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sexta-feira, 23 de abril de 2021

Mais um “servicinho” do Expresso ao Chega


Este é mais um daqueles títulos falaciosos e tendenciosos, à “correio da manhã”,  a que o Expresso nos tem vindo a habituar nas últimas duas décadas.

Está feito para dar força à voz daqueles que não acreditam no regime democrático e que procuram todos os argumentos para o denegrir.

O título não é inocente, serve para alimentar o comentário fácil de cinco tipos de gente que convive mal com a democracia e os seus defeitos:

- os saudosos da “democracia orgânica” do Estado Novo;

- os saudosos das “democracias populares” de triste memória;

- os ultra neoliberais  que acham que a “verdadeira democracia” só existe com a total privatização da economia e sem direitos sociais;

- os defensores de uma “IV República” para os “portugueses de bem”;

- os anarcas de todas as tendências, estes talvez os únicos bem intencionados.

Para todos esses, por razões diferentes, não havendo uma “democracia plena”, então a democracia em que vivemos não merece ser defendida.

Contudo, olhando com atenção para os dados da sondagem em causa, os resultados não são exactamente aqueles que o título falacioso do Expresso pretende.

De facto, se me colocassem a  questão, eu responderia aquela que foi, de facto, a opção mais votada: “Portugal é uma democracia…apesar de ter pequenos defeitos” (47% dos inquiridos).

Não foi idêntica a essa a reposta de Churchill,  uma das figuras mítica da democracia liberal?

Aliás, não deixa também de ser estranho que o dito inquérito não inclua a possibilidade de uma resposta intermédia, entre o de a democracia “ter pequenos defeitos” e o de a democracia ter “muitos defeitos”.

Para mim, a mais correcto era, exactamente, a resposta intermédia, inexistente nesse inquérito algo tendencioso : “Portugal é uma democracia com ALGUNS defeitos”, e por isso é preciso lutar todos os dias por melhorá-la, em vez a denegrir.

O título correcto, se não houvesse intensão de  manipular a informação, era " 57% acreditam que Portugal é uma democracia plena ou com pequenos defeitos".

Mas isso pouco interessa aos responsáveis pelo tendencioso título do Expresso, mais um bom contributo para a “causa” do Chega e afins.

segunda-feira, 12 de abril de 2021

A Corrupção é “um lugar estranho”.

 


A leitura da decisão instrutória da “Operação Marquês”, ao contrário do que uma opinião apressada, ignorante, tendenciosa e cega pode fazer crer, foi uma autêntica lição sobre a forma como a grande corrupção em Portugal funciona e como a nossa lei e a  nossa justiça se mostram incapazes de a combater eficazmente.

Mostra também que aquilo que qualquer cidadão comum, gozando de plenas capacidades mentais, identifica como corrupção, está, muitas vezes, protegido pela lei ou pela impossibilidade da prova.

Muito do que consideramos como eticamente reprovável, vulgo “corrupção”, é “apenas” isso, eticamente reprovável, mas está  protegido pela lei ou pelo silêncio.

Aliás, a grande corrupção não é mais nem menos que a “ética do capitalismo” e da “economia de mercado”.

Como diz a voz popular, uma grande fortuna esconde um grande crime.

Olhando para a história do capitalismo, este desenvolveu-se, ao longo dos seus vários séculos de história, com base nos crimes mais hediondos: na pirataria e no saque da propriedade e dos recursos alheios, no esclavagismo, no genocídio, no crime organizado, na guerra, na destruição dos ecossistemas e, mais recentemente, no branqueamento de capitais, na fuga aos impostos, nos negócios de armamento e da droga.

A dificuldade em seguir as movimentações de dinheiro , obtido pela corrupção, agravou-se pela   forma como funciona a globalização e a circulação de capitais, e pela forma como o poder financeiro está, há muito, contaminado pela origem duvidosa da maior parte dos seu capital (branqueamento de capitais oriundo do crime organizado, da especulação financeira , da fuga de impostos, do negócio ilegal de armamento, alimento do terrorismo internacional e de regimes criminosos…), pela manutenção de paraísos fiscais, não deixando de ser “surpreendente” que a própria União Europeia, sempre pronta ao discurso “politicamente correcto” do “ataque à corrupção”, permita a existência, no seu seio, desses mesmos paraísos fiscais, como acontece, por exemplo, com a Holanda, cujos governos estão sempre prontos a defender a retirada de direitos socias aos países pobres da UE e a defender a austeridade dos outros, mas que é um país historicamente fundado nos lucros da pirataria, do esclavagismo e do colonialismo, devendo , actualmente, a sua prosperidade económica à forma como protege as grandes empresas de pagarem impostos no território onde operam, prejudicando países como Portugal. Mas não é caso único no seio da UE.

Infelizmente, as “alternativas” históricas ao modelo capitalista mostraram-se tão criminosas como este, nalguns casos ainda mais corruptas e desumanas.

Uma outra vantagem deste processo é mostrar que, apesar de tudo, a forma como a democracia enfrenta este tema da corrupção é sempre superior ao de qualquer ditadura. Pelo menos os cidadãos sabem agora com que justiça contam e podem agora exercer, com mais coerência, o seu direito de cidadania, que é o de exigir alterações na lei, principalmente no que respeita à obtenção de provas, na alteração ao escandaloso arrastamento dos processos e  ao ignóbil principio da “prescrição” da prova.

Acima de tudo, o cidadão tem o dever de não pactuar com a corrupção, que começa nos actos mais simples do dia a dia e termina no favorecimento de fortunas ilícitas.

Muitos dirão, do alto da sua ignorância e da sua intolerância, que na “ditadura” não havia corrupção.

“Não havia” porque não se podia falar nela, sob ameaça da censura ou de prisão, para além dos corruptos serem protegidos pelo poder, com leis, tribunais e uma polícia politica que obrigava ao silêncio

Mas a ditadura, qualquer uma, é a pior de todas as corrupções, que é a usurpação do poder sobre um país ou um povo, em benefício de uma pessoa, de uma elite, de uma religião, de uma ideologia, de  uma classe ou de um partido.

Por isso, apesar de a decisão instrutória da “Operação Marquês” poder não ser o que esperávamos, embora a história ainda não tenha terminado, ela teve o condão de nos alertar sobre os “caminhos da corrupção”, para as limitações da lei e da justiça no combate à grande corrupção, e para a necessidade de estarmos todos muito mais atentos ao que se passa à nossa volta.

