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domingo, 26 de setembro de 2021

Abstenção e “norte-coreanos”


Hoje é dia de eleições.

O direito ao voto, pelo menos neste país, foi conquistado com muitas lutas e incompreensões, muitos foram parar prisão nessa luta.

Em muitos países, por esse mundo fora, muitos continuam a lutar por esse direito, outros pelo direito de eleições que não sejam fraudulentas.

Hoje, em Portugal, apresentam-se a eleições partidos que vão, da direita mais radical à esquerda mais radical e, em autárquicas, muitos independentes.

Por tudo isso, porque somos dos poucos países, por esse mundo fora, onde o leque de opções é vasto, onde, apesar de todos os problemas, existe liberdade de informação, e por respeito por todos aqueles que por cá lutaram, e , “lá fora”, continuam a lutar, com risco da própria vida ou de prisão, por esse simples acto de depositar em urna um papelinho com a nossa escolha, devemos recusar a abstenção.

Aqueles que veem com a desculpa de que “isto é tudo igual”, são os mesmos que passam a vida a “atirar” com a cassete da “Coreia do Norte” de cada vez que se dá uma opinião que não lhes agrada.

É caso para dizer que, esses, sim, é que “deviam ir” viver para a “Coreia do Norte”, para saberem o que era não poderem escolher ou votar.

A não ser por motivo de força maior, só se abstêm anarquistas (os únicos cujos motivos até compreedo), extremistas e defensores de regimes, cada vez em maior número, onde as eleições, ou são uma farsa, ou, simplesmente, não existem.

Por isso, votem em branco, anulem o voto, votem naqueles que eu detesto, votem no centro ou nos extremos…mas votem.

Votar é uma questão de respeito e…de civilização.

terça-feira, 21 de setembro de 2021

Autárquicas- O Tabuleiro Torriense


Há muitos anos que não se assistia, em Torres Vedras, a umas eleições autárquicas, tão disputadas.

Logo no início marcada pela tragédia, a morte dramática do ex-presidente Carlos Bernardes, que já tinha sido apresentado como recandidato e cabeça de lista do PS a estas eleições, assistiu-se também ao aparecimento de uma candidatura “independente” bastante forte, capaz, pela primeira vez desde os tempo da liderança de Ana Maria Bastos nas listas do PSD, de se bater de igual por igual com o PS, que lidera a Câmara de Torres Vedras desde 1976.

O PS viu-se obrigado, por força da trágica circunstância do falecimento de Carlos Bernardes, a alterar a sua candidatura à Câmara, liderada, pela primeira vez, nesse partido, por uma mulher, Laura Rodrigues, a qual, devido à situação, e seja qual for o resultado final, tornou-se a primeira mulher presidente desta Câmara.

Inicialmente a situação do PS parecia muito periclitante, devido ao desgaste dos anos e do próprio Carlos Bernardes, embora tenha recuperado alguma credibilidade na forma como enfrentou a crise provocada pelo Covid.

Com a renovação forçada da sua lista, beneficiando eventualmente do efeito dramático da situação vivida, a candidatura do PS, liderada por Laura Rodrigues, parece ter recuperado a iniciativa e, agora, o máximo que os seus opositores talvez consigam, pode ser retirar a maioria absoluta a esse partido, situação um pouco mais complicada na Assembleia Municipal, devido ao peso numérico da representação dos Presidentes de Freguesia, onde se espera que o PS mantenha a maioria.

Dizemos “talvez”, porque é uma incógnita o resultado nas urnas da dinâmica crescente da candidatura independente “Unidos por Torres Vedras”, a única capaz de se bater por uma vitória eleitoral . Pode até acontecer que consiga derrotar o PS na Câmara, mas muito dificilmente baterá esse partido na Assembleia Municipal, devido às circunstâncias, acima mencionadas.

Recorde-se que, não sendo a primeira vez que temos uma candidatura independente, esta ter surgido de uma importante cisão no sei do partido dominante na autarquia, mas alargando a sua influência à esquerda (PCP) e à direita (PSD). Esta abertura, a razão da força desta candidatura, pode ser, a prazo, a sua própria fraqueza, pois, quando se tiverem de tomar posições mais estruturais e mais politicas no futuro, virão ao de cima as divergências na visão do mundo de algumas das suas principais figuras. Mas esse não é o problema do momento e, de facto, esta é, pela primeira vez, em muitos anos, uma candidatura que pode unir o voto “útil” anti-PS ou dos eleitores cansados e descontentes com um tão longo domínio de um único partido no concelho.

Não deixa também de ser significativo, mais uma característica original deste acto eleitoral, que o PSD, pela primeira vez, não conte como alternativa de peso ao PS. Além de ter dado um “tiro no pé” ao apresentar, pela primeira vez na sua história, um candidato estranho à vivência e à realidade torriense, é um dos partidos que vais sair mais desgastado no seu eleitorado pela grande quantidade de novas alternativas ao centro e à direita. A única novidade pode ser a recuperação da freguesia de Campelos, onde se candidata aquela que podia ser a figura mais forte, e a mais natural, para uma candidatura camarária

Além de perder eleitores devido à opção que tomou na escolha do seu candidato, vai perder muitos votos para o “Unidos Por Torres Vedras”, mas também para uma candidatura bastante forte da direita, embora com apoio mais abrangente, a candidatura do Aliança, liderada por Paulo Bento, um dissidente do PSD, uma das figuras mais respeitadas e mais experientes dessa área, e aquele que, nas suas intervenções públicas durante esta campanha, se tem revelado mais consistente, mais bem preparado, mais original nas suas propostas, mostrando um grande conhecimento das realidades do concelho. O resultado da Aliança pode revelar-se, assim, outra grande surpresa nestas eleições.

