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quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Soares, o Fim de uma época


Se existe alguma figura que, para o bem e para o mal ( e para o “assim-assim”) marcou uma época, Mário Soares foi uma delas.

Toda a minha geração foi marcada por Mário Soares, e todos concordámos ou discordámos dele muitas vezes, em momentos importantes da nossa vida cívica.

Contudo nada justifica o ódio cobarde contra ele manifestado nas redes socias por estes dias, muitas vezes com base em mentiras justamente e factualmente desmentidas nas páginas do jornal Público (leiam o artigo de Pedro Guerreiro intitulado “Nas Redes Sociais, ódio e boatos em copy-paste”, in Público de 9 de Janeiro de 2016)

Pessoalmente cruzei-me com Mário Soares algumas vezes, embora só tenha trocado com ele algumas breves palavras de circunstância.

Assisti, em 1974, enquanto militante do PS, a vários comícios onde ele estava presente, tendo-me marcado um grande comício, realizado no então chamado Pavilhão dos Desportos, no Parque Eduardo VII, onde estiveram presentes Altamirano, líder do PS do Chile, que sucedeu a Allende e vivia então na clandestinidade, lutando contra a ditadura de Pinochet, e François Mitterrand, líder do PS francês, anos antes  de chegar à presidência da França.

Por essa época cruzei-me ainda algumas vezes com Soares na sede do PS, então em S. Pedro de Alcântara.

Tendo-me afastado do PS no inicio de 1975, ainda me cruzei com ele uma ou duas vezes na década de 70, na rua onde fica a sua casa, pois por ela tinha de passar todos os dias, várias vezes, durante uns cinco anos, para me deslocar do metro, que então ía apenas até Entre Campos, para a Faculdade de Letras

Voltei a cruzar-me com ele na década de 80, em colóquios e congressos de História promovidos pela Fundação Mário Soares.

Numa destas ocasiões houve outro momento que me marcou, que foi num encontro de História Contemporânea dedicado a Humberto Delgado, era Soares presidente da República.

No final da manhã Mário Soares, que tinha sido um dos oradores , era esperado no hall de saída da sala por um enxame  de jornalistas  que procuravam  obter um comentário sobre um tema político  (não me lembro qual) que marcava a época [o interesse não era, como devia ser, o tema do congresso!!!].
Por sua vez, eu, com mais dois amigos (um era o José Travanca, o outro, não tenho a certeza, mas penso que era o Nozes Pires) juntámo-nos num outro canto do hall para falarmos doutros temas. Entretanto, depois de obterem o que que queriam, os jornalistas abandonaram o local e o ambiente no hall acalmou.

Para surpresa nossa, quando olhámos para o lado, vimos que só lá estávamos nós e, a uma pequena distância... Mário Soares em amena cavaqueira com uma outra figura pública (não me lembro quem), sem se avistar à volta um  segurança ou um polícia. Recordo, Soares era então “apenas” Presidente de Portugal.

Já depois disso voltei a cruzar-me com Soares, em Torres Vedras, por ocasião de um colóquio (que contou com outras duas sessões onde estiveram presentes, em datas diferentes, Álvaro Cunhal e Marcelo Rebelo de Sousa). Data desse colóquio a única vez que troquei breves palavras com Soares par pedir que me autografasse uma primeira edição do seu Portugal Amordaçado.

Mas mesmo nunca estando muito próximo dele, a não ser nas circunstâncias descritas, a sua personalidades, as suas ideias e a sua atitude estiveram sempre presente nalgumas das minhas decisões políticas.

Tudo começou ainda antes do 25 de Abril, quando vi nele uma alternativa à oposição comunista. Embora tenha colaborado com o PCP a partir de 1973, em reuniões clandestinas de carácter unitário ( no seio do MDP/CDE) não aceitei uma proposta para aderir ao PCP com o argumento de eu ser “social-democrata” . A “social-democracia” em que então me revia era aquela representada por Mário Soares.

A seguir ao 25 de Abril, depois de uma breve continuação junto do MDP/CDE, aderi em Junho ao PS quando este partido deixou aquela plataforma política.

Entretanto, na voragem revolucionária que se seguiu, afastei-me progressivamente do liberalismo de Soares e, juntamente com outros membros da Juventude Socialista local, iniciei um processo de ruptura, que teve um primeiro episódio nos finais de 1974, quando tomámos praticamente de ”assalto” a sede local do PS, que ficava na A. 5 de Outubro, encostada ao restaurante “Pacar” e “fundámos” uma “tendência” “revolucionária”, a que chamámos de “MRJS” (“Movimento Revolucionário da Juventude Socialista”). A aventura durou umas horas, pois logo fomos retidos na sede pelos mais velhos e ficámos a aguardar a chegada de um representante da JS de Lisboa para tomarem uma decisão sobre nós. Ouvimos um raspanete, fomos ameaçados de expulsão e mantivemo-nos ainda por mais algumas semanas no PS.

Alguns saíram entretanto. Eu aguardei pelo resultado do Congresso de Janeiro de 1975, apostando na figura de Manuel Serra, que disputava a liderança contra Mário Soares. Saindo Soares vencedor, escrevi e enviei o meu pedido de demissão (que foi aceite só em Abril, dias depois das eleições para a Assembleia Constituinte).

Tendo saído do PS empenhei-me depois na luta política pela Associação de Estudantes do Liceu de Torres Vedras, numa coligação de várias tendências esquerdistas que concorreu contra a UEC (organização estudantil do PCP) e que vencemos com grande maioria.

