quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Vale a pena Votar nos Países da Zona Euro?


Os países da zona Euro estão sujeitos a uma ditadura financeira, que impõe um modelo de austeridade permanente, cujas receitas são decididas por instituições não democráticas (BCE, Eurogrupo, Conselho Europeu), e executadas em cada país por governos eleitos, mas  que, em vez de representarem quem os elegeu, se comportam como meros capatazes ao serviço daquelas instituições.

Por sua vez, essas mesmas instituições estão ao serviço de um poderoso e corrupto sistema financeiro, sem rosto, mas que está por detrás do financiamento aos grandes partidos do poder, à grande comunicação social, com o seu exércitos de comentadores e fazedores de opinião, às principais universidade de economia , com o seu exército de professores domesticados no pensamento único neoliberal.

Como se viu recentemente na Grécia, essa gente não respeita a vontade democrática das populações dos países da zona euro e impõe o seu modelo de sociedade, humilhando os que procuram fazer-lhes frente ou questioná-los.

Valores que são propagandeados como estando associados ao projecto europeu, como a democracia, a igualdade, a solidariedade, a subsidiariedade, a qualidade de vida, a segurança social, estão a ser todos os dias postos em causa pela acção  (ou falta de acção) daquelas instituições e pelas decisões ( ou falta de decisões) que elas impõem aos governos desses países.

Perante este triste panorama, interrogo-me às vezes, cada vez mais neste últimos tempos, se ainda vale a pena votar, se o acto eleitoral não é cada vez mais uma grande farsa, se ainda há espaço para inverter as políticas anti-sociais e antidemocráticas, aplicadas por governos subservientes, compostos por políticos que apenas agem de acordo com a sua agenda de promoção pessoal.

Penso que, apesar de tudo, ainda vale a pena votar, se usarmos o voto como acção de protesto, se deixarmos de votar apenas para “mudar as moscas” , ou para escolher entre o “polícia mau” e o “polícia bom”, mas para eleger e reforçar aqueles que, mesmo em minoria, ainda podem, no mínimo, controlar as malfeitorias dos serviçais locais das instituições europeias e denunciar publicamente as políticas corruptas e antidemocráticas impostas aos governos eleitos pelas instituições europeias.

Se não houvesse, apesar de tudo, algum controle democrático, por parte das oposições à esquerda, sobre este governo que se vangloriava de “ir além da troika”, a situação teria ainda sido pior. 

Se não tivesse havido denuncias constantes ao carácter anticonstitucional de algumas dessas medidas, o Tribunal Constitucional não teria tido força nem legitimidade para as travar. 

Se as minorias parlamentares nãos exercessem constantemente a sua pressão sobre a opinião pública, muitas das graves situações em que o país vive não seriam conhecidas, e seriam ainda piores, pois teriam deixado o caminho aberto à poderosa máquina de propaganda que domina a comunicação social.

E, como se costuma dizer, água mole em pedra dura tanto dá até que fura. Como se vê, mesmo aquelas poderosas instituições antidemocráticas que controlam a zona euro, têm vindo a mudar ligeiramente de discurso, apercebendo-se do crescente descontentamento dos cidadãos europeus, atenuando, ainda que de forma pouco perceptível, a forma de aplicar a austeridade.

Ainda uma última nota: a abstenção, o voto em branco ou o voto nulo apenas servem para reforçar a representatividade parlamentar dos partidos mais votados, aumentando-lhe artificialmente a legitimidade “democrática” para continuarem as suas políticas austeritárias.

A abstenção ou um voto em branco, ou nulo, é assim um cheque em branco nos partidos da austeridade, aumentando artificialmente a representatividade do partido ou coligação  vencedor.

Felizmente existem muitas opções de voto nestas eleições, da extrema-esquerda à extrema direita, dos partidos com projectos ideológicos marcantes, aos movimentos de causas e de cidadania. Não há, por isso, a desculpa da falta opções.


A minha escolha é cada vez mais numa perspectiva de contra-poder e cada vez menos de escolher quem o vai exercer, já que, seja quem for que o exerça na zona euro, vai ser um mero executante das politicas impostas pelas instituições europeias antidemocráticas, a não ser que revela coragem de as enfrentar, e eu não a vislumbro nos partidos do "arco do poder", sabendo que o risco é passar por aquilo que os gregos estão a passar.

Sobre a nossa escolha, isso fica para uma próxima crónica.
Enviar um comentário