domingo, 12 de novembro de 2017

Nos últimos dias da União Soviética – 2 -Em Kiev - Julho de 1991


Depois de um dia a visitar Moscovo, chegamos ao final da tarde ao Hotel, para um jantar rápido, pois tinhamos de partir para a estação de comboio que nos ia levar a Kiev, o próximo destino da viagem.

Estava tudo na maior das calmas a prepara as coisas, quando somos alertados para o facto do comboio partir às 20.20, e não às 22 horas como erradamente tínhamos sido informados.

Numa correria louca o nosso autocarro lá conseguiu chegar à estação, apenas 7 minutos antes da partida.

Era um comboio como mais de 20 carruagens e os lugares reservados para todos os elementos da excursão eram nas nº5 e nº8.

O meu beliche ficava na carruagem nº 8, onde entrei e coloquei as malas, indo depois auxiliar alguns companheiros de viagem mais velhos aflitos com as malas e com o tempo que se aproximava da partida. Foi assim que atravessei as carruagens 6 e 7 para chegar à nº5, para onde ía um desses elementos do grupo, mas que tinha entrado por engano na nº8, indo eu ajudá-lo com as malas, mas quando íamos entrar na carruagem 5, aparece uma revisora, bastante gorda, parecia saída de um velho filme dos tempos stalinistas, aos berros connosco, pedindo-nos os bilhetes e a impedir-nos de entrar na carruagem nº 5 e nós a tentarmos dizer que os bilhetes tinham ficado com o nosso guia na nº8.

Tentávamos falar em inglês (o meu era mau) e ela aos gritos, cada vez mais histérica, em russo, mostrando intensão de nos expulsar do comboio, pelo que, nós, sem os bilhetes na nossa posse, desatámos a correr, passando pelas nº6 e 7,  para regressar à nossa carruagem, enquanto o comboio começava a andar.

Quando tentámos passar da 7 para a 8, aparecem dois revisores e novamente a mesma cena, e nós sem o bilhete na nossa posse, e eles não nos percebiam, nem faziam um esforço por isso.

Desconhecíamos se os outros elementos do grupo tinham conseguido entrar no comboio, pensando já que estávamos ali sozinhos, sem bilhete, a caminho de Kiev, sem que ninguém percebesse o nosso inglês.

Felizmente houve um passageiro russo que deve ter perecebido alguma coisa do que dizíamos e que se abeirou dos revisores, que acabaram por nos deixar entrar na carruagem nº8 onde estavam os restantes colegas de viagem e o guia com o bilhete. Ficámos entretanto a saber que duas das velhotas do nosso grupo não tinham conseguido entrar a tempo, ficando sozinhas na estação de Moscovo. Mais tarde soubemos que elas tinham voltado ao hotel e juntar-se-iam a nós um dia depois em Kiev.

A viagem durou cerca de 13 horas, chegando a Kiev pelas 9.30 da manhã do dia 26 de Julho .

Kiev fazia então parte da União Soviética, distava cerca de mil quilómetros de Moscovo e tinha cerca de 3 milhões de habitantes. Era então a  terceira maior cidade da União Soviética, capital da então Republica da Ucrânia. Tinha sido ocupada pelos alemães durante a Segunda Guerra e foi das que mais sofreu com o conflito. É banhada pelo rio Dniepre, um dos três maiores da Europa e que desagua no Mar Negro.

Kiev é formada por vários canais atravessados por várias pontes  e com muitas zonas verdes. 

As colinas junto ao rio eram banhadas pelo dourado das cúpulas de igrejas e conventos ortodoxos. O metro era menos complicado do que o de Moscovo.

Ficámos no hotel “Typcut” (“Turista”), um nome menos original que o de Moscovo (“Salut”=”Fogo de artifício”), com metro à porta, a estação “Margem Esquerda”.

Nessa primeira manhã em Kiev tivemos tempo livre, entre as 12 e as 14 horas, que aproveitei para visitar um mercado junto ao hotel, onde típicos camponeses ucranianos vendiam  fruta, legumes, vegetais vários, carne e peixe seco.

Junto ao mercado bebi uma cerveja russa e meti conversa com 4 russos que, tal com eu, mal sabiam falar inglês, mas lá nos fomos entendendo. No final dei-lhes moedas portuguesas e esferográficas.

