quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Miserabilismo e Salário Mínimo


No sistema capitalista em que vivemos, onde tudo se compra e se vende, onde tudo tem um valor e um preço, a liberdade de cada um mede-se,  em grande parte, pelo valor do rendimento próprio disponível.

Para se ter um mínimo de vida com dignidade, é preciso poder ter uma casa minimamente confortável, alimentação e vestuário adequados, acesso à educação, à saúde e aos transportes, capacidade económica para gerir os imponderáveis do dia a dia, criar os filhos...

Para além disso, em pleno século XXI, o direito à felicidade, ao descanso, ao usufruto de bens culturais, à informação, ao tempo livre para viajar, ler, ir ao cinema ou ao teatro, assistir a espectáculos ou realizar-se pessoalmente, faz parte do mínimo exigível à condição humana.

Por isso a discussão recente sobre a questão do salário mínimo roça, em muitos casos, a total falta de vergonha de alguns e o miserabilismo de outros.

Não deixaria de ser anedótico, se não fosse trágico, tanta discussão acerca da subida de um salário mínimo, como o português, já de si miserabilista, em ….20 euros mensais, para os …505 euros .

É bem revelador da falta de ética moral dos representantes do patronato português o terem feito finca pé durante tanto tempo acerca dessa subida e a chantagem que fizeram para subirem dos 500 euros, que defendiam, para os …505 (!!!!) euros defendidos pela UGT, só aceitando essa diferença de 5 euros (mensais) em troca da redução da TSU paga pelo patronato.
O que é incrível, no meio desta discussão toda, é que essa subida seja apresentada como uma grande vitória para os trabalhadores e para o governo!!!

Não é um aumento de 20 euros num vencimento que é auferido por cerca de 15% (!!!!!) dos trabalhadores portugueses que os vai livrar de viver miseravelmente, embora seja sempre melhor que nada.

De acordo com dados conhecidos sobre os níveis de pobreza em Portugal, cerca de 50% dos pobres portugueses são trabalhadores. Ou seja, em Portugal não basta ter trabalho para fugir a situações de miséria, situação tanto mais grave quando se compara com os salários mínimo de outros países do euro, o que torna ainda mais indesculpável a conivência da Comissão Europeia com a manutenção de salários baixos em Portugal em nome da contenção do deficit e da dívida.
Tenho por mim que em Portugal qualquer salário inferior a 700 euros é puro roubo e devia envergonhar quem o paga.

Passo a explicar a minha afirmação.

Na minha zona, e nos casos que conheço, uma empregada doméstica, que efectua um trabalho duro, mas pouco qualificado, ganha 6 euros à hora, o que equivale a um rendimento mensal de …1080 euros  mensais , fazendo as contas a um horário de 40 horas semanais (quando em muitos casos esse horário ainda é de 45 horas..), ou cerca de 180 horas por mês.

Dando de barato que é diferente receber um salário fixo  e certo no final do mês, da imprevisibilidade de trabalhar à hora, dou de barato uma diferença de cerca de 2 euros no cálculo do pagamento à hora no trabalho fixo.

Sendo assim, se a hora for paga no mínimo a 4 euros à hora, quanto a mim muito baixo, mas ainda num patamar mínimo de justiça social, mesmo assim esse salário seria de ….720 euros.

Portanto, para mim, qualquer salário abaixo do patamar dos 700 euros mensais é totalmente indigno, e ter andado a travar uma a subida do salário mínimo  para os 500 euros mensais, como o fizeram alguns representante do patronato e alguns comentadores e economistas, é totalmente abjecto…


(neste quadro, a única alteração é a "subida" do salário mínimo em Portugal foi dos 485 para...os 500 euros...e continuamos no fundo da tabela, com muitas "voltas" de atraso em relação aos piores casos..)



(Por este quadro, onde se calcula o salário mínimo em relação ao salário real, isto é, ao real poder de compra, é caso para dizer que só foi pago dignamente nos primeiros tempos após Abril...)

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