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quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

Hergé, “TinTin por TinTin”


A Fundação Calouste Gulbenkian, em colaboração com o Museu Hergé de Louvain-la-Neuve, da Bélgica, organizou um dos maiores eventos do ano, uma grande exposição dedicada à obra de Hergé, criador do famoso Tintin.

A exposição, inaugurada no passado dia 1 de Outubro de 2021, encerra a 10 de Janeiro, já no próximo fim-de-semana.

Não deixa de ser marcante que, uma das mais sérias e prestigiadas instituições ligadas ao mundo da arte. receba, julgamos que pela primeira vez na sua longa história, uma exposição de Banda Desenhada, arte muito desvalorizada no sofisticado mundo da arte.

A iniciativa da Gulbenkian representa, assim, uma importante ruptura com um preconceito, ainda muito arreigado entre o nosso sector intelectual e cultural, que tende a desvalorizar as qualidades artísticas e intelectuais da 9ª arte.

Ao longo de várias semanas publicámos, no nosso blog Bêdêzine, uma série de artigos sobre a importância de Hergé, desde uma referência a TinTin na minha memória pessoal, passando pela sua presença em Portugal, ao percurso de Hergé e à história das aventuras de TinTin.

Em baixo, reunimos, num único bloco, esse conjunto de textos, embora sem as ilustrações usadas naqule blog, uma forma de recordar a importância desse evento que encerra daqui a 5 dias.

1 - TinTin e Eu!

Tintin é uma das raras personagens da BD cuja fama atravessou várias gerações, ao longo de quase cem ano, êxito e conhecimento talvez só ultrapassado pelo universo de Walt Disney.

Pessoalmente, o meu primeiro contacto com Hergé fez-se, não pelas aventuras de Tintin, mas de outra das séries da sua autoria, quase esquecidas pelo êxito do célebre “repórter”, os trapalhões Quick e Flupke, traduzidos para português como o Quim e o Filipe, cujas tropelias foram publicadas em Portugal na revista Diabrete, entre 1941 e 1943, sob a designação de “Tropelias do Trovão e do Relâmpago” ,  e que eu descobri no espólio da minha mãe, que possui 4 albuns encadernados dessa revista, que eu desfolhei avidamente durante a  minha infância.

Encontrei as primeiras imagens do Tintin num número solto do suplemento Pajem, da revista Cavaleiro Andante, onde se publicou a aventura “O templo do Sol”, a mesma aventura que acompanhei de forma mais continuada na revista Foguetão, editada em 1961, cujos 13 exemplares publicados cheguei a receber, quando tinha os meus 5 anos, mas cuja aventura nunca se completou nessa revista de curta duração.

Ainda antes de começar a conhecer as aventuras completas de TinTin, conheci as aventuras de uma outra série de Hergé, Jo, Zette e Jocko, publicada noutra das minhas revistas de infância, o “magazine para a juventude” Zorro, série publicada entre 1964 e 1966 nesta revista, exactamente nos anos em que ela me foi oferecida.

Só mais para meados dos anos 60 comecei a ler histórias completas do TinTin, umas em álbuns, de edição brasileira, que me eram emprestados pelo amigo “Zico”, lidos avidamente nas tardes de Verão, na praia de Santa Cruz e, pouco depois, quando, a partir de 1969, o meu avô me começou a oferecer, semanalmente,  a revista TinTin, fundada em Portugal em 1968.

Lembro-me, igualmente, de ter recebido o meu primeiro álbum de TinTin por essa altura, em 1968 ou 1969, o “Voo 715 para Sidney”, que me foi oferecido na 1ª edição em francês, com o objectivo pedagógico de aprofundar o meu francês, álbum editado em 1968 e hoje muito valorizado no mercado franco-belga.

Nesses anos pensava que as aventuras de TinTin eram recentes, só mais tarde descobri que a série tinha sido criada quase 30 anos antes de eu nascer. Também não tive a noção, na altura, da ordem cronológica dessas aventuras.

Penso que, entre as primeiras aventuras que li de TinTin, estiveram o “TinTin no Tibet” e o “Caso Tornesol”, esta última aventura, curiosamente, editada em álbum em França no ano do meu nascimento.

Se me perguntarem quais as aventuras de que mais gostei, a escolha é difícil, mas penso que o “Objectivo Lua” e “TinTin na Lua” foram marcantes, pela actualidade do tema na década de 60, embora ambos tenham sido escritos e desenhada na década de 1950, ainda antes do meu nascimento. Pela originalidade, penso que a melhor história da série terá sido, quanto a mim, “As Jóias de Castafiore”, original de 1963.