Os meus companheiros da JS aderiram às mais variadas tendências (MRPP, PRP, LCI, o embrião da UDP, Anarquistas). Eu e um pequeno grupo aderimos à LUAR.

Voltaria a estar contra Mário Soares durante o 1º Governo Constitucional e na adesão à CEE. Á distância reconheço que a adesão à CEE salvou  a frágil democracia portuguesa e permitiu ao país fugir à miséria social e económica. Infelizmente, o modelo de prosperidade que essa desão podia garantir foi desbaratada durante os anos do “cavaquismo” e, já neste século, com a apressada adesão ao “euro”. Mas isto é outra história.

Voltei a divergir de Mário Soares nas eleições presidenciais de 1986, apoiando activamente a candidatura de Maria de Lurdes Pintasilgo. Contudo, acabaria por votar pela primeira vez em Soares, na segunda volta dessas eleições.

A partir de aí , embora nem sempre concordando com ele, como no seu apoio a Sócrates, ganhei um grande respeito a Mário Soares e voltei a estar com ele recentemente nas criticas às políticas de austeridade da troika e à deriva “austeritária” de Bruxelas, bem como no apoio a Sampaio da Nóvoa.

Foi tudo isso que me levou ontem a Lisboa para um último adeus a essa grande figura que marcou a evolução do país nos últimos 50 anos.

Depois de terem desaparecido Sá Carneiro, Salgueiro Maia, Álvaro Cunhal e Mário Soares, abre-se uma nova página na nossa história.













 

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Mário Soares, “anti-TINA” antes do “TINA!


TINA =  “There Is No Alternative” (“Não há alternativa”).
A frase é atribuída a Margaret Thatcher que a usou para justificar as suas políticas  para destruir o Estado Social britânico, destruir os direitos sociais dos trabalhadores do seu país e, desde então serviu de mote para lançar a aventura neoliberal que conduziu o mundo e a humanidade à desastrosa e dramática situação actual.
Por cá a frase ganhou relevância nos anos da Troika e ainda continua a ser usada pelos defensores das políticas anti-sociais então levadas a cabo para justificar a destruição do nosso já de si rudimentar e frágil Estado Social, retirar direitos socias aos trabalhadores e cidadãos e fragilizar o factor trabalho.
O “TINA” é o único programa político económico e social que é proposto aos cidadãos europeus pelo actual “politburo de Bruxelas” (BCE, Eurogrupo, Comissão Europeia, Eurofine, Conselho Europeu…) e que tem vindo a destruir alguns dos aspectos mais benéficos da União Europeia, como o Estado Social, a solidariedade político-cultural e a economia social que estiveram na sua origem.
Mas a “filosofia TINA” é muito anterior ao thatcherismo e serviu de mote e justificação a todo o tipo de barbaridades cometidas contra a humanidade ao longo dos tempos.
Nesse sentido podemos ver no percurso de Mário Soares uma coerente e precursora atitude “anti-TINA”.
Quando, em Portugal,  a situação mais confortável e segura, até para garantir carreira e emprego, era , no mínimo fazer a “vidinha” ignorando a ditadura salazarista ou, no máximo, colaborar com esta, porque “não havia alternativa”(“TINA”!!), Mário Soares colocou-se no lado certo da história sujeitando-se, durante mais de 50 anos da sua vida, a perseguições, prisões, deportação e exílio, em vez de ir à sua “vidinha” de advogado com uma carreira prometedora e rentável.
Quando, por outro lado, no fim do regime, a única oposição organizada e viável parecia ser a que era preconizada pelo PCP (o “TINA” da maior parte da oposição), Mário Soares arriscou fundar o Partido Socialista e romper um certo unanimismo no seio da oposição.
Quando, depois do 25 de Abril, e principalmente depois do 11 de Março, o futuro do novo regime parecia oscilar entre, por um lado, um regime de tipo cubano, um novo satélite soviético ou uma nova Albânia  achinesada ou, por outro lado, uma guerra civil ou uma nova ditadura militar à “Pinochet”, Mário Soares, rompendo mais uma vez com o “TINA”, defendeu a democracia e a liberdade como futuro, mesmo aliando-se muitas vezes a gente pouco recomendável, nem sempre da melhor maneira, por vezes solitário.
Já com a  jovem democracia a denotar alguma fragilidade, contra os que achavam o país condenado à pobreza e ao terceiro mundismo, como defendiam os defensores do TINA de então , e remando mais uma vez contra ventos e marés, e mais uma vez nem sempre da melhor maneira, conduziu o país para a integração na então CEE.
Foi ainda num clima que lhe era fortemente adverso, onde mais uma vez os profetas do TINA de então lhe vaticinavam uma humilhante reforma da política (já tinha então quase 65 anos), mais uma vez, enfrentando uma conjuntara que lhe era desfavorável, mesmo dentro seu partido, conseguiu o que parecia impossível, o apoio do voto comunista, e ganhou as eleições presidenciais.
Já nos últimos anos da sua vida tornou-se um critico activo e feroz do “tinismo” dominante dentro e fora de fronteiras, tendo-se antecipado a muitos nas criticas à decadência e desvirtuamento do projecto europeu e contra a política socialmente criminosa da Troika em Portugal.
Curiosamente esta última fase da sua trajectória política tem sido cirúrgica e cinicamente escamoteada pela maior parte dos comentadores televisivos e na imprensa, atitude que não será de estranhar se tivermos em conta que as direcções da maior parte da comunicação social estão nas mãos de conhecidos propagandistas do “TINA” (honra seja feita ao diário “i” que hoje publica a última entrevista de Soares, dada àquele jornal em 2015, e recorda as últimas acções políticas e publicas de Soares em defesa de uma aliança à esquerda contra a nova direita radical  neoliberal).
Até no “anti-tinismo” recente Mário Soares soube estar à frente o seu tempo.
É caso para dizer: Morra "o" "TINA", Morra!,….viva Soares!!!