A idéia com que fiquei de Kiev é que era uma cidade mais alegre e cosmopolita do que Moscovo, com mais sol e luz, com gente mais simpática e um estilo de vida mais ocidentalizado.

De tarde fizemos uma viagem panorâmica pela cidade.

Aqui, tal como já tinha acontecido em Moscovo, cruzámo-nos com a comitiva do primeiro-ministro grego, em visita oficial à União Soviética .

Pelo final da tarde, entre as 19.30 e as 21.30, fizemos uma viagem de barco ao longo do Dniepre. O rio possui várias ilhas arborizadas, algumas de grande dimensão, com casas de madeira e praias, muito apreciada pelos russos.





(a fotografia de cima foi tirada por mim em 1991. A de baixo é a mesma vista, na actualidade, tirada da net)

Regressados ao hotel de metro, para aprendermos a andar nele, e aí assistimos a uma festa-baile e encontramos uma grande grupo de espanhóis que fez uma festa quando soube que eramos portugueses.

Antes de me deitar ainda dei uma volta pelo arredor do hotel e fui até uma das pontes de Kiev aí perto.

Próximo do meio da viagem, depois de Moscovo e um dia em Kiev, já me começava a fazer alguma impressão a extrema pobreza económica da União Soviética. Apesar de as pessoas se vestirem mal (um pouco melhor em Kiev do que em Moscovo), apesar de não terem muitos produtos para escolher e os que existiam serem de má qualidade, e muitos serem inacessíveis ao bolso da maioria dos seus cidadãos, todos ostentam um ar digno, raramente aparecem pessoas a pedir esmola. Aqui em Kiev a corrupção e a especulação que se via em Moscovo não era tão notória.

Existiam contudo três coisas positivas que descobri nesse país: o sistema de transportes, com qualidade, rápido , eficiente e barato; a urbanização, apostando-se muito nos espaços verdes, com edifícios, que não sendo bonitos, estavam bem integrados na paisagem; e por último…os selos do correio que tinham muita cola!

No segundo dia em Kiev, 27 de Julho, visitámos a catedral de Stª Sofia, fundada no século XI, o mais antigo monumento cristão, ortodoxo, do leste da Europa.

Também na preservação do património os soviéticos parece que têm algum cuidado, sendo de uma beleza indescritível as cúpulas douradas das igrejas e os frescos que cobrem a totalidade do seu interior.


Naquela catedral foi possível ver frescos pintados em épocas diferentes em camadas sucessivas.

Percorri as ruas à volta da catedral. Fui a um pequeno café, que apenas servia chás e cafés com leite e 3 ou 4 variedades de bolos secos e tostas com conservas, muito pobrezinho, mas foi o único café que encontrei para comer qualquer coisa.

Entrei numa ourivesaria, onde, apesar da pouca variedade de objectos expostos,   reinava uma enorme confusão. O problema, começo a descobrir, está na “organização”: primeiro escolhe-se o objecto; depois vai-se para uma fila para pagar na caixa com uma data de papéis na mão; depois levam-se os papéis ao balcão e, finalmente, depois de se espera noutra fila, recebe-se o objecto. É assim que funciona quase tudo, triplica o tempo de espera e provoca imensas filas.

Deslocando-me a outra rua próxima, deparei-me com uma pequena manifestação de nacionalistas ucranianos, coma as bandeiras da Ucrânia (faixas em amarelo e azul), gritando várias palavras de ordem pela independência da Ucrânia e contra o “fascismo” e que estava a ser filmada por um canal de televisão. A manifestação decorri frente a um grande edifício que me disseram ser a sede local da policia e do KGB. Só lá estavam três policias de ar calmo, separados dos manifestantes por uma pequena barreira em ferro.

Tentei falar em inglês com um dos manifestantes que me explicou que a razão daquela manifestação era protestar contra as condições de vida da população da Ucrânia. Fez uma grande festa quando soube que era português e começou a falar-me de um jogo entre o Dínamo de Kiev e o Porto. Não pude ficar mais tempo pois tinha de voltar ao autocarro que me levaria ao Hotel. Desejei-lhes Boa Sorte, mal adivinhando que não faltaria muito tempo para a Ucrânia se tornar independente. O que terá acontecido àquelas pessoas?

