segunda-feira, 25 de junho de 2018

Quando a "História" lava mais branco (acerca do debate sobre os "descobrimentos")


Anda por aí uma grande polémica sobre a designação do “futuro” Museu dos “descobrimentos” a construir em Lisboa.

A polémica centra-se principalmente em duas situações: a designação de “Descobrimentos” para esse museu e o destaque a dar ao papel de Portugal na escravatura.

A designação de “descobrimentos”, para referir uma época histórica precisa,  é uma designação eurocentrista e terá sido "inventada" por Filipe II, num decreto de 1573, onde se ordenava que se usasse apenas a palavra “descobrimentos” em substituição de “conquista”, para camuflar designação usada por Bartolomeu de las Casas, que denunciava a violência que os colonos exerciam sobre as populações indígenas na América.

Por cá, principalmente entre os historiadores do século XX, houve sempre uma grande discussão para distinguir, ao longo da “expansão”, aquilo que foi “descoberta” daquilo que foi “conquista”. A primeira tinha um caracter de tipo comercial, e mais “pacifico”, a segunda implicava ocupação violenta por meios militares.

Muitos procuraram apresentar essa diferença como caracterizando objectivos políticos diferentes.  

 O regência de D. Pedro, os reinos de D. Duarte e D. João II inseriam-se no primeiro objectivo, por influência da “burguesia”.

Os reinados de D. Afonso V, D. Manuel e D. João III inseriam-se no segundo objectivo, por influência da “nobreza”.

Tentando dar a volta ao caracter eurocêntrico da designação “descobrimentos” os historiadores da chamada Escola dos Annales usaram um termo mais pacífico, o de “mundialização”, hoje referida por muitos autores e comentadores como “primeira globalização”.

De facto,  os Europeus não descobriram nada de novo, a não ser para os próprios europeus: apenas puseram em contacto “mundos” que não tinham contacto ou onde este era apenas esporádico e feito por terceiros, devido, em parte, às limitações técnica da navegação no alto-mar.

Não me parece, contudo, que a designação de “Descobrimentos” para um museu, num país como Portugal, que, na sua perspectiva, “descobriu” de facto aquilo que desconhecia, seja totalmente desadequada.

Já numa prespectiva de um museu sobre essa época, que fosse instalado em países como Angola ou Brasil, por exemplo, essa designação não faria qualquer sentido.

Não me parece, contudo, que esse tipo de discussão mereça tantas ofensas, insinuações e até algum ódio entre os que defendem e os que contestam tal designação.

A discussão sobre a designação tem de ser científica, isto é, entre historiadores especialistas nessa época. O resto é lixo.

Mais grave do que a escolha do nome para o Museu é, quanto a mim, a tentativa de branquear os aspectos negros desse período e a responsabilidade Europeia nas indignidades históricas cometidas.

Os “descobrimentos” provocaram o maior “holocausto” humano da História, pelo menos em dois continentes, o africano e o americano e isso não deve ser esquecido ou branqueado.

Na América a população índigena foi quase toda dizimada, acto que ainda continuou pelo século XIX dentro.

Mas um dos temas preferidos pelos “branqueadores” é o da escravatura, recorrendo às falácias e às meias-verdades.

Para estes, a responsabilidade pela escravatura deve ser, no mínimo, repartida por “vítimas” e “algozes”.

E o argumento usado baseia-se em duas “meias verdades”: A escravatura não foi uma “invenção” dos Europeus e os próprios povos escravizados colaboraram no processo.

Isto, dito assim, a preto e branco, até é verdade.

A escravatura existe desde a antiguidade clássica, foi prática dos grandes impérios pré-medievais e era prática entre tribos africanas.

Contudo havia diferenças que tais “branqueadores” se costumam “esquecer”.

Para já, antes dos “descobrimentos”, a escravatura, em termos de dimensão e sistema económico, estava em retrocesso ou tinha uma dimensão residual, um pouco por todo o lado.

Depois, a situação de escravo não tinha, em muitos casos, o estatuto “indigno” que veio a ter com o desenvolvimento do grande comércio esclavagista transatlântico.

Também não era uma situação necessariamente permanente ou que se mantivesse por herança.

Muito menos era uma condição relacionada com a cor da pele.

O problema desse “fenómeno” anti-humano foi que ele se tornou um comércio, de grandes dimensões e que conduziu ao racismo que passou a penalizar apenas uma cor de pele, a negra.

Muitas tribos africanas, para escaparem à crescente procura de escravos, só o podiam fazer defendendo-se e, para isso, tinham de recorrer ao armamento que lhe era fornecido pelos esclavagistas ocidentais e só o obtinham…em troca de escravos.

Criou-se assim um círculo vicioso que destruiu a civilização africana, situação que, agravada pelo colonialismo dos séculos XIX-XX, conduziu esse continente à desgraça actual.

De facto, em relação à escravatura, os “descobrimentos” não trouxeram nada de novo.

O que trouxeram de novo foi a dimensão e a organização que transformaram um processo identificado na História numa grande máquina de desumanização e destruição humana e num grande negócio que permitiu ao “Ocidente” tornar-se economicamente dominante…até aos nossos dias.

Não sou especialista nestes temas, nem pretendo com este texto escrever um ensaios “histórico”, que não é.

Mas parece-me importante que este debate enterre de vez todo o tipo de preconceitos e todo o tipo de branqueamento da História que o tema está a gerar.

Só assumindo os “erros” e os “horrores” do passado podemos afastar erros e horrores futuros.

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