sexta-feira, 19 de maio de 2017

Afinal o “povo” também gosta de qualidade!


Colaborei muitas vezes em projectos culturais e informativos e o que mais me irritava era a argumentação de muitos em defesa de uma cultura e de uma informação que fosse feita para agradar ao “gosto do povo”.

Claro que aquilo de que o “povo gosta” que esses procuram impingir como modelo, apenas revela o próprio gosto dos que assim argumentam.

Sempre argumentei, na escolha dos temas, das musicas (estou a falar também de projectos radiofónicos), dos filmes e das imagens, que as pessoas só gostam do que conhecem e se lhes impigem apenas porcarias, é da porcaria que vão gostar.

Tenho por experiência própria que as pessoas estão abertas ao bom gosto, ao que é inovador e criativo e é muitas vezes devido àquela atitude preconceituosa sobre os gostos culturais que acaba por vingar o mau gosto.

Aquilo que é o “gosto da maioria” é-lhes assim impingido, seguindo a velha máxima segundo a qual, “uma mentira várias vezes repetida se torna verdade”, ou, no caso da cultura, o mau gosto cultural  muitas vezes impingido torna-se o gosto dominante.

Vem isto a   propósito ao modo como Salvador Sobral ganhou o festival da canção.

Aquilo que era a opinião dominante é que, num festival “popular”, onde domina o gosto musical duvidoso, aquilo que resulta é copiar o que vende, em termos de produção da musica comercial, musica fabricada a metro para usar em discotecas ou como ambiente de loja de trapos, de preferência nivelando tudo pela língua inglesa.

Ora, Salvador Sobral subverteu tudo isso com a sua vitória, remando contra a maré dominante e deitando por terra aqueles que defendem que se deve dar “aquilo que o povo gosta”.

O “povo” afinal está ávido e a aberto à novidade, à qualidade e  à criatividade.

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