Os dias que rolam, numa visão plural, pessoal e parcial de um mundo em rápida mutação. À esquerda, provocador e politicamente incorrecto, mas aberto à diversidade...as Pedras Rolam...
Não precisou de efeitos pirotécnicos, écrans gigantes , sofisticados jogos de luz ou efeito cénicos espectaculares.
Acompanhado por um quarteto de cordas, uma bateria e um contrabaixo, Benjamim Clementine passou a noite ao piano e a sua voz potente e versátil foi suficiente para encher o Coliseu de Lisboa.
Mais do que o ver o importante foi ouvi-lo.
As condições de som, geralmente problemáticas no Coliseu, estiveram à altura do acontecimento, embora, quanto a nós, este tipo de som se enquadre melhor numa sala como o grande auditório do CCB ou noutra do género, pois precisa de mais intimismo e talvez de um outro público.
Benjamin Clementine é um nome a seguir com atenção. Apenas com um álbum gravado, no ano passado, as suas qualidades vocais e musicais, bem como os temas que escolhe para o seu reportório, prometem fazer deste cantor um dos melhores deste novo século.
Dentro das limitações de luz, distância e técnica , aqui fica o registo de alguns momentos desse espectáculo:
Hoje, Dia Internacional da Criança, aqui recordamos um estudo editado pela secção portuguesa da UNICEF, divulgado no final do ano passado, e que tem por base os últimos dados conhecido, referentes a 2013.
Esse estudo, intitulado "As crianças e a crise em Portugal - vozes de crianças, políticas públicas e indicadores sociais, 2013", que pode ser consultado e descarregado em formato PDF no site da secção portuguesa da UNICEF, AQUI, revela que "as crianças são o grupo etário em maior risco de pobreza em Portugal", situação que se agravou a partir de 2010 "com a adopção de medidas de austeridade, que têm impacto directo no bem estar das crianças ao nível da saúde e educação e dos apoios socias às famílias".
Alguns dos dados mais relevantes desse estudo são destacados no site daquela organização:
"• O risco de pobreza é mais elevado em famílias com filhos, nomeadamente, em famílias numerosas (41,2%) e em famílias monoparentais (31%).
"• Entre Outubro de 2010 e Junho de 2013, o número de casais desempregados inscritos no Centro de Emprego aumentou de 1.530 para 12.065 (cerca de 688%).
"• Em 2012, cerca de uma em cada quarto crianças em Portugal (24%) vivia em agregados com privação material (i.e. famílias com dificuldade ou incapacidade de pagar um empréstimo, renda de casa, contas no prazo previsto; ter uma refeição de carne ou peixe a cada dois dias; fazer face a despesas imprevistas).
"• 546.354 crianças perderam o direito ao Abono de Família entre 2009 e 2012. O acesso a esta prestação tornou-se mais restrito e os montantes atribuídos por criança diminuíram.
"• Entre 2010 e 2013, registou-se uma redução no apoio económico do Estado às famílias, que em 2009 era já inferior à média dos países da OCDE (1.71% e 2.61% do PIB respectivamente), e um aumento dos impostos.
"• O estudo mostra também que as crianças têm consciência de que a crise está a comprometer o seu futuro enquanto geração, antevendo as consequências negativas que esta poderá ter nos seus projectos de vida nos domínios da formação, do emprego e da vida familiar. Os desafios que a recuperação económica colocam ao Estado Português dão-lhe uma oportunidade única de mudar e adoptar uma visão transformadora para o futuro, uma visão que ponha os direitos das crianças no centro das políticas de resposta à crise.
"Neste sentido o Comité Português para a UNICEF propõe um conjunto de estratégias e recomendações, nomeadamente:
"• A criação de uma Estratégia Nacional para a Erradicação da Pobreza Infantil centrada nos direitos da criança e que promova uma intervenção integrada e coordenada das várias áreas sectoriais.
"• Assegurar que as crianças são uma prioridade política, especialmente em tempo de crise. O Governo deve avaliar o potencial impacto das políticas de resposta à crise na vida das crianças e na realização dos seus direitos. Deve ainda investir na educação da primeira infância e garantir acesso gratuito a estes serviços a famílias com baixos rendimentos.
"• Criação de uma entidade para os Assuntos das Crianças e da Juventude que coordene e monitorize a aplicação da Convenção sobre os Direitos da Criança em Portugal.
