sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Trinta Anos de Cavaquistão.


…E já lá vão quase TRINTA ANOS de Cavaquismo…

Passaram ontem três anos sobre a reeleição de Cavaco Silva com Presidente da República.

Aos oito anos de Cavaco com Presidente, devemos juntar os  dez anos como primeiro-ministro (1985-1995), para além de uma anterior  curta passagem pelo governo de Sá Carneiro como ministro das finanças (1981-1982)…quase trinta anos de cavaquismo, com um interregno de dez anos (embora o mesmo espírito cavaquista estivesse presente no governo de Durão Barroso, entre 2002 e 2004).

Chegou a primeiro-ministro na altura em que Portugal integrou a União Europeia (então CEE), e numa altura de “vacas gordas” para a economia portuguesa.

A abundância de dinheiro, permitida pela canalização de chorudos fundos europeus, deixou os portuguese deslumbrados com o culto da riqueza e do dinheiro, e Cavaco muito contribui para isso.

Em vez de usar esses fundos no financiamento de projectos de desenvolvimento com futuro, preferiu canaliza-los para o betão e para o consumismo, destruindo o frágil aparelho produtivo português, a pesca, a industria, a agricultura.

Criou  a ilusão do dinheiro fácil, distribuindo as migalhas pelo “povo”,  enquanto facilitou as grandes negociatas dos amigos políticos, das quais o BPN foi apenas um dos casos mais conhecidos.

O novo-riquismo tonou-se a ideologia do “novo regime”. O velho slogan do país do “Fado, Fátima e Futebol” dava lugar ao país da “Cultura Pimba”, do culto do consumismo e do ter sobre o ser e…do Futebol!!!.

O Futebol tornou-se o grande culto nacional. Desbaratou-se dinheiro na construção de majestosos estádios para a grande festa de consagração do “novo regime cavaquista”, o Euro 2004.

Graças a uma comunicação social cada vez mais acrítica e amorfa, dominada pelas grandes empresas e pelo poder financeiro, principais beneficiários dos fundos europeus e da “ideologia” cavaquista, o futebol ganhou uma dimensão nunca conhecida, nem durante o Estado Novo.

Os clubes de Futebol  tornaram-se em grandes e apetecíveis empresas, onde corre dinheiro de origem duvidosa, imune à crise e onde se misturam “comentadores”, políticos, especuladores financeiros e toda uma trupe de gente pouco recomendável.

O mais grave é que grande parte da esquerda política, como o Partido Socialista, se deixou seduzir por essa ideologia neo-saloia, das negociatas e do dinheiro fácil, da cultura do “popular” e  do “pimba”, das “praxes”  e do Futebol, onde a educação tinha como objectivo, mais do que o saber, a obtenção de um  título de “doutor” para prestigiar políticos de carreira.

No meio deste desvario e desta atitude económica e culturalmente subdesenvolvida, houve algumas situações onde se sentiram melhorias, como na educação, na investigação científica, na cultura, na saúde, nas ligações viárias, no bem-estar geral da população.

Mas muitos desse avanços fizeram-se sempre de forma pouco sustentável,  aos soluços, beneficiando muitas vezes das migalhas dos fundos que lhes eram destinados, já que o grosso era desbaratado em benefícios para  amigos da política e das finanças.

Entre o que caminho que se podia ter feito e aquele que se fez, houve evolução mas muito lenta, pouco sustentável, perdendo-se tempo pela ignorância dos políticos e meios pela corrupção instalada que absorvia o grosso do investimento.

Era um pouco como aquela anedota que se contava nos tempos áureos do cavaquismo e dos fundos europeus a rodos: um dia um ministro português visita o seu congénere espanhol. Este leva-o a visitar a sua casa, um imenso palacete com todas a comodidades. Admirado com o luxo o português pergunta-lhe como conseguiu. O espanhol leva-o à varanda e aponta para uma auto estrada que se via em frente: - está a ver aquela auto-estrada? Metade do seu financiamento está aqui na minha casa. Passados uns meses o ministro espanhol visita o homólogo português e  este leva-o à sua casa, um palacete ainda maior e mais luxuoso do que aquele que tinha visitado em Espanha. O ministro espanhol pergunta-lhe:- Como é que conseguiu isto? . responde-lhe o português :- está a ver aquela estrada? O espanhol olha em redor e não vê estrada nenhuma : - não vejo nada!, ao que o ministro português reponde: - Pois não. Foi tudo para esta casa!

Mas, desde que não houvesse percalços, desde que o dinheiro não faltasse, lá se ía andando, lentamente, melhorando lentamente a vida daqueles sectores essenciais, conseguindo-se até resultados muito para além do reconhecimento e dos apoios financeiros a que estavam sujeitos a cultura, a ciência a educação e a saúde…

Muitos destes êxitos ficaram-se a dever ao trabalho de muita gente esforçada e anonima e a raros políticos com alguma visão, casos esporádicos, raramente com continuidade, boicotados rapidamente pelos herdeiros nos cargos (um Marçal Grilo na educação, uma Maria de Belém na saúde, um Mariano Gago na Ciência…).

Costuma-se dizer que é nas curvas apertadas da estrada que se vêem o bons condutores.

Quando as coisas começaram a correr mal, em vez de termos um presidente da República que exigiu responsabilidades pelo descalabro, enfrentando o poder da corrupção politico-financeira, os “mercados” especulativos , as mentirolas de Bruxelas e da srª Merkel sobre os portugueses,  acatou todas as medidas “austoritárias” que salvaguardaram e pouparam os responsáveis pelo descalabro (políticos, banqueiros, grandes empresários, especuladores…) e  conduziram o país ao empobrecimento, à emigração, ao desemprego, à destruição do que de positivo se fez na investigação, na educação e na saúde, tivemos um presidente conivente, silencioso e ausente, transformado num mero “corta-fitas”...

O cavaquismo é este país que temos …e ainda vamos ter de viver com ele mais alguns anos…

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