Cartoon´s para homenagear Mário Soares

BêDêZine: Cartoon´s para homenagear Mário Soares: A figura de Mário Soares prestou-se ao longo da sua vida a todo o tipo de cartoon´s, nem todos favoráveis.(clicar para ver)

sábado, 7 de janeiro de 2017

Obrigado Mário Soares!

Obrigado Mário Soares, pela forma como lutou pela democracia e pela liberdade!
Obrigado Mário Soares por me ter deixado divergir de si muitas vezes na vida!
Obrigado Mário Soares pela tolerância!
Obrigado Mário Soares por ter sido sempre uma referência para a minha geração, mesmo quando estávamos em lados diferentes da barricada!
Obrigado Mário Soares pelos seus erros porque nos tornaram mais humanos!
Obrigado Mário Soares pela coragem e pelo desassombro das suas convicções!
Obrigado Mário Soares por ter razão antes de tempo!
Obrigado por ter sido Mário Soares!
Até Sempre!

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

“Fora o Arbitro”!


O mundo do futebol não é ambiente que se recomende.
Agora parece que os maus resultados, por falta de empenhamento dos jogadores com salários milionários, por treinadores mais preocupados em aparecer nos noticiários do que em trabalhar, e por dirigentes fala-barato preocupados com os negócios chorudos que podem obter no futebol, são culpa dos árbitros.

A comunicação social dá uma mãozinha para incendiar o ambiente, porque tem de garantir audiências e vender publicidade, porque tudo é negócio, em vez de fazer o que lhe competia que era investigar a origem dos milhões no futebol e fazer a pedagogia da tolerância.

Confesso que cada vez que um noticiário abre com notícias do futebol mudo logo de canal, ou fecho a televisão se o futebol abre com as mesmas declarações em todos os canais.

….E começam a irritar-me cada vez  mais as declarações incendiárias de treinadores e dirigentes de clubes contra os árbitros, sempre que perdem um jogo.
A quantidade de gente mal-educada e intolerante que frequenta o mundo do futebol, da comunicação social aos estádios, começa a ser preocupante.

A única vantagem do futebol continua a ser a de absorver as tensões neo-fascistas, canalizadas para o pobre árbitro, em vez de serem canalizadas para destruir as sociedades democráticas.

Mas também essa linha de demarcação começa a  ultrapassar o limite do razoável de forma preocupante, muito por obra e graça de uma comunicação social conivente com esses arruaceiros, dando-lhes espaço de  visibilidade.
O  espírito arrogante, intolerante e boçal daqueles que acusam os árbitros pelo mau resultado das equipas é o mesmo encontramos na mesma comunicação social e nos mesmos políticos que fazem carreira no futebol, quando acusam os professores pelo mau resultado de alunos que não estudam, quando acusam médicos pela falta de saúde de quem nunca se preocupou em levar uma vida saudável, quando acusam a polícia por serem autuados por transgredirem a lei, quando acusam o funcionário das finanças porque desmascararam o golpe de quem tento escapar ao fisco ou quando acusam o juíz por serem condenados por crimes que os próprios cometeram conscientemente.

Basta de gritar “Fora o Arbitro”… e assumam as vossas responsabilidades!

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

2017 – Vem aí o Ano de todos os sustos!


Fazer previsões sobre um novo ano é sempre um risco, mas é possível detectar alguns sinais no horizonte e o ano de 2017 inicia-se cheio se sinais, a maior parte preocupantes, mas também, paradoxalmente, nenhum ano se apresentou tão imprevisível como o que agora se inicia.

Na mira do historiador, do politólogo e do sociólogo, estamos a viver um período fascinante, mas, na mira do cidadão comum, da democracia e da liberdade, os sinais são deveras preocupantes.

O ano iniciou-se mesmo com um mau presságio, com o terrível atentado de Istambul, recordando-nos que o terrorismo e o longo braço do Daesh vão continuar a  fazer estragos por essa Europa fora.

Mas outros sinais, herdados do ano anterior, revelam-se preocupantes para o destino da Europa e mesmo da humanidade, como a eleição de Trump, que tomará posse no próximo dia 20 e se prepara para alterar profundamente todo o modo de viver em democracia e liberdade, com uma grande dose de imprevisibilidade.

Também herdados do ano anterior, temos o acentuar do poder político da Rússia de Putin e do poder económico da China e a continuação da trágica desestabilização no Médio Oriente, onde a guerra civil na Síria é “apenas” um episódio e que irá provocar o agravamento do drama humanitário dos refugiados.

Em paralelo continuamos a assistir à falência económica, financeira e politica do projecto da União Europeia, muito por culpa das elites dirigentes europeias.

Este ano pode marcar o declínio definitivo do projecto europeu, com a ascensão da extrema-direita na maior parte dos países do velho continente e o descalabro desse crime financeiro que dá pelo nome de “euro”.

Realizam-se eleições em França, na Holanda, na Alemanha e, previsivelmente, na Itália, nas quais a extrema-direita, mesmo que não as vença, vai reforçar imenso a sua influência.

As únicas boas notícias que o mundo tem é a chegada de António Guterres à liderança da ONU e  a continuação do papa Francisco à frente da Igreja, embora sem grandes poderes para enfrentarem  os perigos que se avizinham.

