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sexta-feira, 24 de abril de 2026

O 25 de Abril de 1974 e as “novas”narrativas

                                        
Nos últimos tempos tenho tido a oportunidade de assistir, nalguns casos até a participar, em várias sessões comemorativas do cinquentenário do 25 de ABRIL.

Muitas dessas sessões tem tido, como actividade central, a apresentação de estudos universitários, com as mais diversas origens, de historiadores a sociólogos e de antropólogos a politólogos, abordando e interpretando esse evento histórico.

Muitas dessas intervenções, principalmente quando têm origem em gerações que nunca viveram esse momento histórico, em especial se oriundos da chamada ciência política, não tanto da ciência histórica, têm tendência, acredito que involuntariamente, para fazerem um certo branqueamento e enviesamento histórico, eivado de preconceitos ideológicos actuais, sobre esse período.

Percebo que muita da dificuldade em estudar um determinado momento histórico, que não vivemos, advém de se tentar interpretá-lo com base num determinado esquema académico e mental preconcebido, contaminado pelo conhecimento à posterior do resultado de alguns desses factos estudados e pelas opções ideológicas dominantes em épocas diferentes, assim como pelo abuso da moda contrafactual.

Noto, aliás, uma grande diferença entre historiadores e politólogos na forma como interpretam o tema.

Os primeiros, mais experientes na análise e interpretação de documentos, cientes da evolução historiográfica, são os que mais se aproximam da realidade, principalmente se despidos de preconceitos ideológicos, como é timbre da historiografia moderna.

Já os segundos, mais preocupados em estabelecer modelos rígidos e muitos marcados pelas temáticas e pelas tendências e debates ideológicos contemporâneos, revelam uma narrativa mais preconceituosa, tendenciosa  e selectiva.

Tentar arrumar as dinâmicas do período do 25 de Abril em modelos muito rígidos de interpretação, dividindo essa realidade em “bons” e “maus”, ou fazendo comparações com os modelos das modernas “democracias liberais”, muitas vezes interpretados a partir das acções e memórias das elites e dos líderes políticos, é esquecer as principais originalidades desse processo.

Talvez, não por acaso, a melhor definição/síntese sobre esse processo se deva, não a um historiador, não a um politólogo, não a um sociólogo, não a um líder político, mas a uma poetisa. Refiro-me a Sophia de Mello Breyner Andresen, que, num poema, justamente intitulado “25 de Abril”, melhor o definiu: “Esta é a madrugada que eu esperava/O dia inicial inteiro e limpo/Onde emergimos da noite e do silêncio/E livres habitamos a substância do tempo”.

Esse “dia inicial” foi mesmo assim vivido pelos portugueses desse tempo, onde todos os desejos e todos os sonhos pareciam estar ao alcance de cada um, mesmo que muitos desses desejos e sonhos fossem diferentes, de pessoa para pessoa, tornando difícil um efectivo controle politico sobre as muitas acções emancipadoras.

A “liberdade”, entendida muitas vezes de forma diferente pelos quase 10 milhões de portugueses que então habitavam o solo pátrio, foi outra das principais componentes desse movimento que extravasava partidos, ideologias e lideranças.

As muitas tentativas de travar ou controlar esse ímpeto só tiveram êxito à custa de muita propaganda, paga pelas mais diversas agências internacionais, e de uma intervenção militar musculada, mas limitada, pois não conseguiu travar o carácter transformador, democrático e libertário desse processo.

O desejo de “paz,  pão, habitação, saúde, educação”, que define a “liberdade a sério” que só se atinge “quando houver liberdade de mudar e decidir”, resumida nos versos da conhecida canção de Sérgio Godinho, ficaram para além da realidade imposta e marcaram em definitivo o carácter inovador e transformador desse processo, fazendo do 25 de Abril, ao contrário de outras datas, uma data sempre em aberto, sempre “composta de mudança” (Camões cantado por José Mário Branco).

Perceber o 25 de Abril, para além de só poder ser percebido por quem o viveu, por quem, numa data, viveu todos os momentos transformadores e contraditórios de uma Revolução Francesa, de uma Revolução Russa, da Libertação do fascismo/nazismo do pós guerra, do Maio de 1968 e, por antecipação, da Queda do Muro de Berlim, só se pode perceber consultando os seus poetas, artistas e cantores, mais que a interpretando   todos os discursos políticos e preconcebidas grelhas de análises “sociológicas” , “historiográficas” e da “ciência política”.

