quarta-feira, 22 de novembro de 2017

NOS ÚLTIMOS DIAS DA UNIÃO SOVIÉTICA – 5 (conclusão)– (Agosto de 1991) Regresso a Moscovo .


Chegámos a Moscovo por volta da 7.30 do dia 3 de Agosto de 1991.

Voltámos ao hotel “Saliut” (Fogo de Artifício). Depois do pequeno-almoço, voltámos à Praça Vermelha.


O ambiente em Moscovo pareceu-me mais alegre, menos frio e triste do que na semana passada, Talvez seja do sol e do calor de Verão que se faz sentir.

Também me parecia haver mais gente nas ruas e maior variedade e quantidade de produtos à venda. Será porque é principio do mês e de férias? Ou será que já nos habituámos ao ritmo de vida soviético?

Dei uma volta pelos “armazéns do povo”, o GUM. Havia segurança reforçada, provavelmente por causa da visita de George Bush. Cruzamo-nos com grandes grupos de turistas espanhóis.

Na Praça Vermelha passou por mim um grupo de indivíduos bem vestidos, a serem filmados e das entrevistas à televisão. A figura em destaque no grupo pareceu-me o Boris Ieltsin, presidente da República soviética da Rússia, mas não tenho a certeza. Tentei indagar junto de um dos elementos da comitiva, mas este olhou para mim com se tivesse visto um extraterrestre e continuou o seu caminho.

Muitos noivos recém casados escolhem a Praça Vermelha para as fotografias.

No centro da Praça existe um murete circular, onde eram decapitados os inimigos dos czares. Hoje as pessoas atiram moedas da o interior do murete e fazem um desejo.

De vez em quando ouvem-se os apitos da policia a abrir alas para deixar passar carros topo de gama em alta velocidade que entram para lá dos muros do Kremlin.

Regressamos ao hotel para almoçar. Eu vim carregado com um saco cheio de bonitos crachats, com símbolos soviéticos e outros motivos menos políticos.

 Custou-me tudo, no GUM, cerca de 60 rublos, uns 300 escudos [hoje pouco mais de uns euros].

À tarde fomos visitar o Museu de Arte Pushkin, com uma colecção de arte temporariamente bastante abrangente, da arte Suméria aos Impressionistas europeus.

Uma sala reproduzia em tamanho natural vários monumentos e  objectos de arte da Suméria, do Egipto, da  Grécia, …até ao renascimento Italiano, tudo com uma preocupação didáctica.

Tinha muitos outros objectos, este originais, de arte egipcia, incluindo múmias e sarcófagos.

Uma sala exibia uma variada e valiosa colecção de pintura russa.

Mas o que mais me entusiasmou foi a sala com originais da pintura vanguardista europeia, do final do século XIX ao principio do século XX: Cezanne, Gauguin, Kadinsky, Matisse, Picasso, Paul Klee e Miró. Picasso  e Matisse tinham uma sala cada um, totalmente dedicada à sua pintura. Também vimos uma obra original, mas inacabada, de Toulouse-Lautrec.

Voltámos ao Hotel por volta da 17.30, todos bastante cansados.Eu ainda aproveitei para dormir antes do jantar.

Hoje ficámos pelo Hotel e aproveitarmos para recuperar da noite mal dormida da viagem da noite anterior e da “andarilhação” do dia.

Manhã do dia 4 de Agosto.

A manhã inicia-se com a visita ao Túmulo de Lenine, na Praça Vermelha. Havia uma longa fila para entrar e muita segurança. O ambiente era pesado, e avisaram-nos que era proibido tirar fotografias e tínhamos de visitar o túmulo na máxima ordem e em silêncio. O interior do túmulo de mármore preto e vermelho é impressionante pela sobriedade e pela luz difusa. O corpo embalsamado de Lenine encontra-se no interior de uma vitrina, guardada por quatro soldados estáticos. É um ambiente pesado e solene. Parece a entrada de um túmulo egipcio. Ao que se diz, Lenine nunca quis este túmulo, preferindo ser enterrado junto da sua mãe. Contudo o culto da personalidade imposto por Stalin acabou por não respeitar o desejo do primeiro líder soviético.


À saída, ao ar livre, no seguimento do edifício do túmulo, passamos pelos túmulos de outrso líderes soviéticos, como os respectivos bustos. Lá estão Stalin, Brezenev, Tchernenko, Andropov, entre outros. Em gavetões junto aos muros do Kremelin estão outras personalidades ligadas à revolução ou aos feitos emblemáticos do regime, do escritor John Reds a Gagarin e outros astronautas.

Fomos depois vistar a Igreja de S. Nicolau, uma dos mais emblemáticos monumentos da praça vermelha, com as suas cúpulas coloridas. O interior está coberto de ícones pintados a fresco.

Almoçámos no Hotel Russia nessa mesma praça.

Depois do almoço dei uma volta a pé pelas redondezas da Praça Vermelha, bebi uma pepsi-cola num café, andei a ver os quiosques que vendem de tudo, idênticos a tantos outos  espalhados pela cidade. Apesar de inestéticos, são o embrião da crescente iniciativa privada permitida pela Perestroika e complementam as faltas que se fazem sentir nas lojas estatais.

Embrcamos depois numa viagem pelo rio Moskva (Moscovo), ficando com outros panorama da cidade. Embora as vistas nãos sejam tão interessantes como as que tivemos na viagem no rio de Kiev, observámos a existência de muitos espaços verdes, alguns cheios de gente que os utilizam com se fossem praias. Muita gente a circular pelos jardins desses espaços, em fato de banho, a apanhar sol ou a banhar-se no rio.

