sócrates fez o papel do puto reguila que aponta a nudez do “reino”: um governo de ignorantes e de irresponsáveis, antipatriótico, como o de Coelho, que apenas visa a destruição do país, em nome de uma ideologia neoliberal, desenvolvendo uma política de terra queimada, sem oferecer nada em troca, a não ser o desemprego, a miséria e o empobrecimento; um Presidente da  República cobarde, incapaz de reagir e conivente com o actual estado de coisas; uma comunicação social, nomeadamente  pela forma como valoriza a presença de comentadores do regime, que se comporta, na maior parte dos casos, como mero ministério da propaganda deste governo e da troika, vendendo até á exaustão o discurso do caminho único e da defesa da austeridade como modelo de gestão política e económica.
Claro que Sócrates também tem culpas no cartório, mas perante a incompetência e ignorância reinante, até nós, que aqui sempre criticámos a sua política, ficámos rendidos aos seus “encantos”. 

A Chantagem…

Entretanto, o governo foi-se entretendo, quer directamente, quer pela voz dos “seus” comentadores, a chantagear o Tribunal Constitucional, tentando responsabilizá-lo pelo “caos” em que a sua decisão pode lançar o governo e o país, caso reprove algumas das normas do Orçamento de Estado, por serem anticonstitucionais.
Ora, antes de mais, o responsável principal pela situação é o próprio governo, que tem governado desrespeitando a  seu belo prazer a Constituição que jurou cumprir. E aqui, mais uma vez, outro dos grandes responsáveis pelas ilegalidades cometidas por este governo, é o Presidente da República, que vai assinando por baixo tudo o que emana das “brilhantes” cabeças governativas.
Ao ameaçar com a inexistência de um plano alternativo, o governo só revela o baixo nível da sua liderança e a mentira em que assenta a sua governação, que nem as promessas eleitorais ou o próprio programa do partido que o sustenta consegue respeitar.
O Tribunal Constitucional, se funcionar de forma independente, só pode reprovar várias das normas deste orçamento.

EURO, O Início do Fim…

A situação em Chipre representa o início do fim da credibilidade financeira do euro e da zona Euro.
Aqueles que agora descobriram o paraíso fiscal cipriota, fecharam os olhos a essa situação quando isso lhes interessou e esquecem a existência de outros paraísos  no seio da própria zona euro, com a Holanda ou o Luxemburgo, entre outros.
No fundo, o actual líder do eurogrupo, onde aquele modelo de resgate foi cozinhado, é holandês e talvez se esteja a limitar a defender o seu país da concorrência cipriota. Convém aqui recordar que foi para a Holanda que “fugiram” as principais empresas portuguesas e onde podem estar parte dos 74 mil milhões de euros que saíram do país só entre 2010 e 2011…
Quanto à “sujidade” do dinheiro cipriota,  acusando os oligarcas russos de depositarem o seu dinheiro nesse país fiscal, é mais uma falácia para justificar o injustificável. Em primeiro lugar, nem todos os russos com dinheiro são corruptos e, se compararmos com a Europa “civilizada”, a situação não será muito diferente. Em segundo lugar, o dinheiro russo depositado em Chipre será uma ínfima parte daquele que está depositado noutros paraísos fiscais europeus, ou na banca alemã…
A situação em Chipre só contribuiu para lançar o descrédito total sobre o euro e a zona Euro. Qualquer pessoa que tenha dinheiro depositado num banco da zona euro vai, com certeza, e podendo fazê-lo, retirá-lo para outros sítios. Quem não o puder fazer, vai pensar duas vezes se justifica qualquer tipo de poupança.
Pela minha parte, por cada 100 euros que eu vier a retirar das minhas poupanças para gastar, vão ser, no futuro menos vinte cinco ou cinquenta euros que virão a ser cobrados para salvar a banca e ajudar aos bolsos da srª Merkel, quando as mesmas medidas tomadas em Chipre se aplicarem no resto da zona euro…

Um louco no poder…

A Coreia do Norte é um caso paradigmático de loucura colectiva, uma espécie de mini laboratório para estudar regimes totalitários.
Penso que a actual agressividade do seu líder não passa de basófila para uso interno, mas claro que, em qualquer momento, a coisa se pode descontrolar. Não nos podemos esquecer que aquela ditadura tem armas atómicas em quantidades desconhecidas.
Não me admirava muito que, dado o isolamento em que o regime vive e o facto de não entrar qualquer informação sobre o que se passa no exterior, um dia deste o “grande líder” venha a anunciar uma vitória militar sobre os “imperialistas”, com um desfile da “vitória” à maneira…sem dispara um tiro fora da sua fronteira…

…Enfim, bem vindos à realidade….

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

...DO CONTRA (ou como dar razão a Sócrates e a Cameron...)