Por isso é tão difícil resumir o 25 de Abril aos ideários preconceituosos dos nossos dias.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2024

Personalidades pedem compromissos à esquerda com "prazos e objetivos" : “Queremos ver as contas certas de medidas urgentes”


2024 é um ano perigoso. Preocupa-nos a banalização do mal em genocídios que vão escalando. Preocupam-nos as regressões em direitos humanos fundamentais, como o de asilo e de proteção contra as guerras. Preocupa-nos a ascensão da extrema-direita na Europa, nos Estados Unidos, na Argentina e noutras regiões. Preocupa-nos que a voz do Secretário-geral da ONU não seja ouvida para um combate poderoso por uma transição climática justa.

Olhamos por isso para as eleições de março como a exigência de um novo impulso para que Portugal seja um pilar da luta contra a desesperança. Para que, no 50º aniversário do 25 de Abril, seja mobilizada a confiança numa democracia dedicada a criar igualdade e qualidade na saúde e na educação, transparência na vida pública e uma estratégia económica e social inclusiva em que as pessoas não sejam apenas números.

Nesse sentido, apelamos aos partidos de esquerda para que apresentem as suas propostas e divulguem os compromissos que estão dispostos a fazer para resolver problemas que atormentam o país, da precariedade à corrupção, da degradação de serviços públicos à pobreza dos idosos e crianças, da educação aos cuidados de saúde, do funcionamento da justiça à estabilidade nas escolas, das desigualdades entre homens e mulheres e discriminação das minorias étnicas à liberdade da comunicação social e à criação cultural. E divulguem também os mecanismos de controlo que se propõem estabelecer para que nos seja permitido controlar a execução desses mesmos compromissos.

Queremos contas certas de prazos e objetivos desses compromissos, pois sabemos que a democracia não é um jogo político que se faz depois das eleições – a democracia é a decisão informada e exigente nas eleições. A democracia somos nós, o Povo, e só assim podemos vencer as ameaças deste tempo perigoso.

Pilar del Rio, presidente da Fundação Saramago (aqui a título pessoal, como todas as pessoas que assinam)
Eduardo Paz Ferreira, jurista, professor universitário jubilado