Agora é a vez da cidadania.

sexta-feira, 9 de abril de 2021

Calma! Sócrates ainda não se safou! (...antes pelo contrário...ou ...aprendendo com Al Capone!)


Não tendo seguido em pormenor a sessão de hoje da leitura do  processo contra José Sócrates, houve duas ou três coisas que, mesmo assim, percebi e ficaram evidentes:

- a total incompetência do Ministério Público pela  forma como investiga os crimes de corrupção de colarinho branco. Já tinha sido assim como BPN e com o caso dos “Submarinos”, aconteceu agora com a “operação marquês”;

- a total incompetência do juiz Carlos Alexandre na forma como conduziu a acusação, acusando primeiro e procurando as provas depois e deixando escapar partes do processo para a comunicação social, que é o contrário do que uma investigação competente deve fazer. Claro que ia dar buraco, como ficou hoje evidente;

- Ivo Rosa fez aquilo que era possível fazer para salvar ainda alguma coisa do processo, que foi eliminar o que é impossível provar ou estava contaminado pela incompetência do Ministério Público e de Carlos Alexandre, mantendo as acusações com fundamento, mesmo que menos espectaculares. Foi assim que os Estados Unidos conseguiram apanhar Al Capone;

- Sendo quase impossível provar crimes de corrupção, Ivo Rosa, de forma inteligente, manteve a suspeita social desses crimes cometidos por José Sócrates, o que, aliás muito irritou o suspeito. Com isso, retirou a Sócrates qualquer hipótese de sair “limpo” e voltar à vida política. Desta forma, com subtileza, Ivo Rosa prestou um grande serviço ao país;

- Ficou provada a existência de crimes graves cometidos pelo arguido, mas que já prescreveram, devido, mais uma vez, à incompetência do Ministério Público e do juiz Carlos Alexandre, pela forma com este conduziu o processo, mas também devido a esse absurdo princípio da “prescrição”, usado por quem pode pagar a advogados astutos para arrastar processos. Neste campo, algo de urgente tem de mudar na justiça, se querem preservar a sua credibilidade.

Ao contrário do que uma opinião apressada e sectária pode julgar, José Sócrates não se safou e agora, perante a solidez da acusação, mesmo que seja menos espectacular e mais restrita, vai ter mais dificuldade em escapar à justiça.

quinta-feira, 25 de março de 2021

Não é "mais um livro" sobre os Beatles...é muito mais!


Numa das minhas últimas visitas ao Barreiro, ao pavilhão do Ephemera, a “ephemerense” Rita Maltez ofereceu-me um livro da autoria de outro conhecido “ephemerense”, o Luís Pinheiro de Almeida.

Confesso que, no início, pensei : “mais um livro sobre os Beatles”!

Mas, sabendo que o Luís Pinheiro de Almeida é um “fanático”  colecionador e conhecedor de tudo o que diz respeito aos célebres músicos de Liverpool,  levado também pela curiosidade de saber quem era o “caro Jó” do título, peguei no livro e levei-o comigo para Lisboa, num dia em que tive de levar a minha filha à faculdade, para evitar os transportes públicos, e em que tinha de esperar por ela no carro, umas duas horas, porque estávamos numa das fases complicadas do confinamento, e acabei por ler, de uma assentada, o “com os Beatles caro Jó”.

Ultrapassou todas as expectativas, pois o livro consegue transmitir o espírito de uma época e todo o entusiamo adolescente na descoberta de novas realidades.

A vivência dessas descobertas remeteu-me para o meu próprio percurso, apesar de as ter vivido cerca de uma década depois do meu caro amigo Luís: a descoberta de novos grupos musicais, banda sonoro da nossa vida de adolescentes; a partilha, com os amigos, dessas descobertas; as gravações das musicas que passavam na rádio; as amizades para a vida, forjadas à volta de gira-discos partilhados em casa de uns de e de outros; as tentativas de imitar em guitarras, em congas e em tudo o que fizesse “barulho”, os grupos mais apreciados…

Apesar da década de diferença que me separa do autor, ainda sou do tempo do vinil, de procurarmos nas casas onde eles se vendiam as últimas novidades, a audição atenta das emissões de FM na (no meu tempo) Rádio Comercial, muitas vezes com antenas improvisadas com fios de cobre, porque existiam muitas interferências, culminando tudo, no meu caso, no movimento das rádios piratas, onde participei activamente, fazendo programas, amadores e mal feitos, em más condições técnicas, mas com muito entusiasmo e muita loucura, isto, da minha parte, já nos anos 80.

A minha “banda sonora” não foi exactamente a do Luís Pinheiro de Almeida, embora apreciasse os Beatles ( também colecionei as figuras das pastilhas elásticas referidas no livro), mas comecei a ouvir rock com mais frequência no final da década de 60, principio da de 70 (tinha 12 anos em 1968…), no quintal do meu amigo Mário Rui Hipólito, o único com algum poder económico para comprara as novidades, para além do seu pai possuir uma enorme colecção de "vinis".

Ainda apanhei os Beatles, mas já no final, sendo, contudo, mais apreciador da irreverência dos Rolling Stones.

Os meus primeiros ídolos foram os super grupos do rock sinfónico (Emerson, Lake and Palmer, Yes, Pink Floyd, Genesis..), depois, em tempo de universidade ( e a descobrir Lisboa, tal  como o o autor descreve…mas, o meu caso, uns 10 anos depois,  a partir de 1976), o punk e a New Wave, explorando muito a década de 80, quando já tinha algum poder de compra e me envolvi nas rádios piratas. Mantenho-me actualizado, muito graças à minha enteada e à minha filha, mas, para mim, a musica dos anos 80 foi o mesmo que os Beatles e os grupos da época foram para amigo “ephemerense”.

Descobri, no seu livro,  referências a muitos grupos dos quais nunca tinha ouvido falar. Estou a pensar em explorar essa descoberta no Youtube com a ajuda do  livro.

Mas há outro facto curioso. É muito provável que, em 1959, nos tenhamos cruzado, eu, o autor e o “célebre” Jó,  numa das ruas do bairro Carmona em Coimbra. Apesar de ter apenas 3 anos na altura, vivi aí com os meus pais durante uns 4 meses,  na rua da Guiné, uma transversal à Rua de Angola, muito citada nas cartas do livro, e lembro-me de um bairro de pequenas vivendas de 2 andares (nós morámos num primeiro andar) e que, no andar de baixo, onde eu vivia, haver uma miúda com a minha idade, com quem brincava no quintal que rodeava essa vivenda, assim como me lembro da proximidade do comboio que apanhávamos para ir ao centro de Coimbra, acompanhando a minha mãe às compras e para visitar os meus avós paternos, que viviam junto à Sé Velha.