"• Garantir a participação activa das crianças. O Governo e a Sociedade Civil devem criar estratégias de participação activa das crianças em processos decisórios que as afectam, garantindo assim o direito da criança a ser ouvida (Art. 12º da CDC).
"• Desenvolver um sistema global e integrado de recolha de dados que abranja todos os aspectos da vida das crianças. Uma recuperação da crise baseada no respeito pelos direitos humanos é a melhor estratégia para corrigir desigualdades, agravadas por crises sucessivas, para erradicar a pobreza e para promover coesão social".
Hoje, vamos ouvir muitos políticos e comentadores, defensores das medidas de austeridade impostas aos cidadãos europeus, em Portugal e por essa Europa fora, usar bonitas palavras de louvor à criança e ao seu dia.
Se tivessem vergonha na cara deviam, pelo menos neste dia, por respeito para com as vítimas das suas ideias, decisões e políticas, onde as crianças são o elo mais fraco, manterem-se em silêncio.
Benjamin Clementine (clicar para aceder ao site oficial do musico) regressa hoje a Portugal para actuar no Coliseu de Lisboa, seguindo depois para concertos no Porto e Coimbra.
Musico britânico autodidacta, deixou Londres aos 16 anos para se instalar em Paris, onde tocava na rua e no metro, chegando a dormir na rua até ser descoberto pelo mundo da musica.
Editou o seu primeiro EP em 2013, "Cornerstone", e em 2015 editou o seu primeiro álbum.
Participou ainda no álbum "Encores" de Charles Aznavour, conhecido musico francês que, aos 92 anos, se referiu a Clementine como "um deus".
Portador de uma voz poderosa e original, no espectáculo desta noite vai estar ao piano, acompanhado de uma formação alargada com quarteto de cordas, bateria e contrabaixo.
Espera-se mais uma grande noite num mítico Coliseu já esgotado.
Uma das passagens da reportagem publicada no dia 30 de Maio último pelo jornal Público, sobre a manifestação de alguns colégios particulares, revela bem como se manipulam crianças e jovens com objectivos políticos.
A dado passo escreve a repórter, a jornalista Ana Henriques, numa reportagem que nem é, no tom geral, desfavorável aos manifestantes:
"Menos convencidas parecem estar as crianças que vieram à manifestação: várias não conseguem explicar muito bem por que razão preferem continuar nos colégios que frequentam, enquanto outras são proibidas pelos progenitores de falar sequer sobre o assunto. Levam cravos e balões amarelos na mão, como toda a gente, mas há mães que lhes ralham e tapam a boca com a mão quando tentm responder a perguntas".
Hoje, dia internacional da criança, aqui recordamos a forma como crianças e jovens são muitas vezes manietados em nome de determinados interesses políticos, um lado menos divulgado do desrespeito pelos Direitos da Criança.
"1.Há quinze dias, Manuela Ferreira Leite disse no seu comentário na TVI que não percebia qual era o problema da “guerra” entre os colégios privados subsidiados pelo Estado para suprir falhas do ensino público e a decisão do Governo de dispensar alguns. Como o que disse ia contra a corrente, não sei se o seu pensamento ficou absolutamente claro. Mas é a mais pura das verdades que, mesmo assim, não impediu uma polémica em que já ninguém sabe exactamente o que está em causa. Se uma questão ideológica sobre a melhor forma de garantir a educação para todos (Estado ou a compra de serviços a privados) ou uma mera questão de interpretação da lei.
"O ruído foi deixando o essencial de fora. Basta estar atento aos cartazes que aparecem nas manifestações para perceber que há nisto tudo uma enorme confusão. “Pago impostos, tenho direito a escolher a escola dos meus filhos”, resume perfeitamente a confusão instalada no debate. Não. Não tem esse direito. Os impostos que pagamos são para manter um ensino público que garanta da melhor forma possível um princípio base das democracias europeias: a igualdade de oportunidades. Sabemos que a realidade não permite cumprir totalmente este princípio, porque nele interferem problemas de discriminação social difíceis de resolver. Mas também sabemos que até se provar o contrário esta é a melhor forma de manter esse princípio.
