terça-feira, 19 de maio de 2015

Uma Reflexão sobre a Europa e o mundo : Noam Chomsky entrevistado pela RTP


Com 86 anos, o conhecido linguista Noam Chomsky é uma das vozes mais lúcidas da actualidade.

Há uns dias atrás esteve em Lisboa e foi entrevistado pela RTP.

Nesse entrevista, reproduzida em baixo, e que apenas foi divulgada parcialmente, Chomsky percorre vários temas da actualidade, como a decadência da democracia na Europa, a sujeição da política ao sistema financeiro,  o logro da austeridade, usada para resgatar os grandes bancos, ou o Estado Islâmico.

Desta entrevista ressaltam, quanto a mim, quatro temas, a saber, a degradação da democracia no Ocidente e em especial na Europa, o funcionamento do poder financeiro e  a necessidade de se recuperar do conceito de "dívida odiosa", bem como ainda as raízes do terrorismo islâmico, entre tantos outros temas referidos nesta rica entrevista.

Chomsky denuncia a degeneração e devastação que a austeridade está a provocar na democracia europeia, sob a liderança dos oligarcas que dominam as instituições europeias e da banca alemã. Alerta par o facto de a maior parte dos cidadãos no ocidente revelarem em inquéritos de opinião o seu descrédito face aos representantes  eleitos e para o facto de hoje em dia só ser eleito ou ganhar eleições, nas sociedades ocidentais, quem tiver grandes quantidades de dinheiro, ficando refém do poder financeiro.

Por sua vez faz o historial do modo como esse mesmo poder financeiro provocou a actual crise da dívida para se salvar e fugir às suas responsabilidades. A austeridade imposta aos cidadãos euroepus, em especial aos que vivem do seu trabalho, através da redução dos seus salários e pensões, da degradação dos seus direitos sociais e do aumento dos impostos tem servido para resgatar esse mesmo poder financeiro, na Europa dominado pela banca alemã, ao mesmo tempo que, desde que se instalou o neoliberalismo a partir dos anos 80 do século passado (neoliberalismo que ele considera como contrário ao próprio capitalismo), a dívida do poder financeiro tem sido transferido para os cidadãos e para os Estados, à custa da destruição das obrigações sociais e da degradação do factor trabalho, a uma média de 80 mil milhões de dólares por ano.

É assim que, segundo ele, faz cada vez mais sentido recuperar o conceito de "dívida odiosa", que foi usado pelos Estados Unidos, no século XIX, para apoiar Cuba que, após se ter libertado do domínio colonial espanhol com a ajuda da nação norte-americana, se recusou a pagar a sua colossal dívida à Espanha, argumentando que a dívida tinha sido contraida pelos colonizadores espanhóis e não pelo povo de Cuba, objectivo que foi alcançado e que faz parte do direito internacional.

Se os povos do sul da Europa se unirem podem recuperar esse conceito contra Bruxelas e a banca alemã, pois a dívida dos Estados do Sul não foi contraida pelas populações mas pelas sua elites políticas, que tomaram as decisões erradas que levaram à crise para obedecer e agradar aos "donos" de Bruxelas e da banca, nomeadamente a alemã, que, como já vimos, através da austeridade tem vindo a resgatar os criminoso  sistema financeiro à custa da degradação da vida dos cidadãos europeus.

Chomsky faz ainda o historial do terrorismo islâmico, começando por alertar para o duplo significado das palavras (não só "terrorismo", como "democracia", "liberdade". "mercados"), o significado literal e aquele que é usado pela propaganda dos ideólogos neoliberais.

Esse tipo de terrorismo tem origem naquele que ele considera o maior crime das últimas décadas, a invasão do Iraque, e alerta para o facto de esse terrorismo ter também por detrás aquele que ele considera um dos estados mais criminosos de sempre, a Arábia Saudita, principal aliado do ocidente no Médio Oriente.

Uma voz lúcida, no pantanal opinativo que nos domina, a ver em baixo na integra:

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