segunda-feira, 24 de novembro de 2014

O Estranho caso de José Sócrates

(foto de Alberto Frias/Expresso)

Nunca votei em José Sócrates, mas, logo no início do seu mandato, quando deu ao PS a sua primeira maioria absoluta, que lhe foi oferecida pelos portugueses fartos dos governos do descalabro de Barroso/Santana Lopes, tive alguma esperança que algo mudasse na política nacional.

Pela primeira vez o PS ía governar com maioria absoluta e podia, também pela primeira vez desde o 25 de Abril, implantar o seu programa social-democrata sem constrangimentos.

Infelizmente essa esperança desde cedo de esfumou, com a governação autoritária de Sócrates, com o início da destruição do já de si fraco Estado Social e a retirada de direitos socias, virando portugueses contra portugueses, fazendo dos professores o bode expiatório do seu autoritarismo, iniciando o discurso da austeridade , dando início ao descalabro que nos levou à troika e ao governo de zombies actualmente no poder sob a “liderança” fantasma de Cavaco Silva.

Ou seja, se com Barroso e Santana Lopes pensávamos que tínhamos atingido o grau zero da política, o pior estava para vir com os governos que se sucederam, os de Sócrates e de Coelho (…e, sempre, Portas, que já vinha dos tempos de Barroso..).

Com Sócrates a submissão do poder político aos obscuros poderes financeiros, aos ditames de uma Europa cada vez menos solidárias, sob orientação de Merkel (então acompanhada por Sarkozy), aos negócios milionários com os novos ricos de Angola, da Venezuela e da China (à custa da miséria e da exploração das populações e dos trabalhadores desses países) e a distribuição dos dividendos assim obtidos pelos boys do costume, atingiu o seu ponto de não retorno, que encontrou no actual governo um fiel e entusiasta seguidor .

O nosso blogue surgiu a meio do primeiro mandato de Sócrates e desde logo manifestámos a nossa feroz oposição ao socratismo (basta clicar na etiqueta “anti-sócrates”, e ir clicando no final da página em “mensagens antigas” para poderem ler o que aqui escrevemos ao longo desses tempos).

Por isso estamos hoje à vontade para escrever o que vem a seguir.

A detenção de José Sócrates na noite da passada 6ª feira foi um acontecimento que não nos surpreendeu, dado o historial do ex-primeiro-ministro, mas mereceu-nos desde logo alguma estranheza pelo momento escolhido e pelo modo como decorreu.

Ficámos desde logo perplexos quando, cinco minutos depois de termos ouvido na SIC-notícias, no noticiário da meia-noite, já no Sábado, a notícia da detenção de Sócrates, terem desde logo aparecido imagens com o presumível carro da polícia que o transportava após a detenção no aeroporto, ao mesmo tempo que o jornalista referia o secretismo da investigação.

Ou seja, como é que, se a investigação e a prisão tinham sido conduzidas de forma tão secreta ,havia no local, “por acaso”, uma câmara da SIC que filmava o “momento”?

Poucas horas depois ficávamos ainda mais perplexos ao sabermos que dois órgãos de informação, o “Sol” e o “Correio da Manhã”, pespegavam nas primeiras páginas, preparadas antes da notícia ser conhecida pelo público, informações presumivelmente retiradas do processo, o tal processo “conduzido com secretismo”.

Ou seja, estamos mais uma vez perante um gravíssimo caso de violação de segredo de justiça, que tanto tem contribuído para “queimar” e contaminar processos judiciais que envolvem políticos e grandes interesses económico-financeiros.

Também, ao longo deste fim-de-semana, fomo-nos apercebendo que, a acompanhar este processo, existe uma guerra entre órgão de comunicação social, o “Sol” e o “Correio da Manhã” por um lado, a SIC  e o “Expresso” por outro, o que põe desde logo em causa a “independência” como esse caso vai ser acompanhado nesses órgãos de comunicação.

Ou seja, para além do próprio caso em si, vamos ter uma violenta guerra de tubarões da comunicação social que vai fazer deste caso uma arma de arremesso.
Outra perplexidade prende-se com o aparato da prisão. Ao que parece Sócrates não foi apanhado a fugir no aeroporto, mas a regressar, pelo que a detenção, feita como foi, parece visar a simples humilhação do detido.

Mas a  nossa  perplexidade adensa-se quando nos apercebemos do momento escolhido para essa detenção, o fim-de-semana em que o PS escolhia um novo secretário geral, no culminar de uma semana marcada por um outro escândalo de grandes repercussões, o dos chamados Vistos Gold, que tinha atingido o governo com grande estrondo.

Como se pode ver, acompanhando a comunicação social, casos gravíssimos como o dos Vistos Gold ou o do BES, para já não falar do BPN,  da Tecnoforma ou o dos “submarinos”, passaram de imediato ao quase esquecimento.

Contudo, e por aquilo que se sabe sobre as razões da detenção de José Sócrates, sendo graves, não atingem a gravidade dos outros casos que passaram par segundo plano,  nem tem os custos, para os portugueses e para o erário público, que esses outros casos anteriores têm.

Agora a justiça tem, pelo menos neste caso, de levar o caso Sócrates até às últimas consequências, sem deixar qualquer duvida ou sobre a culpabilidade, ou sobre a inocência de José Sócrates.

E, para que o caso não se politize, tem de agir célere, não se podendo arrastar até ao período eleitoral que se avizinha.

Ao mesmo tempo, tanto a justiça, como a comunicação social, não podem deixar cair no esquecimento os casos dos Submarinos, do BPN, do BES, da Tecnoforma ou dos Vistos Gold e devem ser igualmente céleres a esclarecer esses casos.

Caso contrário é a justiça e, a prazo, a democracia que passam a estar em causa, abrindo o caminho ao populismo e à demagogia e, mais depressa do que se pode pensar, em vez de uma dezenas de desordeiros de extrema-direita a manifestarem-se á porta do campus de justiça, veremos rapidamente esse número a aumentar.

A credibilidade das instituições democráticas joga-se neste caso.




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