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terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

DIÁRIOS DE KIEV – (6-7-8) por Pedro Caldeira Rodrigues (Agência LUSA) -20 e 21 de Fevereiro

                                       


20 de Fevereiro de 2022

Ucrânia: Os tártaros da Crimeia, o povo ‘boomerang’

“Num mundo existe um pequeno povo que se considera "boomerang" porque, à semelhança desse objeto de arremesso, insiste em regressar às suas origens apesar das muitas tentativas para o dispersar e desenraizar, os tártaros da Crimeia.

No restaurante Mustafir (Convidado), não longe do centro de Kiev e transferido do tradicional reduto tártaro de Bakhchysarai para a capital ucraniana após a anexação da península pela Rússia, em fevereiro de 2014, Alim Aliev personifica esse peculiar instinto de resistência.

"Somos como um ‘boomerang’ porque o destino remeteu-nos para outro lugar, mas regressamos sempre. Os meus avós nasceram na Crimeia, os meus pais na Ásia Central, também nasci na Ásia Central, o meu irmão mais novo já nasceu na Crimeia e agora vivo em Kiev. Uma movimentação impressionante", contou à Lusa.

Esta ativista de 33 anos, cofundador da organização Crimeia SOS e vice-diretor do Instituto ucraniano, vocacionado para promover a visibilidade da Ucrânia no exterior, a interação profissional e a difusão da cultura do seu povo, nasceu tal como os seus pais no Uzbequistão, ex-província soviética da Ásia central, após toda a população tártara ter sido deportada em 1944 por ordem de Estaline sob a acusação de colaboração com o ocupante nazi durante a Segunda Guerra Mundial.

O "Surgun", como designam na sua língua a grande deportação dos 200.000 tártaros da Crimeia, também disseminados à força pelo Quirguistão, Cazaquistão, Sibéria ou Urais, prolongou-se durante décadas e até 1989, quando o então Presidente soviético Miklahil Gorbatchov, pouco antes da desintegração da União Soviética, permitiu o regresso deste povo às suas terras ancestrais.

O Mustafir, que preserva a traça original, é o mais recente testemunho desta odisseia. Nas paredes e almofadas com cores garridas e desenhos geométricos, candeeiros ornamentados, o Yantir, o prato nacional tártaro à base de carne de borrego envolvido por uma massa, e a tradicional bebida Ayran, são servidos com diligência por jovens homens e mulheres com as suas roupas tradicionais. As salas estão cheias, escuta-se uma suave música ambiente vinda dos confins da memória deste povo autóctone da península da Crimeia e de religião muçulmana.

Em 1989, tinha apenas um ano, a família mudou-se para a Crimeia de onde eram naturais os avós, numa primeira vaga de regresso dos tártaros às suas terras de origem. Aí viveu até 2010, estudou, colaborou num jornal local tártaro e mudou-se para Lviv (oeste da Ucrânia), onde foi consultor de comunicação e ‘media’.

Alim é um dos mais aguerridos opositores à anexação da Crimeia pela Rússia, a "nova colonização" como a designa, e a "terceira tentativa" de reforçar na península o predomínio de população russa.

"Monitorizamos a situação dos direitos humanos na Crimeia e detetámos mais de 3.000 casos de abusos dos direitos humanos após a ocupação de 2014. A maioria destes abusos são contra os tártaros da Crimeia. Mas é apenas o topo do iceberg. No fundo, existe esta colonização com várias tendências, em particular a militarização da península", assinala.

Os tártaros, que se exprimem numa língua com raízes turcófonas, são hoje cerca de 300.000, 15% da população total de uma península com 2,5 milhões de habitantes. Dos restantes, 21% dizem-se ucranianos e mais de 60% russos.

"Após a anexação, 30.000 tártaros saíram da Crimeia e instalaram-se na Ucrânia e agora apenas 3% da população da Crimeia pode aprender a nossa língua, que segundo a lista da Unesco está em vias de extinção. Nas escolas existem cada vez menos aulas de língua tártara e nos tempos da URSS apenas a aprendíamos no meio familiar".

Em simultâneo, registou-se uma vaga proveniente da Rússia. "Pelo menos 500.000 pessoas, entre eles militares, membros do FSB [os serviços de informações russos], funcionários administrativos, empresários, pensionistas. Há cada vez mais russos instalados na Crimeia".

Povo de agricultores e comerciantes, muitos tártaros optaram nos tempos soviéticos pela carreira médica ou de engenharia, por serem compulsivamente afastados da área das humanidades.

"Era um povo que se opunha ao regime e, por isso, não convinha que tivessem educação na área da política ou do jornalismo", afirmou Alim.

Até 1954, a Crimeia estava integrada na República socialista federativa soviética da Rússia, mas em fevereiro desse ano o ‘presidium’ do Soviete supremo da URSS, emitiu um decreto sobre a transferência da região da Crimeia para a República socialista soviética da Ucrânia. Na ocasião, era secretário-geral do PCUS o ucraniano Nikita Khrushchev e a medida, que não foi submetida a qualquer referendo ou consulta à população local, motivou muitas dúvidas sobre a sua legitimidade, sendo inclusive considerada um ato contrário à lei soviética.

E foi esse um dos pretextos que justificou a anexação da Crimeia pela Rússia de Putin em fevereiro de 2014 – na sequência da "revolta de Maidan" que impôs um Governo "pró-ocidental" em Kiev –, seguida de um referendo em março que confirmou a integração do território na atual Federação russa.

"Agora, a maioria das pessoas na Crimeia tem hoje dois passaportes, ucraniano e russo. Porque quem não possuir um passaporte russo tem muitas dificuldades em viver na Crimeia. Estão proibidos de comprar terrenos, construir casas, ter trabalho", indica o ativista.

O responsável do Instituto ucraniano, que mantém contactos regulares com as autoridades ucranianas da península agora "no exílio", está proibido de entrar na Crimeia, onde vivem os seus pais e irmão, que o visitam com regularidade.

"Atualmente estão detidos 130 tártaros na Crimeia e desde 2014 registámos 15 casos de rapto e sete casos de morte por motivos políticos. Além de 300 casos de buscas em casas promovidas pelo FSB", revela.

"Mas pretendemos garantir a nossa autonomia numa Ucrânia democrática e independente. Para nós é importante preservarmo-nos como nação e assumir mais responsabilidades na Crimeia. Seria um bom modelo, também para a Ucrânia", sustentou.

O militante mantém contactos com muitos dos tártaros, muitos deles jovens, que abandonaram a península há oito anos, num processo que designa de "limpeza de cérebros" e que abrangeu desde jornalistas a figuras políticas, artistas, estudantes, ativistas de ONG.

"Mas com os meus colegas e amigos estamos a lutar pela Crimeia, porque é a nossa terra-mãe. Quero regressar à minha terra-mãe livre", sublinha, com firme convicção, e num processo que define de resistência pacífica.

"Reivindicamos a desmilitarização e o fim da ocupação da Crimeia. Também é crucial a preservação da nossa identidade, língua, cultura, tradição, religião… E por cada ano que passa torna-se num desafio mais difícil. As minhas atividades focam-se na identidade dos tártaros da Crimeia", afirmou.

Além da atividade no Instituto ucraniano e no SOS Crimeia, uma organização não governamental (ONG), Alim Aliev também está envolvido no projeto de 2021 Plataforma Crimeia, uma iniciativa do atual Presidente ucraniano Volodymyr Zelensky e um "mecanismo internacional" contra a ocupação da Crimeia com o objetivo de ser difundido por diversos países.

Organizam encontros políticos, culturais, cursos ‘online’ sobre a história da Crimeia, diversos projetos, a monitorização dos direitos humanos, a herança cultural da Crimeia.

A mais recente iniciativa é um projeto teatral designado 5 AM, com um livro editado em 2021 e focalizado em 11 tártaros da Crimeia que estão detidos, alguns condenados a pesadas penas e onde se incluem políticos e jornalistas.

"Designa-se 5 AM, porque as principais operações de buscas do FSB na Crimeia iniciam-se às cinco da manhã", explica. Na capa dois ponteiros negros sob fundo branco apontam para as cinco da manhã.

Um projeto que já tem confirmados espetáculos além-fronteiras, também em nome da reintegração desta região banhada pelo mar Negro na Ucrânia. Apesar de muitos dos seus cidadãos já terem migrado, e os novos residentes serem cidadãos russos”.

Pedro Caldeira Rodrigues (LUSA)

20 de Fevereiro de 2022

Ucrânia: Campanha “Punir Putin” lançada no dia das celebrações de Maidan

“ No praça Maidan, centro de Kiev, algumas dezenas de pessoas juntaram-se ao início da tarde de hoje para assistir ao lançamento da “Campanha Punir Putin”, que envolve diversos ativistas e pretende levar a julgamento o Presidente da Rússia.

Num palco improvisado, a referência em inglês "#Putin criminoso de guerra", ao lado a frase “Sim à Ucrânia”, num ecrã eletrónico, em rodapé, “Ucranianos resistirão”.

No painel colado ao palco surgem quatro fotos, lado a lado: Saddam Hussein, Slobodan Milosevic, Muammar Kadhafi, os três riscados com uma cruz vermelha, e Putin, com um ponto de interrogação no meio da face. Os promotores desta iniciativa parecem desejar ao líder russo o destino fatal dos defuntos dirigentes do Iraque, Sérvia e Líbia.

“A ideia é criar um comité internacional que será dirigido por diversos membros da sociedade civil, incluindo um antigo juiz no Tribunal Penal Internacional para a ex-Jugoslávia [TPIJ]”, o extinto organismo ‘ad hoc’ da ONU responsável pelo julgamento de crimes de guerra, indica um dos promotores da iniciativa.