Adelaide Chichorro Ferreira, professora universitária
Adelino Gomes, jornalista
Alexandre Delgado, compositor
Alexandre Manuel, jornalista e professor universitário
Alfredo Caldeira, investigador
Álvaro Garrido, diretor da Faculdade de Economia de Coimbra
Álvaro Siza Vieira, arquiteto
Ana Benavente, socióloga
Ana Cardoso Pires, tradutora
Ana Garrett, inspetora do Ministério da Educação
Ana Godinho, professora do ensino secundário
Ana Gomes, diplomata, foi eurodeputada
Ana Maria Bettencourt, professora do ensino superior
Ana Maria Santa-Marta, bancária, reformada
Ana Parada Costa, técnica superior
Ana Paula Arnaut, professora universitária
Ana Paula Vicente, psiquiatra
Anabela Mota Ribeiro, jornalista, escritora
André Carmo, dirigente sindical e professor universitário
Antónia Coutinho, professora universitária FCSH-UNL
António Chora, operário, foi coordenador da CT da Autoeuropa
António Manuel Nunes dos Santos, professor jubilado na FCT-UNL
António Marçal, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Judiciais
António Valadas da Silva, jurista
Arminda Barbosa, secretária de direcção
Áurea Bastos, dirigente sindical
Baceló de Carvalho (Bonga), músico
Bárbara Bulhosa, editora
Bernardo Vilas Boas, médico, dirigente sindical
Carlos Bastien, economista, professor universitário aposentado
Carlos Branco, general
Carlos Costa Brito, engenheiro
Carlos Fino, jornalista
Carlos Fiolhais, professor universitário
Carlos Lobo, professor universitário, foi SE Assuntos Fiscais
Carlos Passos, diretor comercial
Carlos Reis, professor emérito da Universidade de Coimbra
Carlos Trindade, membro da Executiva da CGTP e presidente do STAD
Carlos Vargas, jornalista
Catarina Martins, foi deputada
Céu Gonçalves, técnica superior da FEUP
Conceição Antunes, professora universitária, FCUP
Constantino Sakellarides, médico
Cristina Branco, cantora
David Carvalho Martins, jurista
David Duarte, jurista, professor universitário
Diana Andringa, jornalista
Domingas Rocha de Vasconcelos, arquiteta
Domingos Machado, médico urologista
Eduardo Vera-Cruz Pinto, jurista, diretor da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa
Eliana Madeira, técnica de projectos de intervenção social
Fernanda Henriques, professora emérita da Universidade de Évora
Fernando Alves, jornalista
Fernando Gomes da Silva, foi Ministro da Agricultura
Fernando Nunes da Silva, urbanista
Fernando Pires de Lima, dirigente sindical
Fernando Rosas, professor jubilado de história
Francisco Fanhais, músico
Francisco George, médico, foi DG da Saúde
Francisco Ramos, economista, foi SE da Saúde
Francisco Teixeira da Mota, advogado
Henrique Sousa, investigador social
Irene Lima, música/violoncelista
Isabel Allegro de Magalhães, professora universitária em literatura comparada
Isabel do Carmo, médica
Isabel Franco, professora
Isabel Soares, diretora de escola
Jacinto Lucas Pires, escritor
Januário Torgal Ferreira, bispo emérito das Forças Armadas e da segurança
Joana Bordalo e Sá, médica oncologista, dirigente sindical
Joana Espain de Oliveira, professora universitária na FCUP
Joana Lopes, professora universitária e gestora reformada
Joana Neto Mestre, jurista
Joana Pereira Leite, professora universitária, economista
João Cravinho, foi ministro das Obras Públicas
João Figueira, professor na Universidade de Coimbra
João Goulão, médico, especialista em toxicodependência
João Leal Amado, professor de direito do trabalho na U Coimbra
João Nabais, advogado
João Proença, médico, dirigente sindical
João Teixeira Lopes, sociólogo, professor universitário
Jorge Pinto, sindicalista, membro de uma comissão de trabalhadores
José António Santos, jornalista
José Aranda da Silva, farmacêutico, ex-bastonário da Ordem, foi DG no M Saúde
José Carlos Vasconcelos, jornalista, diretor do Jornal de Letras
José Feliciano Costa, professor, dirigente sindical
José Gil, professor de filosofia na FCSH-UNL
José Jaime, professor, diretor de escola secundária
José Luís Peixoto, escritor
José Manuel Pureza, professor universitário, foi vice-presidente da AR
José Rebelo, professor emérito do ISCTE
José Reis, professor universitário
José Teófilo Duarte, gráfico
José Vítor Malheiros, jornalista
Júlio Machado Vaz, médico
Leonor Caldeira, advogada
Luís Simões, jornalista, sindicalista
Luísa Cerdeira, professora universitária em ciências da educação
Luísa Costa Gomes, escritora
Luísa Teotónio Pereira, dirigente associativa
Manuel Alberto Valente, escritor e editor
Manuel Brandão Alves, economista, professor universitário aposentado
Manuel Carvalho da Silva, sociólogo, sindicalista
Manuel Sarmento, professor universitário em ciências de educação
Manuela Pereira Pinto, professora do ensino secundário, aposentada
Manuela Ribeiro Görtz, médica oncologista, aposentada
Manuela Goucha Soares, produtora
Manuela Vasconcelos, técnica superior da função pública, aposentada
Marcelo Teixeira, editor
Maria Adelaide Martinez, professora do ensino secundário, aposentada
Maria Amélia dos Santos Costa, professora do ensino secundário, aposentada
Maria Augusta Babo, professora da FCSH/UNL
Maria Conceição Lobo Antunes, professora aposentada da FC-UNL
Maria Edite Pereira, aposentada
Maria Emília Brederode Santos, membro do Conselho Nacional de Educação
Maria João Gonçalves, arquiteta
Maria do Loreto Couceiro, professora da FCT-UNL
Maria Natália Coelho, professora do ensino secundário, aposentada
Miguel Oliveira, arquitecto
Maria Rosário Gama, professora aposentada
Maria Teresinha Tavares, geóloga, trabalhadora do Graal
Miguel Gonçalves Mendes, cineasta
Miguel Oliveira, arquitecto
Miguel Real, professor, escritor
Patrícia Alexandra Correia Sousa, hematologista, dir. de serviço do IPO de Coimbra
Paulo Pedroso, sociólogo, foi ministro do Trabalho e da Solidariedade
Paulo de Sousa de Vasconcelos, professor do ensino superior
Pedro Abrunhosa, músico
Pedro Diniz de Sousa, investigador em ciências sociais
Pedro Messias, bancário, dirigente sindical
Pedro Pezarat Correia, general, militar de Abril
Regina Carmona, médica, foi diretora no M Saúde
Renato do Carmo, professor universitário
Rodrigo Sousa Castro, coronel, militar de Abril
Rogério Nogueira, trabalhador da Autoeuropa, coordenador da CT
Rogério Roque Amaro, professor universitário
Rosa Monteiro, foi SE da Igualdade
Rosária Martins de Campos, professora do ensino secundário
Sérgio Godinho, músico, escritor
Sofia Branco, jornalista
Tatiana Levy, escritora
Teresa Beleza, jurista, professora
Teresa Cadete, professora universitária na FLUL
Teresa Coelho Moreira, professora universitária
Teresa Paixão, diretora televisiva
Teresa Vasconcelos, professora do ensino superior
Teresa Veiga Furtado, professora de artes na Universidade de Évora
Ulisses Garrido, sindicalista
Virgínia Ferreira, professora universitária
Viriato Soromenho Marques, professor universitário de filosofia
Vítor Nogueira, economista
Vitorino, músico