Por cá, a pacificação social e política que o país conheceu no ano anterior pode alterar-se profundamente este ano, por razões internas, como a elaboraçlão do orçamento de 2018 e o resultado das eleições autárquicas lá mais para o final do ano, embora a manutenção de Passos Coelho na liderança do PSD continue a ser um seguro de vida para a “geringonça”, mas também por razões de ordem externa, como a crescente instabilidade financeira e política que se prevê com a chegada de Trump ao poder, o resultado das eleições na Europa e a cegueira do politburo de Bruxelas.

Enfim, poucas vezes se assistiu a um inicio de ano tão pouco auspicioso e previsível.

Pode dizer-se que, se o “ovo da serpente” foi “chocado” no ano anterior, neste ano vamos assistir à acção da “serpente”…

Cartoon´s para despedir 2016 e receber 2017

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

“Democracia de Baixa Intensidade”


Ontem, um dos nossos comentadores mais lúcidos, José Vitor Malheiros, usou um termo que costumamos ver aplicado noutros contextos, o da guerra e o das ditaduras :“Democracia de Baixa Intensidade”.
Costuma-se utilizar a expressão “guerra de baixa intensidade” como referência a conflitos militares latentes, esporádicos, pouco intensos, muitas vezes meras escaramuças, “descontinuados”, distinguindo-se dos grandes conflitos de escala mundial ou regional, mais mortíferos e destrutivos.
Também podemos usar a mesma classificação para as ditaduras, as históricas e as actuais. Até certo ponto podemos classificar a ditadura salazarista como tendo sido de “baixa intensidade”, comparativamente como outras ditaduras da mesma família política, como o fascismo italiano, o nazismo ou o “franquismo”.
Também podemos usar essa classificação de “ditadura de baixa intensidade” para ditaduras de sinal contrário, como a cubana, se a compararmos com o estalinismo dos anos 30, o maoismo ou a ditadura norte-coreana.
Para quem sofre na pele a destruição das guerras ou a perseguição das ditaduras, sejam elas de “alta” ou “baixa” intensidade, essa classificação não fará qualquer sentido.
Invertendo uma frase popularizada, segundo a qual quem salva uma vida salva a humanidade, também, podemos afirmar que quem persegue ou mata, uma pessoa que seja, persegue e mata toda a humanidade.
Nas actuais circunstâncias parece-me pertinente a classificação de Vitor Malheiros, pois vivemos de facto uma era em que a democracia se transformou num mero pró-forma “legitimador” à qual muitos regimes autoritários e até algumas ditaduras recorrem com cada vez mais frequência. E convém até recordar que Hitler chegou ao poder por via eleitoral e que o próprio Salazar realizou regularmente as suas “eleições”, que ele considerava “tão livres como na livre Inglaterra” (sic!!!!).
O próprio comportamento das Instituições políticas europeias, todas elas (excluindo o caso do Parlamento Europeu), sem legitimidade democrática, muito têm contribuído para enfraquecer a democracia, impondo medidas ao arrepio das escolhas políticas dos cidadãos, desrespeitando decisões de governos legítimos, humilhando mesmo os povos que escolhem rumos diferentes do “austeritarismo”, apenas para favorecer um voraz e corrupto sector financeiro.
Como afirma Malheiros, a “triste verdade é que as democracias de baixa intensidade em que vivemos não possuem mecanismos que nos permitam a nós, ao povo soberano, exigir uma acção determinada mesmo quando se trata de urgências humanitárias”.
Os três pilares da democracia, “Igualdade, Fraternidade (= a solidariedade e bem estar) e Liberdade” têm vindo todos a ser arruinados pelas actuais oligarquias que se apoderaram do projecto europeu para o minarem por dentro, contra os cidadãos e o humanismo, absorvendo a agenda da extrema-direita xenófoba, da direita radical neoliberal e dos obscuros interesses financeiros, fazendo da democracia uma mera formalidade retórica.
Referindo-se à situação na Síria, mas que também podia ser aplicada à situação social e económica da Europa democrática, Malheiros classifica a nossa impotência como contrária à democracia, concluindo que essa “impotência diz-nos que nenhum poder efectivo reside no povo” e que, uma “das grandes tarefas à nossa frente é impedir que a democracia se transforme para sempre no regime da impotência dos homens e mulheres de boa vontade”.
Essa é a nossa árdua tarefa, num ano ameaçador que se avizinha.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

O Regresso dos “Sacanas sem lei”



Não se pode falar propriamente de regresso, porque eles sempre têm andado por aí e este ano tem sido fértil na sua disseminação. Mas ao longo deste mês , o último de um ano trágico, eles têm voltado a ocupar, quer as primeiras páginas dos jornais, quer, noutros casos, o silêncio conveniente da mesma comunicação social.

Mas vamos a eles:

Por cá os representantes patronais têm-se comportado de modo miserável na concertação social, usando todas as munições da chantagem ao seu alcance para travarem um mísero aumento do salário mínimo (já por AQUI demonstrámos que qualquer ordenado inferior a 700 euros é um autêntico roubo…).