“Esta campanha terá sucesso, muitos países, muitas pessoas estiveram submetidas à agressão russa, a agressão de Putin, e quando unirem os seus esforços esta campanha vai reforçar-se”, prossegue o jovem, pleno de convicção.

No cimo da escadaria, onde se perfilavam vários homens fardados que filtravam as entradas para mais perto do palco, exibiam-se alguns dos despojos da “revolução de Maidan”, entre finais de 2013 e inícios de 2014. Escudos, capacetes, máscaras de gás, barras de ferro. Os jornalistas acotovelam-se, e o seu número quase rivaliza com os participantes.

“Pelo microfone passou um representante da República Chechénia da Ichkeria [no exílio] que luta pela independência desta república russa do Cáucaso do Norte, um representante dos tártaros da Crimeia [a península anexada pela Rússia em fevereiro de 2014], um dissidente da ex-URSS  membro da sociedade civil e representante da comunidade judaica na Ucrânia”, precisa.

Na escadaria, um pequeno grupo de georgianos mostra a frase que escreveu num longo rolo de papel, “A Geórgia e a Ucrânia serão membros da NATO. Declaração da Cimeira de Bucareste 2008”. Ao lado, uma rapariga com um cartaz azul, “Os georgianos apoiam a Ucrânia”. Um país do Cáucaso onde, à semelhança da região do Donbas, leste da Ucrânia, também foram declaradas duas repúblicas separatistas, Ossétia do Sul e Abkházia, reconhecidas por Moscovo.

Um casal abandona a praça com a bandeira polaca, vermelha e branca, estendida pelas costas. Não longe, muitos cidadãos prestam homenagem aos caídos de Maidan, junto às suas fotos espalhadas pela cidade, em muros, em painéis, atadas a troncos de árvore.

A iniciativa na praça Maidan terminou com um pequeno comício, no dia do “início da agressão russa”, esclarece ainda o jovem, que também prestou tributo aos “Cem Celestiais”, os heróis da revolta desse inverno que mudou os destinos do país.

Desde o início da manhã que muitos habitantes da capital da Ucrânia celebraram o oitavo aniversário da “Revolução da Dignidade”, como também é conhecida a revolta pró-europeia de Maidan que depôs o Presidente “pró-russo” Viktor Yanukovich, mas em ambiente mais tranquilo.

Uma discreta cerimónia, com fanfarra, juntou o atual Presidente Volodymyr Zelensky e o seu arquirrival e ex-chefe de Estado, Petro Poroshenho, que por um momento esqueceram as dissensões políticas e participaram numa missa de domingo a céu aberto junto ao “Templo do Arcanjo Miguel e Novos Mártires Ucranianos”.

Mas Alisa, uma fiel partidária de Maidan, revela um perspetiva muito particular do atual momento.

“Penso que os países europeus esqueceram a verdadeira razão por que motivo aconteceu Maidan. Em França, por exemplo, podemos ver candidatos às presidenciais que tentam demonstrar as suas posições pró-russas apenas por considerarem que a Federação russa é mais forte. Consideram que se houver guerra com a Federação da Rússia, será ela a vencer”.

Também receia que Maidan comece a ser esquecido por muitos dos aliados que hoje juram fidelidade a Kiev no conflito com o grande vizinho.

“Os países ocidentais deveriam recordar porque aconteceu Maidan. Após Maidan, muitas pessoas podiam ter deixado o país mas ficaram, foram para a guerra, proteger o território, desenvolver o seu país, e não se tornaram refugiados”, um fenómeno que considera decisivo nas relações com diversos países europeus.

“Entendo as preocupações dos países ocidentais, julgo que têm medo de um novo grande fluxo de refugiados se houver guerra, talvez esteja errada… É importante lembrar-lhes que Maidan aconteceu porque não queríamos refugiados, antes viver no nosso país e desenvolvê-lo”.

Um dia no qual muitas famílias aproveitaram para passar nos amplos parques da cidade, almoçar em restaurantes, enquanto grupos de jovens se concentravam à saída dos centros comerciais ou de cafés para fumar, conversar, beber cervejas por garrafas de meio litro. Parecem muito longe dos sobressaltos provocados pelos tambores da guerra, que insistem em continuar a ecoar. Foi à sua vida, aos seus pequenos prazeres, que dedicaram este domingo”.

 por Pedro Caldeira Rodrigues (Agência LUSA)

21 de Fevereiro de 2022

ENTREVISTA (em 18 de Feverreiro): Putin pretende regresso a pensamento predominante na época do czarismo

“O pensamento de Putin sobre as relações entre a Rússia e a Ucrânia é contraditório com a ideologia bolchevique e pretende um regresso ao pensamento que predominava entre a elite do império czarista no século XIX, indicou à Lusa um académico e ativista ucraniano.

“Putin considera que não existe uma identidade específica ucraniana, quer um regresso à história do século XIX quando os russos diziam que existia uma nação russa composta por grandes russos, os moscovitas, bielorrussos, e pequenos russos, que para eles eram os ucranianos”, disse è Lusa Volodymyr Yermolenko, filósofo e professor associado na Universidade Kyiv-Mohyla.

 

“Devemos entender que Putin é muito mais arcaico que a própria ideologia soviética. Tentou ir além da ideologia soviética”, assinalou, numa referência a um longo texto assinado pelo Presidente russo em 16 julho de 2021, intitulado “Sobre a unidade histórica dos russos e ucranianos”, que suscitou ampla discussão nos meios académicos e políticos dos dois países.

Um documento que contesta “as ideias de um povo ucraniano separado do povo russo” e que percorre “uma longa história comum” de russos, ucranianos e bielorrussos, “herdeiros da antiga Rus', que foi o maior país da Europa”, um estado eslavo medieval, inicialmente centrado em Kiev, que remonta ao século IX.

Na sua reflexão, o líder do Kremlin também considera que a “verdadeira soberania da Ucrânia” apenas será possível “em parceria com a Rússia”, recorda as comuns ligações “espirituais, humanas, civilizacionais estabelecidas desde há séculos” e sublinha que “formamos um único povo”.

Putin acusa ainda os “atores ocidentais do projeto ‘antirrusso’” de terem elaborado um sistema político ucraniano “com uma constante orientação em direção à separação com a Rússia, à inimizade para com ela” – independentemente de quem ocupar o poder –, assegura que o seu país nunca será “anti-ucraniano” e frisa que “os dirigentes da Ucrânia moderna e os seus mecenas exteriores” apenas possuem um objetivo, “conduzir ao enfraquecimento da Rússia, que convém aos nossos adversários”.

Na perspetiva do académico, o chefe de Estado russo pretende “ir mais além da União Soviética”, onde a ideologia oficial considerava que russos ucranianos e bielorrussos constituíam “três nações diferentes”, mas com origens comuns.

“A abordagem do estalinismo era a de que provavelmente “se uniriam num único povo”, mas a construção original foi delineada por Lenine, e em torno de um projeto federal, explicitou.

“Uma federação de Estados soberanos, com as suas fronteiras, hinos, escudos de armas. Lenine fez isso porque havia uma história de independência da Ucrânia, de tentativa de independência da Geórgia, etc., e desde o século XIX diversos intelectuais ucranianos sugeriam a ideia de que o Império russo se deveria tornar num Estado federado”, prosseguiu Yermolenko, também diretor analítico na Internews Ukraine e chefe de redação da UkraineWorld.org.

“Os ucranianos sugeriam esta opção porque olhavam para o exemplo dos Estados Unidos. Tentavam aplicar essa espécie de modelo republicano ao império, republicanizar, tornar o império numa república de diferentes nações, numa federação”.

Perante este cenário, confrontados com diversos movimentos nacionais, os primeiros dirigentes bolcheviques tentam e conseguem integrá-los na União Soviética, fundada em 1922, mas permitindo que mantivessem a sua identidade, e uma estrutura interna de tipo estatal.

“Mas houve comunistas ucranianos que pretendiam mais poder, não queriam o estatuto de república autónoma, antes um Estado soberano. Foi uma interessante abordagem; em resultado disso a propaganda soviética aceitava praticamente a entidade separada ucraniana. Mas depois tentaram castrá-la, aproximar a língua ucraniana da língua russa”, recordou. “Mas a língua mais próxima do ucraniano é o bielorrusso, seguido do polaco”, e o russo apenas surge de seguida.

“Basicamente, Putin diz que tudo isso é falso, que Lenine é um traidor, mesmo se considera que o colapso da União Soviética constituiu ‘a maior tragédia geopolítica’ da época, mas quer recuar para um período anterior, para o império russo, para o século XIX”.

Para reforçar a sua tese, Volodymyr Yermolenko recorreu a um recente artigo de Vladislav Surkov (considerado o mentor do designado ‘putinismo’, a doutrina de Putin), no qual defende que a Rússia tem de regressar às fronteiras de 1918, “e da próxima vez poderão dizer que deve regressar às fronteiras do império russo em 1914, o que significa por exemplo um significativo território da Polónia”.

Ao prosseguir a dissecação do artigo de Putin, sustentou que o seu principal objetivo consiste em negar a identidade ucraniana.

Mas para o académico, escritor e ativista ucraniano, “Putin assiste à progressão para leste dos valores europeus de democracia e direitos humanos”, acompanhou o “exemplo da Bielorrússia”, apesar do recuo do movimento de contestação devido à repressão, e pretende com o seu homólogo de Minsk “erguer um muro face a estes valores democráticos que se deslocam para leste, por recearem que um dia atinjam território russo. E penso que num certo momento vão atingir”.

Ainda na sua interpretação, Putin quis sobretudo sublinhar no seu artigo – “e provavelmente acredita, o seu grande erro” – que os ucranianos são russos, que o poder em 2014 foi tomado por uma minoria de nacionalistas que impôs essa ideologia à população baseada no estigma do “anti-Rússia”, que a população comum rejeita em geral essa abordagem, que os russos serão apoiados quando regressarem.

