quinta-feira, 12 de abril de 2012

"Memórias" do Titanic

 

O desastre do Titanic foi dos primeiros acontecimentos históricos que conheci.

A trágica história daquele navio, dos seus passageiros e tripulantes, tinha voltado a despertar o interesse do público , aí pelos finais da década de 50, principio da de 60 do século passado, por ocasião do 50º aniversário daquele evento.

Talvez por isso, uma das revistas que apareceu lá por casa para o público juvenil e que eu lia avidamente, o “Foguetão” (penso que era assim que se chamava), teria eu uns dez anos, dedicou uma página inteira, com gravuras, ao afundamento do Titanic.

Foi uma história que muito me impressionou e que voltou a gerar algum impacto quando, já nos finais do século XX, em 1997, assisti ao célebre filme de James Cameron sobre a tragédia.

Cameron soube acrescentar, à cuidada reconstrução histórica dos ambientes , um lado romântico, com um amor impossível, quer pela diferença de classe dos protagonistas, quer pelo resultado da tragédia, que separou drasticamente a possibilidade de sobrevivência das mulheres, face à impossibilidade da maior parte dos homens se poderem salvar.

Investigando recentemente alguns dados sobre a tragédia, impressionou-me a forte diferença de classes na própria morte. Se grande parte dos passageiros da primeira classe, principalmente mulheres e crianças, mas também muitos homens, conseguiram sobreviver ao desastre, e os sobreviventes da segunda classe lograram salvar-se numa percentagem ligeiramente inferior aos da primeira, já os mortos e desaparecidos   da terceira classe ultrapassaram em muito os 50%.

A diferença é mais impressionante entre as crianças (salvaram-se 83,4% da 1ª classe, falecendo "apenas" uma criança, 100% da segunda classe e ...apenas 34% da terceira classe) e a mulheres (salvaram-se 97% da 1ª classe, 86% da 2º classe e...46% da terceira...).

A maior percentagem de mortos foi entre os homens, atingindo de forma transversal todas as classes, embora seja significativa a diferença entre a primeira e as outras classes: 33% de sobreviventes na 1ª, 8% na 2ª  e 16% na 3ª...

Muitos dos que têm escrito sobre o acontecimento recordam o lado metafórico da tragédia, como que marcando o fim de uma era de esperança infinita nos progressos técnicos e da infindável “belle époque” luxuosa de uma burguesia endinheirada , produto do liberalismo e da revolução industrial do século XIX.

De facto, dois anos depois da tragédia, a Europa e o mundo mergulhavam na vertigem da guerra que, embora com um interregno nos anos 20, continuou a sua destruidora caminhada até 1945, ao mesmo tempo que uma forte agitação social varria o poder da burguesia.

Na história recente, só outro acontecimento, o ataque terrorista às Torres Gémeas de Nova Iorque, teve um impacto equivalente no imaginário colectivo, a ideia de que a tragédia nos pode atingir onde menos esperamos, bastando apenas estar no local errado à hora errada.

A tragédia do Titanic recorda-nos também que, por mais tecnologia que nos rodeie, estamos nas mão das imprevisíveis forças da natureza.

Nascido cinquenta anos depois daquela tragédia, dou por mim muitas vezes a pensar nos sonhos violentamente interrompido daqueles viajantes da terceira classe, que sonhavam chegar à América para melhorarem as suas condições de vida, fugidos de uma Europa que, então como agora, abandonava os seus cidadãos à mais miserável existência. 

O Titanic perdurará na memória colectiva de muitas gerações e fár-nos-à reflectir sobre os muitos Titanic's a que a vida nos sujieta..

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