quinta-feira, 19 de outubro de 2017

A “noite de cristal” da direita Portuguesa.

(Cartoon de Vasco Gargalo)

Ontem foi um dia “mágico” para direita portuguesa ou, parafraseando o título de uma notícia do Público de hoje, a Direita “inchou” com o “ralhete de Marcelo ao Governo”.

O dia começou com todos os jornais exibindo, a toda a largura da primeira página, fotografias do presidente, com frases descontextualizadas da sua intervenção, ameaçando o governo, como se estivéssemos perante um golpe de Estado.

Pouco tempo depois foi anunciada a demissão da Ministra da Administração Interna.

Veio-se a saber durante o dia que a maior parte dos jornalistas já sabia da demissão da ministra ainda antes da intervenção de Marcelo, mas retiveram a notícia,  para dar a idéia que aquela demissão era uma consequência directa da intervenção do presidente, até porque, perante essa notícia, seriam obrigados a alterar a primeira página, retirando impacto à abusiva interpretação que quiseram fazer do discurso do presidente.

Menos de uma hora depois de se saber da demissão da ministra, caia a notícia de que as armas de Tancos tinham aparecido, sabendo-se, mais tarde, que a Policia Judiciária , que investigava o caso, só foi informada daquela descoberta depois das armas terem sido retiradas do local onde estavam, e depositadas novamente em Tancos.

Essa foi uma notícia que também era conveniente que só se conhecesse depois da demissão da ministra!

Mas o dia perfeito para a direita portuguesa não se ficou por aqui.

Pouco depois, começou a ganhar impacto, nas redes sociais, uma convocatória feita no dia anterior para uma manifestação de uma “maioria silenciosa” “contra os incêndios”, que já tinha sido ensaiada na noite anterior.

Contudo, sabe-se que essa convocatória não é tão inocente como isso. O Próprio Público, na sua edição de ontem, referia, numa noticia convenientemente “escondida” numa pequena caixa de texto, que, por detrás da manifestação da noite anterior estava um site não identificado e outro ligado a gente do PSD próxima de Passos Coelho. Ao longo do dia soube-se mais sobre quem está por detrás da convocação dessa manifestação, marcada para o próximo Sábado: figuras ligadas a Passos Coelho.

Para além da sessão parlamentar de ontem, onde a direita, com todo o oportunismo e falta de vergonha que a tem caracterizado nos últimos tempos, aproveitou para desancar no governo e anunciar formalmente a apresentação de uma moção de censura, deu-se a aparição de um Passo Coelho rejuvenescido, desaparecido de circulação desde que anunciou que não se recandidatava à liderança do partido, mas agora em posse de quem não está de partida. A partir de ontem é caso para dizer a Santana Lopes e Rui Rio   que se cuidem.

Na minha opinião, esta foi a ocasião esperada por Passos Coelho para criar uma “vaga de fundo” que o reconduza à liderança do PSD….a ver vamos!!

Mas também, no meio da sua euforia, a direita deu alguns  tiros nos pés, pois forçou muita gente a investigar, descobrir e recordar  leis, medidas politicas na área do ordenamento florestal  e do território que conduziram ao desastre ambiental que potenciou a tragédia a que assistimos no Domingo, leis e medidas essas assinadas , entre outras, pelo próprio Passos Coelho e por Assunção Cristas (ver AQUI e AQUI).

Além disso, o momento eufórico em que vive a direita, põe em causa a desejada conciliação nacional e acordo de regime, defendidas pelo Presidente, para levar para a frente as necessárias e verdadeiras reformas estruturais nas áreas da prevenção e combate a incêndios e um profundo e urgente ordenamento florestal e do território.

Tudo isto contribui para fazer esquecer quem esteve por detrás dos “atentados terroristas” de Domingo, bem como passou para segundo plano a descoberta do envolvimento de gente próxima de Passos Coelho na “operação marquês”, noticia também conhecida ontem.

António Costa está a passar a sua verdadeira prova de fogo, e terá de agir rapidamente, pondo em prática as reformas propostas pelas comissões que analisaram os incêndios deste ano e encontrando a melhor forma de as financiar.

A direita, essa, já ameaçou que vai continuar a boicotar a acção do governo e a aproveitar todas as tragédias que venham a acontecer, mesmo que muitas delas sejam a consequência lógica de anos de cavaquismo e de políticas de austeridade.

Sem comentários: