quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Eu estou de volta... O FMI também...


Está aí de novo e em força o discurso dos “privilegiados” ordenados dos funcionários públicos.


Não deixa de ser significativo que, à beira da discussão do próximo orçamento de Estado, apareçam tantas previsões catastróficas “vendidas” pelo Banco de Portugal, pelo FMI e pelas célebres empresas de “rating”, acolitadas por comentadores e economistas pagos a peso de ouro para darem um ar sério à coisa.

Como afirmava o jornalista Manuel Carvalho, numa fabulosa crónica de opinião sobre a forma como estas empresas funcionam (Público de 16 de Janeiro último), “Os abutres andam aí”.

Não deixa de ser igualmente “comovente” o tipo de solução que tais carpideiras preconizam: o congelamento de carreiras e salários na Função Pública. Há mais de dez anos que, não só andamos a ouvir este discurso, como o temos sentido na pele. O ano passado foi a única excepção e é a isso que essa gente se agarra para justificar a continuação do mesmo discurso.

Há até quem vá mais longe e até aponte o exemplo irlandês, onde os salários dos funcionários públicos foram cortados em 10%. Esquecem-se contudo tão “previdentes” e “originais” vozes de dois pequenos pormenores:

Na Irlanda o salário mínimo é três vezes superior ao salário mínimo português, rondando em média os 1 400 euros, para um custo de vida que não é muito superior ao português, repercutindo-se essa situação nos restantes salários, todos eles muito superiores aos salários portuguses;

Por outro lado, na Irlanda, tanto os governantes como os altos funcionários de estado, para darem o exemplo, aceitaram cortes nos seus ordenados superiores àquela percentagem. Havia de ser cá!

Pela minha parte, quero o ordenado correspondente ao que é pago pela minha função na Irlanda e os preços da Irlanda, que depois podem cortar-me, à vontade, até mais que os 10% preconizados.

Há ainda quem preconize cortes nas despesas com apoios sociais, isto num dos países Europeus com maiores desigualdades sociais.

O que não deixa de ser curioso é que esse conjunto de receitas tem vindo a ser regularmente aplicado há décadas e os resultados estão à vista de todos.

Entretanto, sem que tal tenha merecido o mais ligeiro abalo de consciência por parte de agentes económicos ou dos comentadores habituais, ficou a saber-se que a Caixa Geral de Depósitos, já enterrou, em poucos meses, mais de 4 200 milhões de euros para “ajudar” o BPN.

Se juntarmos a isso as ajudas ao BPP, tudo para salvar os negócios e as fortunas de alguns falcões do “centrão”, não deixa de ser curioso o desplante com que se continuam a culpar os funcionários públicos, os professores, ou os miseráveis apoios sociais dados pelo Estado, pela situação de descalabro a que se chegou.

Só para fazerem uma ideia, talvez fosse bom que esses comentadores de economia fizessem algumas contas:

Com os tais 4200 milhões enterrados pela CGD (isto é, pelos “contribuintes” ) no BPN podia-se pagar mais de um ano e meio de ordenado a todos os professores do básico e secundário, ou mais de seis anos e meio de salários a todos os professores no topo da carreira, ou mais de nove milhões de salários mínimos num ano….Basta fazer algumas contas.

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