Um outro partido que pode retirar votos à aliança PSD-CDS é o Chega, embora apresente uma candidatura muito fraca, com pouco conhecimento da realidade torriense, procurando apenas repetir o êxito que o seu líder André Ventura obteve nas presidências, como o segundo mais votado neste concelho. Contudo, a história hoje é outra e, pensamos, o Chega vai ter um mau resultado no concelho, embora possa contribuir para o previsível decréscimo eleitoral da candidatura “Afirmar Torres Vedras” (PSD-CDS-PPM).

À esquerda, a grande novidade vem da candidatura à presidência do Bloco de Esquerda, um bem preparado Jorge Humberto, uma das candidaturas mais credíveis das que se apresentam nestas eleições e neste concelho. Uma grande vitória seria conseguir que esse partido elegesse, pela primeira vez em Torres Vedras, um vereador.

Já a CDU não apresenta grandes novidades. Apesar de ter sondado vários candidatos, que pudessem reforçar a sua influência, acabou por apostar na continuidade. Curiosamente, onde a CDU apresenta candidatos mais fortes, e onde pode ser uma surpresa, é a nível de algumas freguesias, como a possibilidade de recuperar a Carvoeira, de obter um bom resultado em Runa, no Ramalhal e em A-Dos-Cunhados.

Perante este quadro, aqui revelamos a nossa opção eleitoral: Para a Câmara votamos no candidato do BE; para a Assembleia Municipal votamos no candidato da CDU; para a Assembleia de Freguesia, ainda estamos indecisos (entre CDU, BE e a candidata do Unidos por Torres Vedras).

Como previsão, pensamos que Laura Rodrigues vais ser a primeira mulher eleita para presidente, embora sem maioria absoluta, mantendo o PS a maioria absoluta na Assembleia Municipal.

Nas freguesias, vamos assistir a algumas mudanças, a favor do PS na Freira e na Ponte do Rol, do PSD em Campelos, e da CDU na Carvoeira, sendo uma grande incógnita o que se vai passar na grande freguesia urbana, disputada entre o PS e o Unidos Por Torres Vedras.

Gostávamos que a Câmara fosse mais diversificada, com vereadores eleitos de entre  o BE, a CDU, a Aliança e Unidos por Torres Vedras.

sexta-feira, 10 de setembro de 2021

Um Adeus a Jorge Sampaio, que é também um "Obrigado!"

 


Faleceu hoje o ex-presidente da República Jorge Sampaio.

A sua importância histórica vai muito para além do seu cargo presidencial.

Foi uma figura de referência na oposição ao Estado Novo, primeiro nas lutas estudantis de 1962, depois como advogado de defesa de presos políticos e como candidato nas listas da oposição, pelo CDE, em 1969, numa das raras ocasiões em que a oposição foi até às urnas, apesar da fraude eleitoral generalizada que impediu a eleição de deputados da oposição.

Depois do 25 de Abril, foi fundador do MES, secretário de estado do IV governo provisório, apoiante do Grupo dos Nove, aderindo ao PS em 1978 e sendo eleito deputado em 1979.

Ocupou vários cargos políticos de relevo nacional e internacional, quase todos ligados à defesa dos Direitos Humanos e à causa de um urbanismo sustentável.

Eleito Secretário Geral do PS em 1989, concorre à Câmara Municipal de Lisboa em coligação com o PCP, ganhando a maioria absoluta e batendo Marcelo Rebelo de Sousa, sendo reeleito em 1993, desta vez também com o apoio da UDP e do PSR (que viriam a fundar o BE), antecipando assim o que veio a ser, quase duas décadas mais tarde, a solução governativa conhecida por “geringonça”.

Deixou o cargo em 1995 para se candidatar à presidência da República, enfrentando Cavaco Silva, que derrotou facilmente, voltando a ter o apoio indirecto do PCP, por desistência do seu candidato Jerónimo de Sousa. Foi reeleito em 2006.

Foi o único político que conseguiu derrotar Cavaco Silva, não deixando de ser curioso que, em circunstância diferentes, derrotou os dois presidentes que lhe sucederam no cargo (Cavaco e Marcelo).

Como presidente da República governou num dos períodos mais prósperos, mais esperançosos e dos  mais consensuais vividos em democracia.

Contudo, cometeu no final do seu mandato um dos seus piores erros políticos, embora não intencional e motivado pelas circunstância, que foi o de facilitar a ascensão à liderança do PS e do país de José Sócrates.

Mesmo assim, comparando o seu mandato com o do seu sucessor, um Cavaco Silva ressabiado, intolerante e faccioso, a sua presidência corresponde a um dos períodos mais brilhante da nossa democracia.

quinta-feira, 5 de agosto de 2021

Heróis Olímpicos


Ainda faltam alguns dias para terminar as Olimpíadas de Tóquio, e a delegação olímpica portuguesa já conseguiu o melhor resultado de sempre, em participações olímpicas.

O atleta do Benfica, o luso-cubano Pedro Pichardo, obteve para Portugal, esta madrugada, a 5º medalha de ouro do desporto nacional em Jogos Olímpicos, a 4ª medalha deste ano, record de medalhas em participações portuguesas, iniciadas nos Jogos Olímpicos de Paris, em 1924.

Mas não se pode exigir tanto aos nossos atletas olímpicos, desprezados, esquecidos e abafados pelo domínio esmagador das “futebolês” , ao longo do resto do tempo.

É, aliás, significativo que uma rede portuguesa de canais televisivos, que tem “desporto” no nome, quase só se refira em rodapé às actuais olimpíadas, quando, pelo contrário, enche a sua programação com Futebol, dando mais destaque a um jogo entre solteiros e casados numa remota aldeia da Cochinchina, com direito a transmissão directa, do que à participação de atletas olímpicos portugueses.