Foi pouco tempo, mas foram das minhas mais remotas memórias.

Cheguei a ir mais vezes a esse bairro, para visitar um grande amigo do meu pai, o sr. Eurico Serra Caetano , pessoa e família de quem perdi o rasto depois do falecimento do meu pai.

Pois é, o mundo é mesmo pequeno.

Mas, já agora, quem é o célebre Jó? Nada mais, nada menos, do que o amigo de infância do Luís Pinheiro de Almeida, que tinha ficado no tal bairro de Coimbra, o destinatário das cartas que o autor lhe enviava, a partir de Lisboa, contando-lhe as novidades e as descobertas.

Foi o “Jó” que, tendo guardado religiosamente ao longo doa anos essas cartas, permitiu que este delicioso livro se escrevesse.

Como diz o presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, no prefácio ao livro, referindo-se ao seu amigo e autor Luís Pinheiro de Almeida, “admiro essa tua maneira de não envelheceres. Encontrando nos Beatles uma forma de continuar a sonhar com sonhavas há meio século…”.

Todos nós temos as nossas estratégias para encarar o envelhecimento. Recordar as “bandas sonoras” da nossa vida e os sonhos a elas associados,  é uma delas.

quinta-feira, 18 de março de 2021

No Moinho do “Casal do Aleixo”


Avista-se de muitos pontos da cidade e é visível em muitos postais antigos do princípio do século passado.

Avisto-o todos os dias da minha casa e, quando vim viver para aqui, há uns 25 anos, ainda ele trabalhava.

Depois deixou de trabalhar, os panos das velas romperam-se e tornou-se uma espécie de fantasma a recortar o cimo da serra a nordeste do centro da cidade e a nascente da minha casa.

Fica no alto do Bairro Vila Morena, a seguir aos depósitos de água e do Casal do Aleixo.

Embora o aviste todos os dias, nunca tinha ido até lá.

Tem de se ir a pé alguns metros, a partir dos depósitos, numa subida ingreme, mas vale a pena, pois tem-se uma das vistas mais magníficas sobre a cidade e os montes e vales circundantes, até ao litoral do concelho, avistando-se a cidade de um lado e o vale dos Cucos do outro.

Finalmente, no último domingo, pus-me a caminho e tirei estas fotos, com uma máquina mais antiga e de reserva, prometendo voltar lá com outra mais potente.






domingo, 14 de março de 2021

Recordações do Festival de Cinema da Figueira da Foz


A Guilhermina Pacheco, num seu post recente no facebook, para recordar o saudoso Jorge Barata, no seu dia de aniversário, veio  lembrara-me os dias passados no Festival de Cinema da Figueira da Foz.

Então nos meus 20 anos, deslocava-me anualmente a esse importante Festival de Cinema, aí pelos finais dos anos 70, início dos 80, ao longo de mais de 6 anos.

O Festival realizava-se em Setembro, ao longo de 10 dias, e era a “pré-temporada” antes do inicio das aulas, que então só começavam em Outubro, marcando o encerramento das férias de Verão, geralmente antecedido pela habitual romagem à Festa do “Avante”.

Recorde-se que esse festival realizou-se, pela primeira vez, em 1972, então ainda apenas uma “semana internacional de cinema”, destacando-se, entre os organizadores, o padre José Viera Marques, que no início dessa década também colaborou com o Cine Clube de Torres Vedas, tendo um papel importante na reanimação desta associação torriense.

Nos primeiros tempos, porque ainda estava a estudar e, depois, porque estava no início da minha vida profissional, o dinheiro era pouco e deslocava-me para o festival à boleia, levando quase um dia inteiro para chegar à Figueira, saindo de Torres Vedras, umas vezes sozinho, outras acompanhado.

Lembro-me de, para além das horas intermináveis à beira da estrada, muitas vezes no meio do nada, à espera da próxima boleia, ter apanhado alguns sustos, o maior de todos numa boleia que me deu um camionista, numa camioneta de carga muito velha, que se deslocava lentamente pela N1 (não havia então autoestradas), com uma enorme fila de carros atrás a apitar e a circular aos ziguezagues, porque, descobri já em andamento, o homem estava completamente embriagado. Felizmente este percurso foi curto.

Quando já tinha algum dinheiro, deslocava-me de comboio, pela linha do Oeste, uma longa viagem de várias horas, por vezes com transbordo na Bifurcação de Lares, uma estação que era uma espécie de ilha no meio do Mondego, onde se fazia a ligação entre a linha do Oeste e a linha entre de Coimbra e a Figueira, na qual, muitas vezes, aguardávamos horas por uma ligação, com a Figueira à vista ao longe e com milhões de mosquitos a rodear-nos.

Chegado à Figueira, acampava-se onde desse. Da primeira vez fiz campismo selvagem, na margem sul  do Mondego do outro lado da Figueira, junto de um parque privado, mas do lado de fora para não pagar nada.

De manhã viajava num barco que levava passageiros desse parque para a Figueira, mas à noite, quando acabava o festival, não havia essa ligação e então tinha de percorrer alguns quilómetros a pé, atravessando a velha ponte, hoje demolida para dar lugar à actual, sozinho, em plena escuridão.

Certa vez, ao aproximar-me da tenda, fui cercado por uma matilha de cães e só me safei porque costumava levar um rádio de pilhas, para tornar a jornada nocturna menos penosa, e pus o som no máximo. Os pobres cães, esfaimados, mas ainda mais assustados, lá me largaram, e eu escapei sem uma única dentada.

Mais tarde, quando já tinha mais dinheiro, ía acampar no parque a norte da Figueira, que mesmo assim ficava bastante longe do local onde se realizava o Festival.

Na Figueira encontrava-me com amigos de Torres Vedras, gente do movimento cineclubista, e colegas da faculdade que também costumavam ir ao Festival.

Nos primeiros tempos, em que andava mais teso, lembro-me de a Guilhermina e o Jorge, que íam partir para outras viagens nesse dia,  me terem deixado uma sandes de omelete para o meu jantar, uma iguaria para quem andava sempre esfomeado para poupar.