"Qualquer família é livre de escolher a escola dos filhos: pública e, portanto, gratuita; privada e, portanto, pagando as propinas devidas. Lembrei-me, ao ver este cartaz, de outro caso idêntico que se passou há algum tempo e que revela o mesmo espírito, quando o Governo, em seu pleno direito, decidiu fechar a Maternidade Alfredo da Costa e transferir para a Estefânia e Santa Maria os seus serviços, aliás de altíssima qualidade. Num pequeno ajuntamento à porta da maternidade (muitos só eram mesmo os jornalistas), um outro cartaz ficou-me na memória: “Tenho direito ao lugar onde nasci”. Mais um engano total. Não tem. Tem apenas direito a receber a melhor assistência possível numa maternidade pública. Aliás, se levássemos em consideração que metade da população de Lisboa é natural de São Sebastião da Pedreira porque nasceu na MAC, imagine-se o que seria esta manifestação se a reivindicação pegasse. O que foi ainda mais perturbador foi o facto de um tribunal de Lisboa ter aceite uma providência cautelar para suspender a decisão do Governo, como se não se tratasse de um mero acto de gestão, de resto bem fundamentado nas normas mais avançadas: a conveniência de os partos decorrerem junto de um hospital com todos os recursos disponíveis, caso haja complicações, não com a criança, mas com a mãe.
"Outro caso paradigmático foi o da concentração das maternidades em centros hospitalares mais completos, de forma a que as crianças nasçam em serviços com mais de mil partos por ano, ou seja, com a experiência e a capacidade necessárias para garantir a máxima segurança. É, aliás, uma norma recomendada pela OMS. Durante meses, o ministro da Saúde, Correia de Campos, enfrentou manifestações ruidosas em todos os sítios afectados por esta alteração. Não me lembro exactamente dos cartazes mas os jornais davam voz às mães que queriam dar à luz em território nacional, e não em Badajoz, como estava previsto para o interior alentejano. Por azar, houve uma criança que nasceu na ambulância a caminho da maternidade espanhola. Foi um escândalo. De repente, o problema desapareceu. Depreende-se que tudo deve estar a correr bem, e a única referência que vi a este episódio algum tempo depois foi uma mãe, entrevistada em Badajoz, a dizer que tinha gostado imenso do serviço, que o hospital era excelente, etc.. Com tudo o que já nos aconteceu, ainda conseguimos manter um SNS de grande qualidade, que garante aquilo que do meu ponto de vista é o que melhor garante uma sociedade coesa e que quer ser justa, sobretudo quando se trata do valor fundamental da vida humana.
"Vai restar alguma coisa desta gritaria sobre as escolas privadas que o Estado vai deixar de financiar? Duvido. A não ser a busca de uma primeira divergência entre Marcelo e Costa, o novo passatempo nacional. Mesmo assim, o Presidente teve de colocar os pontos nos ii em relação ao comunicado difundido pelo Movimento de Defesa da Escola Ponto, que recebeu em Belém e que utilizou indevidamente frases suas.
"2. A direita, com toda a legitimidade, inoculou no debate as suas ideias sobre o Estado, segundo as quais é preciso garantir o serviço, mas não o seu fornecimento, que pode ser integralmente privado. É uma velha ideia que até pode parecer apelativa mas que, por alguma razão, ainda não foi levada até ao fim por nenhuma democracia europeia ou, sequer, nos EUA. Qual seria a escola privada que estaria em condições de prestar o serviço de uma escola pública, por exemplo, num dos bairros mais pobres dos arredores de Lisboa, onde muitos dos alunos são de origem africana? Já fui a uma dessas escolas para falar da Europa e saí de lá com uma admiração enorme por quem a dirige e por quem lá ensina. Poderiam ir todos inscrever-se no São João de Brito com as propinas pagas pelo Estado? Sabemos a resposta. Essa liberdade de escolha de que tanto se fala esbarra com a vontade dos colégios privados e com profundas desigualdades sociais. O Estado teria de superar essa falha privada, abrindo as portas a serviços públicos feitos apenas para os pobres. Resultado? Teríamos de ir até outros continentes menos desenvolvidos para os encontrar. Finalmente, os rankings mostram-nos que escola privada não significa melhor qualidade. Há de tudo. Todas as democracias, sem excepção, se debatem com os mesmos problemas e os vão resolvendo à sua maneira.