“A realidade é totalmente diferente, cerca de 65% dos ucranianos pensa que a Rússia é a principal ameaça, a ameaça decisiva, e em comparação com outros. Por exemplo, apenas 15% considera os EUA a maior ameaça”, enfatizou.

“A maioria considera a Rússia a principal ameaça, os partidos russos estão a perder nas sondagens, o apoio à língua ucraniana por quem se exprime em russo está a aumentar, há quem fale russo mas considera-se ucraniano e preparado para defender a Ucrânia”.

Através destas observações, Volodymyr Yermolenko parece sugerir que o líder do maior país do mundo em extensão, e que pretende voltar a merecer o respeito dos seus grandes rivais internacionais, está de algum modo fora da realidade.

“Putin não entende o que se passa, se uma pessoa fala russo deverá aceitar a hegemonia russa, mas basicamente em cidades da Ucrânia toda a gente fala russo mas são muito anti-Kremlin, anti-Putin, antirrussos. É o paradoxo. Pode-se mesmo comparar com os EUA durante a guerra da independência, todos falavam em inglês, mas os patriotas eram anti-ingleses”.

PEDRO CALDEIRA RODRIGUES (Lusa)

Putin “contra” Lenine, ou as “lições” de “história” de Putin


Um dos momentos mais significativos da comunicação de ontem de Vladimir Putin não foi o reconhecimento dos estados separatistas ucranianos, já que esta situação foi um mero reconhecimento de uma situação de facto, embora violando as leis internacionais e  criando condições para uma efectiva ocupação militar dessas regiões, situação que pode levar a uma escalada militar contra a Ucrânia, com consequências imprevisíveis na paz mundial.

Um dos momentos mais esclarecedores dessa comunicação foi a “lição de história” de Putin, uma visão que o mesmo já tinha escrito há alguns anos.

Curiosamente poucos se debruçaram sobre o conteúdo dessa lição, talvez porque põe em causa dois discursos dominantes que, por razões diferentes, procuram colar Putin ao legado “soviético”, de um lado os que anseiam pelo seu regresso, e, do outro, os que o usam para diabolizar o “socialismo”.

Em termos gerais, nessa comunicação Putin acusou Lenine de ter criado uma Ucrânia autónoma, que, até à “traição” da Revolução Bolchevique, era parte “integrante” e “indivisível” do Império Russo.

Esse principio levou-o mesmo a reforçar o argumentário a favor da  invasão da Crimeia em 2014, recordando que este território tinha sido integrada “à força” no Estado Soviético federal da Ucrânia, por outro líder soviético, Krutchev, líder comunista de origem ucraniana.

Ou seja, acaba por considerar a Ucrânia um Estado “inventado” pelos bolcheviques e reforçado ao longo do regime soviético.

Mas a sua narrativa foi ainda mais longe, dizendo que, os ucranianos, ao derrubarem as estátuas de Lenine, estavam a derrubar quem lhes deu “razão” para a sua independência e, acrescentou, se querem mesmo “descomunizar” a Ucrânia devem ir “até ao fim”, estando ele, Putin, “pronto para vos mostrar o que significa para a Ucrânia a verdadeira descomunização”, ou seja, essa “descomunização” só estará completa, se acabar com essa “invenção” bolchevique de uma Ucrânia independente e autonoma, integrando-a na “mãe” pátria, o grande império Russo, “destruído” pelos bolcheviques e que Putin visa reconstruir.

Para aqueles, nostálgicos da “grandeza” da  União Soviética,  que viam em Putin uma espécie de regresso à “grandeza” do “comunismo” soviético, espero que este discurso tenha sido revelador e esclarecedor sobre quem é de facto Putin, uma espécie de Hitler dos nossos tempos.

Aquela revisão da história revela toda a natureza política de Putin, um autocrata imperialista, um populista nacionalista, que bebeu o pior de Stalin e o pior do fascismo para construir a sua narrativa histórica.

Basta ver quem tem estado activamente do seu lado ou tem sido por ele apoiado: Le Pen, Trump, Bolsonaro…

Claro que, como já dissemos noutro texto, o “ocidente” e a NATO não estão isentos de responsabilidade na escalada bélica, nem podem dar grandes lições de história ao ditador russo. 

Aliás, muito da estratégia e da narrativa Russa para se apoderar de parte da Ucrânia (veremos, no futuro, se não de toda a Ucrânia) não é muito diferente da utilizada pelo “ocidente”, em especial pelos Estados Unidos, e mais recentemente pela NATO, para várias intervenções militares por esse mundo fora, ao longo da história.

Durante as últimas décadas humilharam a Rússia, apoiando todas os movimentos separatistas e independentistas que enfraquecessem esse país, colocando armamento às suas portas, ao mesmo tempo que fechavam os olhos e beneficiavam dos investimentos financeiros no Ocidente, feitos pelos corruptos oligarcas, que são a principal base de apoio de Putin.

Claro, também, que, se aceitamos que vários estados se tenham separado da Rússia para fundarem novos estados, sem ter em conta outros “direitos internacionais” e sem qualquer referendo popular para os tornar independentes, temos de aceitar que certas regiões, algumas integradas à pressa nesses novos Estados, tenham direito a escolher a sua autonomia ou a sua integração noutra região.

Mas, contudo, tal só poderá ser aceitável com recurso a referendos democráticos, e respeitando a negociação, situação que não é aquela que se passou, ou passa, quer na Crimeia quer nos actuais estados agora reconhecidos pela Rússia.

O diálogo e a verdade histórica não são, como já sabemos, e aquela comunicação confirma, as principais preocupações de Putin.

DIÁRIOS DE KIEV – (3-4-5) por Pedro Caldeira Rodrigues (Agência LUSA) - 18 e 19 de Fevereiro de 2022



18 de Fevereiro de 2022

Ucrânia: Os longos protestos contra o colapso económico que juntam inimigos políticos

“ Na manhã de quinta-feira, rodeados por numeroso dispositivo da polícia de intervenção, algumas centenas de pessoas regressaram à Praça Maidan, centro de Kiev, em protesto contra a situação económica e o aumento dos impostos.

Num dia com um tímido sol a despontar, quatro graus positivos e vento persistente que depois trouxe chuva, a pequena multidão, com bandeiras brancas e a frase “Salvem a Ucrânia”, lema do movimento, foi forçada a dispersar por dezenas de polícias de intervenção equipados a rigor. Momentos de tensão, num país em tensão permanente desde o início da guerra no leste, na região do Donbass.

A concentração, que interrompeu o trânsito na avenida Khreschatyk, voltou a ser apoiada por forças irreconciliáveis entre si, mas unidas na oposição ao Presidente Volodymyr Zelenski.

“Não foi uma manifestação política, foi de pequenos empresários que protestam contra diversas medidas do Governo e exigem a redução da pressão dos impostos e dos decretos administrativos dirigidos ao pequeno comércio”, disse à Lusa Volodymyr Ariev, deputado do Solidariedade Europeia (YeS), o antigo bloco de Petro Poroshenko que nas legislativas de outubro de 2014 garantiu 132 dos 423 lugares na Rada.

Este partido de centro-direita, nacionalista e pró-europeu, foi derrotado em 2019 pela formação do atual Presidente, que também se impôs por larga margem ao rival Poroshenko nas presidenciais que decorreram em simultâneo.

“Protestam há mais de ano e meio, e por vezes fazem grandes manifestações, como agora sucedeu”, acrescenta Ariev.

Mas este protesto também obteve o apoio da Plataforma da Oposição - Pela Vida (OPZZh), um partido definido como pró-russo que contesta a aproximação à União Europeia, dirigido pelo oligarca Viktor Medvedchuk e que se afirma solidário com os pequenos empresários em protesto pelas recentes medidas sobre transações bancárias aconselhadas por Bruxelas e que consideram fatais para o seu negócio, onde imperava o ‘dinheiro vivo’.

Progressivamente, a frase que ecoou por toda a praça, com a ajuda de um megafone, acabou por se dissipar, também abafada pelo ruído dos automóveis que retomaram a circulação, e tudo voltou ao normal.

Mas a situação económica da Ucrânia, um país com quase 40 milhões de habitantes, muito dependente de empréstimos e doações das grandes instituições financeiras internacionais, é grave. O PIB ‘per capita’ coloca-o no 119º lugar à escala global e o desemprego e a pobreza parecem desafiar todas as estatísticas oficiais.

Anton Naychuk, 31 anos, doutorado em Ciências Políticas e um dos diretores da Fundação Diplomacia Civil, um instituto próximo do atual Governo, reconhece o momento crucial que o seu país atravessa. “Devido à permanente pressão internacional, os investidores estrangeiros estão a tentar retirar o seu dinheiro da Ucrânia, e isso está a provocar muitos problemas. O Presidente, o Governo, a sociedade civil, entendem que o risco de uma agressão russa está presente, mas tentamos manter a calma e explicar aos nossos parceiros internacionais que este contexto pode ser ultrapassado”, afirma.

“Já perdemos cerca de seis mil milhões de dólares [5,3 mil milhões de euros] em investimentos desde o início desta crise [em 2014 com a anexação da Crimeia pela Rússia e o início da guerra no Donbass], e o desemprego é outro grande problema. Muitos investidores não querem trabalhar com a Ucrânia, apesar de tentarmos transmitir garantias”, prossegue o responsável da Fundação e mandatado para delinear o processo político e a preparação de um roteiro para investimentos estrangeiros na Ucrânia.

“É muito difícil garantir novas oportunidades, novos negócios, porque os investidores não vêm para aqui, e há muitos que tentam mesmo fechar os seus negócios”, acentua Naychuk.

