segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Cenas do ódio nas redes sociais (parte 2). As Notícias Falsas em Portugal.




O “Diário de Notícias” deste Domingo publica uma excelente reportagem da autoria do jornalista Paulo Pena, intitulada “Como funciona uma rede de notícias falsas em Portugal”.

Por ela ficamos a saber que vários “sites sediados no Canadá alojam fake news sobre a politica portuguesa. Depois, vários grupos no Facebook, com milhares de membros, divulgam-nas.”

Os referidos grupos e sites são: “Direita Politica”, o mais activo de todos, “A Voz da razão”, “Não Queremos Um Governo de Esquerda em Portugal”, “Video Divertido” e “Aceleras”).

Todos eles estão registados no protocolo de internet (IP) 198.50.102.106. registado no Canadá “em H3E Montreal, Quebec, na empresa iWeb Technologies".

Por detrás daqueles sites está uma mesma empresa de Santo Tirso, a Forsaken, que tem um único dono, João Pedro Roa Fernades, o responsável pelo conteúdo daqueles sites, todos ligados em Portugal à empresa Portugal na Web.

João Fernandes é também sócio de duas empresas têxteis a EMPA e a Larmoderno.

Ouvido na mesma reportagem, João Fernandes, que se considera uma espécie de justiceiro da direita, diz ter como referência jornalistas com Hernâni Carvalho ou Ana Leal, o falecido Medina Carreira, Paulo Morais e “alguns juízes e procuradores” , declarando-se também apoiante “desde o primeiro momento” de Trump e Bolsonaro.

Justifica as mentiras, as meias verdades e as manipulações das notícias publicadas (como “relógio de 21 milhões” de Catarina Martins ou a montagem fotográfica que “mostrava” a nova PGR, Lucília Gago, num “jantar em casa de José Socrates", noticia que chegou a ser divulgada por um site do PSD, mas que a desmentiu depois, com pedido de desculpa) com a possibilidade de pode acontecer “termos uma notícia que não seja 100% precisa”.

Hoje o jornal Público denuncia uma nova fake new que está a ter algum impacto nas redes sociais, mostrando como um sindicato de policias decidiu atacar o ministro da administração interna com imagens falsas.

Essas imagens divulgadas nas redes sociais mostram idosos, vítimas de violência, sugerindo que tinham sido agredidos pelos criminosos que fugiram à policia em Gondomar.

Contudo, os idosos das fotografias  não foram os agredidos pelos assaltos perpetrados por aqueles criminosos, não são portugueses, nem as imagens são  actuais.

O fenómeno, à boleia do apoio implícito ou explicito da opinião pública de parte da direita portuguesa a Bolsonaro, começa a fazer o seu caminho de ódio e intolerância, alimentando o medo e insegurança que estão historicamente na origem da ascensão de todo o tipo de "fascismos" e autoritarismos.

Noutros tempos, o “fascismo” usava a rua para atemorizar, ameaçar, espalhar a intolerância e o ódio.

Hoje usa as redes sociais, espalhando a mentira e a calunia para minar a democracia.

A mentira é o pior inimigo da verdade e a indignação não justifica o recurso à mentira.

Como dizia o ministro da propaganda de Hitler,  a mentira várias vezes repetidas acaba por se tornar verdade.

É assim que funcionam as Fake News, com mentiras, manipulações ou meias verdades, e é assim que os Trump's e os Bolsonaros do nosso tempo chegam ao poder.

A alternativa ao funcionamento de uma justiça democrática, por muito mal que ela funciona, é uma ditadura, onde "não existe corrupção" ou "crime" porque esses assunto são proibidos de divulgar pela censura e os corruptos e criminosos estão no poder ou são coniventes com ele (Salazar até publicou um decreto para acabar com a pobreza...mandando prender os pedintes e os sem-abrigo que fossem apanhados na rua, “acabando” assim com a pobreza em Portugal e, quando das cheias de 1967, proibiu a divulgação do número de mortos para não se notar tanto a tragédia, que também trazia ao de cima a vida miserável de muitos portugueses, os mais atingidos pela tragédia).

Numa ditadura também “não existe crime” porque as notícias sobre ele são proibidas e tudo conduz para uma imagem de “paz e estabilidade”, que era o que acontecia no “Portugal de Salazar”.

Devemos denunciar a corrupção, a mentira e as injustiça, mas quando se usa a manipulação estamos a descredibilizar esse combate, ao mesmo tempo que damos força à intolerância e ao ódio.

Pela minha parte, que acredito que ainda vivemos num estado de direito, só posso exigir justiça contra criminosos e corruptos, mas não alinho na histeria de mentiras, intolerância  e ódio que prolifera nas redes sociais.

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