"3.Vale a pena olhar para o que se está a passar na Suécia, um país que já tinha escolaridade obrigatória no final do seculo XIX e que, com os outros nórdicos, era dado como um exemplo de sucesso na educação. O que hoje se sabe é que a Suécia caiu drasticamente nos rankings do PISA, obrigando a sociedade a fazer um grande debate sobre o que aconteceu. Pode haver muitas razões, mas uma delas está a merecer a máxima atenção. Nos anos 90, o sistema foi reformado de alto a baixo, transferindo para as escolas privadas a totalidade do ensino, devidamente financiado pelo Estado. São as chamadas free schools (escolas privadas financiadas directamente aos alunos, que podem escolher a que quiserem), que o anterior Governo britânico (liderado por Cameron) andou a estudar in loco para seguir o mesmo caminho, mas que agora os resultados suecos estão a pôr em causa. No Reino Unido, as free schools que já foram criadas não podem gerar lucro (e não consta que a cultura britânica tenha horror a tal coisa). Na Suécia podem. Dizia o ministro da Educação sueco, há já algum tempo, ao Guardian, que não haveria uma única causa para o fracasso, mas uma combinação que “ajudou a fragmentar o sistema escolar” e abriu as portas a uma maior desigualdade. “O sistema escolar não é um mercado em que cada um tem as mesmas possibilidades e a mesma informação”, disse ele. “Verificou-se que alguns pais, os mais educados e com maios recursos, são quem tem a possibilidade de exercer a escolha”. Estamos a falar de um país muito rico e muito educado".
" ESCOLAS PRIVADAS ? CLARO.CADA UM PAGA A SUA
por Paulo Ferreira
in Diário de Notícias de 27 de Maio de 2016
"Penso que por esta altura os cidadãos com um interesse mediano pela vida política e colectiva do país já terão percebido os traços gerais do que está em causa. Sobretudo agora, que o futebol foi de férias e libertou disponbilidade temporal, mental e emocional para coisas menos importantes como esta da educação das nossas crianças.
"E a questão, nua e crua, é esta: deve o Estado financiar escolas privadas quando há escolas públicas nas proximidades com capacidade para garantir o inquestionável acesso universal ao ensino? Obviamente que não.
"Este é um dossier em que o Governo tem razão no essencial. E o essencial é que os recursos públicos são escassos e que, por isso, devem ser sempre racionalizados. Não faz sentido pagar duas vezes a mesma coisa: na capacidade instalada numa escola pública e no pagamento a entidades privadas que prestem esse mesmo serviço em nome e substituição do Estado.
"O princípio defendido e colocado em prática pelo Ministério da Educação está correcto. Mas depois podemos e devemos refinar a análise. O que é que protege de mlehor forma o dinheiro dos contribuintes: abrir mais cinco turmas numa escola pública ou pagar a uma privada para o fazer? Isso já depende do chamado custo de oportunidade e as contas devem ser feitas caso a caso, zona a zona. Se a escola pública tem capacidade para acolher mais turmas sem aumento da estrutura - construir mais um pavilhão, por exemplo - ou sem fazer crescer de forma mais do que proporcional o corpo docente e de apoio, provavelmente ficará mais barato abrir aí essas turmas do que pagar a privados para o fazer. Mas pode haver casos em que pagar aos privados é, ainda assim, mais económico do que alargar as matrículas no público. Duvido é que haja contabilidade analítica de jeito para o sector escolar que permita trazer esta racionalidade à decisão e à discussão, mas isso já é outra questão.
"Não sendo o principal, há também aqui um sub-tema que tem a ver com o ensino de inspiração religiosa. Muitas escolas privadas fazem-no e muitos pais querem-no para os seus filhos, uns e outros no mais básico uso da liberdade e sem que isso belisque a qualidade genérica do ensino. Mas a questão é diferente quando uma dessas escolas é a "escola pública" na zona, através de um contrato de associação precisamente porque não há ali meios do Estado.
"Eu não gostaria de ver os meus filhos obrigados, por falta de alternativa, a frequentar um estabelecimento com uma formação que inclua, por exemplo, a doutrina ou prática de ritos religiosos, sejam eles quais forem.
"Mas cá estamos, então, na tal inversão de papéis.
"Muitos dos que estão sempre disponíveis para rasgar as vestes pela redução da despesa do Estado, pela racionalidade com que é aplicado o dinheiro dos contribuintes, pelo princípio do utilizador-pagador e contra a subsidiação abusiva e que gera dependência, esquecem agora todos esses saudáveis princípios para manter o "status quo". Invocam a defesa de um princípio de liberdade de escolha que, neste caso, não está em causa: quem quer pode continuar a inscrever os filhos numa escola privada, desde que pague por isso e sem a ajuda dos impostos dos outros.