Neste contexto, os contínuos alertas ocidentais sobre uma “invasão iminente” estão a motivar um grande incómodo na liderança de Kiev, incluindo no Presidente Volodymyr Zelensky.

A cumplicidade com o atual poder instalado no palácio Mariinsky leva Anton Naychuk a interrogar-se se a concentração na praça Maidan foi um “protesto” ou antes uma “iniciativa política que pretende extrair benefícios”, e quando o Governo, assegura, mantém “contacto direto com os empresários” ucranianos e tenta encontrar compromissos.

O combate à corrupção e ao poder da oligarquia financeira também associada ao político e empresário milionário Poroshenko – acusado em dezembro de 2021 pelas autoridades ucranianas de alta traição num caso relacionado com a alegada compra de carvão em territórios das repúblicas separatistas pró-russas de Donetsk e Lugansk e a aguardar o julgamento em liberdade – foi anunciada como uma das prioridades dos novos dirigentes, mas os resultados escasseiam.

“A corrupção é um problema para todos os países, mas na Ucrânia talvez tenha sido um pouco mais problemática porque não foram tomadas medidas suficientes para resolver a situação. Houve uma reforma do sistema judicial que não obteve bons resultados após um conflito entre diversas instituições do Estado”, diz Naychuk.

A presença dos “grupos de influência”, dos oligarcas, permanece muito visível, apesar da íntima colaboração entre o chefe de Estado e o parlamento, dominado pelo partido presidencial, na elaboração de projetos-lei para contrariar essa influência e impedir que muitos deputados permaneçam controlados por grupos financeiros.

“A nossa prioridade é o reforço dos laços económicos com a União Europeia, mas em simultâneo, em particular nas regiões do leste, muitos negócios continuam a ser orientados pela Rússia, onde continuam a existir fábricas, produção”, indica Naychuk.

“Apesar de dizermos que a Rússia é a agressora, tentamos construir uma política de vizinhança, existem riscos militares dos dois lados, mas em simultâneo é necessário construir a nossa política regional tendo em conta os nossos interesses nacionais”, adianta.

A guerra no leste implicou que a Ucrânia perdesse importantes unidades industriais, agora sob controlo das administrações pró-russas das autoproclamadas “repúblicas populares” de Donetsk e Lugansk, e com centenas de milhares de passaportes russos distribuídos pela sua população, perto dos quatro milhões.

“Todos estes factores têm um reflexo negativo na nossa situação económica, e explicam como a nossa economia não está tão bem como desejávamos. O covid-19 também teve um impacto muito negativo, e o principal objetivo do nosso Governo é encontrar uma solução para estes problemas”, concluiu”.

Pedro Caldeira Rodrigues (LUSA)

19 de Fevereiro de 2022

Ucrânia: A cidade que não esqueceu os seus mortos

“Em Kiev, oito anos após a “Revolução de Maidan” do inverno de 2014, presta-se tributo a quem tombou durante os violentos confrontos que ditaram o fim de uma contestada opção política, iniciando uma prolongada guerra ainda sem desfecho.

Junto a uma pequena capela de madeira fica o mausoléu em memória dos “Cem Celestiais”, mártires da “Revolução de Maidan”. Um grupo de raparigas, algumas com ramos de flores, perfila-se junto a uma grande lápide de aço e granito com dezenas de fotos. A professora pede para tirar uma fotografia frente ao pequeno templo à guarda da Igreja greco-católica ucraniana, uma construção de madeira erguida em memória dos caídos.

Tinha já decorrido a cerimónia religiosa celebrada por dois padres, com cânticos e ornamentos coloridos e reluzentes, frente a uma grande cruz de madeira com Cristo crucificado, esculpido. Um ritual de uma Igreja católica, fiel ao Vaticano, mas de rito bizantino, herança da conflituosa história que assolou estas regiões do leste, com fronteiras disputadas entre impérios rivais e distintas obediências ao sagrado.

No percurso em direção ao monumento, em fitas atadas a árvores ou colocadas nos arbustos, dezenas de figuras de sinos, de anjos, todos brancos e recortados a papel.

A capela de madeira, que designam de “Templo do Arcanjo Miguel e Novos Mártires Ucranianos”, foi erguida em três dias, tal como a cruz. Cerca de um mês antes, em 20 de fevereiro, 47 defensores da brigada “Porta de Lviv”, da “42ª unidade da autodefesa de Maidan” foram mortos neste local, em confrontos com as forças policiais.

“Foram pessoas que morreram, dispararam sobre eles… Foi a professora que nos trouxe aqui, já viemos antes. Foram mortos por coisas do Governo”, diz Vi, 12 anos, integrada na visita escolar.

Por toda a cidade, grupos de jovens, de mulheres, de idosos, recolhem-se frente aos altares a céu aberto, tributo aos “heróis” tombados na também designada “Revolução da Dignidade”.

Cravos vermelhos, coroas de flores, capacetes de segurança geralmente usados nas construções que pertenciam a insurgentes abatidos na “Revolução de Maidan e dos ‘Snipers’” – como também se designa a rebelião contra o Presidente “pró-russo” Viktor Yanukovych para recordar os atiradores furtivos que dispararam em direção aos protestos – estão alinhados com devoção.

Perto da praça Maidan, outro altar improvisado com uma cruz, uma bandeira nacional azul e amarela, restos de uma barricada e um pneu acompanham as fotos dos 11 caídos que, incentivados pelas oposições, se juntaram aos milhares que desceram às ruas em protesto pela recusa de Yanukovych em assinar um acordo de associação comercial com a União Europeia. O pretexto para a revolução.

Nas proximidades, dois idosos vendem pequenas fitas de pano coloridas que depois são atadas num corrimão, às centenas, ou presas às fotos. Nessa rua que sobe a partir da grande praça, pequenos tijolos de cimento colocados num muro enquadram duas centenas de fotos dos mortos de Maidan, a maioria homens, algumas mulheres. Muitos com cravos vermelhos no pequeno nicho, velas, mesmo objetos pessoais que lhes eram queridos, uma longa tradição religiosa ortodoxa.

Perto, numa ponte aérea pedonal, está colocada uma grande faixa que exige a libertação de Nariman Jelal, tártaro da Crimeia, ativista, detido após a anexação da península pela Rússia.

Em diversos pontos da cidade também foram instalados painéis de metal com fotos dos “heróis ucranianos” mortos nos combates que eclodiram após a rebelião separatista das populações russófonas do leste na primavera de 2014, também acompanhados pelos seus cravos e velas. Deixaram-se mensagens, poemas em lápides ou em papel, bandeiras nacionais.

Há oito anos que a Ucrânia parece viver em estado de luto permanente, desanuviado na primavera de 2019 com a vitória de um “marginal da política”, o ex-comediante e atual Presidente Volodymyr Zelenski, que prometeu melhor nível de vida, combate à oligarquia corrupta, solução negociada do conflito no leste. Uma esperança que se desvaneceu com as resistências internas, e ultimamente com o agravamento das relações com a Rússia e as alegações de iminentes invasões militares emitidas por aliados ocidentais.

Tudo parece ter regressado ao passado mais cinzento. E uma das formas de colocar em segundo plano os desafios do dia a dia, no país rotulado como “o mais pobre da Europa”, consiste na contínua mobilização em torno de reemergentes referências nacionais.

Assim sucedeu na passada quarta-feira, um dia estipulado pelo aliado norte-americano para a anunciada invasão.  O Presidente Zelenski dirigiu-se na noite anterior ao país pela televisão e decidiu declará-lo “Dia da Unidade”. Bandeiras azuis e amarelas foram hasteadas nos edifícios, colocadas nos postes de iluminação nas principais avenidas, e às 10:00 em ponto entoou-se o hino nacional. Kiev ficou engalanada.

“O risco de uma guerra total não é tão direto. Mas não excluo a possibilidade de um conflito local na linha de contacto no Donbass. Os dois lados podem iniciar um conflito e que poderá alastrar”, admite Anton Naychuk, 31 anos, doutorado em Ciências Políticas e um dos responsáveis da Fundação Diplomacia Civil, uma organização que se afirma vocacionada para a adoção de decisões acertadas em política externa e muito próxima do atual Presidente.

“Tentamos equacionar todas as variantes possíveis, a forma como poderá ser abordada a situação. Mas espero que não se assista ao confronto direto entre dois grandes exércitos, isso seria uma grande tragédia para a Ucrânia e para toda a Europa, incluindo a Federação russa”, assinala após pedir desculpa pelo atraso no encontro, justificado pelo trânsito intenso numa tarde cinzenta e chuvosa em Kiev.

“Com as conversações diplomáticas sobre garantias de segurança, atendendo à situação do [gasoduto russo-alemão] Nord Stream II e todos os restantes casos, espero que Putin não decida atacar a Ucrânia”.

Na Ucrânia, institutos oficiais, organizações da sociedade civil, investigadores independentes, prosseguem na análise de um processo pelo qual uma sociedade relativamente pacífica degenerou para a rebelião civil, o conflito e a guerra. Um ponto de viragem que implica profunda reflexão, incluindo as consequências futuras de uma derrota ou vitória nesta guerra entre “irmãos”, mesmo que remetida ao campo diplomático.

E existem setores da sociedade ucraniana mais renitentes perante um eventual acordo de paz que apenas signifique o regresso a uma “guerra congelada”, sem qualquer perspetiva de recuperação de territórios.

“A possibilidade de uma invasão permanece muito elevada. Não ocorreu uma importante retirada de tropas e prosseguem os preparativos para uma invasão, com todos os cenários ainda possíveis”, diz à Lusa Volodymyr Ariev, deputado do Solidariedade Europeia (YeS), um partido conservador, nacionalista, e principal força da oposição.