Por isso, a simples participação de atletas portugueses em jogos Olímpicos já é, só por si, com ou sem medalhas, uma honra e uma conquista.

E para os detractores, que passam a vida a exigir resultados a esses heróis, como alguns comentadores, só lhes fazia uma pergunta: será que algum deles, alguma vez na vida, na sua actividade profissional, ou no seu hobby, se “classificou” entre, já não digo os 10 ou os 20 melhores do mundo, mas, no mínimo, entre os “cem melhores”?

É ainda significativo que, em apenas 15 dias, o conjunto de atletas olímpicos já tenha conseguido melhores resultados que o futebol português ao longo da sua história.

E já agora, para quem gosta de comparações absurdas, para justificar o seu saudosismo do Estado Novo, já podemos comparar 48 anos de “fascismo” com 48 anos de democracia, em participações Olímpicas: até 1974, Portugal tinha conseguido um total de 2 medalhas de prata e 4 de bronze (sem esquecer mais 1 de bronze na primeira participação, ainda durante a República); desde as Olimpíadas de 1976, até às actuais, Portugal obteve 5 medalhas de ouro, 7 de prata e 10 de bronze…

Estão de parabéns os atletas Olímpicos, que, remando contra a maré da falta de condições, da falta de apoio, pelo menos comparativamente com o Futebol, e da falta de divulgação dos seus feitos, continuam a trazer para Portugal vitórias e participações honrosas, sempre entre os melhores.

domingo, 25 de julho de 2021

OTELO – Revolução, Ilusão, desilusão


Goste-se ou não, apesar de todos os erros e do seu percurso controverso, devemos a Otelo a liberdade e a democracia.

Como todas as grandes personagens da história, existe um lado bom e outro menos bom na sua personalidade.

Personalidades como Otelo são raras, pela forma genuína como se afirmam na vida, pelo entusiasmo como assumem as convicções e pela forma como se retiraram do primeiro plano.


Para a história fica o Otelo militar da Guerra Colonial, o Otelo  do 25 de Abril, o Otelo da acção controversa  do Copcon  e o Otelo das FP “25 de Abril”, este o momento mais negro do seu percurso, apesar de ele sempre ter negado a ligação a este grupo terrorista , ficando sempre a dúvida sobre o seu real envolvimento nessa lamentável aventura.

Contudo, é bom recordar que, apesar de o negar, acabou condenado por essa eventual ligação ao grupo terrorista de extrema- esquerda, cumprindo 5 anos de prisão, antes de ser amnistiado.

O mesmo não se pode dizer dos terroristas da extrema-direita, do ELP e do MDLP, com acções bem mais violentas e prolongadas no tempo, acabando os seus actos por nunca serem julgados, continuando muitos dos seus membros  por aí, a vangloriar-se dos seus crimes, alguns bem instalados em partidos da direita e assumindo, até, funções de destaque na vida democrática.

Pessoalmente os meus sentimentos em relação a Otelo foram-se modificando ao longo do tempo.

 Primeiro vendo nele o líder carismático de uma revolução genuína e utópica, depois reconhecendo a ilusão dessa utopia e, finalmente, a desilusão pelo seu crescente radicalismo, que o terá, no mínimo, aproximado dos terroristas das FP-“25 de Abril”, acção que muito contribuiu para denegrir uma data libertadora.

De tudo, sem o esquecer os seus erros e as ilusões que alimentou, ficará sempre o Otelo do 25 de Abril, um dos muitos a quem devo a Liberdade e a Democracia

quarta-feira, 14 de julho de 2021

Cuba Livre


Hoje é o dia mundial da liberdade de pensamento.

Neste mesmo dia, em Cuba, o poder reforça a repressão sobre os que defendem essa liberdade de pensamento, prendendo e reprimindo manifestantes, impondo a censura, desligando a internet.

Não podemos defender a liberdade (ou as “liberdades”) em Portugal e tentar justificar ou defender que ela seja negada em Cuba, com as mais variadas desculpas.

Uma das desculpas é a defesa dos “feitos” do regime a nível social, principalmente na saúde e na educação, como contrapartida para uma “aceitável” falta de liberdade .

Por cá, vimos, recentemente, no “congresso das direitas”,  argumentos parecidos para desculpar o salazarismo, enaltecendo os seus “feitos” económicos.

Claro que não podemos negar o efeito nefasto de um criminoso embargo de 60 anos, imposto pelos Estados Unidos ao seu vizinho, embargo que, mais do que penalizar as elites dirigentes, penalizou o povo cubano, servindo ainda de alibi para a retórica do regime.

Sabemos que muitos políticos norte-americanos e ocidentais usam dois pesos e duas medidas, não negando o apoio a regimes autoritários e ditatórias, muitos deles bem mais sangrentos do que o Cubano, como aconteceu no passado com o apoio de Saddam Hussein ou a Ossama Bin Laden, antes de estes lhes fugirem do controlo, ou, actualmente,  à Arábia Saudita e a Israel, entre tantas outras “ditaduras convenientes”.

Também não podemos negar a falta de credibilidade de uma oposição dominada pelos extremistas de Miami, sedenta de vingança, muitos deles ligados ao crime organizado e entusiastas apoiantes de Trump.

Tudo o que essa gente tem para oferecer, como alternativa, é o apelo a uma intervenção militar norte-americana.

Esperamos que os Estados Unidos e o  “Ocidente” tenham aprendido com a forma desastrosa como intervieram militarmente do Afeganistão, no Iraque, na Líbia e na Síria, em nome da “defesa da democracia e da liberdade”. O resultado está à vista.