"Do outro lado, vemos preocupação com os dinheiros públicos a quem nunca a demonstrou, preocupação com a eficiência da gestão num ministério mastodôntico onde quase 300 professores estão destacados para trabalho em sindicatos - uma boa parte dos quais pagos integralmente pelos contribuintes -, indignação com manifestações públicas e "esperas" ao primeiro-ministro a quem passou os últimos quatro anos a fazê-las por causas menos importantes.
"Pois é. Os interesses particulares e corporativos só são perversos quando não são os nossos. A despesa pública só é má quando é gasta com o sector do lado. A liberdade de escolha é optima quando é sustentada, em parte, pelo dinheiro dos contribuintes. A mobilização para manifestações é ridícula quando é feita por escolas privadas, mas se for para o sindicato de Mário Nogueira defender a sua presença farta à mesa do Orçamento do Estado ja é legítima e um acto de cidadania. Um pouco mais de coerência, por favor".
"Amarelo, a cor do dinheiro
Paulo Baldaia
São os mais favorecidos que aproveitam este cumprimento da lei, por parte do governo, para forçar um debate de cariz ideológico. Estão no seu direito, mas é preciso que o façam com honestidade. Ninguém está a pôr em causa a liberdade de escolha, simplesmente porque ela não existe nos contratos de associação. Mesmos os pais que têm os filhos nessas escolas não escolheram coisa nenhuma, colocaram os filhos onde o Estado lhes arranjou vaga. Os contratos de associação, vistos como forma de financiamento, deturpam a concorrência entre privados e tratam de forma desigual os cidadãos. A escola pública de qualidade é a única que garante igualdade de oportunidades. A única de livre acesso para pobres, remediados e ricos. O cheque-ensino resultará sempre num desinvestimento na escola pública, será um retrocesso num dos maiores sucessos da democracia. Não há margem para dúvidas, foi na educação e na saúde que o país mais avançou nos últimos 40 anos. E foi assim porque o Estado investiu fortemente nesses sectores. O Estado financiar a opção pelos privados significaria que os ricos ficariam com mais dinheiro e os que verdadeiramente precisam com menos escola e menos SNS. Sou absolutamente contra. Do outro lado, contra a escola pública e a favor do ensino privado, há quem pense que não faltam argumentos. É a liberdade de escolha, a educação que é melhor e mais barata no privado e até a eventualidade de ter de haver despedimentos para os privados ajustarem a oferta à procura. Só não querem discutir o que diz a Constituição e a lei sobre os contratos de associação. O que querem é o dinheiro do Estado, o dinheiro dos contribuintes, seja qual for o argumento. São contra o público e a favor do privado, têm dinheiro para pagar, mas querem uma ajuda do Estado.
O filme “I,Daniel Bake” do veterano realizador britânico Ken Loach,
venceu a palma de ouro do festival de Cannes.
O filme premiado é uma critica humana, mas ferozmente crítica, ao modo
como funciona a segurança social na Grã-Bretanha, fortemente destruturada pelo
modelo neoliberal imposto na época Thatchere continuado pelos governos
seguintes, mostrando as dificuldades que os serviços colocam para prestar
assistência aos mais desfavorecidos.
Ao receber a Palma de Ouro, Loach salientou que "receber este
prémio neste momento é muito estranho", recordando "as pessoas que
não têm comida na quinta nação mais rica do mundo, o Reino Unido."
Na sua intervenção denunciou o neoliberalismo que vigora na Europa, e
que nos conduz à catástrofe:
“Este mundo onde vivemos encontra-se numa situação perigosa. Nós
estamos a bordo de um projecto de austeridade que é conduzido por ideias que nós
chamamos de neoliberais, e que nos conduz para uma catástrofe”, denunciando as “práticas
neoliberais” que “lançam na miséria milhões de pessoas, da Grécia a Portugal”,
beneficiando apenas uma minoria “que enriqueceu de forma vergonhosa”.
Alertou também para a ascensão da extrema-direita um pouco por toda a
Europa:
“Aproximamo-nos de um período de desespero e com o desespero é a
extrema-direita que se aproveita.
“Alguns de nós, os que já temos alguma idade, lembramo-nos o que essa
extrema-direita fez”.