Apesar de o seu partido, liderado pelo ex-presidente Petro Poroshenko continuar a promover em simultâneo uma feroz oposição a Zelensky e ao seu partido Servo do Povo (SN) com maioria na Verkhovna Rada, o parlamento unicameral ucraniano, a “defesa do território” gera consenso nacional.

“Os perigos vão aumentar, pode começar no leste e depois alastrar a outras regiões sob controlo do Governo ucraniano. Se a Rússia reconhecer a independências das repúblicas populares secessionistas isso pode significar uma escalada imediata porque essas designadas repúblicas gostariam de controlar mais territórios dos oblast [províncias]”, prognostica.

Após a “revolução de Maidan”, que Moscovo considera um “golpe de Estado” dirigido a partir do exterior, a Rússia respondeu com a anexação da península da Crimeia e de seguida forneceu apoio técnico e logístico aos separatistas armados pró-russos da região do Donbass (leste), que declararam “duas repúblicas populares” em Donetsk e Lugansk, ainda não reconhecidas por Moscovo.

Na quarta-feira, a Duma russa (parlamento) aprovou uma resolução nesse sentido dirigia a Putin, que cautelosamente ainda não acatou a ordem, porque a medida significaria o fim das negociações assentes no acordo de Minsk II de 2015, favoráveis às pretensões separatistas de ampla autonomia.

Numa aparência de um dia a dia normal, os tambores da guerra continuam a assolar os ucranianos. Temem que o seu país seja abandonado, remetido a um limbo, à mercê dos interesses das grandes potências, porque sabem ter sido nesta estratégica região entre as “duas Europas” que os poderosos elegeram um novo palco para esgrimir os seus argumentos”.

Pedro Caldeira Rodrigues (LUSA)

19 de Fevereiro de 2022

Ucrânia: Uma guerra no horizonte, mas com negócios à parte

“ Armas e munições dos Estados Unidos, Polónia ou Lituânia, drones da Turquia e capacetes da Alemanha, material militar que nas últimas semanas tem reforçado o exército ucraniano e que denuncia divergentes abordagens geopolíticas face ao conflito com a Rússia.

Neste rodopio de armamento envolvendo avultadas verbas - e que alguns consideram um incentivo para o exército ucraniano efetuar uma operação-surpresa nas regiões controladas pelas forças separatistas pró-russas no leste, região do Donbas - tem-se destacado a Turquia através de um delicado jogo de equilíbrio com os vizinhos Rússia e Ucrânia com qual este membro da NATO tem pretendido afirmar-se como potencial e decisivo mediador do conflito.

No início de fevereiro, a convite do seu homólogo Volodymyr Zelensky, o Presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, visitou Kiev e assinou diversos acordos bilaterais que preveem um contínuo reforço das relações entre os dois países, que também ensaiam em paralelo uma aproximação a Israel.

Após a assinatura de um acordo de cooperação nas áreas da Alta tecnologia, Aviação e Espaço, Haluk Bayraktar, diretor executivo da Baykar Malina, que produz os drones militares Bayraktar TB2 utilizados pelo exército ucraniano, confirmou a abertura de uma fábrica na Ucrânia para a produção destes aparelhos.

Na ocasião, durante uma conferência de imprensa conjunta e após agradecer a Erdogan – que emitiu um discurso cauteloso para não irritar o Presidente russo Vladimir Putin, esperado proximamente em Ancara –, Zelensky disse que o acordo vai expandir a produção na Ucrânia dos veículos aéreos não tripulados (UAV) da Baykar Makina, uma empresa familiar na qual Selçuk, irmão de Haluk e genro de Erdogan, é sócio.

"Também cria mais empregos e reforça as capacidades militares da Ucrânia", acrescentou Zelensky.

A apresentação do catálogo desta empresa constituiu uma das prioridades de Erdogan nas suas vistas oficiais, e o produto está em alta. Os Bayraktar TB2 foram decisivos na vitória militar do Azerbaijão sobre a Arménia em torno do enclave do Nagorno-Karabakh, no outono de 2000, e já foram utilizados pelo exército ucraniano contra as forças russófonas no Donbas, uma ação que implicou fortes protestos de Moscovo.

"Apesar do reforço do nosso exército, não penso que uma ofensiva militar ucraniana para recuperar os territórios do Donbas seja uma opção. O Governo ucraniano, os responsáveis militares e civis têm sublinhado que a Ucrânia não prevê qualquer operação militar para libertar os territórios ocupados", indicou à agência Lusa Milan Lelich, o apodo de Oleksandr Khymych, analista político para a agência noticiosa RBC-Ukraine.

A sua abordagem contraria as informações sobre uma súbita escalada da tensão junto da "linha de contacto" delineada nos dois acordos de Minsk (junho de 2014 e fevereiro de 2015), com os dois exércitos a acusarem-se mutuamente de contínuas violações do cessar-fogo – uma constante nos últimos oito anos agora confirmada pelos observadores da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) –, ou os anúncios da retirada de populações de territórios das "repúblicas populares" secessionistas para zonas mais seguras e a ordem de mobilização geral.

"Todo o armamento que temos recebido dos nossos aliados e parceiros ocidentais, que muito agradecemos, é apenas para propósitos defensivos e destina-se a conter uma eventual invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia. É tudo. Estamos totalmente empenhados numa solução diplomática. Não haverá uma operação militar contra as designadas repúblicas terroristas, as ‘repúblicas populares de Donetsk e Lugansk’. Tenho 100% de certeza", acrescenta Milan Lelich.

Um recente estudo promovido pelo World Value Survey indicou que as Forças Armadas são a instituição que motiva mais confiança entre a população ucraniana (74%), seguida pelas instituições religiosas (72%).

As únicas outras instituições com balanço positivo na confiança social são o "sistema educativo" e as organizações da sociedade civil (ONG).

Neste estudo, os voluntários que se incorporaram no exército são particularmente elogiados, em particular a partir de 2014. As Forças Armadas passaram a ser consideradas "o exército do povo" e não uma máquina hierárquica de generais e oficiais.

Para além dos efetivos nos três ramos militares, a Ucrânia possui uma Guarda Nacional (NGU), força paramilitar dependente do ministério do Interior, e os Batalhões de Defesa territoriais (VTO) na sequência de uma lei específica que permite a mobilização de milhares de cidadãos para treinos militares que decorrem em geral aos fins de semana.

Na sequência de uma decisão governamental, todas as unidades de voluntários foram incorporadas nas Forças Armadas ucranianas, incluindo a "Unidade de operações especiais Azov" (A3OB), uma força nacionalista de extrema-direita e ideologia neonazi, acusada pela OSCE de crimes de guerra no auge do conflito, incluindo raptos, tortura e execuções sumárias. Uma prática também apontada a "unidades especiais" do contingente separatista.

O atual nível de preparação do exército ucraniano, munido de sofisticado material de guerra e mais de 100.000 efetivos – a Alemanha, devido à sua "posição estratégica" apenas forneceu armamento não letal – tornou-o num dos mais eficazes da Europa para situações de combate, quando este confito provocou nos últimos oito anos cerca de 14.000 mortos, dezenas de milhares de feridos e perto de 1,5 milhões de deslocados, dos dois lados.

"De momento estamos no centro do mundo, a Ucrânia tornou-se um elemento de confrontação, incluindo no decurso dos contactos diplomáticos sobre garantias de segurança na Europa", assinala Anton Naychuk, doutorado em Ciências Políticas, um dos diretores da Fundação Diplomacia Civil e considerado próximo do Presidente Zelensky.

"A Ucrânia também se encontra no meio da situação porque a Federação russa quer evitar a adesão da Ucrânia à NATO… E com os EUA e a NATO a afirmarem que a Ucrânia é independente e que deve ser mantida a política de portas abertas".

Com contactos privilegiados no círculo do "partido do Presidente", Anton Naychuk considera que o risco de uma guerra total "não é tão direto" apesar de não excluir a possibilidade de um conflito centrado inicialmente na "linha de contacto", a linha da frente no Donbass. "Os dois lados podem iniciar um conflito e que poderá alastrar", prognosticou.

"Espero que a guerra não se agrave, mas se compararmos hoje o exército ucraniano com a primeira fase da agressão russa, desenvolvemos as suas capacidades, garantimos uma boa colaboração com diversos parceiros, por exemplo a Turquia, conseguimos colocar grande parte do nosso orçamento na área da Defesa, garantimos o nosso armamento, acumulámos muita experiência militar após 2014 e que o tornou num dos mais experientes da Europa, disso não tenho dúvidas".

Na perspetiva de diversos analistas locais, este conflito não pode ser dissociado de uma questão decisiva e da qual os dois países são muito interdependentes: a extração e distribuição do gás.

À margem da "ocupação russa", e antes dos mais recentes e constantes alertas sobre uma invasão militar, o gigante russo Gazrpom e a Naftogaz Ukrainy firmaram em 2020 um contrato sobre o trânsito de gás russo através da Ucrânia por um período de quatro anos, e que permanece em vigor. As relações comerciais bilaterais também aumentaram, com muitos negócios orientados a partir do lado russo.

"O nosso Governo também quer prosseguir estes contratos porque não se trata apenas de um negócio, mas também de garantias de segurança devido à passagem desse gás pelo nosso território. Nessa situação a Rússia não iria intervir no nosso território. É a posição política do nosso Governo", adianta Anton Naychuk.

A insistência dos Estados Unidos na iminência de uma invasão da Rússia ao país vizinho também tem sido motivo de intensa polémica, com muitos a associarem a firmeza de Washington à aproximação das decisivas eleições intercalares de novembro, um teste crucial para Joe Biden.