Essa posição está em linha com o comportamento da “sacanagem” do politburo de Bruxelas (Comissão Europeia, Eurogrupo, Eurofin, BCE….) em relação à Grécia. Depois de terem imposto um programa de austeridade que lançou 1/3 dos gregos para a miséria, resolveram elevar o nível de chantagem sobre aquele país, talvez como aviso ao resto da Europa, suspendendo as medidas de alívio da dívida, a propósito de duas medidas propostas no orçamento da Grécia. E quais são essas medidas? Pasme-se: restaurar o 13º mês para os reformados com pensões até os …615 euros, e adiar a subida do IVA nas ilhas do Mar Egeu que têm recebido os milhares de refugiados que fogem das guerras do Norte se África e do Médio Oriente. Aliás, esta última medida está em linha com toda a hipocrisia do politburo de Bruxelas em relação à situação dos refugiados que resultaram de conflitos alimentados, por omissão, irresponsabilidade ou intervenção de faco,  pela própria União Europeia (Iraque, Líbia, Síria, Egipto…).

Uma das organizações da troika que mais se tem empenhado na chantagem sobre a Grécia é o FMI, a mesma organização liderada por uma, sabe-se agora,  criminosa, condenada em França por, no mínimo, ter sido negligente num negócio que custou aos contribuintes franceses 400 milhões de euros, sendo contudo “perdoada” de cumprir pena de até um ano de prisão, apenas porque lidera aquela organização, a principal responsável pelo desastroso programa de austeridade na Grécia e noutros países da Europa.

Mas o ano que agora se aproxima arrisca-se a ser o ano dos “grandes sacanas sem lei”, com a Russia liderada por um homem com Putin, a Turquia com Erdogan, e, acima de todos, os Estados Unidos com a liderança de um Trump, secundados por uma enxame de “pequenos” mas perigosos “sacaninhas” (Orban na Hungria, Kacynski na Polónia, Maduro na Venezuela, Eduardo dos Santos em Angola, Assad na Síria, Duterte nas Filipinas, Kim Jong-un na Coreia do Norte, sem esquecer governos como o neo-fascista da Ucrânia ou os radicais e extremistas e/ou ditatoriais  de Israel, da Arábia Saudita,  da China,  do Egipto,  do Irão…). E a situação do próximo ano arrisca-se a ficar ainda pior, podendo acrescentar mais alguns “sacaninhas” à lista, com LePen em França à cabeça, e outros candidatos a “sacanas” do próximo ano nos países nórdicos e do leste e na própria Alemanha…

Mas o candidato mais provável a “super-sacana”, a pairar perigosamente sobre todos, é Donald Trump, que tem vindo a indicadr como seus “empregados” e conselheiros numa futura administração: um tal Bannon, responsável por um site de notícias falsas da extrema-direita, para conselheiro principal do presidente; um tal Flynn, general reformado, com negócios com Putin e Erdogan, para conselheiro da segurança nacional; um tal Tillerson, presidente de uma petrolífera, amigo de Putin, como secretário de estado; um tal general “Mad Dog” Mattis, defensor de um ataque armado ao Irão, um falcão do aparelho militar norte-americano, como secretário da Defesa e líder do Pentágono; um tal Session, racista declarado, que odeia imigrantes , para Procurador-Geral; um tal Steve Mnuchin, oriundo da “máfia” das Finanças, a Goldman Sachs, para secretário do tesouro; um tal Puzder, dono de uma cadeia de fast-food conhecida por violar legislação laboral e por tratar mal os seus trabalhadores, para secretário do Trabalho; um tal Carson, que defende a eliminação de verbas para os programas socias, para secretário da habitação; um tal Perry, que defende o total desregulamento da actividade petrolífera e defensor da energia nuclear, para secretário da energia; um tal Friedman , defensor da política agressiva do governo de Israel contra os palestinianos e da construção de mais colonatos judaicos na Cijordânia, para embaixador em Israel. Por último, a cereja no cimo do bolo,um tal Pruitt, um céptico das alterações climatéricas e critico de medidas de defesa ambiental tomadas por governos anteriores, para administrar a agência de protecção ambiental.

De facto, o ano que se aproxima anuncia-se como terreno fortemente competitivo para todo o tipo de “sacanas sem lei”…( e não falámos do ISIS, dos fanáticos “rebeldes” anti-Assad, da Al-Quaeda…mas esses estão par além da sacanisse, são bandidos e criminosos a soldo de muitos daqueles “sacanas” acima nomeados…)

 

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

O Respigo da Semana - "A Histeria das Classificações" por Pacheco Pereira



“A histeria das classificações
Por José Pacheco Pereira

In revista  Sábado, 15 de Dezembro de 2016
“Existe hoje, como sinal do reducionismo e simplismo que vai crescendo na vida política portuguesa, uma verdadeira histeria das classificações. A morte de Fidel foi disso um bom exemplo, com metade do mundo a acusar quem não dizia que ele era "ditador" de ser conivente com todas as ditaduras, e a outra metade indignada com o modo como Fidel era equiparado a Pinochet e mesmo a Salazar. Depois vinha outra habitual palermice a que estamos cada vez mais habituados, a medida das ditaduras pelo número de mortos que tinham causado, uma boa maneira de atirar Fidel ao fundo, e de reabilitar a ditadura soft de Salazar. O número de mortos conta certamente para não metermos tudo no mesmo saco, e aí Hitler e Estaline são a primeira divisão, mas a contabilidade exige outros critérios, que são históricos e políticos. Por exemplo, na contabilidade de Salazar incluímos os mortos pela PIDE, ou em manifestações, mas excluímos os mortos da guerra colonial. Deixemos essa sinistra contabilidade que pouco nos diz sobre a natureza das personalidades e dos regimes, a não ser que são, regra geral pouco amigos da vida humana.