Loach não esqueceu o poder do cinema, recordando que "uma das
tradições do cinema é o de dissidência, representando o interesse das pessoas
contra os que são grandes e poderosos", desejando “que esta seja uma
tradição que possamos manter viva."
Apesar do seu tom pessimista ficou no ar a seu apelo:
“É preciso, neste mundo de desesperança, recuperar a esperança, dizer
que um outro mundo é possível”.
Ken Loach já apresentou 15 filmes no Festival, desde 1979, e já ganhou
anteriormente umaPalma de Ouro com o
filme "Brisa de Mudança"
(2006) e três prémios do júri com "A Parte dos Anjos" (2013),
"Agenda Secreta" (1990), e "Chuva de Pedras" (1993). Além
disso recebeu seis prémios paralelos do júri ecuménico (3) e da crítica
internacional, FIPRESCI (3).
A intervenção integral de Ken Loach na cerimónia de encerramento do Festival de Cannes, pode ser vista AQUI.
Toda esta polémica sobre os subsídios estatais a algumas escolas
privadas já começa a “cheirar mal”.
A forma irresponsável e oportunista como o tema tem sido abordado por
alguns políticos, comentadores e por parte da comunicação social, tem sido
muito pouco esclarecedora e limita-se a lançar “areia para os olhos” dos
incautos e ignorantes.
Claro que a forma como o Ministério da Educação geriu o tema também se
revelou desastrada, pondo-se a jeito para os disparates que tivemos de ouvir de
Passos Coelho e outros fiéis.
Em primeiro lugar o tema relaciona-se com a situação de menos de 80
escolas privadas, num universo de quase…três mil!!!!.
E em relação àquelas 80, só pouco mais de trinta é que serão afectadas
pelas medidas que o Ministério actual pretende tomar, corrigindo os abusos
cometido no governo anterior com o aval do ministro Nuno Crato.
Não deixa de ser curioso que aqueles que passam a vida com a boca cheia
das palavras “privatização” e “privado” e a falar contra o “Estado” venham
agora pedir que o Estado financie actividades privadas.
Se Passos Coelho encontrou no tema a sua boia de salvação e a prova de
vida de que precisa para sobreviver ao descalabro da sua governação e da sua
falta de ideias para o país, já se percebe menos a atitude da Igreja.
É que o que está em causa não é o financiamento das escolas privadas
que prestam um serviço público de qualidade, mas de escolas que concorrem
directamente com escolas públicas, financiadas por fundos …públicos!!!
É caso para se dizer que é tempo de “privatizar”, de uma vez , por
todas, o que é “privado”, ou não estão de acordo comigo, ó pessoal da “direita
radical neoliberal”?
Quanto à atitude da Igreja, só se percebe face à sua recente desorientação
“ideológica” pernte os desafios que o actul Papa Francisco tem vindo a colocar
aos status quo dessa mesma Igreja.
Antes de Francisco, a Igreja portuguesa até gozava de uma imagem de
liberal e “progressista”. A partir de Francisco parece ter sido ultrapassada
pela “esquerda” pelo próprio Papa. Mas isto é outra história, que, contudo,
pode explicar o envolvimento das mais altas figuras da Igreja portuguesa nesta
polémica.
Por último, uma palavra de
solidariedade para como Mário Nogueira e para os sindicatos dos professores, (mesmo
discordando de alguma retórica e de algumas das suas actuações), face à forma
descabelada como têm sofrido os mais ignóbeis ataques públicos , a pretexto do
debate entre escola pública e privada.
É caso para perguntar: a quem interessa fazer desta questão uma guerra entre ensino público e ensino privado?
Aconselhamos, a todos que
se queiram informar melhor sobre o tema, a leitura dos seguintes textos:
Ainda do lado daqueles que defendemescola pública, não podemos deixar de referir a opinião da antiga
Ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues.
Podemos não ter concordado com a sua actuação enquanto Ministra da
Educação, e discordámos veementemente na altura, mas não há qualquer dúvida que
ela conhece profundamente o sector e tinha um projecto coerente para a
educação, mesmo que se discorde dele, no todo ou em parte.