 

terça-feira, 14 de março de 2017

João Abel Manta, o cartoonista do 25 de Abril com exposição em Torres Vedras

BêDêZine: João Abel Manta, o cartoonista do 25 de Abril: João Abel Manta, nascido em 1928, filho de pintores e formado em aquitectura, homem da oposição a Salazar, destacou-se como um dos mais importantes cartoonistas portuguese da segunda metade do século XX. Os seus trabalhos vão estar em Torres Vedras a partir do próximo dia 18 de Março... (clicar para ler mais).

Exposição de Cartoon´s de João Abel Manta em Torres Vedras

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

…tenham lá calma!…O PREC está morto e enterrado.


Sinceramente, pensava que o PREC estava morto e enterrado , que era coisa da  história e do passado, feito de mil historias para contar a filhos e netos.

Aliás, a história que por aí se conta do PREC é apenas uma parte da história, contada pelos “vencedores” e por muitos que querem fazer esquecer o seu passado nesse período, pois estiveram , então, na liderança , à direita ou na extrema-esquerda, do que de pior então se fez (seria curioso ver onde estão hoje os que atearam fogo à embaixada de Espanha, cercaram a assembleia da república, tomaram de assalto a Rádio Renascença e o “República”, os “ferro-em-brasa” da UEC, da JCP, da AOC ou do MRPP,  aqueles outros que andaram a por bombas nas sedes dos partidos da esquerda, assassinaram o Padre Max e outros militantes de esquerda, ou andaram a boicotar os comícios do PCP acusando-o de “social-fascista”, “burguês”, “traidor à revolução”, “revisionista” e “ colaboracionista” com os “partidos burgueses” – PS e PSD , acusando-o, enfim,  de ser muito “moderado”!!!!!) .

Nem o PREC foi aquela história  para assustar criancinhas que por aí se conta. Foi um processo previsível num país que saia de quase cinquenta anos de ditadura e treze de guerra colonial, num período de crise económica internacional, bem pior que a actual, e no meio de uma das fases mais acesas da “guerra-fria”.

No meio de tudo isso até se pode dizer que correu  tudo muito bem, quase sem mortos, sem cair numa ditadura, sem guerra civil. Talvez porque quem tutelava a revolução era um grupo de jovens militares onde a amizade contava mais que as divergências politico-ideológicas, secundados por líderes político (Álvaro Cunhal, Mário Soares, Sá Carneiro, Freitas do Amaral…) com uma envergadura que foi irrepetível na geração seguinte (a actual).

No fundo, o PREC aconteceu porque ,citando Sophia de Mello Breyner Andresen, vivia-se “a madrugada” esperada, o “dia inicial inteiro e limpo” que  emergiu “da noite e do silêncio”, onde  “livres habitamos a substância do tempo”, e todos  procurávamos um rumo para esse país novo, entre a segurança dos dogmas na moda e a aventura de criar tudo de novo.

No fundo, quem viveu o PREC teve o privilégio de ter vivido , num mesmo tempo, todos os tempos do século XX, a Revolução Russa, as Festas da Libertação do nazi-fascismo, o Maio de 68, e, por antecipação, a queda de todos os Muros.