Esperamos também que a preocupação ocidental em relação aos cubanos, se o regime cair,  não seja a mesma que tiveram com a Rússia depois da queda da União Soviética, que foi a de humilhar os “vencidos” em vez de os ajudar, e, assim, “criaram” um Putin.  

Seja como for, têm de ser os cubanos, os que vivem em Cuba e os exilados, a resolver o problema do seu país, devendo o Ocidente, em vez de acicatar ódios, tentar mediar as partes, para conseguir ainda uma transição pacífica para a democracia, que salve as bandeiras sociais do regime, como a saúde e a educação, evitando uma política de “terra queimada”, o que conduziria Cuba a uma nova tragédia.

Mas nada disso desculpa a forma como o regime Cubano trata o seu povo, quando este exige liberdade, democracia e respeito.

Em último caso, a culpa pela desgraça de um povo ou de um país, é sempre dos seus governantes, sejam eles legítimos ou não.

Esperemos que, antes de agravar a repressão ou provocar um banho de sangue, o regime tenha um momento de discernimento para ouvir as justas reivindicações do seu povo, porque, apesar de tudo, Cuba não é a Coreia do Norte.

quarta-feira, 7 de julho de 2021

“Filas” e “Queixinhas”

 

Um dos desportos favoritos dos portugueses é fazer queixinhas, e, então, se lhes puserem um microfone à frente, é ver o entusiasmo com que se queixam, aproveitando bem os “15 minutos de fama” que as "queixinhas" lhes rendem.

Noutros tempos davam “bom uso” a esse “desporto”, transformando a “queixinha” em bufaria, nos tempos da Inquisição ou da PIDE.

Agora sobra-lhes o espaço que a comunicação lhes dá, até porque a “queixinha” dá audiência.

A mis recente “queixinha” dos “portugueses de bem” versa o tempo de espera na fila das vacinas.

Os mesmos portugueses, que são capazes de, alegremente e em festa,  acampar à porta e esperar em filas intermináveis junto de bilheteiras, para adquirirem ingressos, pagos com dezenas ou centenas de euro,  para os festivais ou para os jogos de futebol, são os mesmos que agora se insurgem, por terem de esperar uns dois pares de hora para levarem uma vacina que pode salvar a sua vida e a dos seus, e, a prazo, salvar a economia.

Ainda por cima, quando tivemos o vice-almirante Gouveia e Melo, antecipadamente, e com um pedido de desculpas, a explicar porque eram inevitáveis essas filas, neste momento, e que a alternativa seria atrasar o processo de vacinação.

Se é grave e indecente o aproveitamento político dos “queixinhas”, principalmente pelos mesmo que, em tempos, mandaram médicos e enfermeiros emigrar e cotaram nos serviços de saúde, sem se ouvir, então, um protesto de uma ordem profissional, é igualmente grave que, uma comunicação social, havida de audiências, promova os queixinhas em figuras públicas.

Entre “perder” umas horas numa fila, para ser vacinado, ou perder umas horas à porta da urgência de um hospital, ou dias em coma induzido nos cuidados intensivo, seria bom que os “queixinhas” pensassem duas vezes, antes…de fazerem “queixinhas”.

Mas...lá estou em, também...a fazer "queixinhas" dos "queixinhas" !!??

segunda-feira, 5 de julho de 2021

Ainda a propósito do “branqueamento da História” no Congresso do MEL (2)- As falácias de Nuno Palma.


O tão propagandeado “congresso das direitas”  (mais “fel do que MEL”), pouco mais serviu do que para revelar  a pobreza banal e bolorenta das ideias dessa família política portuguesa, incapaz de mobilizar  e inovar, mas revelador do seu desespero perante a possibilidade de se verem arredados do poder nos próximos anos.

Esse desespero terá contribuído para o radicalismo de algumas comunicações, destacando-se, no meio da pobreza geral,  pela retórica cuidada, inteligente e agressiva, a intervenção de Nuno Palma (ver reprodução em baixo).

Tratando de um tema interessante, “as causas míticas da divergência económica portuguesa”, apresentou algumas reflexões a considerar e que, caso orador não se tivesse deixado levar pelo ambiente revanchista dominante, até podiam ter enriquecido evento tão medíocre.

O problema foi quando começou a fazer comparações absurdas entre o Estado Novo e o Regime Democrático.

Partindo de uma verdade histórica, os níveis de crescimento económico observáveis na década de 60, até hoje inigualáveis, procurou extrapolar, de um simples gráfico estrutural, baseado no PIB, sem a devida contextualização, uma certa “superioridade moral” da economia do Estado Novo em relação ao actual regime.

Entusiasmado pela sua aparente “descoberta” e “novidade” (há anos que Fernando Rosa e outros historiadores falam do tema), e pela reacção da plateia, acabou a debitar uma série de falácias, meias-verdades e bombásticas frases propagandísticas, que fizeram estalar o verniz da aparente “objectividade cientifica “da sua “verdade”.

Sobre a correcta análise e contextualização desse gráfico, já outros fizeram a desmontagem do “mito” dessa comunicação de Nuno Palma ( José Pacheco Pereira , “A indústria de falsificação do Estado Novo”, in Público de 5 de Junho de 2021; Fernando Rosas, “O Milagre da economia sem política”, in Público de 20 de Junho de 2021;  Luís Reis Torgal, “E se só a Ciência for revolucionária”, in Público de 28 de Junho de 2021; António Barreto , “Sim, é verdade”, in Público de 3 de Julho de 2021).