"Para o Presidente dos EUA, sobretudo após o que sucedeu no Afeganistão, é importante que mantenha autoridade, garanta uma vitória diplomática sobre Putin e surja como um Presidente que conseguiu travar a guerra. E com esta campanha de informação pretendem obter uma grande resposta", concluiu o responsável da Fundação Diplomacia Civil”.

Pedro Caldeira Rodrigues (LUSA)

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

DIÁRIOS DE KIEV (1 e 2) por PEDRO CALDEIRA RODRIGUES (para a LUSA)


É com muita honra e prazer que podemos anunciar a publicação, a partir de hoje, das reportagens de Pedro Caldeira Rodigues, a partir de Kiev, sobre a situação actual vivida na Ucrânia, escritas para a agência LUSA.

Pedro Caldeira Rodrigues é um consagrado repórter, especializado em assuntos internacionais, actualmente  jornalista da LUSA.

Nascisdo em 1958, formado em História pela Faculdade de Letras de Lisboa, onde se licenciou em 1981 e tirou o mestrado em História e Cultura Europeia Contemporânea em 2008, foi um dos jornalistas fundadores do jornal Público.

Teve o seu baptismo de fogo na guerra da ex-jugoslávia, como reporter do jornal Público e desta experiência resultou a publicação, em colaboração com o jornalista sérvio Steve Niksico de "Vírus balcânico. O Caso da Jugoslávia", obra editada pela Assírio & Alvim em 1996.

Publicou também o "Atlas da Europa", em 2001, editado pelo Público,  e "O Sobressalto Grego", editado em 2015, sendo um dos mais conceituados e mais bem informados jornalistas de politica internacional.

A História é outra das suas área de interesse, tendo publicado em 2011 "Teatro de Revista e a Iª República (...)" , sendo igualmente colaborador, com artigos de divulgação e investigação histórica, na revista Visão História.

Amigo pessoal de longa data e colega na faculdade de Letras do autor deste blog, é com grande orgulho que ele nos autorizou a publicar neste blog as suas reportagens diárias, que ele está a realizar a partir de Kiev, às quais daremos o Título de "DIÁRIOS DE KIEV por Pedro Caldeira Rodrigues".

Começamos por publicar os "Diários" dos últimos dias, caracterizados por uma grande sensibilidade, um conhecimento aprofundado da realidade ucraniana, uma preocupação de contextualização histórica e uma rara objectividade jornalistica.

Esperamos que os nossos leitores sintam, como nós, o prazer de ler o seu bem informado trabalho jornalistico :

DIÁRIOS DE KIEV - por Pedro Caldeira Rodrigues (1) 11 de Fevereiro de 2022 :

"Dois textos sobre a "crise russo-ucraniana" na perspetiva dos "vizinhos" finlandeses:


ENTREVISTA/Ucrânia: “Efeito Crimeia” de 2014 não será possível de repetir pela Rússia – académico



***por Pedro Caldeira Rodrigues, agência Lusa ***

 

"Redação, 12 fev 2022 (Lusa) - O Presidente da Rússia tem pouco a ganhar internamente com a crise nas relações com a Ucrânia porque o "efeito Crimeia" não pode ser repetido, mas manterá condições para permanecer no poder, afirmou à Lusa o investigador Arkady Moshes.  

"Vladimir Putin possui uma grande flexibilidade a nível interno. As instituições estão sob controlo, a Rússia é um estado autoritário, e a sua manutenção no poder não depende muito do desfecho da atual crise", considerou Moshes, diretor do programa para a Europa de leste e Rússia do Instituto Finlandês de Assuntos Internacionais (FIIA), sediado em Helsínquia.

Apesar de considerar que o líder do Kremlin não pode extrair importantes proveitos políticos desta crise, mesmo que a sua estratégia seja bem-sucedida, o atual cenário é muito diverso do registado há oito anos, na sequência da "designada "revolução de Maidan" que levou ao poder um Governo "pró-ocidental" e a consequente anexação da península da Crimeia pela Rússia e o início do conflito no leste do país.

"O designado 'efeito Crimeia' foi um momento de euforia que não pode ser repetido. Há oito anos, quando a Rússia anexou a Crimeia, foi uma medida que agradou à população, a maioria dos russos considerou-a justa, legítima, que a população da Crimeia queria juntar-se à Rússia. Foi popular e basicamente não teve custos. Não houve guerra, não chegaram caixões com mortos à Rússia, foi rápido", assinalou o académico, também membro do Programa de Novas Abordagens sobre Pesquisa e Segurança na Eurásia (PONARS, Eurásia).

O impacto a nível interno de novos sucessos protagonizados pela Rússia no seu envolvimento político-militar além-fronteiras também acabou por ser mitigado, assinalou, apontando o exemplo da Síria.

"A atuação russa na Síria foi muito bem-sucedida. Em relação à situação no terreno e face ao ocidente, a Rússia não permitiu que o ocidente concretizasse a sua agenda na Síria, mas no interior do país teve um efeito quase nulo na popularidade do Governo de Putin", indicou.

No entanto, Arkady Moshes adverte que a atual situação na Ucrânia pode ser "mais complicada" para o Kremlin, pelo facto de uma eventual escalada implicar um conflito em larga escala, com fortes consequências.

"Ninguém pode considerar que será uma guerra fácil. Será uma guerra. E os custos serão significativos, haverá mortos, e não será particularmente popular num país onde existem muitos 'patriotas do sofá', como os designamos. Os que gostam de ver os sucessos na televisão, mas não necessariamente enviar os seus filhos para combater".

O analista, especialista nas relações União Europeia-Rússia e nas políticas interna e externa dos países desta região e ex-repúblicas soviéticas, admite que o foco deve continuar a ser dirigido para as negociações em curso, a vários níveis e com diversos protagonistas - em particular em torno das "garantias de segurança" emitidas por Moscovo - e que poderão mesmo implicar algumas concessões à Rússia.

"Também isso não alterará em muito a popularidade do Governo, mas é qualquer coisa. Em comparação com o risco de uma escalada, é uma estratégia de saída muito mais fácil no âmbito da atual crise. Espero que seja conseguida".

No atual contexto, frisa, a opinião pública russa "não está preparada para a guerra", mas no caso de um conflito admite que Putin permanecerá no poder.

Mas a opção pela ocupação e anexação de territórios, envio de tropas terrestres para os controlar, implicaria uma situação que se prolongaria por largos anos, e um exercício particularmente arriscado.

"No passado, a Rússia errou várias vezes nos seus cálculos, nas duas revoluções ucranianas e em 2014-2015, quando pensou que metade da Ucrânia estava simplesmente à espera de ver a libertação por parte dos soldados russos ou pró-russos. Na realidade isso não aconteceu e a maioria dos soldados na linha da frente e do lado ucraniano eram falantes de russo (russófonos)", assegurou.

"Os cálculos errados aconteceram e penso que neste momento uma análise sóbria supõe que a situação pende mais para a busca de um compromisso que para uma escalada. Caso se inicie será uma grande guerra, com baixas, e nesse caso não é possível analisar que impacto teria".

Na sua perspetiva, a perspetiva de uma invasão militar da Ucrânia - que tem frequentemente sido admitida no ocidente, em particular pelos Estados Unidos - "não é inevitável".

Numa referência ao "plano original" da liderança russa, Arkady Moshes, considera que se destinava essencialmente "a demonstrar a prontidão para impor pressão militar, mas não necessariamente uma invasão e que seria demasiado arriscado", apesar de considerar que ninguém pode excluir essa hipótese.

"Mas tenho verificado nos últimos meses que o desejo da Rússia consiste em prosseguir as negociações. Haverá encontros na base do formato da Normandia a nível de conselheiros [componente política do processo de paz que permanece bloqueado e com envolvimento da Rússia, Ucrânia, Alemanha e França], trocas de cartas entre a Rússia e os países europeus e NATO, visitas a Moscovo, algumas mais bem-sucedidas que outras, e que indicam a existência de uma vontade séria para prosseguir no caminho da diplomacia. Não penso que a invasão seja inevitável".

A recente visita a Moscovo do Presidente francês, que acabou por desmentir que tenha utilizado o termo “finlandização” e que deveria ser “aplicado” à Ucrânia, também motivou uma observação arguta do investigador.  

“Foi extremamente importante, os políticos na Europa, em particular na Alemanha e França e que gostam de falar em ‘finlandização’ deveriam esquecer este termo que utilizam “, frisou, por considerar a expressão “um trauma, uma ofensa e um insulto” para os finlandeses.  

“Não foi uma escolha livre da Finlândia, foi uma escolha imposta à Finlândia como consequência da Segunda Guerra Mundial. Se a decisão fosse deles, nunca teria havido ‘finlandização’, que não é mais que a perda da soberania em política externa com o objetivo de proteger a situação ou uma solução política interna”.  

E exemplificou: “Seria o mesmo que alguém dizer agora aos franceses que o período entre 1940 e 1944 é um período da história do qual se deveriam orgulhar. Seriam insultados, mas por alguma razão pensam que podem utilizar esse termo dirigido a outros países”.  

Numa referência particular à Ucrânia, recordou que em 2014 e 2015, o país era um “Estado neutral”, não alinhado militarmente, mas que se confrontou com a perda de território e um conflito no leste.  

Neste contexto, considera que as posteriores emendas à Constituição ucraniana, com a consequente aproximação às estruturas euro-atlânticas, foi o resultado de uma experiência “muito negativa” como não-alinhado.  

“Tinha procurado ser membro da NATO antes, procura agora o mesmo, mas em 2014 não procurava essa adesão. E iniciou-se a crise... Oferecer agora à Ucrânia o mesmo do que quando perdeu os seus territórios será impraticável, condenado ao fracasso, e é compreensível”, num mundo “totalmente diferente e num sistema de segurança europeia totalmente diverso” do existente após a Segunda Guerra Mundial.  