Por isso a sua opinião é fundamental para perceber o que está em causa:
Num perspectiva diferente, mas inteligente ( o que tem sido raro entre
os que contestam o Ministro da Educação), aconselhamos a leitura do seguinte
texto:
O Presidente do Parlamento Europeia, Martin Schulz, denunciou ontem, em poucas palavras, o que vai mal na União Europeia (ver AQUI):
"Os governos pedem agora às gerações dos pais, impostos mais altos, salários mais baixos, mais horas de trabalho, menos feriados, menos serviços [públicos]...
"E para quê?...
"Para salvar bancos!
"...e os filhos deles estão desempregados!
"A União Europeia era uma promessa, uma promessa de mais segurança, de maior estabilidade, de mais oportunidade e, na realidade, muitas vezes é uma promessa, mas essa promessa não é cumprida".
Estas palavras foram proferidas em Roma, por ocasião da entrega do Prémio Carlos Magno ao Papa Francisco, pelo seu apelo a uma unificação pacífica da Europa.
Estavam presentes o Presidente do Conselho Europeu e o Presidente da Comissão Europeia, tendo este último criticado igualmente os governos que vivem o sonho europeu "em tempo parcial".
Estas palavras, vindas do único político europeu com legitimidade, o presidente do Parlamento Europeu, única instituição eleita democráticamente na União Europeia, têm de ter consequências.
Ou Martim Schultz exige um debate urgente no Parlamento Europeu sobre as questões levantadas, exigindo à intituições não democráticas da Europa (Comissão, Conselho, Eurogrupo, BCE...) que mudem de rumo em relação às políticas de austeridade, ou demite-se pela impossibilidade de cumprir o que defende...
Até lá, o Papa Francisco continua a bater-se, isoladamente entre os lideres europeus, mas com o apoio dos cidadãos da Europa, pelo espírito solidário que está na gênese do projecto europeu...
BêDêZine: Recordar Siné (1928-2016): Foi o mensário Siné Mensuel a anunciar a morte, ontem às 8 da manhã do seu fundador, o cartoonista Siné,(clicar para ler mais).
Mário Miranda é um cartoonista nascido em 2 de Maio de 1926, na cidade de Damão, então pertencente a Portugal, e que viveu no Estado de Goa grande parte da sua vida.
Podem ler AQUI mais informações sobre esse cartoonista e, em baixo, um pequeno filme de animação da sua autoria que resume a história de Goa:
Olhamos para esta primeira páginas do jornal Público e vemos o Portugal de hoje.
Por um lado, uma iniciativa levada a cabo pela sociedade civil consegue, em poucos meses, angariar fundos para adquirir uma obra de arte fundamental para a nossa cultura.
Foram poucas as empresas e os bancos a contribuírem para essa iniciativa, com honrosas excepções (como a Fundação Aga Khan, que contribuiu como um terço do seu valor, sem esquecer o Público, Fuel, RTP e o banco Millenium BCP).
Que se saiba, a esmagadora maioria das empresas cotadas em bolsa não deram um cêntimo...percebe-se, lendo o título de cima..andaram ocupados em desviar dinheiro para os offshores.
E este é o outro lado dessa primeira página.
Durante os anos da troika as grandes empresas deste país, tão "patrioticamente" gabadas pelo anterior governo e por Cavaco Silva, tiraram de Portugal 10 mil milhões de euros.
Sobre esta notícia ouvi hoje um comentário de um fiscalista tentando por àgua na fervura, dizendo que esse dinheiro já paga impostos em Portugal e também no local onde depositaram aqueles milhões (!!!).
Mas alguém acredita nisso? Ou será que os nossos grandes empresários são estúpidos ao ponto de pagarem duas vezes impostos para colocarem dinheiro fora do país? Ninguém desvia aquelas quantias sem tirar daí benefícios e os benefícios só podem ser ou para lavar dinheiro ilegal, ou para fugir aos impostos...senhores comentadores...não tomem os portugueses, e as empresas que pagam os seus impostos e trabalham, por parvos!!!.
Mas aquela primeira página mostra também porque é que alguma classe política anda arredada, por um lado, do apoio a iniciativas culturais como aquelas que referimos e, por outro lado endeusam as grandes empresas que fogem ao fisco, ao mostrar a ligação entre políticos e empresários corruptos, como aquele apanhado na operação "lava jato"....
A FORMA E A LUZ: O "Sequeira" já é "nosso"!: Foi ontem anunciado que a inédita campanha pública para aquisição da obra "Adoração dos Magos", de Domingos António de Sequeira conseguiu o seu objectivo (ler mais clicando em cima)...