Quando comecei a ir como repórter do jornal “Badaladas” e, num dos anos, também do “Diário de Lisboa”, a situação era um pouco melhor, pois tinha direito a senhas de refeição, para além dos bilhetes de borla para as sessões de cinema, realizadas em várias salas, mas principalmente no Casino.

Nessa altura era a minha vez de ajudar amigos esfomeados, levando-os comigo às recepções de lançamento de filmes e apresentação dos realizadores, para as quais tinha convites, e onde serviam excelentes e saborosos aperitivos, que substituíam bem as refeições.

Lembro-me também de, em certa ocasião, já não tendo mais dinheiro para pagar o campismo e tendo esgotado as senhas de refeição, preparando-me para regressar no dia seguinte, dando uma volta naquela que seria para mim a última noite no festival para me despedir da Figueira,  ter encontrado, no chão, uma nota de cinco “contos” (cerca de 25 euros na moeda actual), muito dinheiro para época, e que me permitiu ficar mais 3 dias, dando até para pagar refeições a quem me acompanhava.

A maior parte do tempo era passado dentro das salas de cinema e nos debates, começando o dia às 8 da manhã e terminando aí por volta das 2 da manhã.

Por vezes, quando os filmes eram menos interessantes, aproveitava-se para dormitar e recuperar de noites mal dormidas.

Fora das salas, o tempo era ocupado com as refeições, a visita a uma livraria junto ao casino, apenas para ver novidades que não existiam em Torres, pois raramente dava para comprar alguma coisa, e conversar com amigos no café frente ao Casino.

Na mesa cruzavam-se os amigos de Torres , do cineclubismo ou da Faculdade e outros feitos no Festival, como o Mário Dorminski, que criou o Fantasporto, para cuja inauguração me convidou,  o João Lopes, critico de cinema que conhecíamos da presença nos debates do Cine Clube de Torres, o Carlos Pessoa, jornalista fundador do Público, conhecido dos tempos dos fanzines, o António Loja Neves, do mundo cineclubista e, nas mesas vizinhas, juntavam-se figuras mais ou menos conhecidas, como um Eduardo Prado Coelho, presença habitual no festival, muitos cineastas e artistas conhecidos e, num certo ano, a escritora Marguerite Duras, que veio apresentar ao festival um filme realizado por ela

Uma vez cheguei mesmo a fazer parte do júri do festival, como representante do público, o que me obrigava a ver atentamente todos os filmes em competição.

Por vezes passeava-se pela praia, famosa por ter o mar bastante longe.

Certo dia, passeando com um amigo de Lisboa, o Rui da “avenida de Roma”  (não me lembro do apelido e perdi-o de vista, até hoje), que chegou a ser uma espécie de manager dos Xutos e Pontapés (ou os Minas e Armadilhas, já não me lembro), encontrei duas colegas da faculdade, com quem passámos a tarde na conversa e  a fazer horas, porque havia um filme importante que ía ser estreado essa noite, e não o podíamos perder. Em certa altura, essas colegas convidaram-nos para ir passar a noite com elas ao hotel onde estavam, mas nós, mais interessados no filme, declinámos. Claro que elas nunca mais nos falaram, nem quando as encontrava mais tarde na faculdade de Letras.

Outra vez, estando numa das salas do Casino, vendo afixado um belo cartaz do filme “Cerromaior”, olhando para todos os lados, e vendo apenas uma pessoa sentada num sofá, resolvi arriscar e arrancar o cartaz da parede para ficar com ele, com o olhar complacente e um riso irónico nos lábios da tal pessoa.

O filme “Cerromaior” era exibido nesse dia e, geralmente após a exibição, seguia-se um debate com o realizador. Qual não foi o meu espanto quando foi apresentado como realizador o tal “tipo” que. sentado no sofá, assistira horas antes ao meu “roubo”. Era o realizador Luís Filipe Rocha, com quem me voltei a encontrar uns anos depois, em Torres Vedras, quando aqui exibimos um outro filme seu, tendo-nos então divertido muito com essa história do “roubo do cartaz”.

Quando as aulas começaram a ter início em Setembro deixei de poder ir ao festival, que entretanto entrou em decadência, até acabar de vez em 2002, engolido por festivais mais sofisticados, por uma certa decadência do cinema não comercial, e por um consumismo menos dado a experimentalismos da programação do festival.

Muitas outras histórias ficam por contar, mas aqui ficam algumas para diversão de quem nos lê e para avivar a memória de quem participou nesse saudoso festiva de cinema.

sexta-feira, 12 de março de 2021

“Marcelotólogos”


Antigamente, nos tempos da União Soviética, uma sociedade fechada e censurada, desenvolveu-se no ocidente uma disciplina que procurava interpretar os mais pequenos sinais que pudessem permitir interpretar o que se passava no teatro de aparências em quem se movia a elite governante desse país.

Eram os “sovietólogos”, que procuravam interpretar o significado políticos, por detrás das aparências dos gestos da liderança soviética, fosse uma simples mudança de posição numa fotografia oficial, fosse o longo desaparecimento de alguma figura pública das primeiras páginas da imprensa oficial, fosse uma palavra a mais ou a menos num discurso político.

Claro que, tal como em todas “profissões” terminadas em “ólogos” (astrólogos , politólogos…), umas vezes acertavam, outras vezes enganavam-se, mas a actividade devia dar bons empregos na comunicação social, tal a profusão de “sovietólogos”.

Claro que hoje já ninguém se lembra que tais mentes iluminadas nunca previram um Gorbachev , ou o rápido fim da União Soviética.

Contudo, parece que tais “especialistas” estão hoje de regresso com outras vestes, outros fins e outros objectos de “estudo”.

São os “Marcelotólogos”, que se revelaram ontem ao mundo, a tentar especular, cada um com a teoria mais absurda, sobre a razão porque Marcelo Rebelo de Sousa não falou ontem ao país acerca das medidas do “plano de reabertura progressiva” (erradamente referido como “medidas de desconfinamento”).

Hoje uma jornalista abordava o presidente, que está numa visita de Estado em Roma, pondo na boca dos “portugueses” uma dúvida que apenas surgiu na cabeça dos “marcelotólogos”, a ideia que o silêncio do presidente era um “sinal” (dos “céus”!!!) da sua divergência com o governo.

Marcelo respondeu simplesmente com o óbvio. Não falou porque estava de viagem e, matando logo ali a nova profissão, confirmou a sua concordância com as medidsa ontem anunciadas.