Como escreveu Pacheco Pereira noutro texto, usando-se o mesmo estratagema também se conseguia facilmente demonstrar a “superioridade” do modelo de “desenvolvimento económica” do regime hitleriano em relação à República de Weimar ou do Stalinismo em relação ao regime czarista ou  da União Soviética em relação aos primeiros anos de democracia Russa.

Como se sabe, usar a evolução do PIB, a frio, sem contextualização, para comparar níveis de desenvolvimento, é falacioso e tem sido motivo de debate aceso entre economistas e historiadores. Hoje, aliás, têm sido ensaiadas outras formas de medir o desenvolvimento, que distinga o mero crescimento do verdadeiro desenvolvimento económico, que tem de ser também social, humano e cultural, como acontece com o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH)  ou como o índice Gini, que mede a desigualdade económica.

Ambos esses índices não estão isentos de críticas, como sucede com qualquer tipo de rating, que analise situações macroeconómicas, pois, não se pode resumir as complexas relações humanas e socias, a base do estudo histórico e social,  a meros “campeonatos” estatístico.

Muitas vezes o PIB compara economias que "produzem ricos" com economias que produzem riqueza, não distinguindo a desigualdade na distribuição dessa riqueza ou os métodos,muita vezes desumanos e antisocias como ela é alcançada, o que, aliás, acontecia no Potugal doa anos 60.

Mas o mais grave e falacioso da comunicação de Nuno Palma não foi só essa questão.

Uma das frases bombásticas do orador, levado provavelmente pelo ambiente favorável de uma plateia rendida ao radicalismo, foi a de dizer que “desde o 25 de Abril Portugal é um regime de Esquerda”, considerando que, mesmo “a única excepção duradoura é a década de Cavaco Silva com um programa até social-democrata” e que “a nível europeu isto até é centro-esquerda”.

E começa aqui o desfilar entusiástico e delirante de falácias.

Até Cavaco é de “esquerda” (“social-democrata”) e assim arrumam-se, sem hipótese de argumentar, 48 anos de democracia, ideia que pode ser facilmente desmontada consultando a lista e o tempo dos governos, democraticamente eleitos, convém recordar, desde o 25 de Abril.

Dando de barato que o PS sempre governou “à esquerda” e que todos os governos provisórios  liderados por Vasco Gonçalves (com ministros do PSD e PS) foram dominados pela esquerda, contabilizamos 286 meses de governo “à esquerda” e 272 à “direita”, mais 29 meses de governos “ao centro”, considerando como centrista o 1º governo provisório, com Sá Carneiro como ministro, o governo de Pinheiro de Azevedo, dominado pelo PSD  e pelo PS, e os governos de Nobre da Costa, Mota Pinto e Maria de Lurdes Pintasilgo, aquele argumento cai pela base.

Recorde-se, aliás, que o “esquerdista” Cavaco Silva chefiou o governo durante 120 meses, grande parte em maioria absoluta.

Recorde-se que a “direita”, coligação entre CDS e PSD, governou também em “maioria absoluta”, 40 meses com a AD e 77 meses com Passos Coelho…ah! mas esta gente, para Palma, é suspeita de governar em “social-democracia” ou ao “centro-esquerda”!!

A única maioria absoluta à “esquerda” aconteceu como o primeiro governo de Sócrates, cerca de 48 meses, um governo, aliás, muito bem recebido por alguns pensadores da direita neoliberal, exactamente por tomar muitas das medidas antissociais preconizadas pelos “Nunos Palma” da época…

A ideia de Palma é quase tão absurda como a cassete das “políticas de direita” do PCP.

Mas Palma vai mais longe nas suas atoardas. Em certo momento, tomado de delírio, vem em defesa do Chega. Porque ilegalizar o Chega? (nós também não concordamos com essa intenção). Segundo ele existem razões, sim, é para ilegalizar a “extrema-esquerda”, o BE ou o PCP, por exemplo, até porque, ao contrário do Chega, “o PCP é um partido anti-democrático” e insurge-se contra o museu do Forte de Peniche que , citando o programa da instituição, é “uma homenagem aos presos políticos que lutaram pela democracia” o que para Palma são “os tais do PCP que lá estiveram presos” (aplauso entusiásticos).

É provável que a maior parte dos presos políticos no Estado Novo, nomeadamente os que estiveram presos em Peniche, fossem do PCP, mas a afirmação ignorante e falaciosa de Palma ignora tantos presos políticos, das mais variadas tendências, que por lá passaram, bem como as razões do papel histórico do PCP no combate à ditadura, afirmação grave feita por um professor universitário que se diz objectivo e contra “as ideologias”.

A forma como ele enfatiza esta parte da sua intervenção, e o entusiasmo que ela provocou entre a assistência, demonstra que entre a assistência há muita gente que acha que, se eram “comunistas”, então até mereceram a prisão!!

Outra afirmação de Palma que mereceu aplausos entusiásticos da assistência: “a extrema-esquerda controla a educação”.

E “extrema-esquerda”, para ele, é o Bloco de Esquerda, o PCP e até sectores  do PS, classificação tão absurda, dita por um professor universitário, como classificar o PSD, o CDS  ou a Iniciativa Liberal como de “extrema-direita”.

E em que é que Palma fundamenta a sua argumentação? na citação cirurgica de uma parte do programa oficial de História do 12º ano : “…reconhecer que [o Estado Novo] …impediu a normalização económica e social do país” e, outra  falácia, como o demostrarei mais à frente, uma sugestão de trabalho sobre o Holocausto, “associando o Holocausto ao Estado Novo”, uma situação que, se fosse verdadeira, eu também consideraria absurda.

Insurge-se ainda com a bibliografia dominada por autores “marxistas”, como Hobsbawn e Fernando Rosas.