“30 anos após a explosão, a
explosão de um reactor, a catástrofe continua.
"Mais de 8 milhões de pessoas (a populacão de Portugal continental)
vivem em territórios contaminados da Rússia, Ucrânia e Bielorússia, obrigadas a
consumir quotidianamente produtos altamente contaminados.
"Entre essas numerosas crianças sofrem de cancros e leucemias,
malformações e patologias cardio-vasculares.
“Os atentados ao património genético são hereditários e as autoridades
minimizam descaradamente o número de vítimas, que segundo investigação dos
profs Nesterenko e Yablokov, publicados em 2010 pela Academia das Ciências de
Nova York já teriam atingido 985 000 (quase um milhão!) de falecimentos
prematuros de 1986 a 2004. E o florescimento da natureza, flora e fauna é um
mito dados os elevados níveis de contaminação e mutações que está a ocorrer.“
“Recordo como se fosse hoje.
“Estava dia 27 de Abril em Amsterdão, fazia então parte da direcção
internacional do movimento ecologista #Friends Of the Earth#, quando nos chegou
a notícia do acidente nuclear de Chernobyl que a ditadura soviética tinha
procurado escamotear.
“As radiações já atravessavam a
Europa, milhares de pessoas começavam a ser evacuadas, muitas centenas, hoje
muitos milhares já estavam, continuam hoje a caminho da morte.
“Em Lisboa tinha começado há alguns dias no mestrado de Economia de
Energia um módulo com um técnico do Laboratório Nuclear do então INETI, com o
qual tinha tido discussões ágrias, que tinham terminado com um definitivo “-
não é possível um reactor nuclear explodir.” Da parte dele.
“Imagine-se a cara o sujeito quando voltei no dia seguinte e a notícia
já era tema de todas as notícias.
“Pode, um reactor nuclear pode explodir. Claro que no quadro de uma
imprevisível conjugação de circunstâncias todas elas negativas. Mas pode. É
possível!
“Neste aniversário pouco mais há para dizer. A nuclear continua a tenta
vender-se, continua a comprar mentes e encher bolsos, apesar de ser uma
indústria a bordejar a falência, total. Mas será uma falência de muitos, muitos
milhões e até lá continua a estrebuchar.
“A nuclear não é económica, não é ambientalmente limpa, seja no início
do ciclo, a mineração de urânio, que como sabemos no nosso país ainda tem um
legado de destruição ambiental, sofrimento e mortes na família mineira e nas
populações das zonas circundantes, seja na produção,e recordemos Almaraz, aqui
ao lado, com os problemas contínuos do seu funcionamento, os incidentes e
acidentes inúmeros e agora, com o passar do tempo a insegurança crescente, a
que o nosso ministro do Ambiente continua a fazer orelhas moucas,
mas não esqueçamos lutas árduas contra a nuclear em Portugal, Ferrel e
todas as tentativas de nos colocar nucleares de Trás-os-Montes ao Alentejo, que
tiveram oposição determinada, as lutas contra os despejos nucleares no
Atlântico ou o cemitério nuclear de alta-actividade radioactiva de Aldeavila.
“Não podemos esquecer também o urânio enriquecido e os mortos, também
portugueses no teatro de operações onde esse foi utilizado.
“Em todos esses casos, em todas essas lutas estivemos presentes.
“Hoje aqui deixo este testemunho. Para que não se repita (mas e
Fukushima?), para que não se repita mais.
“Para que Chernobyl não se chame Almaraz, algum dia. Encerremos Almaraz
e nem uma palavra mais!”
António Eloy, membro do Movimento Ibérico Antinuclear
BêDêZine: A Banda Desenhada e o 25 de Abril: Sem pretender ser exaustivo, e sem outra pretensão que não seja recordar a data e a sua relação com a BD, deixo em baixo algumas raras imagens...(ler mais clicando sobre o texto a azul).
Foi patética e repugnante a atitude de Eduardo Catroga, apanhado ontem pelas câmaras da SIC Notícias a "lamber as botas" ao primeiro-ministro, a pressioná-lo para se reunir como os accionistas da EDP e a oferecer os seus préstimos, como homem de "visão", não "partidária".
O homem parecia uma mosca tonta à volta de António Costa, que se mostrava deveras incomodado com a triste cena do homem.
Apenas o Jornal de Negócios se refere hoje, AQUI, na sua edição on-line, àquela triste cena.