Veremos se chega para acabar com a “disciplina” de “marcelotologia”.!!

sábado, 6 de março de 2021

PCP – Algumas reflexões sobre um partido centenário

(Fonte: Ephemera)

Não é por acaso que um partido consegue sobreviver cem anos, ainda por cima sem nunca ter estado no poder, e num mundo como o deste seculo XXI, onde palavras como “solidariedade”, “igualdade” e “direitos” são violentamente esmagadas num dos períodos mais selvagens da história do capitalismo.

A razão dessa longa existência deve-se, quanto a nós, ao facto do PCP ter feito  a diferença, em relação a outros partidos da mesma tendência e entre os partidos da esquerda, em vários aspecto:

- desde logo, a sua formação estrutural de origem, um partido criado no seio do movimento sindicalista e operário, em vez da habitual origem dos partidos comunistas numa cisão em partidos socialistas ou social-democráticos;

- depois, foi um partido que construiu e consolidou a sua história na luta contra uma das mais longas ditaduras do século XX, sofrendo perseguições e violências várias, aos contrário dos partidos “irmãos”, muitos deles construídos, pelo contrário, como violentas ditaduras ditas “socialistas”;

- ao contrário de outros partidos comunistas, arvorando-se arrogantemente como uma “elite de iluminados”, contruindo-se de cima para baixo, o PCP soube consolidar-se junto dos trabalhadores e das populações, não hostilizando e respeitando os seus usos e costumes culturais e até religiosas, mesmo os mais conservadores. É esta atitude que explica também que este partido, ao contrário de outros congéneres, nunca tenha sido anticlerical;

- apesar da retórica ortodoxa de algumas teorias por si oficialmente defendidas, o PCP teve sempre uma capacidade de agir, em democracia, com pragmatismo,  moderação e responsabilidade institucional ;

- sem nunca ter exercido, pelo menos solitariamente, o poder central, soube construir uma imagem de eficácia, de diálogo e abertura, nos locais onde exerceu o poder, como aconteceu no exercício do poder autárquico, onde foi pioneiro na defesa da cultura, do património e do ambiente, hoje realidade normal, mesmo em autarquias dominadas por partidos adversários, mas que, com raras excepções, não o era no início do poder autárquico democrático;

- soube desenvolver uma grande abertura cultural, imagem que se consolidou na forma como organiza a Festa do Avante;

- soube afirmar-se como uma rara força política que se apresenta, de forma coerente, como defensora credível de uma alternativa à afirmação do neoliberalismo, na defesa intransigente do mundo do trabalho e dos seus direitos, dos mais desfavorecidos e do Estado Social, e no combate às desigualdades;

- tem-se revelado impermeável à corrupção e às negociatas de bastidores, sendo as possíveis excepções o “norma” noutros partidos;

Contudo, se estes são os pontos fortes que têm garantido o seu prestígio, mesmo no seio dos adversários, e a sua  excepcional longevidade, existem também graves fragilidades que estão a provocar o seu crescente desgaste:

- continua a negar ou a desvalorizar muitos dos crimes perpetrados em nome do “comunismo” e as razões da decadência e do fracasso do “socialismo real”;

- mantem um discurso imobilista, fabricado com chavões datados e pouco atractivos para as novas gerações;

- sofre de uma tendência revanchista em relação a ex-dirigentes, importantes em certos períodos da sua construção, caídos em desgraça ou dissidentes, ignorando-os ou banindo-os da sua história oficial;

- mostra uma grande dificuldade em renovar os seus quadros dirigentes, revelando pouca abertura à diversidade de opiniões e ao funcionamento da democracia interna, não se distinguindo, neste aspecto, aliás, da maior parte dos partidos ditos “burgueses”;

Esperemos que este centenário tenha o condão de contribuir para que os militantes e dirigentes desse partido reflictam sobre os seus valores e as suas fragilidades.

O enfraquecimento do PCP seria grave, pela orfandade em que deixaria os que vivem do seu trabalho e os sectores mais fracos e desfavorecidos da sociedade, que encontram nesse partido o único defensor coerente na defesa dos seus direitos.

Essa orfandade só beneficiaria os crescente populismo de extrema-direita.

Mas a sua sobrevivência depende muito da sua própria vontade e capacidade de abertura, de renovação e de transparência.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

E se as “bocas parvas” pagassem imposto?


Sempre achei as opiniões dessa senhora um bocado "parvas", mas agora bateu no fundo.

Se calhar está a propor que sejam, mais uma vez, os mesmos do costume a "pagar a crise", retomando um velho slogan da extrema-esquerda.

Esquece-se a dita senhora que são os tais "burgueses" os únicos que pagam impostos realmente proporcionais ao seu rendimento, porque, os outros, ou fogem para os paraísos fiscais ou declaram o mínimo daquilo que realmente ganham, como acontece nalguns sectores que agora andam aí muito queixosos, porque "só" vão receber ajudas da "bazuka" em proporção com aquilo que sempre declararam ao fisco e não àquilo que estavam habituados a lucrar na realidade, não declarando ou recorrendo ao trabalho precário e mal pago.

Mas é exactamente a esses “queixosos” que a dita comentadeira pretende que se  pague, com a sua proposta  do assalto à classe média, como se depreende das sua palavras , defendendo que “as receitas perdidas nos restaurantes resolvem-se com dinheiro” , o tal que ela propõe tirar aos “burgueses”, talvez por sugestão de algum “chef” amigo, um dos tais que foge aos impostos, paga miseravelmente aos seus “colaboradores” e mantem-nos em trabalho precário.

Também se queixa da falta de generosidade do governo em relação a esse sector. Mas é apenas em relação a esse sector, e tem sido apenas este governo a ser pouco generoso?

Esquece-se a dita senhora que as chamadas "classes médias", as que já pagaram os desvarios de corrupção “socrática” e o "ir além da troika" passoscoelhista, para salvar o corrupto sector financeiro, não têm conhecido outra coisa, ao longo dos últimos 20 anos,  que não seja cortes nos seus rendimentos e aumento de impostos.

Para além disso,  o rendimento médio dessa "burguesia", a que sustenta o país com o pagamento regular de impostos, é miserável, comparado com os países do euro, já para não falar na situação da maioria da população, a do trabalho precário, a do salário mínimo e a das reformas miseráveis e vergonhosas.