Voltámos ao Hotel para jantar e de seguida, com outras pessoas do grupo, fomos viajar de metros até a Praça Vermelha para a ver iluminada. É um belo espectáculo, com estrelas iluminadas, todos os edifícios cheios de luz e muita gente a passear.

Regressando ao Hotel. A televisão do quarto tem acesso a quatro canais. Num deles passa a série pirosa “O Barco do Amor”, dobrado em russo. Filmes e séries televisivas são dobradas, mas com uma característica diferente da que conhecemos.

 O som original e as conversas originais passam em fundo, e a dobragem é feita oralmente por cima do original, o que gera alguma confusão.

Hoje é domingo, 5 de Agosto de 1991 e é o nosso ultimo dia na União Soviética.

O dia é livre e resolvi aproveitar para visitar Moscovo por minha conta, usando o metro para me deslocar.

Tinha feito um roteiro com as estações de metro mais icaracteristicas e com as que íam ao lugares mais interessantes.

Comecei pelo metro que me levou às respectivas  casas museu Tolstoi e Puskin, pois ficam práticamente em frente uma da outra.

Tolstoi, o autor da Guerra e Paz, tem no museu com o seu nome vários objectos de uso pessoal, manuscritos, quadros e fotografias.

O mesmo sucede com a casa Pushkin, um poeta importante da União Soviética.

Os palacetes dessas casas-museu são bastante bonitos, com tectos ricamente cobertos de pinturas.

Depois dessa visita, aventurei-me sozinho para visitar 15 estações de metro eu tinha escolhido previamente.

O preço de cada viagem era uma pechincha, o que me permitia sair à rua, para observar as redondezas, e voltar para pagar outra viagem. Aqui não existe bilhete, entra-se no metro colocando uma moeda.

Num dos lugares onde sai à rua, deparei-me com o famoso edifício sede do KGB, com um ar algo sinistro.

Para me orientar, porque as indicações estavam todas em russo, tinha que perder algum tempo a comparar os nomes, letra a letra e depois procura a  linha correcta. E lá me desenrasquei.

Não há praticamente uma estação igual, todas ricamente  decoradas , uma espécie de catedrais subterrâneas, o orgulho dos moscovitas.

As estações dão quase todas coberta de mármore, com grandes candeeiros de belo design, algumas com pinturas em mosaico ou esculturas. As mais bonitas são as das estações de “Kiev” e “Leninegrado”.

Voltei a atravessar a pé a Praça Vermelha para ir almoçar ao Hotel Russia e, depois de me despedir dessa praça, que vou ver talvez pela última vez na minha vida, voltei a apanhar metro até à Rua Arbat, que percorri detrás para a frente várias vezes.

Aí voltei a encontrar de tudo. Muita gente a vender artesanato, entre o qual as célebres Matrioskas, das tradicionais à mais originais com temáticas várias, músicos a tocar vários tipos de instrumentos e géneros, artistas plásticos expondo e/ou vendendo os seus trabalhos (alguns, provavelmente, serão famosos daqui a uns anos..), acções de protesto contra a situação politica na União Soviética, muitos artistas a pintar retratos ao vivo, caricaturistas e, principalmente, muita gente, turistas ou não (hoje é Domingo).

É uma rua difícil de descrever, uma feira da ladra em ponto grande.

Nas ruas aparecem muitas pessoas a vender latas de caviar e garrafas de vodka. Comprei duas garrafas a uma velhota, com aspecto de camponesa. Só provei o vodka em Portugal e foi o melhor que até hoje provei.


O dia terminou com o regresso ao hotel e um jantar de despedida, com champagne e bebidas típicas da Rússia, incluindo ainda um espectáculo de folclore russo, com cossacos a dançar e a musica alegre típica destas paragens.

Amanhã levantamo-nos às 4 da manhã, saímos do Hotel por volta das 5 horas (três em Portugal) para irmos para o aeroporto para a viagem de regresso a Portugal.

Cheguei a Lisboa por volta da 11 horas da manhã  do dia  de Agosto de 1991 e, só aqui, fui incomodado pela policia que, no aeroporto, me mandou sair do grupo e me levou para um gabinete para revistar cuidadosamente a minha mala. Pensava que era por causa das garrafs de vodka que trazia, mas o problema deles era como os gorros russos, que foram revistados e revirados várias vezes. Finalmente deixaram-se sair….ero o belo país do “cavaquismo”…

Esta viagem não teria sido possível se não tivesse sido desafiado pelas minhas colegas e amigas Noémia Santos e Paula Viegas, com quem partilhei alguns dos momentos acima descritos.

No grupo, nós os três e o Carlos de Alcochete, que conheci na viagem, eramos os mais novos. O resto do grupo era composto por gente mais velha (talvez com a idade que tenho hoje, mas alguns a rondar os 80), algumas pessoas já tinham feito a viajem uns vinte anos antes.

O ambiente que se respirava entre as pessoas com que nos cruzámos na União Soviética era de mudança e esperança.

A liberdade começava a fazer o seu percurso e, se o caminho a fazer podia ter sido diferente, o que era evidente é que ninguém pretendia voltar para trás.

Foi isso que, cerca de 15 dias depois de termos deixado aquele país, um grupo de militares caquéticos e stalinistas não percebeu e, ao  tentar afastar Gosbachev do poder, apressou, com esse acto irresponsável, o fim de um regime que já não tinha fôlego para dar às pessoas uma vida melhor e digna.

A história daquele país deu, desde então muitas voltas, e hoje volta a viver um impasse.

A única certeza  é que o mundo que visitei naqueles dias de 1991 desapareceu de vez.

Ficam as recordações que, por aqui, com base num diário que então escrevi, tentei reproduzir o mais fiel possível à forma como senti esses momentos de pura descoberta, num mundo que era totalmente diferente do que conhecia até então.


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