BêDêZine: João Abel Manta, o cartoonista do 25 de Abril: João Abel Manta, nascido em 1928, filho de pintores e formado em aquitectura, homem da oposição a Salazar, destacou-se como um dos mais importantes cartoonistas portuguese da segunda metade do século XX. Os seus trabalhos vão estar em Torres Vedras a partir do próximo dia 18 de Março... (clicar para ler mais).
Os dias que rolam, numa visão plural, pessoal e parcial de um mundo em rápida mutação. À esquerda, provocador e politicamente incorrecto, mas aberto à diversidade...as Pedras Rolam...
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terça-feira, 14 de março de 2017
segunda-feira, 9 de novembro de 2015
…tenham lá calma!…O PREC está morto e enterrado.
Sinceramente, pensava que o PREC estava morto e enterrado , que era
coisa da história e do passado, feito de
mil historias para contar a filhos e netos.
Aliás, a história que por aí se conta do PREC é apenas uma parte da
história, contada pelos “vencedores” e por muitos que querem fazer esquecer o
seu passado nesse período, pois estiveram , então, na liderança , à direita ou
na extrema-esquerda, do que de pior então se fez (seria curioso ver onde estão
hoje os que atearam fogo à embaixada de Espanha, cercaram a assembleia da
república, tomaram de assalto a Rádio Renascença e o “República”, os “ferro-em-brasa”
da UEC, da JCP, da AOC ou do MRPP, aqueles outros que andaram a por bombas nas sedes dos partidos da esquerda, assassinaram o Padre Max e outros militantes de esquerda, ou andaram a
boicotar os comícios do PCP acusando-o de “social-fascista”, “burguês”, “traidor
à revolução”, “revisionista” e “ colaboracionista” com os “partidos burgueses” –
PS e PSD , acusando-o, enfim, de ser
muito “moderado”!!!!!) .
Nem o PREC foi aquela história para assustar criancinhas que por aí se
conta. Foi um processo previsível num país que saia de quase cinquenta anos de
ditadura e treze de guerra colonial, num período de crise económica
internacional, bem pior que a actual, e no meio de uma das fases mais acesas da
“guerra-fria”.
No meio de tudo isso até se pode dizer que correu tudo muito bem, quase sem mortos, sem cair numa
ditadura, sem guerra civil. Talvez porque quem tutelava a revolução era um
grupo de jovens militares onde a amizade contava mais que as divergências
politico-ideológicas, secundados por líderes político (Álvaro Cunhal, Mário
Soares, Sá Carneiro, Freitas do Amaral…) com uma envergadura que foi
irrepetível na geração seguinte (a actual).
No fundo, o PREC aconteceu porque ,citando Sophia de Mello Breyner
Andresen, vivia-se “a madrugada” esperada, o “dia inicial inteiro e limpo”
que emergiu “da noite e do silêncio”,
onde “livres habitamos a substância do
tempo”, e todos procurávamos um rumo
para esse país novo, entre a segurança dos dogmas na moda e a aventura de criar
tudo de novo.
No fundo, quem viveu o PREC teve o privilégio de ter vivido , num mesmo
tempo, todos os tempos do século XX, a Revolução Russa, as Festas da Libertação
do nazi-fascismo, o Maio de 68, e, por antecipação, a queda de todos os Muros.
Claro que o PREC foi vivido e percepcionado de forma diferente conforme
se pertencesse:
- a uma
juventude mais ou menos esclarecida, que
tinha tudo pela frente , libertando-se da perspectiva de ter de ir para a
guerra ou de emigrar para fugir ao destino que o regime deposto lhe tinha
traçado;
- aos “velhos” oposicionistas, que trouxeram para o
PREC a suas velhas rivalidade da clandestinidade;
- aos acólitos do Estado Novo, que beneficiaram, participaram ou
colaboraram na ditadura deposta e perderam os seus privilégios de classe e políticos;
- aos envolvidos directamente nas
decisões políticas da época, que viveram no "centro do furacão";
- aos muitos espoliados da descolonização tardia e apressada, inevitável
nas circunstancias políticas, nacionais e internacionais, da época ;
- à “maioria silenciosa” da
população iletrada, pobre , rural e católica, habituada a obedecer e calar,
receosa das mudanças, “educada” no servilismo salazarista.