“Voltemos a Fidel. Fidel foi várias coisas; um combatente contra a ditadura de Batista e a corrupção da máfia, do jogo e da prostituição que faziam de Cuba o entreposto daquilo que o moralismo americano não queria no seu território; foi, num jogo perigoso que ele jogou plenamente, "empurrado" pelos americanos para os braços geopolíticos da URSS; passou de proponente de uma via diferente de fazer a revolução, que competia com o comunismo soviético e o chinês, para um dos mais ortodoxos apoiantes da URSS, sendo um dos primeiros, com Cunhal, a apoiar a invasão da Checoslováquia; moldou, como aconteceu também em África, o sistema de partido único a uma variante de "comunismo cubano" que implicou desalojar os velhos comunistas para o exílio nos países do Pacto de Varsóvia e substituí-los pela elite que vinha da guerrilha; conheceu conspirações americanas e tentativas de assassinato contínuas e também algumas conspirações soviéticas, e acabou órfão do poder soviético quando este ruiu em 1989. O regime cubano permaneceu num país pobre, com algumas e relevantes conquistas sociais, mas encurralado no seu futuro a que apenas Obama mostrou uma alternativa, que Trump vai querer fechar.

“Os americanos ajudaram, com uma política incentivada pelos exilados cubanos contra-revolucionários, a isolar Cuba e a consolidar o regime castrista, os russos davam -lhe petróleo enquanto puderam mas exigiam disciplina naquilo que eram os seus interesses mundiais. Fidel pelo meio ia sobrevivendo assente numa repressão que conheceu diferentes fases, mas que era sempre muito dura. Sim, Fidel foi um ditador, havia uma polícia política, prisões e execuções, praticamente até à véspera da sua retirada por doença, com o processo do general Arnaldo Ochoa como estertor final. Os Papas e Obama, alguns dirigentes latino-americanos que desafiaram o boicote americano e alguns países europeus que tinham relações históricas com Cuba, como Espanha, funcionaram como moderadores do regime com algum sucesso, mas Cuba não é uma democracia e os seus dirigentes são um misto de nostalgia guerrilheirista e de aparelhismo burocrático à soviética.

“Porém, no exterior, as "imagens" de Cuba e de Fidel traduziam as sucessivas contradições da sua história e a fixação revolucionária em Fidel e Che, permitia a gerações de órfãos de qualquer revolução aí procurar um modelo diferente. Na verdade, numa procura de legitimidade romântica, que era simbólica, mas não histórica e muitas vezes despolitizada. Que o digam os múltiplos dirigentes da direita portuguesa que foram ao beija-mão de Fidel quando este esteve recentemente em Portugal, ou mesmo o Presidente da República que foi a Cuba para ter uma photo opportunity com Fidel. Surpreendentemente não ouvi os que agora gritam por "ditador" criticar essa viagem e o encontro.

“Mas hoje só se percebe as multidões nas ruas de Cuba – e nem tudo é encenado – se tivermos em conta que, com a evolução da história, Fidel é visto cada vez mais como um nacionalista cubano e menos como um dirigente comunista. Estas mutações ocorrem na história várias vezes, e nem apagam o passado, nem deixam de ter significado no presente. Para os cubanos que conheceram a colonização espanhola, a "libertação" pelos americanos, depois a subjugação por uma aliança muito comum na América Latina entre os interesses económicos americanos e os ditadores locais, e que se sentem afrontados pelo longo embargo dos EUA, que vivem perigosamente perto do maior poder mundial, o nacionalismo é identitário. Como estamos numa Europa que acha que a identidade nacional acabou – está muito enganada –, nem sempre percebemos estes fenómenos, que a histeria das classificações coloca fora do lugar”.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Walt Disney morreu há 50 anos

BêDêZine: Walt Disney morreu há 50 anos: Passam hoje 50 anos sobre a morte de Walt Disney. Aqui recordamos alguns aspectos da vida e obra do conhecido realizador de cinema de animação e de banda desenhada (clicar para ler).

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

"JE SUIS" ALEPO...mas também sou Mossul,sou Palmira, sou.....


Apesar de não existirem notícias de fontes independentes sobre a batalha pela libertação de Alepo, não há duvida que esta cidade se tornou um símbolo (mais um…) do sofrimento humano.
De quem é a culpa? Do regime ditatorial Sírio e da Rússia que não olham a meios nem a alvos para controlarem a cidade mártir? Dos terroristas apoiados pelo ocidente que fazem as populações reféns das suas atrocidade?
 
Para isto não tenho resposta.
O que eu sei é que aquela população tem sofrido o que é humanamente insuportável, entalada entre os cegos bombardeamentos dos canhões do regime e da aviação russa e as atrocidades dos terroristas apoiados pelo ocidente e pela Turquia.
O que eu sei é que vejo imagens (manipuladas?) de alegria dos habitantes que fogem para o lado da cidade controlada pelo exército sírio, enquanto outros fogem em desespero para território controlado pelos terroristas associados à Al  Qaeda ou ao Daesh.
O que eu sei é que este é o trágico resultado da desastrosa “primavera árabe” e da tentativa de “exportar a democracia” para países como o Iraque, a Síria ou a Líbia, como se a democracia se construísse com guerras e invasões ou apoiando militarmente “oposições” formadas por fanáticos e não na vontade das populações que as sofrem no terreno.
 
O que eu sei é que existem dois pesos duas medidas e as forças apoiadas por Assad, pelo Irão ou pela Rússia são justamente condenados pelas atrocidades cometidas, mas as forças apoiadas pela  Arábia Saudita, pela Turquia e pelos Estados Unidos podem cometer as mesmas atrocidades, naquela ou noutras cidades do Médio Oriente ou do Norte de Africa, e são elogiadas porque  são combatentes da “liberdade” e da “democracia” .
Eu sou Alepo…mas também sou Palmira, também sou Mossul, também sou Tripoli, também  sou Cairo, também sou Damasco, e.... também sou……….humanidade!!!!!