Fiz aquilo que Palma recomenda, fui consultar o programa disponível na página do Ministério da Educação e…até eu fiquei espantado com a falta de seriedade das afirmações de Palma!!!:

No Módulo 7, “Crises, embates ideológicos e mutação cultural na Primeira Metade do Século XX”,  o “conteúdo” 2.5 tem como título “Portugal: O Estado Novo” refere, entre outros, um conteúdo especifico sob a seguinte designação: “uma economia submetida aos imperativos políticos: prioridade à estabilidade financeira; defesa da ruralidade; obras públicas e condicionamento industrial; a corporativização  dos sindicatos; a política colonial”.

No final deste módulo refere como “aprendizagem a reter”, reconhecer “ que, no Estado Novo, a defesa da estabilidade  e da autarcia se apoiou na adopção de mecanismos repressivos e impediu a modernização económica e social”.

Esta “prendizagem” não se refere a todo o período do Estado Novo, mas à época antes do final da 2ª Guerra. Palma interpretou-a como uma “aprendizagem” mais generalista porque, ou lhe convinha a meia verdade, ou não reparou que o Estado Novo volta a ser analisado no Módulo 8, referente agora ao período do pós guerra, onde se estuda “Portugal do autoritarismo à democracia”, referindo-se no ponto 2.1 deste capítulo o “imobilismo político e crescimento económico do pós-guerra a 1974”. Repito : “CRESCIMENTO ECONÓMICO”!!!!

E neste ponto indicam-se como “aprendizagens relevantes”, relacionar “ a fragilidade da tentativa liberalizadora e da modernização económica do marcelismo com o anacronismo da sua solução para o problema colonial” e “reconhecer a modernização da sociedade portuguesa nas décadas de 60 e 70, no comportamento demográfico, na modificação de estrutura da população activa e na relativa aproximação a padrões de comportamento europeus”. Sublinho : “RECONHECER A MODERNIZAÇÃO (…) NAS DÉCADAS DE 60 e 70”.

Em relação à sugestão de trabalho sobre o Holocausto, esta, no documento, refere-se a outro tema do módulo 7, apesar de estar referido na mesma página do conteúdo 2.5, situação que se deve à organização das páginas, divididas em 3 tabelas, onde as duas primeiras, “conteúdos” e “conceitos”, estão relacionadas entre si e a terceira, com sugestões de trabalho, faz a listagem de todas as sugestões para todo o módulo. Um professor/investigador não ter reparado nisto e ter feito disto tema da sua comunicação é revelador da “competência” do mesmo em analisar documentos.

Pelo contrário, nesse documento, até surgem como sugestões de leitura, os discurso de Salazar.

Podemos discordar de certos conteúdos ou da ausência de outros, mas não existe no programa qualquer vestígio evidente do controle da educação pela "extrema-esquerda".

Por último, a infeliz referência ao “domínios marxista” da Bibliografia: de facto vem indicadas 3 obras de Hobsbawn, entre elas “A Era dos Extremos”, e 2 de Fernando Rosas, uma delas o “Dicionário de História do Estado Novo” por ele dirigido, mas com a colaboração de autores das mais variadas tendências, ao lado, aliás, dos 3 volumes do Dicionário de História de Portugal, relativos ao Estado Novo, coordenados por António Barreto e Filomena Mónica. Nas dezenas de sugestões de leitura também se incluem obras de “perigosos marxistas” como François Furet, José Mattoso, José Carlos Espada,Nuno Valério, José Hermano Saraiva, Joaquim Veríssimo Serrão, Braga da Cruz, A.H. de Oliveira Marques, Fátima Patriarca, António José Telo ou António Costa Pinto, entre outros.

Quanto muito, podemos criticar uma certa desactualização dessa bibliografia, mas não existe, na que é porposta, qualquer sinal de "domínio marxista".

Pela reacção do público de "direita" a esta comunicação, ficámos a "saber" que, na falta de um projecto económico para Portugal, alternativo ao mítico "modelo socialista", só têm para oferecer um "modelo económico" como o  do Estado Novo...sem Salazar (...eventualmente...sem ditadura!!), uma economia que "produz ricos", em vez de produzir riqueza, baseada na desigualdade na distribuição dessa riqueza, na perseguição aos sindicatos, na remessas da emigração provocada pela miséria das populações rurais, nos baixos salários e na negação de direitos sociais.

quinta-feira, 1 de julho de 2021

Ainda a propósito do “branqueamento da História” no Congresso do MEL (1).


 Dei-me, finalmente, ao penoso trabalho de assistir às duas intervenções do Congresso do Movimento “Europa e Liberdade” que mais polémica geraram, a de Maria Fátima Bonifácio e a de Nuno Palma.

A primeira, e menos interessante, a de Maria de Fátima Bonifácio, que numa comunicação indigente, “relatou”, em tom monocórdico e cansado, como se falasse para uma plateia de ignorantes,  a “história” da consolidação do “Estado” português, desde D. Afonso Henriques, uma história cheia de lugares comuns e de interpretações forçadas, para nos conduzir ao elogio de “um tirano duro e frio”, mas “inteligente e patriota”, que, mesmo “prendendo, deportando e perseguindo”, impusesse “à estima do mundo um povo”, libertando-o de políticos torpes e estúpidos, citando as palavras de Basílio Teles no final da monarquia,  palavras com as quais nos conduziu, desta vez citando Fernando Pessoa, para justificar, com elas,  “porque motivo o país estava a pedir um Salazar”, o “salvador desse país  cativado pelo Estado, e por um parlamento “eloquente e palavroso” , na “sua simplicidade, dura e fria”.