Cada um desses “grupos” tem uma imagem diferente do PREC, que não foi
um processo linear, coerente, estruturado, calculado, programado por qualquer mente malévola, como muitos pretendem fazer crer.
Mas o PREC foi irrepetível e quem pretende fazer comparações destes
nossos tempos com esses tempos só o pode fazer por uma das seguintes razões ou
por todas elas: por desonestidade intelectual, por ignorância, por má-fé, por
intolerância , por fanatismo ideológico ou para espalhar o medo.
Aliás, se alguma coisa houve de tão radical como naqueles tempos, mas
de sinal contrário, foram os último dez anos de governação “socrática” e “passoscoelhista”,
destruindo a já de si periclitante classe média, retirando direitos sociais
fundamentais aos trabalhadores, rompendo compromissos com os cidadãos, desrespeitando
a Constituição, submetendo o social ao financeiro, impondo a propaganda de um
novo “totalitarismo” do “caminho único”, “sem alternativa”, destruindo a
capacidade de criar, imaginar e melhorar o mundo que nos rodeia.
Se houve radicalismo nos últimos tempos foi o da propaganda neo-liberal e o da direita que se radicalizou, destruindo o centro político.
Curiosamente, como agora se revelou, os mitos e os fantasmas do PREC
não foram desenterrados pela esquerda, que, como se vê, já tem essa história
resolvida, mas pela direita que, como se vê, continua presa a mitos do passado,
talvez porque muitos dos seu actuais ideólogos e propagandistas no comentário
político-económico e nas “redes socias” tenham participado no lado negro desse PREC e
estejam agora preocupados em limpar a imagem negativa que se lhes colou, pelos
menos por parte dos muitos que ainda conhecem e não esquecem o seu percurso…
Por isso, mais do que desenterrar os velhos “fantasmas” do PREC, a
actual situação política pode contribuir para enterrar em definitivo esses
fantasmas.
O que vem aí é uma incógnita, mas o PREC está morto e enterrado.
quarta-feira, 14 de outubro de 2015
Quando o actual momento político traz ao de cima o que há de pior no comentário jornalístico
Costuma-se dizer que “é na curva das estradas que que vê quem é bom
condutor”.
O actual momento político tem trazido ao de cima o que há de pior (e,
menos, de melhor) na política nacional e, principalmente, no comentário
jornalístico.
A histeria da direita e dos seus comentadores de serviço (os pequenos “gobelzinhos”,
como aqui lhes costumamos chamar) tem ultrapassado as raias do bom senso e do
bom gosto e tem trazido ao de cima muita da retórica anticomunista que
pensávamos morta e enterrada.
À histeria dessa gente junta-se o uso e o abuso das meias-verdades, da
má fé, da simples intolerância, da pura mentira, da “mera” distorção da
realidade, dos velhos ódios de estimação pessoais e, quase sempre, da pura
ignorância .
Já aqui assumi muitas críticas ao PCP , mas isso não me tem impedido de
dar o meu voto ou o meu apoio conjuntural a esse partido, em parte porque, objectivamente,
nalguns momentos da nossa história política, foi o único partido que defendeu,
com firmeza e coerentemente, aqueles que
vivem do seu trabalho e os mais fracos da sociedade portuguesa , batendo-se com
firmeza pela justiça social neste país, combatendo e denunciando o aumento da
pobreza e da das desigualdades provocadas pelo “austeritarismo” imposto pelas instituições
antidemocráticas da União Europeia.
No fundo tem sido dos pouco partidos, na companhia do Bloco de Esquerda
ou do Livre, a manter viva a verdadeira chama da social-democracia.
Sim, da social-democracia...
A social-democracia, convém recordar, defende a justiça social, combate
as desigualdades, defende quem trabalha contra os interesse do corrupto sistema
financeiro, tudo lutas que, parecendo ultrapassadas nos finais do século XX,
voltam a ser necessárias neste miserável início do século XXI.