Tenha juízo (provavelmente ganha mais num dia a comentar nos jornais e na televisão, do que um "burguês" do teletrabalho num mês).

Não há pachorra para o tempo de antena que a comunicação social dá a tais "comentadeiros", “achistas e  “tudistas".

O CHEGA agradece tais opiniões incendiárias.

E já agora, que estamos numa de fazer títulos com ideias parvas, aqui vai uma sugestão de graça: e que tal lançar um imposto para a parvoíce?

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

O Cartoon da Semana (um cartoon que diz tudo sobre a situação na Birmânia)

 

(Fonte : Charlie Hebdo) 

Entre militares assassinos e uma deplorável laureada com o Nobel da Paz, os Rohingyas são a moeda de troca

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Reprimir o acto musical, um acto comum aos mais diversos poderes instituídos.


O que têm em comum os Sex Pistols, as Pussy Rioy e Pablo Hasél ?

Todos foram parar à cadeia por desafiarem as autoridades, tenha sido a velha monarquia inglesa, a “nova monarquia” de Putin na Rússia ou a monarquia corrupta de Espanha.

Os Sex Pistols lançaram o tema “God Save the Queen” em 1977, tornando-se um ícone do punk, tema durante anos censurado nas rádios britânicas, e que levou à proibição da actuação da banda em solo de sua majestade, apesar de ter vendido 150 mil exemplares em apenas cinco dias e batido record´s de venda.


Uma actuação ilegal da banda, num navio no meio do Tamisa, nesse mesmo ano, para “comemorar” o Jubileu de Prata da Rainha, provocou a intervenção policial e a detenção dos músicos, que passaram algum tempo  na prisão.

Mais recentemente, o todo poderoso “czar” do Kremlin, Vladimir Putin, sentindo-se ofendido por uma tema da banda punk local Pussy Riot, que o criticava, mandou prender as jovens musicas, que passaram maus momentos na prisão (chamamos a atenção para a violência das imagens).

As mesmas Riot foram notícia recente por um tema anti-Trump,o amigo de Putin, escapando por pouco à prisão nos Estados Unidos.


Nos últimos dias, foi a vez da corrupta monarquia espanhola “mandar” prender o raper Pablo Hásel, devido à divulgação de um tema musical onde este denunciava, com palavras violentas, essa monarquia decadente.

Por ironia do destino, o 40º aniversário da única acção da monarquia espanhola em defesa da democracia, a repressão da tentativa de golpe militar da extrema-direita de 23 de Fevereiro de 1981, é comemorado debaixo da polémica devido à prisão do músico.

Hoje é também o dia em que passa mais um aniversário sobre a morte de Zeca Afonso, outro musico perseguido pela forma como fez da musica uma arma para denunciar a ditadura salazarenta.

Hoje, como ontem, e como sempre, a musica independente continua a incomodar muita gente, e quem diz a musica, diz a cultura independente em geral.

Talvez por isso, a cultura seja o parente pobre das medidas previstas para recuperar a economia e a sociedade no pós-pandemia.

 

domingo, 21 de fevereiro de 2021

A Força de Um Rio (Rio Sizandro)


 Esta manhã esta era situação no Rio Sizandro,  na sua passagem pela cidade:





sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

Construção Civil Desconfinada

Nem todos os sectores da economia parecem estar a sofrer com a crise e o confinamento.

Um deles parece ser o da Construção Civil, um dos lobbies mais poderosos da economia, muito influente junto das autarquias e do poder político, principal sustento do sector financeiro e aquele que tem sido um dos sectores que mais tem canibalizado os fundos europeus desde os tempos do cavaquismo.

Esse sector, aliás, foi a principal “base de apoio” do cavaquismo e da generalizada corrupção socrática, sem esquecer que foi a pensar nos benefícios desse sector que se “inventaram” os célebres “Vistos Gold”, para além de ter sido o principal responsável pela dramática situação habitacional do  país e da desertificação das grandes cidades, em benefício do sector do turismo.

Claro que essa situação não é exclusiva de Portugal. Na Itália, por exemplo, esse sector está, desde longa data, associado às máfias locais.

Vem este desabafo a propósito de uma situação que o confinamento parece estar a tornar visível, a grande quantidade de obras estruturais em prédios onde estão em permanência muitos cidadãos obrigados ao confinamento, uns em teletrabalho, outros sem actividade, outros sem poderem sair à rua com a frequência habitual por causa do confinamento.

Obras em casas são habituais, mas tenho vindo a registar um grande aumento desse tipo de actividade, com todos os incomodos inerentes a uma situação como aquela em que vivemos, onde a casa se tornou o principal local para respeitar esse confinamento.



Numa situação como esta, era de esperar que se tomassem medidas mais restritivas em relação ao ruido.

No prédio ao lado do meu, durante três semanas, tiveram lugar, e continuam com menos ruido, obras de grande monta num andar, com berbequins e marteladas continuadas e agora, desde há uma semana, é a vez do mesmo acontecer no meu prédio.

Pensava que era apenas azar ou coincidência, mas comecei  a ver por aí que a situação parece ser generalizada, como se comprova, entre outras, por estas duas notícias, uma do Público (14 de Abril de 2020 Barulho das obras, a banda sonora indesejada para quem está em teletrabalho” ), e outra da TSF do passado dia 12 de Fevereiro, esta, aliás, marcada por afirmações incorrectas dadas pela poderosa Associação de Empresas de Construção e Obras Publicas e Serviços, procurando desvalorizar a situação.

A situação é de tal ordem que, no último decreto de confinamento proposto pelo Presidente da República, este propôs que fossem tomadas medidas concretas contra o ruido, sem que tenha encontrado eco junto do governo e do parlamento, mantendo-se em vigor uma legislação feita para tempos normais (Expresso de 14 de Fevereiro último).

A lei em vigo prevê que se possam efectuar obras e seja permitido o necessário ruido entre as 8 da manhã e as 8 da noite (embora existam limite de ruido e seja obrigatório avisar os condóminos sobre a duração das mesmas), e foi pensada para ciscunstâncias normais, num horário em que, quem trabalha está fora de casa, e quem está em casa pode aliviar a cabeça saindo à rua ou para outros locais.

Não é esta a situação, e algumas associações ambientalistas propõem que, durante o confinamento, se limite o ruido das obras a um período máximo de 4 hora por dia.

O aspecto positivo de tudo isto, é que o sector da construção civil continua dinâmico e, por isso, é menos um sector a precisar da ajuda da “Bazuka”… ou será que vai pedi-la???

