terça-feira, 31 de outubro de 2017

A História “repete-se” na Catalunha, primeiro como tragédia (em 1934),depois como farsa(em 2017).


Foi Karl Marx  que  escreveu que a história se repete duas vezes, a primeira como tragédia e a segunda como farsa.

Não creio muito nas teorias da “repetição da história”, mas os acontecimentos na Catalunha parecem confirmar aquela velha e estafada máxima.

Se for verdade que o governo da Catalunha e o seu presidente Puigdemont, demitido por Madrid, se encontra na Bélgica para pedir asilo politico, estamos perante mais um estranho acto desta “ópera bufa” em que se transformou a “independência” da Catalunha.

Esta iniciativa do “governo da Catalunha”, agora no “exílio”, foi antecipada por outra farsa, liderada pelo comediante-mor de toda esta situação, o incompetente Rajoy e o seu partido, filho legítimo do franquismo, ao nomear para “governanta” da Catalunha uma das figuras mais odiadas na Catalunha, ( e numa grande parte da Espanha), a autoritária, a carreirista,e se não comprovadamente corrupta,a eticamente condenável Soraya Sáenz de Santamaría, braço direito de Rajoy (houve noticias, não confirmadas, mas também pouco claras, segundo as quais ela seria neta ou familiar do general franquista J. António Sáenz de Santamaría, responsável pelos últimos fuzilamentos do franquismo em 1975).

Recorde-se que o seu partido, o PP, representa apenas 8% dos eleitores catalães.

Convém também recordar que esta triste história não teve inicio este mês, mas é a consequência da própria acção de Rajoy e do PP que, em 2006, numa acção que teve Soraya como principal protagonista, rasgou o estatuto autonómico da Catalunha, aprovado em referendo e já aprovado pelo Senado, mas que foi desvirtuado, iniciando-se assim a crescente tensão entre a Catalunha e o poder central.

E também convém recordar que essa história não termina hoje.

Toda a situação que se tem vivido em Espanha trouxe ao de cima o pior dos seus políticos e da sua comunicação social.

O rei foi o primeiro a ser atingido pela crise, mostrando-se uma figura incapaz de unir os espanhóis e desbaratando o património politico construído pelo seu pai, que tinha feito da monarquia uma instituição respeitada. Em vez de unir e pacificar tem contribuído para atear o fogo do nacionalismo, quer o da extrema-direita franquista, quer o regionalista.

O PP e Rajoy, por sua vez, fizeram estalar o verniz “democrático” e ”liberal” em que se escondiam a sua verdadeira natureza autoritária de raiz franquista.

A total desorientação do PSOE, que já vinha de trás, na total incapacidade que havia demonstrado em dialogar à esquerda, vai implodir, à medida que os acontecimentos venham a avançar, revelando-se um partido sem alternativas credíveis, fazendo pouco mais do que de moleta de Rajoy.

O "Ciudadanos" demonstrou a sua verdadeira natureza de partido direitista, mas que pode ser um dos beneficiados pela desorientação do PP e do PSOE, tornando-se a única alternativa credível ao eleitorado dos partidos do centrão espanhol.

O próprio Podemos sai beliscado deste processo, dividindo-se entre defensores da independência e os que a consideram precipitada, embora esta última facção ainda seja a dominante.

Pelo contrário, todos os partidos regionalistas vão sair reforçados deste conflito, o que vai gerar um novo impasse nas eleições catalães de 21 de Dezembro e reforçar, à distancia, o nacionalismo basco, cujos partidos votaram contra o Senado na aplicação do artigo constitucional 155 que travou o independentismo catalão.

A única solução para o conflito seria a realização de um referendo na Catalunha que clarificasse a vontade dos catalães.

Não deixa de ser curioso que sejam os que se opõem ao referendo que afirmam que a “maioria” dos catalães está contra a independência. Então, se é assim, porque temem o referendo clarificador? É que a melhor e maior sondagem é que  é feita em actos eleitorais democráticos.

O que provavelmente vai acontecer é que as próximas eleições na Catalunha mantenham ou reforcem o poder dos partidos independentistas, voltando tudo à mesma.

A não ser que o governo espanhol opte pela repressão, pura e dura, proibindo partidos políticos e candidaturas. Neste caso a União Europeia tem a última palavra, a não ser que queira perder toda a sua autoridade e legitimidade para criticar a falta de democracia noutros lugares ou o direito à autodeterminação dos povos noutras partes do mundo.

A União Europeia também tem responsabilidades em toda esta situação:

- por um lado, pelo modo como levou ao descrédito as instituições democráticas, desrespeitando as próprias Constituições nacionais e as escolhas politicas que não fossem do seu agrado, para aplicar, a seu belo prazer, a austeridade do  “ajustamento” e as "reformas estruturais", principalmente nos países do sul;

- por outro lado, pela forma como abandonou os principio solidários da subsidiaridade, para agradar aos “mercados”, em detrimento dos cidadãos, e pela forma como desvirtuou a importância das regiões, em detrimento do aumento do poder dos Estados, com o único objectivo de beneficiar a super-nação Alemã e os seus interesses.

Os nacionalismo e populismos de toda a espécie, em crescendo na União Europeia, são "filhos" legítimos dessas politicas.

Na Catalunha a sua história vive a fase de “comédia”, mas a tragédia pode estar à espreita, pois os políticos espanhóis e europeus, e a própria comunicação social (veja-se o triste caso do El País), pela forma como se comportaram em todo este processo, não merecem um pingo de credibilidade por parte dos cidadãos.

...A História continua!!

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