Hoje, esses princípios, em vez de serem defendidos pelos partidos que
se dizem herdeiros dessa social-democracia, que foi responsável pelos anos de
prosperidade, paz e desenvolvimento que a Europa conheceu na segunda metade do
século XX, e pela construção dos alicerces do estado social que hoje está a ser
desmantelado pelas antidemocráticas instituições europeias, são renegados por
esses partidos, renegando toda a sua história e participando convicta e
alegremente na destruição dessa Europa, entregando o seu destino aos corruptos
interesses financeiros.
Além disso, ao contrário da história da maior parte dos partidos
comunistas da Europa, que sujaram as mãos na construção de violentas ditaduras
no leste, renegando igualmente as suas raízes e os seus objectivos, dando
origem a corruptos sistema políticos, de que são exemplo, nos nossos dias,
Angola ou a China, para não falar na tenebrosa caricatura da Coreia do Norte, o
Partido Comunista Português cresceu na luta contra uma ditadura e na
consolidação de uma democracia, revelando-se um força política credível a nível
autárquico.
Claro que, como em todo os lados, existem erros, injustiças, retóricas ridículas
(a célebre “cassete”), gente execrável, e, pessoalmente, podia nomear muitas
divergências em relação ao programa político desse partido.
Mas a forma primária como alguns comentadores têm vindo a encher
páginas de jornais, com destaque para os “talibãs” do neoliberalismo do
Observador, ou o espaço televisivo, com retóricas de puro fanatismo anticomunista
primário, já começa a cansar e não augura nada de bom nem positivo para o
futuro do combate ao “austeritarismo”, para além de trazer ao de cima a verdadeira
natureza da maior parte da nossa comunicação social e da nível onde navega a
nossa “liberdade de imprensa”…
O irrascível e pré-histórico José Milhazes foi um dos que foi mais
longe no primarismo da retórica anticomunista no jornal online Observador.
O jornalista Paulo Pena submeteu essa retórica à “Prova dos Factos” e o
resultado é, para além de uma grande lição de jornalismo e de interpretação de texto, o interessante “estudo”, ontem editado pelo Público, e que
reproduzimos em baixo:
“PROVA DOS FACTOS
Por PAULO PENA, in “Público”
de 12/10/2015
“O PCP nunca se demarcou do estalinismo e do leninismo?
“O jornalista José Milhazes afirmou que o PCP continua a ver Estaline e
Lenine como “timoneiros do povo”. Terá razão?
“A FRASE
“O Partido Comunista Português, ao que eu saiba, nunca se demarcou dos
hediondos crimes cometidos por Lenine e Estaline, continua a ver nestes dois
carrascos “timoneiros do povo”, sempre foi fiel e servo do Partido Comunista da
União Soviética até ao fim deste.”
“O CONTEXTO
“Esta frase foi publicada num artigo de opinião do jornalista José
Milhazes no jornal online Observador. O título: “Não quero participar a segunda
vez no mesmo filme” sobre a possibilidade de um acordo entre PS, PCP e BE para
viabilizar um possível Governo em Portugal. Como se trata de uma opinião,
procuramos analisar a veracidade de um dos pontos da argumentação, tendo em
conta uma latitude de interpretações que não se esgota num mero “sim” ou “não”.
Uma demarcação política, como aquela que Milhazes sugere faltar ao PCP, é
sempre relativa. Depende de quem avalia a demarcação. Para uns, uma demarcação
será sempre insuficiente, para outros, uma mera distanciação já será uma
demarcação bastante. Tentemos olhar para esta questão com distância: Haverá
sempre quem considere que alguém não se demarcou suficientemente de um facto
embaraçoso. A nossa vida política tem disto inúmeros exemplos.