Voltámos ao Hotel para o almoço, excelente mais uma vez, especialmente as sopas.

À tarde fomos visitar o “Mosteiro de Laura”, um dos mais importantes da Igreja Ortodoxa. A profusão de monumentos religiosos ortodoxos na região de Kiev deve-se ao facto de esta ter sido a primeira capital da Rússia, a chamada Rússia de Kiev, fundada no século XI.


Para além das suas exuberantes cúpulas, existe no Mosteiro de Laura o museu das joias preciosas, com peças do século IV a.C ao século XX.

Tendo começado a chover, apesar do calor que se fazia sentir em Kiev, já não podemos vistar as catacumbas do mosteiro, já que estas, devido à humidade, fecham sempre que chove.

Tendo regressado ao Hotel fui, depois de jantar, dar uma volta por Kiev, começando por fazer uma viagem de metro até ao fim da linha que passa frente ao Hotel. Este metro é de superfície junto ao Hotel, passando depois por cima do rio Dniepre, tornando-se depois subterrâneo. A beleza das estações subterrânea não fica nada a dever às famosas estações do metro se Moscovo (que só visitarei no final da viagem, quando regressarmos a Moscovo).


A última estação da linha ás sair a uma gare ferroviária, num subúrbio da cidade, pelo que voltei e segui até à estação que ficava no centro da cidade, numa ampla e bela avenida, cheia de gente, mas onde infelizmente não havia uma única esplanada para desfrutar do movimento.

Nesse avenida encontrámos apenas duas lojas abertas , cheias de gente que comprava o pouco queijo ou a pouca manteiga que aí se vendia, e a confusão era, mais uma vez, gerada pela forma como essas lojas funcionam, e que descrevi noutra parte desta memória de viagem.

O dia 28 de Julho foi o último dia passado em Kiev, antes de partirmos para Minsk.

De manhã vistamos um museu etnográfico a 30 quilómetros de Kiev. Esse museu reproduz vários tipos das aldeias da Ucrânia dos século XVIII, XIX e XX, tal como eram antes da Revolução, uma espécie de “Portugal dos Pequeninos”, talvez idealizado num assomo de má consciência das autoridades soviéticas pela tragédia vivida no mundo rural ucraniano durante os tempos stalinistas.

Nesse museu ao ar livre repoduz-se o ambiente das aldeias de então, onde as casas eram construídas com vários materiais tradicionais, de acordo com a posse de cada um e que reproduziu a rigidez social dos tempos czaristas. Aqui existem alguns originais moinhos em madeira.

A visita culminou com uma patuscada num restaurante aí existente, todo construído em madeire e no meio de uma frondosa mata, explorado por iniciativa  privada, sinal dos tempos da Perestroika.

Regressados ao Hotel, e depois de almoço, preparamos as malas para a partida,mas fizemos ainda uma última visita guiada durante a tarde.

Cruzámo-nos com mais uma manifestação nacionalistas, desta vez de militares ucranianos que defendiam a criação de um exército ucraniano. Embora o número de manifestantes fosse pequeno, eram um pouco mais agressivos do que os da outra manifestação.



Ainda vistámos outra Igreja de belas cúpulas douradas barrocas, e partirmos para o aeroporto de Kiev para partirmos para Minsk, o nosso próximo destino.

1 comentário:

Noémia Santos disse...

Bela memória e excelentes testemunhos fotográficos, também. Ao ler o teu texto avivei a lembrança destes dias inesquecíveis,num mundo a ruir, com tanto de belo e grandioso como de desatinada incongruência. Da ópera em Minsk...um Borodine em muitos atos, organizado pelos "camaradas" que nos levaram os olhos da cara, ao Pássaro de Fogo, em S. Petersburgo, na Gulbenkian lá do sítio, por 25 tostões, sim, 2,50 escudos, compradinhos por nós à revelia... Tanto para contar sobre os dias do fim de uma era.
Não tenho conseguido ir à caixa das fotos, mas um dia destes trocamos galhardetes. Abraço cheio de saudades