Sempre tive este infeliz defeitos de “ser do contra” e remar contra a maré.
Desculpem, mas não alinho nessa verdadeira caça às bruxas contra Sócrates e Cameron, o primeiro por causa de umas afirmações descontextualizadas ou mal formuladas, e o segundo pelo precedente que abriu ao recusar assinar uma proposta, imposta à União Europeia, pela dupla Merkozy.
Mas vamos por partes.
Poucos como nós, neste blogue, combatemos o descalabro político-económico-social-financeiro representado pelo governo de José Sócrates, mas desta vez o homem tem alguma razão.
Claro que é difícil olhar para o homem sem nos dar um ataque de raiva, cada vez que ele aparece, distraindo-nos do essencial das suas afirmações.
O disparate não está nas afirmações de Sócrates, mas na forma como os incompetentes dirigentes europeus (entre os quais, até há bem pouco tempo, se incluía José Sócrates, sem que se conheça, dessa época, grande oposição ao escabroso modelo financeiro defendido pela dupla Merkozy..), encaram o problema da dívida pública.
De facto, como disse Sócrates, é um imenso disparate querer que um estado pague a sua dívida pública num espaço curto de tempo, com os juros que são impostos, com austeridade em cima da austeridade, e sem desenvolvimento económico.
Historicamente a dívida pública vai-se pagando ao longo do tempo e é ela que mantém a rodar a economia de um país ou de uma região. Ainda recentemente, e mais de um século depois, é que Portugal acabou de pagar uma dívida contraída nos finais do século XIX.
Claro que estamos a falar no sistema capitalista em que vivemos, a não ser que os líderes europeus estejam interessados em apresentar outro modelo (não me parece o caso!).
A dívida pública de um país, não é a mesma coisa que a dívida de uma pessoa ou de uma empresa.
Mas já que os nossos comentadores propagandistas de serviço gostam de fazer comparações estapafúrdias, muitas vezes entre o que não é comparável, também nós vamos recorrer aos mesmo tipo de comparação, para dar razão a José Sócrates:
Suponha o leitor que comprou uma casa e pediu um empréstimo para ser pago ao banco durante trinta anos, com um determinado juro. Irá pagar esse empréstimo e os juros com uma prestação mensal de x.
Suponha agora que, de repente, dá na gana dos bancos (que fazem parte dos tão apregoados mercados), rompendo com todos os compromissos e o normal funcionamento financeiro, obriga-lo, de repente, a pagar o que lhe falta pagar dessa dívida num único ano. É absurda a ideia? Mas foi isso que os chamados mercados fizeram aos Estados, rompendo compromissos.
Se um banco lhe fizesse isso, ficava falido e a sua dívida tornava-se incomportável. Provavelmente iria protestar e o banco então propunha-lhe um outro empréstimo, a juros ainda mais altos, para pagar a sua dívida, caindo no círculo vicioso da dívida. Isto que eu digo é um autêntico disparate? Mas é exactamente isto que se está a passar com as chamadas dívidas soberanas.
E o que fazem os estados da União Europeia? Põem os mercados na ordem? Tomam medidas em conjunto para travar a especulação à volta dos juros altos? Apresentam soluções para colocar a economia a funcionar e reduzir o desemprego? Não, nada disso. Pelo contrário a dupla Merkozy impõe aos restantes “parceiros(!!)” que aceitem as novas condições, recorram aos mercados, a juros incomportáveis, em vez de recorrer ao BCE, a um juro baixo, para travarem o crescimento da chamada “dívida soberana”, que, segundo a “dupla” deve ser paga num curto espaço de tempo. Não há dinheiro para pagar a dívida num tão curto espaço de tempo, nem para pagar a especulação dos juros? Então recorra-se a mais “austeridade”, asfixiando cada vez mais os cidadãos e as empresas. Destrói-se a economia, reduzindo-se o poder financeiro dos estados para pagarem as dívidas, mas “acalma-se” os mercados. Cai-se assim no círculo vicioso de menos economia, mais desemprego, menos recursos financeiros, mais empréstimos e “ajudas”, a juros incomportáveis, e enfraquecimento crescente dos países sujeitos à intervenção das troikas.
Ora, foi para salvaguardar o seu país desta situação que Cameron decidiu, num gesto sem precedentes, recusar assinar o último acordo imposto pela dupla Merkozy, fazendo aquilo que todos os outros estados deviam estar a fazer, que era bater o pé a essa dupla, a única que beneficia, por agora, com a situação.
Há exactamente 70 anos atrás, um único país resistia à Alemanha que, então pela via das armas (hoje é pela via do dinheiro), dominava o continente europeu. Também estão muitos consideravam a resistência britânica como uma “irresponsabilidade”, um suicídio, um acto de “isolamento” face ao continente rendido à “superioridade” alemã, que prometia um radiante império de mil anos para a Europa, sob a orientação da “raça superior” alemã.
Ontem, como hoje, o tempo há-de dar razão a Cameron.