Pessoalmente, sempre preferi as séries Blake e Mortimer e Astérix, pois considerava TinTin um personagem  "certinha" de mais. Penso que o interesse da TinTin está mais relacionado com a profundidade psicológica de personagens “secundárias”, como o Capitão Hadock, o meu preferido, ou o professor Tournesol, entre tantas outras, e, muitas vezes, foram os pequenos apontamentos humorísticos, colocados por Hergé no meio da história principal, que mais valorizaram e caracterizaram a série. Depois há que acrescentar a narrativa, pontuada de acção, cenas humorísticas e suspense até ao final, tudo valorizado por um desenho simples e claro, sem excessos, aquilo que caracteriza o chamada “linha clara”.

No total foram criadas por Hergé 24 aventuras de TinTin, a última delas incompleta e a primeira, “Tintin no País dos Sovietes”, a única que nunca foi revista e colorida pelo autor, renegada por Hergé, que só autorizou a sua edição, como curiosidade, à beira da morte.

2 - TinTin em Portugal

A relação das aventuras de Hergé com Portugal é  uma longa História.

É bom recordar que, a primeira vez que TinTin foi traduzido, foi para português, sendo também em Portugal que foi editado a cores pela primeira vez.

A História conta-se em poucas linhas:

Em 18 de Abril de 1935 foi publicado o primeiro número da revista juvenil, “O Papagaio”, como suplemento infantil de um jornal católico, propriedade da Rádio Renascença, fundada por Adolfo Simões Müller e pelo padre Abel Varzim, com redacção na Rua Capelo, em Lisboa.

Abel Varzim tinha estudado, entre 1930 e 1934, sociologia na Universidade de Lovaina, tendo conhecido as aventuras de TinTin no suplemento “Le Petit Vingtiéme”, do diário católico “Le Vingtiéme Siécle”, dirigido pelo abade Norbert Wallez, que o padre Varzim conheceu naquela universidade.

O percurso futuro desses dois padres católicos não podia ser tão diferente. Abel Varzim tornou-se um critico e opositor do regime do Estado Novo, sendo perseguido por isso e sendo uma espécie de fundador do movimento de “católicos progressistas”, que tantas dores de cabeça deu a Salazar e ao seu regime. Pelo contrário, o padre Wallez acabou expulso do “Le Vingtiéme Siécle”, ainda na década de 30, devido às suas simpatias pelo fascismo e pelo nazismo, sendo preso depois da libertação da Bélgica em 1944, cumprindo 5 anos de prisão como colaboracionista com os ocupantes.

Mas voltando a Tintin  em Portugal, Abel Varzim, regressado a Portugal , enviou ao director do “Vingtiéme Siécle” uma carta, datada de 25 de Maio de 1935, pedindo para que Wallez intercedesse junto de Hergé para que este desse autorização para reproduzir, na revista portuguesa “O Papagaio”, as aventuras de Tintin, pedindo, igualmente, para ser combinado um preço especial pelos direitos dessa publicação, devido às dificuldades económicas da revista portuguesa.

O pedido teve êxito e, depois de o anunciar no nº49 e editar a 1ª capa com a nova personagem no nº 51  de “O Papagaio” , na edição nº 53 de 16 d Abril de 1936 começou a  publicar a primeira aventura de Tintin editada em Portugal, “Tim-Tim na América do Norte”.

A revista fez algumas adaptações das aventuras de TinTin à situação portuguesa, aportuguesando igualmente o nome de algumas personagens, uma condição também para escapar à censura, que obrigou, muitas vezes, a esse tipo de adaptação de outras obras de banda desenhada estrangeira publicadas no país.

Uma evidente cedência à censura portuguesa, por parte d’ “O Papagaio”, foi a alteração de uma legenda de “TinTin na América”, onde uma cena, no original referida como uma greve de trabalhadores norte-americanos, foi traduzida, na edição portuguesa, como um “paragem para o almoço”.

TinTin foi designado como Tim-Tim, um repórter “português”, o cão Millou transformou-se, primeiro em Pom-Pom e, depois, na “cadela” Rom-Rom, para que o seu nome não fosse confundido com a cantora Milú, uma famosa cançonetista da rádio portuguesa.

O Capitão Haddock foi transformado no Capitão Rosa que, em vez de beber Whisky, passou a beber Vinho do Porto, o professor Tournesol foi baptizado como senhor Pintadinho de Branco e, mais tarde, professor Girassol.

Um dos casos mais estranhos foi transformar um dos poucos “portugueses” originais da série, o “vendedor ambulante” Oliveira da Figueira, que apareceu pela primeira vez na aventura “Os Charutos do Faraó” (1934), num espanhol de Málaga, fugido da Guerra de Espanha (altura em que essa aventura foi editada n’”O Papagaio”), talvez porque fosse considerado uma figura pouco abonatória do ideal do “português” propagandeado pelo Estado Novo.

Oliveira da Figueira surgiu noutras duas aventuras de TinTin, “TinTin no País do Ouro Negro” (1950) e em  “Coke em Stock” (1958).

Há ainda um “vilão”, Dr. Müller em “A Ilha Negra” (1938), por muitos identificado como uma alusão a Adolfo Simões Müller, director d’”O Papagaio”.

