segunda-feira, 9 de junho de 2014

A propósito de uma reedição : recordar a infância, quando o rally de Portugal passava por Torres Vedras e alguns esperavam por Michel Vaillant..

Para a miudagem dos anos 60, num pequena vila de provincia, como era Torres Vedras, não existiam muitos momentos de diversão fora da rotina diária.

A televisão, que só existia nas casas de alguns, apenas iniciava as suas sessões lá para as 19 horas, encerrando à meia-noite, a preto e branco, cinzentismo que se confirmava pela programação controlada pela censura.

Existiam alguns momentos que faziam esvaziar as ruas, para juntar as famílias e os amigos em volta do pequeno ecran, e eram motivo de debates e paixões, como o festival da eurovisão, algumas finais de futebol, os campeonatos mundiais de hóquei em patins, as provas de fórmula 1 e, já mesmo nos finais da década, o ZIP ZIP.

Para além desses momentos de entusiasmo global, tínhamos também alguns “grandes” momentos em que a rotina local era quebrada, como o Carnaval, que se realizava à volta da casa onde vivia, a Procissão do Senhor dos Passos, que eu assistia da varanda de uma tia avó, a tia Sara, na rua “do Império”, de colcha estendida para a rua, o Santo António, organizado em cada rua, praceta e bairro, em clima de camaradagem entre vizinhos, com a improvisada tenda de comes e bebes e a fogueira no mei do passeio, embora já então se destacassem as festas organizadas pelo Bairro “Salazar” (hoje Vila Morena) ou no Vartojo, a Feira de S. Pedro, animada na Várzea com os maiores divertimentos que a miudagem podia almejar ao longo do anos,  ou os três meses de férias de Verão vividos na praceta, em brincadeiras intermináveis e que culminavam, para alguns, em dias na piscina do “Vimeiro” (aliás Maceira) ou em Santa Cruz.

A partir de determinada altura veio juntar-se outro momento tão ansiado, o da passagem pelas ruas de Tores Vedras dos “bólides” do Rally de Portugal,prova iniciada em 1967, ou Rally TAP, como se chamou até 1974.

O melhor sítio para ver as “bombas” era na curva junto ao “Napoleão” no final da “recta” da Av. 5 de Outubro e no inicio da rua que levava para Lisboa.

Para míudos de 10 a 15 anos era uma festa, vivida com emoção, vendo passar por nós nomes famosos do automobilismo nacional e internacional (em 1971 o rally foi integrado no campeonato Europeu e em 1973 no mundial), como Francisco Romãozinho,  Bjorn Waldegard, ou Tony Fall, ou as gloriosas máquinas “voadoras”, os Lancia, os Ford Escort, os Mini Cooper, os Porche ou, cereja no topo do bolo, os belos Alpine Renault.

Com alguma sorte conseguíamos privar de perto com alguns pilotos, que paravam na bomba de gasolina dos “Fonsecas” no final da Avenida 5 de Outubro, ou na da Garagem Atlântica, mais acima, junto ao local onde hoje fica a Caixa Agrícola, para reparar alguma avaria ou encher o depósito. Alguns paravam mesmo para um cafezinho no Império.

Ao contrário do que pensávamos na altura, a passagem por Torres Vedras não contava para nada, embora os pilotos tivessem de passar depressa para chegarem a tempo ao controle ante das provas cronometradas. Torres Vedras era o ponto de ligação entre dois dos troços míticos da prova, o de Montejunto e o do Gradil.

A mitologia à volta desse momento também foi reforçado com a publicação da série Michel Vaillant, especialmente como a história passada no Rally de Portugal, editada na revista Tintin em 1969, revista que eu devorava semanalmente, já que tinha a sorte de o meu avô, que tinha uma livraria/papelaria, me oferecer a revista.

O realismo dessa série, nos cenários e na mistura de figuras de ficção com figuras reais era tal que um dos putos do nosso grupo, dos mais novos de entre nós, o meu amigo Octávio Almendro, que era olhado com distanciamento e arrogância pelos mais velhos, que se achavam muito sábios e inteligentes, numa das noites de passagem do Rally de Portugal veio ter connosco para nos pedir que o avisássemos quando passasse…o Michel Vaillant. Claro que passou a ser alvo da chacota geral, nós que também nem sabíamos que a passagem dos carros por Torres não contava para nada…

Recordo agora esta história e essas emoções de infância e juventude, a propósito de reedição, em álbum, esta semana, pelo jornal Público, do “Rali em Portugal” de Michel Vaillant.

Ao lê-lo vou, com certeza, recordar com saudade esses momentos de festa e ingenuidade infantil vividos nas ruas e Torres Vedras, numa das raras ocasiões em que tínhamos autorização para sair à noite.




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