sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Arruaceiro, policias e inocentes: Ainda é legal ter dúvidas?



À medida que se começa a conhecer em pormenor o que aconteceu frente à Assembleia da República na noite da passada 4ª feira, quer nas reportagens da imprensa escrita (sim , friso bem “imprensa escrita”, quanto a mim a única que ainda é credível) e alguns depoimentos e relatos nas redes socias por parte de pessoas que lá estiveram, juntando a tudo isso as questões levantadas por uma organização prestigiada em direitos humanos com a Amnistia Internacional, mais dúvidas começo a ter sobre os factos aí passados e relatados pelas televisões e corroborados pelas análises de alguns comentadores e políticos.

Não estava lá, mas o que eu vi nas imagens televisivas foi um grupo de arruaceiros a arremessar pedras e petardos contra a polícia de forma violenta e continuada.

Só que os factos não começam nem acabam na aparentemente objectividade das imagens. 

Diz a polícia que "avisou" os manifestantes dessa carga, mas do que me recordo ao ver na televisão em directo, era apenas de um policia com um megafone, sem se perceber o que dizia (mais tarde essa imagem, ao ser reproduzida até à exaustão, teve de ser acompanhada por legendas...), duvidando que, no local, alguém tivesse  percebido o aviso.
 
Já tinha assistido a situações destas noutras manifestações em que estive, nomeadamente frente a Belém por ocasião da reunião do último conselho de Estado. Nessa altura assisti a um grupo, nos jardins à esquerda, que lançavam continuamente petardos e, embora mais pontualmente, pedras contra as forças de intervenção. Viveram-se alguns momentos de tensão mas essa situação foi rapidamente debelada, não só porque esse grupo foi  isolado e era pequeno, mas também porque a polícia reagiu rapidamente, com calma e ponderação .

Vendo na televisão as imagens da manifestação desta semana, algo de diferente se parece ter passado desta vez, por um lado a polícia deixou acumular tensões, não tendo reagido rapidamente como daquela vez. Sabe-se que a quantidade de polícias infiltrados na manifestação (cujo papel ainda está por esclarecer) era quase tanto como o número de arruaceiros. Além disso as televisões filmaram esses arruaceiros ao longo de cerca de duas horas. Ou seja, houve mais que tempo para se tomar uma iniciativa policial que isolasse rapidamente esse grupo.

Não foi isso que aconteceu. O que as imagens deixam ver, bem como os relatos feitos por testemunhas, é que a policia acabou por agir de forma brutal, colocando-se ao nível dos arruaceiros pela forma como agrediu, não apenas casualmente, como podia acontecer nessa situação, pessoas inocentes, que apenas estavam no local errado à hora errada (existem relatos de agressão sobre pessoas e de perseguições policiais a presumíveis suspeitos que apenas circulavam casualmente por ali). Houve até relatos de pessoas que, estando a manifestar-se pacificamente ou apenas a observar o que se passava, ao defenderem-se da acção policial terão sido presos pelo simples factos de reagirem em sua defesa ou dos familiares e amigos que estavam próximos.

Pelo que se sabe, as perseguições policiais, algo arbitrárias, continuaram pela noite dentro, mantendo sempre o mesmo nível de violência.

Ou seja, não sei se os arruaceiros eram profissionais ou não (pelo que leio na imprensa a maior parte daqueles que estão presos nem estavam na primeira linha dos confrontos, alguns nem estavam nessa manifestação, tendo reagido apenas à violência policial, reacção que os condenou, ou agiu individualmente), nem sei se os verdadeiros arruaceiros estão devidamente identificados (hipótese que seria incrivel, tendo em conta aquele número de polícias infiltrados e a quantidade de imagens disponíveis), mas uma policia profissional, que recebeu até a notícia de aumentos salariais significativos na véspera, quando a hora é de contenção para a esmagadora maioria dos portugueses, se só podia e devia  reagir de forma violenta no momento imediato às agressão de que era alvo, devia depois, no rescaldo, agir de outra forma.

Parece assim que houve intenção deliberada de intimidar os manifestantes já que, apesar do tempo que tiveram para identificar correctamente os agressores, acabaram por levar tudo a eito, não apenas no momento da reacção natural e justificada, mas para muito além desse momento e até do local, quando os ânimos já podiam estar mais serenados de parte a parte.

Como cidadão que considera o direito de manifestação um direito legal e, até 4ª feira, seguro, acto que podia exercer em segurança porque sabia que a policia de hoje não é a mesma dos tempos do Estado Novo e que, até hoje, tem agido com correcção e ponderação, com capacidade para agir atempadamente, isolando os provocadores com o menor dano possível para com aqueles, como eu, que se manifestam pacificamente, gostava de ver muitas destas minhas dúvidas devida e rapidamente esclarecidas.

Desculpem-me lá alguns comentadores muito certos das sua convicções e da “objectividade” dos factos, mas ainda será legal ter dúvidas?

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