Claro que o PREC foi vivido e percepcionado de forma diferente conforme se pertencesse:

-  a   uma juventude mais ou menos esclarecida,  que tinha tudo pela frente , libertando-se da perspectiva de ter de ir para a guerra ou de emigrar para fugir ao destino que o regime deposto lhe tinha traçado;

-  aos  “velhos” oposicionistas, que trouxeram para o PREC a suas velhas rivalidade da clandestinidade;

- aos acólitos do Estado Novo, que beneficiaram, participaram ou colaboraram na ditadura deposta e perderam os seus privilégios de classe e políticos;

-  aos envolvidos directamente nas decisões políticas da época, que viveram no "centro do furacão";

- aos muitos espoliados da descolonização tardia e apressada, inevitável nas circunstancias políticas, nacionais e internacionais, da época ;

-  à “maioria silenciosa” da população iletrada, pobre , rural e católica, habituada a obedecer e calar, receosa das mudanças, “educada” no servilismo salazarista.

Cada um desses “grupos” tem uma imagem diferente do PREC, que não foi um processo linear, coerente, estruturado, calculado, programado por qualquer mente malévola, como muitos pretendem fazer crer.

Mas o PREC foi irrepetível e quem pretende fazer comparações destes nossos tempos com esses tempos só o pode fazer por uma das seguintes razões ou por todas elas: por desonestidade intelectual, por ignorância, por má-fé, por intolerância , por fanatismo ideológico ou para espalhar o medo.

Aliás, se alguma coisa houve de tão radical como naqueles tempos, mas de sinal contrário, foram os último dez anos de governação “socrática” e “passoscoelhista”, destruindo a já de si periclitante classe média, retirando direitos sociais fundamentais aos trabalhadores, rompendo compromissos com os cidadãos, desrespeitando a Constituição, submetendo o social ao financeiro, impondo a propaganda de um novo “totalitarismo” do “caminho único”, “sem alternativa”, destruindo a capacidade de criar, imaginar e melhorar o mundo que nos rodeia.

Se houve radicalismo nos últimos tempos foi o da propaganda neo-liberal e o da direita que se radicalizou, destruindo o centro político.

Curiosamente, como agora se revelou, os mitos e os fantasmas do PREC não foram desenterrados pela esquerda, que, como se vê, já tem essa história resolvida, mas pela direita que, como se vê, continua presa a mitos do passado, talvez porque muitos dos seu actuais ideólogos e propagandistas no comentário político-económico e nas “redes socias”  tenham participado no lado negro desse PREC e estejam agora preocupados em limpar a imagem negativa que se lhes colou, pelos menos por parte dos muitos que ainda conhecem  e não esquecem o seu percurso…

Por isso, mais do que desenterrar os velhos “fantasmas” do PREC, a actual situação política pode contribuir para enterrar em definitivo esses fantasmas.

O que vem aí é uma incógnita, mas o PREC está morto e enterrado.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Quando o actual momento político traz ao de cima o que há de pior no comentário jornalístico

Costuma-se dizer que “é na curva das estradas que que vê quem é bom condutor”.

O actual momento político tem trazido ao de cima o que há de pior (e, menos, de melhor) na política nacional e, principalmente, no comentário jornalístico.

A histeria da direita e dos seus comentadores de serviço (os pequenos “gobelzinhos”, como aqui lhes costumamos chamar) tem ultrapassado as raias do bom senso e do bom gosto e tem trazido ao de cima muita da retórica anticomunista que pensávamos morta e enterrada.

À histeria dessa gente junta-se o uso e o abuso das meias-verdades, da má fé, da simples intolerância, da pura mentira, da “mera” distorção da realidade, dos velhos ódios de estimação pessoais e, quase sempre, da pura ignorância .

aqui assumi muitas críticas ao PCP , mas isso não me tem impedido de dar o meu voto ou o meu apoio conjuntural a esse partido, em parte porque, objectivamente, nalguns momentos da nossa história política, foi o único partido que defendeu, com firmeza e coerentemente,  aqueles que vivem do seu trabalho e os mais fracos da sociedade portuguesa , batendo-se com firmeza pela justiça social neste país, combatendo e denunciando o aumento da pobreza e da das desigualdades provocadas pelo “austeritarismo” imposto pelas instituições antidemocráticas da União Europeia.