Uma situação que comparou à existente no seu país, e na vizinha Suécia, que após os tratados de Ialta e Potsdam viram negado o direito de optar a que aliança pertencer. 

“Aceitar ou não um país na NATO é uma questão diferente, porque o caso tem de ser analisado. Mas negar a um país o direito de escolher a que aliança pertencer e pedir essa adesão é totalmente obsoleto e inaceitável no século XXI”, concluiu".

PCR/LUSA   


DIÁRIOS DE KIEV - por Pedro Caldeira Rodrigues (2) 11 de Fevereiro de 2022 :


*** Pedro Caldeira Rodrigues, agência Lusa ***

 

"Redação, 12 fev 2022 (Lusa) - A Rússia pretendia converter a Ucrânia numa Bósnia e manter uma influência decisiva sobre Kiev, mas a situação alterou-se e o acordo Minsk II já não é aplicável, defendeu em entrevista à Lusa o investigador Arkady Moshes.

"A Rússia pretendia converter a Ucrânia numa Bósnia. Criar um Estado fraco e poroso, com uma parte com possibilidade de veto sobre opções de política externa do conjunto do Estado", considerou Arkady Moshes, numa referência ao Acordo de Dayton de 1995 sobre a Bósnia-Herzegovina que pôs termo à guerra civil e criou duas entidades autónomas com um fraco Estado central.

"Isso foi entendido desde o início, e o que a Ucrânia tem feito nos últimos oito anos foi tentar progredir nessa área apesar do conflito. O cálculo seria que a Ucrânia poderia admitir fazer concessões para garantir o controlo de todo o território, mas basicamente a Ucrânia estabilizou a linha da frente e começou a fazer o que pretendia, designadamente prosseguir o acordo de associação com a União Europeia e o acordo de comércio livre abrangente, prosseguir a cooperação militar bilateral com a NATO, e o regime livre de vistos. Apesar do conflito, voltou-se para o ocidente", explicitou o diretor do programa para a Europa de leste e Rússia do Instituto Finlandês de Assuntos Internacionais (FIIA), sediado em Helsínquia.

Segundo Arkady Moshes, não existe uma perspetiva de integração formal da Ucrânia na UE e na NATO, nem se registaram conversações sobre o tema, mas antes "um intenso processo de cooperação e integração, não no ocidente, mas com o ocidente", com Moscovo a "perceber" que se construiu um cenário que pretenderia evitar.

Pelo contrário, os líderes russos e os dirigentes das duas repúblicas separatistas "pró-russas" do leste da Ucrânia continuam a insistir na aplicação dos acordos de Minsk II, assinados em fevereiro de 2015 pelos Presidente da Rússia, Ucrânia, França e a então chanceler da Alemanha, sob os auspícios da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), e considerados favoráveis às pretensões dos dirigentes russófonos do leste ucraniano.

"O acordo Minsk II não é aplicável, é uma folha e papel que está morta. Não pode ser aplicado pela simples razão de que a sua lógica está totalmente errada. Diz que devem ser realizadas eleições antes de a Ucrânia restabelecer o seu controlo [nos territórios separatistas], e que devem ser realizadas em conformidade com os padrões europeus. Mas quem pode imaginar a realização de eleições segundo esses padrões se a liberdade de reunião, de divulgar informação, de ser feita campanha em todo o território, não existirem", interrogou-se o investigador, também membro do Programa de Novas Abordagens sobre Pesquisa e Segurança na Eurásia (PONARS, Eurásia).

Na perspetiva de Moshes, o escrutínio apenas poderá ser concretizado após o "controlo soberano" da Ucrânia sobre esses territórios.

"Caso contrário, os resultados serão obviamente inaceitáveis para a Ucrânia, porque haverá pessoas que a Ucrânia pretenderá provavelmente indiciar por crimes de guerra que se tornariam membros do parlamento, ou membros da polícia nacional nessas áreas", sugeriu.

Ao abordar ainda os potenciais novos referendos sobre a autodeterminação previstos em Minsk II, o académico também se interrogou sobre em que territórios deveria decorrer a consulta, pelo facto de as fronteiras terem ficado indefinidas na sequência do conflito indicado em 2014 e que já provocou cerca de 14.000 mortos e pelo menos 1,5 milhões de deslocados.

Nos territórios secessionistas concentram-se cerca de quatro milhões de pessoas, num país com cerca de 36,5 milhões de habitantes, e o conflito implicou uma importante transferência de populações, que se mantiveram na região do Donbass mas separadas pela designada "linha de contacto".

O académico e especialista nas relações União Europeia-Rússia e nas políticas interna e externa dos países desta região e ex-repúblicas soviéticas, refere-se às populações deslocadas, questiona-se se também seriam elegíveis num referendo sobre a independência caso fossem autorizadas a votar, ou no destino das significativas populações russófonas, de língua russa, talvez 30% da população do país e sobretudo concentrada no centro-leste ucraniano e sul do país, e que se queixam de várias discriminações do poder de Kiev.

"Pelo menos 700.000 pessoas, ou agora cerca de um milhão, que vivem nesses territórios tornaram-se cidadãos russos devido à entrega massiva de passaportes. Votaram nas eleições na Rússia e são cidadãos de outro Estado, um estatuto que a Ucrânia não permite. São questões técnicas, e sem referência às políticas. Do ponto de vista técnico é muito difícil responder, mas se formos para o campo político, não sou um advogado mas sei que o direito à autodeterminação, e o direito de um Estado controlar todo o seu território, sempre estiveram em contradição".

O direito à autodeterminação não se aplica a estes territórios" pelo facto de já existir uma "nação" russa, considera Moshes.

Para além das questões "técnicas", a realidade política continua a impor-se e Arkady Moshes não tem dúvida em considerar que vai permanecer "uma questão estratégica" para a Rússia. "Não se trata necessariamente de um controlo territorial, mas uma espécie de possibilidade de decidir sobre o destino da Ucrânia, e que Putin tenta obter desde que assumiu o poder", indicou.

O que nunca implicará que a Rússia se "esqueça" da Ucrânia, mesmo na perspetiva de um acordo de âmbito global.

"Seria positivo mas isso não vai acontecer, Moscovo vai prosseguir a sua política, a Rússia é um grande país e possui outros instrumentos de pressão. Os instrumentos económicos de pressão são enormes devido à dependência energética da Ucrânia, e a sua ineficiência energética é ainda mais importante que a dependência, a cibersegurança, também a possibilidade de manter a pressão através da mobilização de forças militares para junto das fronteiras, incluindo na Bielorrússia, mas sem escalada", prognosticou.  

Numa referência à posição dos Estados Unidos nesta séria crise internacional, considerou ser este "o momento da verdade nas relações dos EUA com a Europa" e após a nova administração da Casa Branca se ter confrontado com diversas realidades.

"Quando o Presidente Joe Biden subiu ao poder, penso que poderia ser fácil reconstruir as pontes com a Europa, semidestruídas durante o mandato de Trump. Pensou que poderia efetuar alguns gestos, como em relação aos planos económicos da Alemanha relacionados com o gasoduto Nord Stream II, e outros temas", referiu.

"Mas percebemos que não havia unidade na administração Biden face à Rússia, e houve pessoas com perspetivas muito mais céticas em relação à Rússia", apontou, apesar de considerar "positivo" que Washington tenha passado a "prestar mais atenção" à Rússia, tendo neste aspeto "agitado" a Europa.

"Mas esta situação ainda não terminou. Se a escalada se verificar, o Nord Stream II [o novo gasoduto entre a Rússia e a Alemanha, já concluído, mas ainda sem licença para funcionar] estará em risco, e terão de ser aplicadas sanções norte-americanas a um gasoduto também alemão, agravando as relações EUA-Europa. Aproximamo-nos de um difícil ponto de bifurcação. A cooperação transatlântica pode melhorar, mas se ocorrer uma escalada ainda não sabemos quais as contradições que podem emergir entre os EUA e a Europa", concluiu".

PCR/LUSA

(CONTINUA)

terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

Tínhamos a “Guerra” do Solnado…agora temos…”a Guerra” do Biden!!


Parece que a “guerra” começa amanhã, segundo o presidente norte-americano Joe Biden!

A ser verdade, era a primeira vez que uma guerra começava a hora marcada e anunciada ao mundo.

A pressa de Biden justifica-se pela necessidade de Biden fazer esquecer o  descalabro no Afeganistão, de vender à Europa o gás americano, “libertando-a” da dependência do gás russo e, claro, vender armamento, o sustento da economia norte-americana, numa altura em que o país está em decadência social e económica e perde influência na cena internacional.

Já tínhamos um “maluco” no Kremlin, vários no terreno da Ucrânia, milícias pró-russas e milícias pró-ucranianas, lideradas, respectivamente, por neosstalinistas e neofascistas , e, quando pensávamos que Washington se tinha livrado do “maluco” do Trump, eis que Biden se revela um novo candidato a “maluco do ano”, assessorado aliás pelo “maluco” de Londres.

Só esperamos que, com tanto “maluco” no terreno, as profecias não se cumpram.

Diz Biden que se baseia, para anunciar ao mundo a “guerra de 16 de Fevereiro”, em informes dos seus serviços secretos, provavelmente os mesmos que “descobriram” armas de destruição de maciça no Iraque.

Pelos vistos, alguém trocou o “relatório” e enviou a Biden o vídeo do Solnado (ver em baixo)!!

terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

Como uma “certa” “América” vê o mundo, colocando-o à beira da guerra.


 ...um mundo a preto e branco, com “maus” absolutamente maus e “bons”, sempre bem-intencionados, “justos” e  “heroicos”.

É esse o mundo visto por uma certa América, longe da América cosmopolita, multicultural e criativa de S. Francisco ou Nova Iorque, uma América que se revelou em toda a plenitude com Trump, que contaminou o Partido Republicano e agora parece contaminar o Partido Democrático.