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Charles Aznavour e a Piscina do Vimeiro

Nada como uma canção ou um musico para nos avivar a memória e viajar no tempo.
Quando, há alguns meses atrás, vi na televisão o anuncio televisivo do concerto de Charles Aznavour em Portugal, que teve lugar no passado Sábado no Meo Arena, dois pensamentos me ocorrerem, o primeiro de espanto, pois pensava que Aznavour já não era vivo, muito menos que ainda dava espectáculos, o segundo levou-me à infância e às tardes de verão na piscina do Vimeiro, na Maceira.
De facto, não posso recordar esses dias de verão passados à beira da piscina do Vimeiro, localizada na Maceira, sem os associar ás canções de Aznavour, que se repetiam até à exaustão, como fundo musical que animava aquele espaço.
Nessa altura, nos idos dos anos 60 do século passado, a rádio era o principal meio de comunicação que nos acompanhava durante o dia, pois a televisão, dando ainda os primeiros passos em Portugal, apenas iniciava as suas emissões no final da tarde, encerrando à meia-noite.
E na rádio de então, para além da musica portuguesa, entre o fado e a chamada musica ligeira e romântica, apelidada também, com algumas injustiças, de nacional cançonetismo, apenas se ouviam canções espanholas, italianas e francesa. Os temas em inglês eram raros, quanto muito  um Frank Sinatra,  um Louis Armstrong ou algum tem de filme famoso.
Entre os músicos franceses mais divulgados estava o nosso Aznavour. Pessoalmente nunca foi dos meus autores franceses preferidos, e só me recordaria dele depois de citar um Reggiani, um Férre, uma Piaf ou um Brel.
Mas são dele algumas das canções que mais me ficaram no ouvido, muito por culpa do ambiente musical que passava repetidamente na piscina do Vimeiro, que eu frequentava regularmente no Verão.
O meu pai era amigo do “Ferreira do Vimeiro”, que era, como se diria hoje, o “CEO” da Empresa das àguas do Vimeiro que geria também as piscinas na Maceira e o Hotel Golf Mar em Porto Novo.
Aliás, as àguas do Vimeiro e as suas piscinas não se localizam no Vimeiro, uma aldeia do concelho da Lourinhã, mas  na aldeia vizinha da Maceira, pertencente já ao concelho de Torres Vedras.
A escolha do nome “Vimeiro” foi uma questão de marketing, por causa da célebre batalha das Invasões Francesas.
Voltando ao “sr. Ferreira”, este oferecia ao meu pai e à sua família, durante o verão, entradas grátis na piscina, que eu me lembro de frequentar desde muito pequeno. Penso, aliás, que foi lá que aprendi a nadar.
A viagem de Torres Vedras era uma aventura, nas camionetas do “João Henriques”, outras vezes era uma aventura, num dos coupés do “sr. Ferreira” que muitas vezes era quem me levava ao “Vimeiro”.
O “Ferreira do Vimeiro”, era um homem bonacheirão, que, para além de ser um grande amigo do meu pai, homem da oposição e fumador impulsivo de pequenas cigarretes pretas de cheiro intenso e de cachimbo, era um entusiasta por livros e possui a maior biblioteca privada do concelho, pelo menos a maior que eu conheci, numa escritório imenso, em forma circular, com vários andares e com estantes rodeadas de varandins na sua imensa vivenda do Amial, perto do Ramalhal.
Essa biblioteca, bem como todos os elementos da sua família, tiveram destinos trágicos depois da sua morte, mas isso é outra história, que se confunde com rumores sobre a sua vida de juventude, ligada ao vício pelo jogo, que teria destruído a fortuna da família, e a sua paixão por mulheres.
Quando o conheci já era um homem que se tinha refeito desse passado e , como braço direito dos donos das àguas do Vimeiro, ganhava bem para a época, investindo muito em livros e em carros, bem como nas amizades que cultivava.
Tudo isto a propósito de Aznavour e das suas canções que se faziam ouvir até à exaustão durante os dias de verão na piscina do “Vimeiro”.
Anos mais tarde, depois da morte do meu pai, o “sr. Ferreira” deu-me um emprego sazonal, durante a época de verão da piscina do Vimeiro, em 1976, como forma de apoiar economicamente a minha família numa fase complicada.
A minha função era a de vigilante/salva-vidas, embora não houvesse muito para salvar naquelas piscinas. Por vezes ficava na bilheteira a substituir o velho porteiro, e era esse o momento mais esperado pelos míudos que estavam hospedados numa espécie de campo para “retornados”, pois eu facilitava-lhes a entrada. Mas, também nessa altura cabia-me a função de por a musica ambiente na piscina e foi então que descobri a razão de só se ouvir Aznavour.
É que só havia uma velha cacete, um cartucho maior que as cassetes vulgares de então, que reunia os êxitos de Aznavour. Claro que tentei alterar a situação, colocando musica rock, mas sem êxito, devido às queixas dos mais velho que frequentavam a piscina.
Então lá tive de repor o velho Aznavour, e, desde então até hoje, nunca mais o ouvi, pelo menos com a frequência de então.
Não sei se foi o "sr. Ferreira" que comprou aquela cassete para passar no circuito sonoro da piscina, mas se o fez, quero acreditar que o fez  porque aquelas cancões lhe recordavam os seus tempos de jovem boémio.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Na morte de John Glenn e Greg Lake: Dois icones da minha geração


Pertenço à geração que viveu a infância e o princípio da juventude a assistir a dois grande acontecimentos: o inicio da conquista do Espaço e o nascimento do rock.
 