“Mas para responder à pergunta desta Prova dos Factos existem várias
fontes disponíveis. O PÚBLICO contactou para isso vários historiadores
portugueses, especialistas em História do PCP. Estas são as principais
conclusões. A primeira crítica do PCP a Estaline surgiu no V Congresso do
partido, na clandestinidade, em 1957, na sequência da “desestalinização”
promovida por Nikita Krushov. O PCP, na altura, vivia um “desvio de direita”,
que Cunhal viria a “corrigir”, depois da sua fuga de Peniche, em 1961. Mas isso
são outras histórias… É o próprio Cunhal que, no seu livro Partido com Paredes
de Vidro retoma a crítica: “O V Congresso, realizado em 1957, estimulado também
pelo desvendar do culto da personalidade de Stáline e de todas as suas
negativas consequências, instituiu normas de democracia interna e inseriu-as
nos Estatutos do Partido então aprovados." (p.88). Pode-se alegar que a
crítica a Estaline é mitigada. Cunhal, mais uma vez, em 1990, já depois da
queda do Muro de Berlim, deu uma entrevista mais clara. Os entrevistadores, do
Independente, eram Miguel Esteves Cardoso e Paulo Portas. Sobre Estaline,
Cunhal disse o seguinte: “Eu não vou aqui propor ou sugerir a leitura, mas eu
escrevi muitas páginas sobre a caracterização do estalinismo. O estalinismo é
isto, e isto, e isto. E uma coisa que não queremos e que repudiamos. O
estalinismo como ideologia, como acção política, como organização do Estado,
como organização do partido, como intervenção antidemocrática interna ou
externa do partido. Naturalmente que rejeitamos. Aliás, há um país muito
acusado de métodos estalinistas, a Roménia. Já nós, os comunistas portugueses,
tínhamos grande dificuldade de contactos com o Partido Comunista Romeno.”
“Outra questão, completamente diferente, é a da relação do PCP com
Lenine. Neste caso, o partido não só se continua a afirmar como
“marxista-leninista”, como não concordará com a expressão “hediondos crimes”
usada pelo jornalista. Porém, no mesmo livro de Álvaro Cunhal, existe uma
crítica à “infalibilidade” das referências comunistas: “Mas ser leninista não
consiste em endeusar Lénine, em utilizar cada frase de Lénine como verdade
universal, eterna e intocável, em substituir a análise pela citação, em responder
aos acontecimentos através de afirmações de Lénine, mesmo quando se trata de
novos fenómenos que Lénine não conheceu no seu tempo, em abafar, com a
transcrição de textos e com a presença dominadora do nome e da efígie e da
autoridade desse nome e dessa efígie, a investigação, a análise e o espírito
criativo no estudo e interpretação dos novos fenómenos .” (pág.140).
“OS FACTOS
“Para o PCP, a “demarcação” bastante faz-se quando o partido afirma que
“tem a sua própria concepção de socialismo e o seu próprio projecto para a
edificação em Portugal de uma sociedade socialista”. O que significa que não vê
em Lenine ou Estaline, ou Castro, ou qualquer outro modelo de sociedade
socialista, um exemplo a seguir. Pelo contrário, o PCP afirma ter objectivos
que se “diferenciam e distanciam” dessas práticas. No seu programa “Uma
Democracia Avançada no Limiar do Século XXI”, o partido demarca-se da
experiência da URSS e do antigo “bloco de Leste”. “Nesses países (…) acabou por
instaurar-se (…) um "modelo" que violou características essenciais de
uma sociedade socialista e se afastou, contrariou e afrontou aspectos
essenciais dos ideais comunistas.” Exemplos disso? “Um poder excessivamente
centralizado nas mãos de uma burocracia (…) a acentuação do carácter
autoritário do Estado (…) uma economia excessivamente estatizada (…) um
centralismo burocrático baseado na imposição (…) confusão das funções do Estado
e do partido (…); “um distanciamento entre os governantes e as massas, o uso
indevido do poder político, o abuso da autoridade, a não correspondência da
política e das realidades com os objectivos definidos e proclamados do
socialismo, desvios e deformações incompatíveis com a sua natureza.”
“EM RESUMO
“Cada um fará a sua interpretação, à luz das suas próprias convicções,
se a demarcação face a Estaline é proporcional à gravidade dos crimes
conhecidos do ex-líder soviético. Mas neste caso, parece indiscutível que houve
um repúdio público do PCP e do seu histórico líder Álvaro Cunhal sobre aquele
período histórico. Uma situação diferente é a de Lenine. Aí, o PCP continua a
defender o seu legado teórico, embora procure distanciar-se de qualquer “culto
da personalidade”. Ou seja, a expressão “timoneiros do povo” não é aplicada a
nenhum dos dois por nenhum documento do PCP. Quanto ao “seguidismo” em relação
à União Soviética, essa ainda é uma matéria controversa na historiografia”.
Publicada por
Venerando António Aspra de Matos
à(s)
11:35
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