No fundo tem sido dos pouco partidos, na companhia do Bloco de Esquerda ou do Livre, a manter viva a verdadeira chama da social-democracia.

Sim, da social-democracia...

A social-democracia, convém recordar, defende a justiça social, combate as desigualdades, defende quem trabalha contra os interesse do corrupto sistema financeiro, tudo lutas que, parecendo ultrapassadas nos finais do século XX, voltam a ser necessárias neste miserável início do século XXI.

Hoje, esses princípios, em vez de serem defendidos pelos partidos que se dizem herdeiros dessa social-democracia, que foi responsável pelos anos de prosperidade, paz e desenvolvimento que a Europa conheceu na segunda metade do século XX, e pela construção dos alicerces do estado social que hoje está a ser desmantelado pelas antidemocráticas instituições europeias, são renegados por esses partidos, renegando toda a sua história e participando convicta e alegremente na destruição dessa Europa, entregando o seu destino aos corruptos interesses financeiros.

Além disso, ao contrário da história da maior parte dos partidos comunistas da Europa, que sujaram as mãos na construção de violentas ditaduras no leste, renegando igualmente as suas raízes e os seus objectivos, dando origem a corruptos sistema políticos, de que são exemplo, nos nossos dias, Angola ou a China, para não falar na tenebrosa caricatura da Coreia do Norte, o Partido Comunista Português cresceu na luta contra uma ditadura e na consolidação de uma democracia, revelando-se um força política credível a nível autárquico.

Claro que, como em todo os lados, existem erros, injustiças, retóricas ridículas (a célebre “cassete”), gente execrável, e, pessoalmente, podia nomear muitas divergências em relação ao programa político desse partido.

Mas a forma primária como alguns comentadores têm vindo a encher páginas de jornais, com destaque para os “talibãs” do neoliberalismo do Observador, ou o espaço televisivo, com retóricas de puro fanatismo anticomunista primário, já começa a cansar e não augura nada de bom nem positivo para o futuro do combate ao “austeritarismo”, para além de trazer ao de cima a verdadeira natureza da maior parte da nossa comunicação social e da nível onde navega a nossa “liberdade de imprensa”…

O irrascível e pré-histórico José Milhazes foi um dos que foi mais longe no primarismo da retórica anticomunista no jornal online Observador.

O jornalista Paulo Pena submeteu essa retórica à “Prova dos Factos” e o resultado é, para além de uma grande lição de jornalismo e de interpretação de texto, o interessante “estudo”, ontem editado pelo Público, e que reproduzimos em baixo:

“PROVA DOS FACTOS

Por PAULO PENA, in  “Público” de  12/10/2015

“O PCP nunca se demarcou do estalinismo e do leninismo?

“O jornalista José Milhazes afirmou que o PCP continua a ver Estaline e Lenine como “timoneiros do povo”. Terá razão?

“A FRASE

“O Partido Comunista Português, ao que eu saiba, nunca se demarcou dos hediondos crimes cometidos por Lenine e Estaline, continua a ver nestes dois carrascos “timoneiros do povo”, sempre foi fiel e servo do Partido Comunista da União Soviética até ao fim deste.”

“O CONTEXTO

“Esta frase foi publicada num artigo de opinião do jornalista José Milhazes no jornal online Observador. O título: “Não quero participar a segunda vez no mesmo filme” sobre a possibilidade de um acordo entre PS, PCP e BE para viabilizar um possível Governo em Portugal. Como se trata de uma opinião, procuramos analisar a veracidade de um dos pontos da argumentação, tendo em conta uma latitude de interpretações que não se esgota num mero “sim” ou “não”. Uma demarcação política, como aquela que Milhazes sugere faltar ao PCP, é sempre relativa. Depende de quem avalia a demarcação. Para uns, uma demarcação será sempre insuficiente, para outros, uma mera distanciação já será uma demarcação bastante. Tentemos olhar para esta questão com distância: Haverá sempre quem considere que alguém não se demarcou suficientemente de um facto embaraçoso. A nossa vida política tem disto inúmeros exemplos.

