sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

O EMPRESÁRIO e O PATRÃO

O EMPRESÁRIO...

A edição desta semana da revista “Visão” publicou uma curiosa entrevista com o empresário Belmiro de Azevedo.
Não deixa de ser significativo o modo como a maior parte da comunicação social tratou o conteúdo dessa entrevista, destacando o “fait divers” ou tentando explorar, descontextualizando, algumas declarações mais polémicas sobre Cavaco Silva, Sócrates ou Alegre, e deixando escapar algumas das declarações mais interessantes contidas nessa entrevista.
Se dúvidas houvesse sobre a forma boçal e arruaceira como a comunicação social trata os temas de política e economia, pela minha parte elas ficaram desfeitas como seu comportamento em relação a esta entrevista.

Talvez porque essas afirmações põem em causa um certo discurso dominante nessa mesma comunicação social sobre o funcionalismo público, os sindicatos, os trabalhadores, ou as “economias emergentes”, essas partes da sua entrevista tenham sido “esquecidas”.
Aos “distraídos” comentadores, jornalistas e editores, recordemos algumas dessas afirmações do empresário:

“A China foi pragmática. Ultrapassou a Alemanha e tornou-se o maior exportador do mundo. Mas a maioria do povo ainda vive na Idade da Pedra, com problemas de circulação, alimentação e liberdade de pensamento”;

“Defendo uma tripla joint-venture entre empresários, sindicatos e organizações não governamentais (ONG). O Estado tem de fazer boas leis, em colaboração com o Parlamento, e garantir apoio à concertação social. Não tem que se meter na actividade económica salvo se for para aceitar riscos que nenhum empresário é capaz de assumir”;

“[Os Sindicatos] devem defender os interesses dos trabalhadores (…). Os empresários têm muita força, mas quem tem mesmo força são os trabalhadores (…). [Os Sindicatos] terão que se reformular se não quiserem desaparecer lentamente. Não podem continuar a defender posições contra a evolução da sociedade”;

“[As ONG] têm de fiscalizar os processos e não deixar acontecer coisas ambientalmente incorrectas. Elas têm a confiança da população. Algumas vezes merecida, outras vezes não, mas têm. Os empresários e os políticos não são considerados pessoas sérias, pelo que não contam com a confiança da sociedade civil”;

“[Os Empresários] têm o poder de fazer acontecer. Mas para se ter uma sociedade coesa, os trabalhadores têm de ser bem tratados, não se podem explorar”;

“[As associações patronais] são muito burocráticas. Não há nenhum empresário a sério que se reveja nas associações. A confederação criada agora nem se sabe muito bem o que vai ser, não têm saído dali grandes contributos”;

“Os actuais [políticos] são, na maioria, jotinhas. Funcionários, inexperientes. Perdem de longe, em relação aos do pós-25 de Abril – gente, mesmo à esquerda, de porte ético excepcional”;

“Temos um sistema populista, que paga mal aos funcionários públicos, incluindo governantes (…). [na Função Públca] os salários são baixos. O pessoal do meio é que ganha mais. Têm de se ser aumentados o último piso e o rés-do-chão. Não se renova a qualidade do serviço público sem jovens, nem se consegue decidir sem gestores modernos”.

Posso duvidar se Belmiro de Azevedo põe em prática nas suas empresas algumas das idéias que aqui defende. Posso não concordar em absoluta com estas e outras afirmações da entrevista, mas a irreverência e originalidade de muitas das ideias de Belmiro de Azevedo deviam merecer outra atenção por parte da comunicação social, que se limitou a explorar as tricas políticas de algumas das afirmações contidas nesta entrevista.
Algumas da ideias do empresário fogem ao pensamento único da maior parte dos empresários com visibilidade pública.
Aliás penso que a diferença entre Belmiro de Azevedo e os outros é que ele tem um espírito de empresário, aberto à novidade, enquanto que, o que temos em grande parte neste país, são patrões, que pensam na sociedade e nos trabalhadores com uma mentalidade do século XIX, procurando recorrer aos salários baixos, a subsídios do Estado e à especulação financeira, vivendo afastados da realidade, para quem os que trabalham não passam de números ou percentagens.

...E O PATRÃO

É esta mentalidade que, em contraste, é revelada pelas preocupações do banqueiro Ricardo Salgado do BES que veio criticar uma das poucas medidas positivas deste Orçamento, o aumento dos impostos sobre os bónus e outras remunerações dos gestores.
Ricardo Salgado diz aquilo que pensa a maior parte dos seus colegas, que passam a vida a acusar o funcionalismo público dos males do país e a defender a “contenção salarial”, mas que são incapazes de aceitar o mínimo de sacrifício pessoal em defesa da contenção que dizem defender.
Afirma o mesmo senhor, um dos responsáveis pelo sector que provocou a crise que todos estamos a pagar, apesar de manter lucros fabulosos em ano de crise, que a tal tributação sobre bónus e rendimentos variáveis de administradores e gestores pode levar a que “muita gente valiosa” abandone Portugal para trabalhar noutro país”.
Essa afirmação, quando se exigem mais sacrifícios aos mesmos do costume, vinda de um dos principais defensores do modelo neo-liberal que levou o mundo e o país pelo caminho actual, revela um grande cinismo. E os jovens desempregado que abandonam este país, porque aqui não encontram trabalho? E os licenciados, muitos deles de grande qualidade, nas mais variadas áreas, que têm de sair do país para poderem trabalhar no que gostam, porque a maior parte dos “empresários”, com a mentalidade do sr. Salgado, se recusam a inovar e continuam a defender salários baixos e “contenção salarial”? Esta não é também “gente valiosa” que o país continua a perder? Tenha vergonha!

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