Não deixa por isso de ser irónico que tenham morrido, praticamente em simultâneo, dois dos ícones dessas duas realidades, o astronauta John Glenn e o baixista e vocalista Greg Lake.
 
John Glenn foi o primeiro astronauta norte-americano a fazer um voo orbital à volta da Terra, em 1962, e morreu na passada 5ª feira com 95 anos.
 
Greg Lake, que faleceu um dia antes do astronauta, aos 69 anos,  foi membro dos King Krimson, em 1968 e fundou, no início dos anos 70, os Emerson, Lake &Palmer, bandas que estiveram na origem do chamado rock progressivo que tornou famosas bandas como os Pink Floyd, os Yes ou os Gentle Giant.
 
Ao tomar conhecimento destas duas mortes quase em simultâneo, dei-me conta de que pertenço a uma geração privilegiada que assistiu às primeiras viagens do homem ao espaço, que viu em directo a chegada do homem à Lua (feito que é apenas um facto história para quem tem menos de 50 anos), ao mesmo tempo que acompanhou o nascimento e evolução do rock.
 
Duas realidades que povoaram o imaginário e o crescimento de uma geração que hoje chega à idade da reforma, tempos heroicos de descoberta, inovação e criatividade.
 
Duas realidade que por vezes se tocaram, não sendo de estranhar que o álbum mais famoso do género iniciado por Lake se intitule "The Dark Side of the Moon" (dos Pink Floyd)
 
Não sendo um nostálgico, não deixo de sentir que muitas das referências do mundo em que cresci começam a desaparecer a um ritmo vertiginoso.
 
Não será o fim do "meu" mundo, mas não deixa de ser o inicio do fim de um "mundo" em que cresci, aprendi e vivi...

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

A propósito do PISA :Parabéns Colegas Professores


Não sou adepto de rankings ou de generalizações estatísticas, coisas bem diferente da análise séria e científica de dados estatísticos.
Transformar estatísticas e rankings em concursos de misses é uma das práticas a que se costumam dedicar jornalistas, comentadores e políticos.
Por isso olho para dados como os da OCDE, como os célebres PISA, com desconfiança, não negando que tenham por base um cuidado trabalho científico, mas que se prestam a generalizações demagógica e apressadas.
Mas, mesmo assim, penso que o que há a reter dos relatórios PISA agora divulgados é que Portugal passou da cauda dessa estatística educativa, onde se encontrava há 16 anos, para o topo, em  todas as áreas e de forma continuada.
Se isso revela alguma coisa é o resultado um trabalho continuado dos professores junto dos seus alunos, contra ventos e marés e apesar de ministros como Maria de Lurdes Rodrigues ou Nuno Crato ,que tão mal trataram essa classe profissional, acolitados por um bando de comentadores identificados e de políticos oportunistas que andaram a tentar destruir a reputação desses profissionais.
É caso para dizer, com orgulho, pois também pertenci à equipa até há dois anos, parabéns colegas professores!!!

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

O referendo italiano e a União Europeia: PIm-PAM-PUM, cada bola “mata” um!!!


 
 
É assim que devemos encarar mais uma estrondosa derrota eleitoral para o politburo de Bruxelas, desta vez em Itália.

Qualquer referendo ou eleição que seja apresentada como o de se decidir a favor ou contra a União Europeia, representa sempre uma derrota, sempre mais avassaladora que a anterior, para os cegos burocratas de Bruxelas.

Os cidadão europeus revelam assim  todo o seu asco pelo politburo antidemocrático que rege os actuais destinos da União Europeia e que apenas nos oferece austeridade, austeridade e mais austeridade..

Mesmo sem olhar para as consequências, os cidadãos europeus rejeitam tudo o que cheire a “Bruxelas”, mesmo que, como acontecia com o referendo em Itália, até estivessem em causa decisões justas e fundamentais para renovar o panorama político local.

O desastre só não se repetiu na Áustria porque aí estavam em causa valores mais profundas e, diga-se em abono da verdade, o candidato que se apresentava como alternativa ao candidato de um partido assumidamente nazi era um candidato de esquerda, que não vinha do velho centrão e que demonstra que é possível defender o projecto Europeu com um projecto alternativo ao neoliberalismo e à austeridade…mesmo assim não é caso para festejar, já que, naquele país, a extrema-direita já é o partido maioritário…

Enquanto o politburo de Bruxelas continuar a  reger-se pela agenda neoliberal de defender a austeridade, o sector financeiro e o euro contra os cidadãos, os seus direitos e o Estado Social, vamos a continuara a assistir ao avanço da extrema-direita populista e à derrota de qualquer projecto de “reforma estrutural”, mesmo desafiando a racionalidade das decisões, como aconteceu na Grã-Bretanha e agora na Itália…

…continuem pois cegos, surdos e mudos…e vão ver onde tudo isto vai parar…

Morreu Golib.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

O regresso dos Rolling Stones

Acaba de ser editado hoje o mais recente trabalho dos Rolling Stones (ver mais informações AQUI).
Por aquilo que já consegui ouvir, este álbum, feito de covers de famosos temas da história do Blues, é um regresso às origens e é já um dos melhores álbuns de toda a história dos Stones.
Os "velhotes" não param de nos surpreender..

Uma Praça no “centro” de Torres Vedras