O pior é que essa ideologia, fomentada pela “Marvel”, pela “FoxNews” e pelos “jornais de referência” é consumida, sem ser questionada, pelo mundo “ocidental”.

E é isso que se está a ver na “questão Ucraniana”, como já se viu nas “questões”” jugoslava” “iraquiana”, “afegã”, “líbia” e “síria”, com os resultados conhecidos.

Toda a economia norte-americana é sustentada pelo complexo económico-militar e por isso, desde a 2ª guerra, que o poder económico e político norte-americano precisa de criar sempre novos “inimigos” para o justificar e para vender o seu arsenal militar pelo mundo fora.

Ora, “inimigos” à medida é o que não falta por aí, da China, à Rússia, ao Irão…

É só preciso depois criar uma narrativa credível, de diabolização de gente fácil de diabolizar.

Putin é uma dessas figuras.

Já o disse algumas vezes : Putin é o “Hitler do nosso tempo”, não porque considere Putin um sociopata e um genocida como Hitler, mas porque as razões que o levaram ao poder, instituindo uma autocracia na Rússia pós-soviética, fazem lembrar  as mesmas condições que levaram Hitler ao poder nos anos 30 do século passado.

Ao apoiar oligarcas, ao incentivar a desagregação da Rússia, ao humilhar os russos, ao faltar à palavra sobre a promessa de travar a expansão da NATO para leste ( para convencer as autoridades pós-soviéticas a dissolverem o Pacto de Varsóvia), o “ocidente”, com os norte-americanos à cabeça, criou as condições ideais para o aparecimento de um Putin.

O problema é que Putin não é muito diferente dos líderes da Ucrânia, ou mesmo de líderes de  países da NATO, como na Turquia ou nas “iliberias”  Polónia e  Hungria.

Quanto às lições de “superioridade moral”, em “democracia e liberdade” dadas pela NATO e pelas lideranças norte-americanas, é bom recordar que, quando da sua fundação, em 1949, a NATO aceitou, como país fundador, um Portugal liderado pelo ditador Salazar,  a mesma NATO, permitiu (e, ao que se sabe, até incentivou) a instauração de uma ditadura militar na Grécia em 1967, sem beliscar esse regime num país membro da NATO desde 1967. E podíamos recordar a importância de uma autarcia como a turca, no seio da mesma NATO.

À actual retórica militarista dos Estados Unidos e da NATO não será estranho o descalabro militar no Afeganistão, que se segue ao mesmo descalabro na Líbia, às dificuldades de política interna do presidente Biden, à crescente perda de influência a nível global dos Estados Unidos.

Quando é o próprio presidente da Ucrânia a referir que a retórica militarista da NATO e dos Estados Unidos é exagerada e prejudicial à própria Ucrânia, está tudo dito.

O problema é que o crescente clima de provocação em relação à Rússia pode levar Putin a cair na armadilha, até porque, aliada à retórica militarista, a única ameaça concreta em relação a uma invasão russa é a das “sanções económicas” e armar milícias ucranianas, mal preparadas e dominadas pela extrema-direita (um dos tirocínios dos movimentos extremistas ocidentais é fazerem um “perninha” nas milícias ucranianas que combatem nas províncias autonomistas ucranianas controladas pela população de maioria russa, apoiada pela Rússia).

Apoiado pela China, as sanções económicas ocidentais não fazem muita mossa a Putin, a não ser conjunturalmente a alguns oligarcas russos, já que a China é a principal potência económica do mundo actual.

Depois de décadas a fechar os olhos aos negócios dos oligarcas da Rússia e do leste na Europa e à crescente influência financeira e económica da China, pois o sector financeiro europeu e as grandes empresas europeias beneficiaram desses negócios, quem vai ficar a perder, a prazo, com uma situação militarmente descontrolada no leste da Europa, é o próprio mundo “ocidental”.

Obviamente que os Estados Unidos, que fomentam o clima de guerra na Europa, como já o fomentaram na Ásia e no Médio Oriente, só têm a ganhar com a destabilização da Europa, reforçando o seu militarismo e o seu domínio político-militar e económico sobre a Europa.

Para já, tal como fizeram no passado com as célebres “armas de destruição maciça” “controladas “ por Saddam Hussein (outro “mauzão” credível, como hoje o é um Putin), os Estados Unidos vão inventando narrativas cada vez mais irracionais, como a última que circula por aí (sem apresentarem provas) sobre o hipotético vídeo de propaganda, a ser “filmado” pelos russos, “inventando” um ataque ucraniano a forças russas, para “justificar” uma verdadeira invasão da Ucrânia pelo exército russo.

Essa informação parece-nos mais reveladora sobre os métodos fomentados pelos Estados Unidos para justificar  muitas das guerras onde se tem envolvido, do que pela credibilidade da mesma.

Provavelmente o que vai acontecer, para justificar um conflito contra a Rússia, até para justificar o investimento militar crescente do ocidente na Ucrânia e o reforço financeiro na NATO, é que algo de parecido aconteça, mas elaborado pelos sempre competentes serviços secretos norte-americanos.

Putin é um autocrata, não é de confiança, mas é inteligente. Como o lobo da história do menino mentiroso que gritava sempre que vinha aí o lobo, que é o que faz o “ocidente”, Putin só avança, se essa for a sua intenção, quando já ninguém acreditar que vem aí o lobo.

Só uma última pergunta. Se a Rússia resolvesse instalar no México o arsenal militar que o ocidente está a colocar na Ucrânia e em países vizinhos da Rússia, ou se procurasse atrair o mesmo México para a área de influência russa, como reagiriam os norte-americanos?

E já agora, se a Ucrânia, como estado soberano, tem todo o direito para aderir à organização militar que quiser e instalar material de guerra no seu território apontado à Russia, então porque é que que os americanos fizeram tanto barulho quando, nos anos 60, houve a crise dos mísseis em Cuba?

A ditadura cubana, um regime reconhecido internacionalmente, não tinha então mesmo direito de escolher a sua posição, direito que hoje o “ocidente” pretende atribuir ao estado autocrático da Ucrânia?

É o que se chama de “dois pesos e duas medidas” ou, pior ainda, brincar com o fogo (dos outros)!!

 

 

 

 

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

O “sr.” “orgulhosamente” 1%...


 O “sr. orgulhosamente” 1%...sou eu, o próprio!

Quem diz 1% , pode dizer 5% ou, no máximo, uns 10%.

Pertenço a essa enorme minoria que só vota em partidos que rondam essas percentagens, no caso das últimas eleições, um pouco mais de 1%.

Pertenço ao restrito número dos cerca de 1% que veem o Canal 2, quando quase toda agente vê telenovelas, o big brother, ou debates com as mesma opiniões de sempre.

Também pertenço àquela imensa minoria que houve rádio, ainda por cima apenas a Antena 1 ou a Radar (às vezes lá me escapo para o M80 ou para a Antena 3).

Pertenço àquela gente rara que compra jornais e lê livros e os leva para todo o lado.

Acho, aliás, que é mais importante descobrir e ser curioso que “comer” o que todos comem e que estudar e criar é mais importante que consumir acriticamente.

Devo ocupar uma percentagem muito pequena, em comparação com a média, a frequentar redes socias e, nestas, costumo ser selectivo, pouco dado a fake new, gatinhos e pores do Sol…

Sou ainda dos raros cidadãos que acha que pagar impostos é um acto cívico, nunca fugindo a pagá-los, só não concordando que eles sejam usados para salvar bancos ou grandes empresários.

Tirei a carta depois dos 40 e só o fiz porque (o cavaquismo) me destruíram o meio de transporte preferido, o caminho-de-ferro, deixando-me sem alternativa.

Assim que voltarem a reconstruir o transporte ferroviário e melhorarem os transportes públicos, conto deixar o carro, a maior parte do tempo e já agora, gostava que, cada vez mais, o transporte ferroviário pudesse ser alternativa à aviação, pelo menos nos pequenos percursos, e, nisso (como noutra coisas) estamos muito atrasado em relação ao resto da Europa.

Também não escolho o carro pelo tamanho ou pelo prestigio da marca. Desde que ande, com segurança, qualquer calhambeque em segunda mão me serve.

Gosto muito de cinema, mas pertenço àquele pequeno número de cinéfilos que escolhe os filmes pela qualidade do tema, do argumento ou do realizador, dando pouca importância às modas do momento, ao nome dos famosos que participam nos filmes, aos milhões do casting e ao número de explosões por metro de fita.

Gosto de passar férias longe dos lugares da moda e visitar o que ninguém visita.

Aliás, sou dos poucos que frequenta museus e exposições, principalmente aquelas que fogem à massificação.

Na musica, não nego a nostalgia, mas procuro o que é inovador e minoritários, longe dos top’s, nem sou daqueles de acham que os anos 60 e 80 é que eram bons. Nesses anos, como agora, havia coisas boas, que ainda são audíveis, mas, à custa da nostalgia, também se anda a recuperar muita “trampa”.

Sou dos poucos que continua a comprar e a ler Banda Desenhada, sem o fanatismo dos coca-bichinhos que acham que tudo é bom nessa área e só comem “Marvel” e “Manga”.

Enfim…pertenço a essa imensa minoria que acha que, se não fossem as minorias, ainda vivíamos na Idade de Pedra, pois são estas que podem descobrir, fomentar e sonhar com a novidade que pode transformar o mundo.

Orgulho-me de pertencer a essa minoria, na política, na cultura, no pensamento económico e social, que não está “orgulhosamente só”, mas é uma imensa minoria…

....e já agora, sobre o cartoon da Mafalda que ilustra esta post, é apenas metafórico...eu gosto dos Beatles!