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

Ilegalizar o Chega? Expulsar Mamadou Ba? Onde estão agora os Indignados?


Parece que anda por aí uma petição para expulsar Mamadou Ba do país.

Esse tipo de iniciativas é equivalente a outra, de sinal contrário, a de ilegalizar o Chega.

AQUI dissemos o que pensamos sobre o assunto do Chega.

Vivemos em democracia e em liberdade e, desde que se respeite as leis da mesma democracia, cada um é livre de defender o que quiser, mesmo as ideias mais disparatadas, absurdas ou mesmo ofensivas.

Mamadou Ba é livre de fazer as polémicas afirmações que costuma fazer, embora não me identifique com a maior parte delas.

Aliás, olhando para os milhares de afirmações publicadas na imprensa, proferidas nas televisões, declaradas nas rádios ou postadas nas redes socias, encontro afirmações, do mesmo teor ou de sentido contrário, tão disparatadas, intolerantes e ofensivas como as que costumam ser proferidas por Mamadou Ba.

É curioso que ainda ninguém se tenha lembrado de propor ou assinar uma petição  para expulsar as centenas de “idiotas” ( epiteto que muitas vezes é aplicado apenas a quem não concorda connosco) que todos os dias postam, escrevem e publicam as mais alarves boçalidades, os mais disparatados insultos e as mais intolerantes e ofensivas idéias.

Será apenas porque são "portugueses bem”, cheios de "portugalidade" (!!!) e, de preferência, brancos?

Também me espanta que tantos “comentadores” , tão ofendidos e preocupados com a absurda ideia de ilegalizar o Chega, não venham agora debitar preocupação idêntica por um outro acto absurdo, o de propor a expulsão de um cidadão de pleno direito.

É o que se chama de “dois pesos e duas medidas”, conforme o peso e a medida da ideologia de cada um.

E eu termino a interrogar-me: onde param agora os indignados que se manifestaram tão preocupados com o acto, atentatório da democracia e da liberdade ,que era a proposta de ilegalizar o Chega?

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

A SIC e o Carnaval de Torres ou...uma forma subtil de fazer Censura


 A Censura tem sido uma presença constante no Carnaval de Torres (ver AQUI o que escrevemos sobre o tema).

Costumamos estar habituados a uma censura feita "à descarada" e escapa-nos, muitas vezes, a censura mais subtil, muitas vezes exercida nos bastidores.

O que aconteceu este ano enquadra-se neste último caso.

Como todos sabem, o Carnaval de Torres deste ano ficou-se pela inauguração de um monumento, que procurou homenagear os profissionais que têm estado na linha da frente, para combater a epidemia ou manter o país em funcionamento (talvez com um esquecimento mais notado, o da actividade dos professores nesta conjuntura).

Para além do monumento, a crítica social e política habitual neste Carnaval foi, de forma inteligente, incluída no écran de um conjunto de "telemóveis" gigantes, uma referência ao meio de comunicação mais usado pelos cidadãos, obrigados ao confinamento e ao distanciamento físico.

A SIC, no passado dia 12 de  Fevereiro, realizou uma reportagem onde deu grande destaque aos "cartoon´s" incluídos num dos lados do tais "telemóveis" gigantes (ver AQUI) .

Ao visionarmos a reportagem, confirmámos o que já desconfiávamos, que não iriam mostrar  um desses "cartoon´s", aquele que reproduzimos em cima.

Porque é que não nos espantámos? Porque no dia em estivemos a fotografar o tal monumento estava lá uma equipa da RTP  (uma jornalista e um operador de Câmara) e, ainda antes de percebermos o alvo da conversa, ouvimos a jornalista a dizer para o operador :"vamos lá ver se nos deixam passar isto".

O "isto" era o mesmo "cartoon" "censurado" na reportagem da SIC.

Ou seja, o poder da SIC é tal na comunicação social que até  condiciona as opções editoriais de outros orgãos de comunicação.

E qual o motivo do subtil acto de censura, na televisão que se acha a campeã da liberdade de informação? Uma alusão à SIC, à TVI e à CMTV como metáfora de uma esquina de prostitutas.

Claro que é um acto subtil de censura, o de optar por  não reproduzir um cartoon de Carnaval, quando a reportagem reproduz quase todos, disfarçado de "opção editorial", uma forma civilizada e legal de censura em democracia, mas revelador da forma como se condiciona a informação nalguns órgãos de comunicação social, e até do poder corporativo de um classe profissional como a dos jornalistas.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Marcelino da Mata - nem "herói" nem "criminoso", talvez ...apenas Homem!!??

Não, não vou alinhar no histerismo pró e contra Marcelino da Mata.

A "onda" de Marcelino da Mata, uma espécie de Rambo à portuguesa, não é a minha.

Se cometeu "crimes de Guerra" foi porque participou numa Guerra criminosa, onde se cometeram crimes de ambos os lados (alguns, muito mais graves, até depois da Guerra terminar, como se pode ler na reportagem AQUI, publicada pela revista Sábado).

Marcelino da Mata foi apanhado pela História e acabou do "lado errado da História" (aconteceu-me o mesmo muitas vezes).

Goste-se ou não, a vida de Marcelino da Mata dava um filme, como se pode ler AQUI, num dos seus raros depoimento pessoais, onde relata a sua actividade militar.

Para além do relato das acções em que participou, algumas que resultaram em verdadeiros crimes de guerra, mas pelas quais ele não foi o principal responsável nem mandante, até porque a sua ingenuidade o levou a assumir esses crimes, para além das sevícias e da tortura a que foi sujeito, depois do 25 de Abril, por militares ligados em MRPP, há ma história menos conhecida que ele conta neste texto, o facto de ter trabalhado para o MPLA, muito depois da independência, para preparar militares desse movimento na Guerra Civil contra a UNITA e só saindo de Angola, a bem, e com as contas em dia, como o próprio confirmou, depois de terem surgido em Portugal notícias sobre essa actividade.

Marcelino da Mata foi, na Guiné independente, aquilo que Miguel de Vasconcelos foi para os portugueses de 1640, e maltratado como tal. Outros colegas seus tiveram menos sorte.

Para os comandos e outros militares que nunca resolveram os traumas da Guerra Colonial, ele era um herói.