“Mas para responder à pergunta desta Prova dos Factos existem várias fontes disponíveis. O PÚBLICO contactou para isso vários historiadores portugueses, especialistas em História do PCP. Estas são as principais conclusões. A primeira crítica do PCP a Estaline surgiu no V Congresso do partido, na clandestinidade, em 1957, na sequência da “desestalinização” promovida por Nikita Krushov. O PCP, na altura, vivia um “desvio de direita”, que Cunhal viria a “corrigir”, depois da sua fuga de Peniche, em 1961. Mas isso são outras histórias… É o próprio Cunhal que, no seu livro Partido com Paredes de Vidro retoma a crítica: “O V Congresso, realizado em 1957, estimulado também pelo desvendar do culto da personalidade de Stáline e de todas as suas negativas consequências, instituiu normas de democracia interna e inseriu-as nos Estatutos do Partido então aprovados." (p.88). Pode-se alegar que a crítica a Estaline é mitigada. Cunhal, mais uma vez, em 1990, já depois da queda do Muro de Berlim, deu uma entrevista mais clara. Os entrevistadores, do Independente, eram Miguel Esteves Cardoso e Paulo Portas. Sobre Estaline, Cunhal disse o seguinte: “Eu não vou aqui propor ou sugerir a leitura, mas eu escrevi muitas páginas sobre a caracterização do estalinismo. O estalinismo é isto, e isto, e isto. E uma coisa que não queremos e que repudiamos. O estalinismo como ideologia, como acção política, como organização do Estado, como organização do partido, como intervenção antidemocrática interna ou externa do partido. Naturalmente que rejeitamos. Aliás, há um país muito acusado de métodos estalinistas, a Roménia. Já nós, os comunistas portugueses, tínhamos grande dificuldade de contactos com o Partido Comunista Romeno.”

“Outra questão, completamente diferente, é a da relação do PCP com Lenine. Neste caso, o partido não só se continua a afirmar como “marxista-leninista”, como não concordará com a expressão “hediondos crimes” usada pelo jornalista. Porém, no mesmo livro de Álvaro Cunhal, existe uma crítica à “infalibilidade” das referências comunistas: “Mas ser leninista não consiste em endeusar Lénine, em utilizar cada frase de Lénine como verdade universal, eterna e intocável, em substituir a análise pela citação, em responder aos acontecimentos através de afirmações de Lénine, mesmo quando se trata de novos fenómenos que Lénine não conheceu no seu tempo, em abafar, com a transcrição de textos e com a presença dominadora do nome e da efígie e da autoridade desse nome e dessa efígie, a investigação, a análise e o espírito criativo no estudo e interpretação dos novos fenómenos .” (pág.140).

“OS FACTOS

“Para o PCP, a “demarcação” bastante faz-se quando o partido afirma que “tem a sua própria concepção de socialismo e o seu próprio projecto para a edificação em Portugal de uma sociedade socialista”. O que significa que não vê em Lenine ou Estaline, ou Castro, ou qualquer outro modelo de sociedade socialista, um exemplo a seguir. Pelo contrário, o PCP afirma ter objectivos que se “diferenciam e distanciam” dessas práticas. No seu programa “Uma Democracia Avançada no Limiar do Século XXI”, o partido demarca-se da experiência da URSS e do antigo “bloco de Leste”. “Nesses países (…) acabou por instaurar-se (…) um "modelo" que violou características essenciais de uma sociedade socialista e se afastou, contrariou e afrontou aspectos essenciais dos ideais comunistas.” Exemplos disso? “Um poder excessivamente centralizado nas mãos de uma burocracia (…) a acentuação do carácter autoritário do Estado (…) uma economia excessivamente estatizada (…) um centralismo burocrático baseado na imposição (…) confusão das funções do Estado e do partido (…); “um distanciamento entre os governantes e as massas, o uso indevido do poder político, o abuso da autoridade, a não correspondência da política e das realidades com os objectivos definidos e proclamados do socialismo, desvios e deformações incompatíveis com a sua natureza.”

“EM RESUMO


“Cada um fará a sua interpretação, à luz das suas próprias convicções, se a demarcação face a Estaline é proporcional à gravidade dos crimes conhecidos do ex-líder soviético. Mas neste caso, parece indiscutível que houve um repúdio público do PCP e do seu histórico líder Álvaro Cunhal sobre aquele período histórico. Uma situação diferente é a de Lenine. Aí, o PCP continua a defender o seu legado teórico, embora procure distanciar-se de qualquer “culto da personalidade”. Ou seja, a expressão “timoneiros do povo” não é aplicada a nenhum dos dois por nenhum documento do PCP. Quanto ao “seguidismo” em relação à União Soviética, essa ainda é uma matéria controversa na historiografia”.