“Esqueceu-se”, a eminente historiadora, que Fernando Pessoa rapidamente se desiludiu com mítico “salvador”, ainda no início da construção do Estado Novo. Ao que parece, para a sua mal preparado comunicação, não leu a obra “Fernando Pessoa – Sobre Fascismo, Ditadura Militar e Salazar”, de José Barreto, editado em 2015 pela Tinta-da-China, de onde transcrevemos este esclarecedor poema:

“Poema sobre Salazar

 

António de Oliveira Salazar

Três nomes em sequência regular...

António é António.

Oliveira é uma árvore.

Salazar é só apelido.

Até aí está bem.

O que não faz sentido

É o sentido que tudo isto tem

 

Este senhor Salazar

E feito de sal e azar.

Se um dia chove,

A água dissolve o sal,

E sob o céu

Fica só azar, é natural.

 

Oh, c’os diabos!

Parece que já choveu...

... ... ... ... ... ... ... ... ...

 

Coitadinho

Do tiraninho!

Não bebe vinho.

Nem sequer sozinho...

 

Bebe a verdade

E a liberdade.

E com tal agrado

Que já começam

A escassear no mercado.

Coitadinho

Do tiraninho!

O meu vizinho

Está na Guiné

E o meu padrinho

No Limoeiro

Aqui ao pé.

Mas ninguém sabe porquê.

Mas enfim é

Certo e certeiro

Que isto consola

E nos dá fé:

Que o coitadinho

Do tiraninho

Não bebe vinho,

Nem até

Café

 

Fernando Pessoa

ANTOLOGIA in Sobre o Fascismo, a Ditadura Militar e Salazar,

de Fernando Pessoa 5-4-1935

Do painel onde participou a dita historiadora, salvaram-se as intervenções de Jaime Nogueira Pinto e de José Miguel Júdice que, de forma indirecta, irónica e respeitosa, desmontaram o essencial da comunicação de Fátima Bonifácio, facto que a mesma parece não ter percebido.

À segunda intervenção, a mais interessante,  a de Nuno Palma, voltaremos a em próxima ocasião.



sexta-feira, 25 de junho de 2021

Apesar de você (Um Hino contra a Censura e o Autoritarismo)


Foi em Março de 1970 que Chico Buarque, regressado do exîlio, gravou um dos seus temas mais icónico, "Apesar de Você".

A letra da musica era uma crítica indirecta,  à Ditadura Militar Brasileira, disfarçada de uma briga entre amantes.

Ao enviar a canção à Censura, como era obrigatório, os censores não perceberam o segundo sentido da letra, tendo autorizado a sua edição em vinil.

Lá, como cá, muitos censores eram incultos e idiotas, não percebendo o princípio das metáforas.

Só em Fevereiro de 1971, perante o êxito da canção, é que a ditadura se apercebeu do sentido a mesma, proibindo de imediato a sua passagem nas rádios e mandando os gorilas da polícia política à sede local da editora Philips, destruindo todas as cópias ainda aí existentes.

Felizmente não destruiram a matriz, permitindo que a canção fosse gravada mais tarde, já em democracia.

O censor que deixou passar a musica foi igualmente punido e Chico Buarque teve de prestar declarações à polícia que, em certo momento do interrogatório lhe perguntou quem era o "você" da musica, ao que o musico respondeu: "é uma mulher muito mandona, muiti autoritária".

Até ao fim da ditadura Chico Buarque ficou marcado e foi perseguido em várias ocasiões.

Para fugir à censura, Chico Buarque chegou  compor com pseudónimos, como "Julinho de Adelaide" ou "Leonel Paiva", mas o estratagema também foi descoberto pela censura.

A canção também tinha sido gravada pela cantora Clara Nunes em 7 de Janeiro de 1971, que também não tinha percebido o duplo sentido da canção, sendo obrigada, para escapar à perseguição, a colaborar com a própria ditadura, obrigada a gravar canções que faziam a apologia do regime.

Só em 1978 é que a canção foi incluida num album em vinil, "Chico Buarque (1978)", tendo também sido interpretada por outros cantores como Maria Bathânia, Benito de Paulo, Beth de Carvalho ou Daniel Mercury.

"Apesar de Você" tornou-se um hino contra as ditaduras, um hino cada vez mais actual, quer contra "velhas" ditaduras (China, Coreia do Norte...) ou "ditaduras de novo estilo", disfarçadas ou não de rituais "democráticos" (Irão, Arábia Saudita, Venezuela, Nicarágua, Rússia, Turquia, Hungria, Polónia, Ucrânia, Israel, Bielorrússia, Brasil...).

Para memória futura, pois pode tornar-se necessário saber cantá-la, aqui fica a letra desse hino contra todas as formas de autoritarismo e ditadura:

APEASAR DE VOCÊ

(por Chico Buarque de Holanda)

Amanhã vai ser outro dia

Amanhã vai ser outro dia

Amanhã vai ser outro dia

Hoje você é quem manda, falou, tá falado

Não tem discussão, não

A minha gente hoje anda

Falando de lado e olhando pro chão, viu?

Você que inventou esse estado

Que inventou de inventar toda a escuridão

Você que inventou o pecado

Esqueceu-se de inventar o perdão

Apesar de você amanhã há de ser outro dia

Eu pergunto a você

Onde vai se esconder da enorme euforia?

Como vai proibir

Quando o galo insistir em cantar?

