quinta-feira, 9 de março de 2017

Quando a “censura” , em nome da “liberdade”, legitima os inimigos da liberdade


 
Um dos combates que marcou a minha geração foi o combate contra a “censura”.

Sou daqueles que penso que todos têm direito à sua opinião, mesmo aqueles que emitam as mais disparatadas e boçais opiniões.

Claro que a liberdade tem um limite, que é quando interfere com a liberdade dos outros, ou, por outras palavras, “a minha liberdade termina quando começa a liberdade dos outros”, uma frase que li uma vez, por alturas do PREC,  numa tarjeta colada no carro de um democrata torriense, o sr. João Carlos, frase essa atribuída ao Bispo do Porto, D. António, o que ousou enfrentar Salazar, que é a inversão da frase mais positiva de Hegel que defendia que “a minha liberdade começa quando encontro a liberdade do outro”.

Para definir o limite dessa interferência sobre  a livre opinião, para além do bom senso, existem as leis.

Por isso também não sou daqueles que começa logo a gritar  contra a “censura” quando obrigam os responsáveis por actos e opiniões que ofendem terceiros, muitas vezes assentes em mentiras puras e na mais abjecta boçalidade,  são obrigados a responder e a pagar por esses actos.

Aquilo que se passou na Faculdade de Ciências Humanas e Sociais (???) da Universidade de Lisboa é um verdadeiro acto de censura, ou, pior ainda, um acto de censura baseado na cobardia da direcção daquela faculdade.

Não simpatizo com as ideias de Jaime Nogueira Pinto. Aliás, encontro-me mesmo nos antípodas da sua ideologia.

Mas, discordando-se radicalmente dele, Jaime Nogueira Pinto é uma pessoa culta, que sabe fundamentar as suas opiniões, defendendo-as sem a boçalidade que outros usam para defender as mesmas ideias políticas daquele professor, e, apesar das suas opiniões, considero-o um pessoa aberta a debater e ouvir opiniões diferentes, como se prova pelo facto de participar num programa semanal de rádio, na Antena 1, com o feliz título de “Radicais Livres”, juntamente com o histórico líder comunista Ruben de Carvalho.

Por isso não me parece que viesse qualquer mal ao mundo se Jaime Nogueira Pinto realizasse uma conferência na sede daquela instituição, desde que, por um lado, ninguém fosse obrigado a assistir à mesma ou, assistindo e discordando, pudesse manifestar as suas divergências  em diálogo aberto, como deve ser obrigação num acto público realizado num espaço universitário.

Claro que  não somos  ingénuos e sabemos que o grupo (??) promotor da iniciativa , um tal "Nova Portugalidade", defende as mais abjectas ideias políticas neo-salazaristas (ler clicando na frase).

Infelizmente, quer a Associação de Estudantes daquela escola, que dizem conotada com o Bloco de Esquerda, ao ameaçar boicotar o evento, (embora em declarações ao jornal I, que podem ser lidas no link em cima, desmintam essa atitude),quer, PRINCIPALMENTE, a direcção da escola, ao ceder ao medo, saíram muito mal desta situação e deram visibilidade desmesurada a um grupo de fanáticos da direita radical, contribuindo para "legitimar" os inimigos da liberdade e da democracia que quiseram calar.

Mas, o pior de tudo, é o aproveitamento que alguns sectores estão a fazer da situação para atacarem o actual momento político, chegando a ridículas comparações como o PREC.

Diga-se em abono da verdade que o próprio Nogueira Pinto tem sido o primeiro a desvalorizar a situação e a colocar “água na fervura”.
 
Louve-se também a atitude corajosa e generosa da Associação 25 de Abril, cedendo o seu espaço para a realização dessa conferência.

E já agora, para aqueles que passam a vida com o PREC na boca, vou contar um episódio que se passou durante essa época, em 1975, e que prova que o recurso à censura não é apanágio da alguma esquerda, mesmo a considerada mais radical.

Em 1975 uma coligação de partidos de esquerda radical e extrema-esquerda ganhou a uma lista da UEC (estudantes do PCP) as eleições para a Associação de Estudantes do Liceu de Torres Vedras.

Dessa lista faziam parte militantes da extrema-esquerda (MRPP e PCP(m-l) , da esquerda radical (LUAR, PRP, UDP, Anarquistas, LCI) e vários independentes de esquerda, alguns saídos recentemente das fileiras da Juventude Socialista e muitos deles os únicos militantes conhecidos, em todo o concelho, de alguns desses micro-partidos.

Pois uma das primeiras decisões dessa associação “radical” foi colocar alguma ordem na utilização dos espaços da escola para propaganda política. Fez-se um levantamento de todos os partidos existentes, da extrema-direita à extrema-esquerda, e dividiu-se o espaço existente para colocar propaganda, cartazes e jornais pelo número de partidos e tendências existentes, onde, quem quisesse representar essas forças políticas , podia colocar a propaganda. Houve partidos que nunca colocaram nada, por não terem quem os representasse na escola. Noutros casos, a mesma pessoa, como aconteceu comigo, colocava propaganda de partidos diferentes com os quais simpatizava (eu colocava propaganda do MES, da LUAR, do PRP e dos Anarquistas…).

Uma outra iniciativa (estávamos nas vésperas das primeiras eleições livres) foi realizar um grande debate sobre a vida política nacional, convidando representantes de todos os partidos políticos. Conseguimos a presença de Afonso Moura Guedes, pelo PSD, Alberto Avelino, pelo PS, um representante da FSP, organização surgida da cisão de Manuel Serra no Congresso do PS de Janeiro de 1975, um representante do PRP (penso que Pedro Goulart),da  LUAR (penso que o Fernando Pereira Marques) e o histórico líder anarquista Emidio Santana.

Três partidos declinaram o convite, o CDS, receando enfrentar uma assembleia hipoteticamente hostil e desfavorável, o PCP, porque recusava  sentar-se ao lado de um representante do MRPP….  e o MRPP…porque se recusava a estar em igualdade de circunstâncias com um representante dos “social-fascistas” do PCP!!!!

Seja como for, foi uma assembleia a transbordar de alunos e professores que participou num longo e animado debate, conseguindo unir tendências políticas que raramente, naquela altura, se juntavam para debater publicamente a situação do país e apresentarem as suas propostas.

… e tudo isto organizado e promovido por uma associação de estudantes da “esquerda radical”, em pleno PREC!.

Por estas e por outras é que não podemos admitir actos de censura como o que teve lugar naquela Faculdade, seja qual for a sua origem, pois só contribuem para dar legitimidade aos verdadeiros inimigos da liberdade e da democracia.
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