sexta-feira, 1 de março de 2013

2 de Março: Pelo Direito à Indignação




À medida que se aproxima a data da manifestação convocada para 2 de Março do movimento “Que Se Lixe a Troika”, e depois de mais de uma semana marcada por forte contestação a membros do governo, aumenta o nervosismo de certos comentadores instalados no sistema do “centrão”.

Os seus argumentos vão subindo de tom, ora criticando e diabolizando, ora desvalorizando os motivos que vão levar os portugueses à rua no próximo Sábado.

Para uns a rua é contrária ao exercício da democracia, esquecendo-se que a rua tem crescido como palco da contestação nos últimos tempos exactamente porque a dita “legitimidade democrática” não tem funcionado.

Quando os tribunais deixam prescrever ou  arrastam processos de criminalidade política, nunca chegando, nem a um cabal esclarecimento dos vários casos de corrupção que envolvem políticos, nem à condenação dos criminosos engravatados, são eles que deslegitimam a justiça como pilar de uma sociedade democrática saudável.

Quando temos um presidente da República que se limita a mandar umas bocas e nunca reage em conformidade, deixando passar muita coisa que este governo impõe ao país, mesmo quando viola preceitos constitucionais, é ele que deslegitima o cerne das suas funções de “defender e fazer cumprir a Constituição”.

Quando temos um governo que foi eleito com base em promessas e garantias, rapidamente violadas logo a seguir à sua posse e que, em vez de defender os cidadãos dos malefícios de um memorando assinado à pressa pelo governo anterior, procura aproveitar-se da grave situação financeira para impor a sua agenda neoliberal ,intenção que escondeu dos eleitores durante a campanha eleitoral, governando para o empobrecimento dos cidadãos e para a perda de direitos sociais de quem produz e trabalha, em prol de obscuros interesse financeiros, que governa em prol dos “mercados” contra os cidadãos e que é incapaz de defender os interesse nacionais junto das instâncias internacionais, aceitando sem pestanejar as malfeitorias impostas pela Comissão Europeia, pelo BCE e pelo FMI e, ainda por cima, falha todas as metas que “justificavam” a sua atitude, é o próprio governo que deslegitima a sua existência e a sua legitimidade democrática.

Quando temos umas finanças que tratam cada cidadão como criminoso, que montam um esquema de controle sobre os pequenos e médios empresários e sobre os cidadãos em geral que envergonharia qualquer regime stalinista, mas deixa de fora o combate à grande fraude fiscal, perdoando os que de facto prevaricam,(os grandes sectores financeiros que colocam os seus lucros em paraísos fiscais, recorrem a sofisticadas engenharias fiscais para não pagar à mesma proporção dos cidadãos normais e beneficiam legalmente de taxas fiscais muito generosas, comparativamente com aquelas a que os trabalhadores e os pequenos e médios empresários estão sujeitos) é o próprio sistema que se deslegitima a si próprio, ao governar contra os cidadãos, a favor do sector financeiro que é o principal responsável pela grave crise que estamos a viver.

Quando temos uma comunicação social que, com rara e honrosas excepções (só me lembro da Antena 1, do jornal Público e da revista Visão....) , se deixa manipular pelos grandes interesses financeiros, que a alimentam, e nos debitam até à nausea a ideologia do poder financeiro com as frases feitas dos portugueses "que andaram a viver acima das suas possibilidades", como se todos fossemos culpados por igual, confundindo direitos com "privilégios" e defendendo o pensamento único deste modelo neoliberal, ela deixa de ser o espaço de liberdade, informação e debate que devia ser, para se transformar em mera caixa de ressonância dos poderosos, o novo "Ministério da Propaganda". É sintomático que um jornal de "referência" se vanglorie de "fazer opinião" e que uma televisão privada se gabe de "criar a noticia"!!!!

A rua torna-se assim a  forma legitima dos cidadãos manifestarem todo o seu descontentamento e revolta contra o actual estado de coisas.

Mas outros comentadores, ou os mesmos referidos acima, usam igualmente outro argumento contra a rua que é o das alternativas e do “programa” dessa mesma rua.

Pensam a rua ainda como a rua do tempo em que muitos deles militavam no radicalismo totalitário e pensam na rua como uma qualquer tomada da bastilha ou do palácio de inverno. Mas a rua de hoje é muito mais heterogénea, e por isso consegue ser mais democrática do que os “democratas” que nos governam com os preconceitos do pensamento único neoliberal. 

A rua não tem que oferecer uma alternativa de poder mas deve servir de aviso aos partidos políticos, principalmente aos do “arco do poder” para a necessidade de se aproximarem dos cidadãos, de  inovarem a sua cartilha ideológica, de serem de facto uma alternativa entre si e de respeitarem as suas promessas eleitorais e os anseios dos cidadãos. 

De uma vez por todas devem ouvir os anseios da rua, em vez da a olharem com o desdém arrogante do costume, devem perceber que a rua está dar-lhes uma oportunidade para fazerem   e defenderem uma outra política, a verdadeira política, que é aquela que é feita para e pelos cidadãos, e não aquela que continuam a fazer que tem como único objectivo gerirem carreiras pessoais ou cumprir agendas escondidas impostas por obscuros interesse financeiros.

A rua é o último recurso dos que, de facto, ainda acreditam na democracia e na política.

A rua, esta rua, na sua maioria esmagadora, não quer “tomar o poder”, mas quer avisar os poderes, o financeiro, o político e o da comunicação social, que nos devem deixar em paz, nos devem devolver a esperança e as nossas vidas, nos devem deixar cumprir os nossos sonhos e os nossos projectos.

A rua só quer exigir respeito e dignidade.

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