Água nova brotando

E a gente se amando sem parar

Quando chegar o momento, esse meu sofrimento

Vou cobrar com juros, juro

Todo esse amor reprimido, esse grito contido

Este samba no escuro

Você que inventou a tristeza

Ora, tenha a fineza de desinventar

Você vai pagar e é dobrado

Cada lágrima rolada nesse meu penar

Apesar de você amanhã há de ser outro dia

Inda pago pra ver o jardim florescer

Qual você não queria

Você vai se amargar

Vendo o dia raiar sem lhe pedir licença

E eu vou morrer de rir

Que esse dia há de vir antes do que você pensa

Apesar de você

Apesar de você amanhã há de ser outro dia

Você vai ter que ver a manhã renascer

E esbanjar poesia

Como vai se explicar vendo o céu clarear

De repente, impunemente?

Como vai abafar

Nosso coro a cantar na sua frente?

Apesar de você

Apesar de você amanhã há de ser outro dia

Você vai se dar mal, etcetera e tal

Laraiá laraiá lá

Laraiá laraiá, laraiá laraiá

Lá laiá lá

Laraiá laraiá, laraiá laraiá

Lararará

Apesar de você...

quarta-feira, 16 de junho de 2021

Com “activistas” como estes, Putin pode continuar a dormir descansado


Uma coisa, é a gravidade dos procedimentos “habituais” da Câmara de Lisboa em denunciar organizadores de manifestações às embaixadas dos países visados, muitos com um historial sinistro na perseguição, rapto ou eliminação física de  gente “inconveniente”, fora das suas fronteiras ( sejam eles regimes democráticos, como a  França, a Espanha, a Grã-Bretanha ou os Estados Unidos, ou regimes sinistros, como os da Rússia, da Ucrânia, de  Israel, ou da Venezuela, entre tantos outros), outra coisa é o oportunismo político em continuar a explorar o “filão” do mais recente escândalo na denuncia de activistas russos.

Oportunismo que se estende aos próprios activistas que foram vítima desse procedimento.

Já aqui manifestámos a nossa estranheza pelo facto desses mesmos activistas darem a cara nas televisões, quando a principal preocupação era manter a sua identidade em segredo, para evitarem represálias, sendo a violação da sua identidade a principal queixa que fazem contra o município da capital.

Quem teme represálias contra si ou contra os seus não aparece em público nas televisões.

Mas o mais grave desse despudorado oportunismo, de quem busca a todo custo os seus 15 minutos de fama, veio agora a saber-se pelas páginas da edição de hoje do renascido semanário Tal & Qual.

Passo a citar:

“Afinal, não era preciso que a Câmara de Lisboa tivesse enviado os nomes dos manifestantes contra Putin à embaixada da Rússia. Os ativistas puserem tudo no seu facebook, muito antes da manifestação, para toda a gente ver. Pavel Elizarov e Ksenia Ashrafullina, que agora se queixam de terem sido “entregues” por Fernando Medina a Moscovo, criaram uma publicação naquela rede social onde convocam a manifestação em frente à embaixada da Rússia e lá escrevem os seus nomes e contactos, além de assumir a autoria do polémico protesto. A seguir, tiraram fotos de grupo em frente à embaixada e espalharam pelas redes sociais. Tudo gratuito e de boa vontade!

“Mais ainda: carregando em cima do nome de cada um deles os serviços secretos russos podem consultar os perfis dos organizadores e, com tranquilidade, ver fotos e posts onde os ativistas contam quase tudo: há fotos deles em casa, com amigos, na rua onde moram, belas imagens de fins-de-semana com amigos…

“(…)

“Em suma, Moscovo pode estar descansado. Os organizadores dos protestos em Portugal são generosos a dar informações pessoais em todas as redes”, informações muito mais completas e detalhadas do que aquelas que foram reveladas nos mails do município lisboeta.

Aliás, consultando a página de um dos activistas, o que domina nos últimos tempos é o deslumbramento pelo facto de serem notícia em Portugal.

Perante tudo isto, pedir indemnizações ao Estado português, como pretendem fazer, não passa de um simples acto de oportunismo, ou então aprendessem com a família Coxi, ficando-se por um pedido de desculpas, que foi o que já fez Fernando Medina.

Mas isso era se, o que os move, fosse a justiça e a indignação, e não o desejo de fama e vantagem financeira à custa de uma situação lamentável.

Com oposicionistas como este, bem pode Putin continuar a dormir descansado.

 

 

 

 

 

terça-feira, 15 de junho de 2021

Tão “liberais” que “nós” somos!!!

Tal como defendi as manifestações do 25 de Abril, do 1º de Maio, a realização da Festa do Avante e dos Congressos de vários partidos, não vi, à partida, nenhum problema na realização de um arraial de Stª António organizado pela Iniciativa Liberal (IL).

Defendi essas manifestações, desde que fossem respeitadas as regras imposta pela Direcção Geral de Saúde, e elas foram cumpridas nos primeiros casos citados.

Não o foram no evento da Iniciativa Liberal e, o pior, é que não foram cumpridas de forma deliberada e provocatória, comportando-se como “putos mimados da linha”.

Mas o pior nem foi isso.

Foi a grande intolerância manifestada pelas “barracas de tiro”. Nem o Chega se lembrou de tanto!

De facto, gente que se diz muito liberal e “educada”, revelou a sua verdadeira face.

Desde um manequim de “um comunista” (segundo a ideia preconceituosa dos líderes desse partido) até um alvo com as fotografias dos “socialistas” de todos os quadrantes, onde nem faltou a fotografia de Rui Rio, valeu de tudo para descarregar ódio e intolerância sobre os adversários.

Eu, que até achava piada a algumas das iniciativas desse partido, fiquei definitivamente esclarecido sobre as suas intenções.

Por detrás do rótulo “fofinho” de “liberais”, esconde-se a “direita” troglodita e rançosa de sempre.

Obrigado, pela iniciativa, pois ficámos esclarecidos sobre as verdadeiras intenções dessa gente.