Marcelino da Mata gabava-se, entre amigos, dos crimes que cometeu, como aconteceu no relato feito a um militar português sobre uma operação em que participou : "entrámos na tabanca, deitamos granadas incendiárias para as palhotas, as pessoas fugiam para o centro da tabanca, matámos todos, homens, mulheres, crianças" (ver AQUI) .

Um amigo meu, Joaquim Carlos Matos, ex-combatente na Guiné, a propósito de um texto perecido com este, que publiquei no facebook,  interrogava-se :"pergunto: só ele é que participou em massacres? Quantos militares, alguns deles dos Comandos, que participaram igualmente em centenas de operações repressivas, tiveram posteriormente um papel importante no MFA e foram glorificados por isso?. E o mesmo não se aplica a tantos "democratas do pós-25 de Abril" ? 

Numa Guerra, principalmente numa Guerra como foi a Colonial,  a fronteira ente os actos de cobardia, de heroicidade, ou criminosos é bastante ténue, muitas vezes, no mesmo combate, uma mesma pessoa consegue comete-los em simultâneo.

Os grandes criminosos, geralmente, nunca sujaram as mãos com os seus crimes, mandam os outros executá-los.

O "debate" sobre Marcelino da Mata acentua as características do mundo em que vivemos, um mundo a preto e branco, com bons e maus, sem possibilidade de diálogo civilizado, sem respeito pelas ideias dos adversários, sem tolerância pelas opiniões contrárias, e baseado na gritaria. 

Mamadou Ba e André Ventura revelam-se, neste tema, as duas faces da mesma moeda da intolerância (leia-se, a propósito, esta interessante opinião de Alberto Magalhães).

Como qualquer pessoa que se cruzou com uma História de violência, tragédia e de guerra, Marcelino da Mata foi, tanto "besta", como "herói", ou, parafraseando o conhecido filosofo espanhol José Ortega y Gassset, " homem (Marcelino da Mata) foi o homem e a sua circunstância".

Ou, como diria Charlie Chaplin, pela voz do seu personagem Sr. Verdoux, "quem mata uma pessoa é um criminoso, quem mata um milhão é um herói".

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

Não se combatem aberrações, como o CHEGA, com proibições.

Em democracia não se combatem ideias aberrantes proibindo a sua difusão, mas combatendo-as e denunciando-as com argumentos sólidos.

Por isso, discordo totalmente da tentativa liderada pela ex-candidata presidencial Ana Gomes, de propor a ilegalização dessa aberração que é o Chega, até porque esse tipo de iniciativas, em democracia, tem o condão de vitimizar o alvo dessa medida e dar-lhe mais força.

A superioridade moral da democracia reside no facto de permitir que se manifestem e organizem todo o tipo de tendências políticas, representativas de todo o tipo de ideologias, mesmo  antidemocráticas.

Claro que existem limites e tudo o que ultrapasse a manifestação e divulgação de ideias, por mais aberrantes que sejam, como as representadas pelo Chega, cairá na alçada da justiça e da lei.

Tentativas insurrecionais, do tipo daquela a que assistimos recentemente no Capitólio, nos Estados Unidos, manifestações de violência racista ou politica, organização de milícias armadas, actos de terrorismo, devem ser punidos exemplarmente em qualquer democracia.

Apesar de esse tipo de acções serem preconizadas por algumas das figuras tenebrosas que lideram esse partido, havendo entre elas antigos terroristas do MDLP/ELP, criminosos condenados por violência racista,  figuras obscuras ligadas à corrupção financeira, uma coisa é  a condenação judicial desses crimes, outra coisa é ilegalizar um partido que, tendo gente dessa na sua liderança, oficialmente não defende nem organiza esse tipo de actos no seu programa.

É preferível ter esse tipo de gente a agir legalmente do que na clandestinidade. Pelo menos conhecemos  cara dos facínoras.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

O Jornalista que mordeu o cão

Recentemente fizeram-me chegar uma lista de conhecidos pivot’s e comentadores televisivos que não têm cartão de jornalista.

A ser verdadeira, ela explica muito daquilo a que temos assistido nalguma comunicação social, principalmente na televisiva, que é aquela que mais influencia a opinião pública.

A reportagem,  o recurso ao contraditório, a investigação da veracidade das fontes é cada vez mais substituída pelo “pé de microfone”, pela arrogância das certezas absolutas, pela provocação mais abjecta para rasteirar quem se pretende destruir, pelo espectáculo da vaidade quase pornográfico,  ou, na “melhor das hipóteses”,  pela mera opinião pessoal, muitas vezes eivada de preconceitos ideológicos, sociais e culturais, disfarçada de pretensa “objectividade”.

A “árvore” é exibida como “floresta”, se servir para a propaganda e para o espectáculo, valendo tudo  para “conquistar audiências”.

Claro que, correndo o risco de incorrer no mesmo erro, na minha opinião continuam a existir bons jornalistas e boas reportagens, mais na imprensa escrita do que na informação televisiva.

Pela minha parte, recomendo os noticiário da RTP2 e da  RTP3, os noticiários da Antena 1 e, na imprensa escrita, o Público, o Diário de Notícias, o Jornal de Letras e as revistas Visão, e alguns debates interessantes da RTP 1 e programas como a "Circulatura do Quadrado" na TVI24, sem esquecer o excelente trabalho da agência LUSA, infelizmente muito ignorado por alguma comunicação social.

O resto, ou é muito manipulado, obedecendo a uma agenda política dos seus donos ou…tem dias!

O problema, nalguma comunicação social, está na política editorial, dominada por “jornalistas” que muitas vezes só chegaram a essas posições depois de darem provas de submissão à “voz do dono”, seja ele a do dinheiro ou a da política. Muitos, aliás, fizeram o seu tirocínio na defesa das políticas da Troika e do ir além da Troika, outros veem mais de trás, do encobrimento da corrupção, dos grandes negócios, do cavaquismo e do socratismo.

É caso para dizer que há “jornalistas” que, do jornalismo, apenas aprenderam a levar a sério a anedota do “homem que mordeu o cão", confundido a parte com o todo, conforme a conveniência e a agenda política do “patrão”.

Há mesmo jornalistas que "mordem" eles mesmos o "cão", só para poderem explorar a reacção do "cão" e criarem "casos" para aumentar audiências.

É costume dizer-se que é nas curvas apertadas que se veem os bons condutores ou que as crises podem trazer o melhor e o pior de nós.

Estra crise está a revelar o pior de uma comunicação social ávida de “sangue” e audiências fáceis.