Um “cientista português”, um “célebre físico da Universidade de Coimbra”, Pedro João dos Santos, participa na aventura “A Estrela Misteriosa”, de 1941.

Há ainda um “jornalista português” do “Diário de Lisboa”, sem nome, numa cena do Tintin no Congo.

Esta aventura, aliás, foi intitulada de “TinTin em Angola”, redesenhando-se, na edição de “O Papagaio”, algumas vinhetas, para tornar este título mais verosímil, como na cena da aula dada por TinTin a crianças negras, onde o mapa da Bélgica, no quadro,  foi substituído pelo mapa de Portugal. Mais tarde o próprio Hergé redesenhou este quadradinho, retirando-lhe a conotação colonialista da primeira edição.

Hergé enviou uma carta, datada de 12 de Maio de 1936,  ao padre Abel Varzim, congratulando-se com a edição portuguesa da sua obra, elogiando, nomeadamente, a novidade da colorização das aventuras de TinTin, mas também fazendo algumas críticas à paginação que, quanto a ele, retirava algum suspense às aventuras.

Quando a Bélgica foi ocupada pelas tropas nazis, em Maio de 1944, tornou-se complicado transferir dinheiro de Portugal para pagar a Hergé, pelo que este propôs o pagamento dos direitos em géneros, como sardinhas em conserva, chá, café, cacau, azeite, chocolate, leite condensado, arroz e bolachas. Hergé pediu igualmente para incluírem dois avios mensais em géneros para o irmão Paul, prisioneiro de guerra na Alemanha.

Durante 12 anos “O Papagaio”, que se editou entre 18 de Abril de 1935 e 10 de Fevereiro de 1949, num total de 722 número,  publicou um total de 9 aventuras de TinTin:

- “Tim-Tim na América do Norte” –nºs 53-110, de 16/04/1936 a 20/05/1937;

- “Aventuras de Tim-Tim no Oriente” (“Os Charutos do Faraó” no original) –nºs 115-161, de 24/06/1937 a 12/05/1938;

- “Novas Aventuras de Tim-Tim” (“O Lótus Azul” no original) – nºs 166-205, de 16/06/1938 a 16/03/1939;

- “Tim-Tim em Angola” (“TinTin no Congo” no original) – nºs 209- 244, de 13/04/1939 a 14/12/1939;

- “Tim-Tim e o mistério da Orelha Quebrada” – nºs 247-298, de 04/01/1940 a 26/12/1940;

- “Tim-Tim na Ilha Negra” ( “TinTin no País do Ouro Negro”, no original)- nºs 301-359, de 16/01/1941 a 26/02/1942;

- “Tim-Tim no Deserto” (“O Caranguejo das Tenazes de Ouro” no original) – nºs366-226, 16/04/1942 a 10/06/1943;

- “A Estrela Misteriosa”- nºs 435-540,de12/08/1943 a 16/08/1945;

- “O Segredo do Licorne” – nºs 617-679, de 06/02/1947 a 15/04/1948.

Esta foi a primeira vez em que TinTin foi publicado numa língua que não o francês. Até aí, as suas aventuras apenas tinham sido editadas na Bélgica, em França e na zona francófona da Suíça.

Em 1941 Adolfo Simões Müller abandonou “O Papagaio”, por divergências com Abel Varzim, e fundou uma nova revista juvenil, “O Diabrete” (4 de Janeiro de 1941- 29 de Dezembro de 1958). Müller chega a escrever a Hergé para conseguir ficar com os direitos de publicação de TinTin na nova revista, mas não o consegue, pelo que essa série continua a ser publicada n’”O Papagaio”.

Contudo, consegue adquirir os direitos de uma outra série, até aí nunca publicada em Portugal, que nasceu depois do TinTin também na revista “Le Petit Vingtiéme”, a série humorística Quick e Flupck, que será publicada no “Diabrete” entre 5 de Janeiro de 1941 e 10 de Outubro de 1943, com a designação de “Tropelias do Trovão e do Relâmpago”. Esta série não voltará a ser publicada em Portugal em qualquer outra revista, apenas em álbum.

Entretanto, com o fim d’”O Papagaio” em 1949, Simões Müller consegue adquirir os direitos de TinTin, publicando três aventuras no “Diabrete”, a primeira “O Ceptro de Ottokar”, com a designação de “Aventuras de Tim-tim e Rom-Rom”, entre 9 de Março de 1949 e 18 de Março de 1950, seguindo-se mais duas aventuras, “O Tesouro de Rackham, o Vermelho”, aportuguesado para “O Tesoiro do Cavaleiro da Rosa”, entre 25 de Março de 1950 e 21 de Março de 1951, e “As 7 Bolas de Cristal”, entre 4 de Abril de  e 29 de Dezembro de 1951, ficando a publicação desta aventura incompleta, devido ao facto de o “Diabrete” ter interrompido a sua publicação nesta data, ao fim de  553 edições.

Até ao início da década de 1960 Adolfo Simões Müller manteve os direitos da edição do Tintin em revistas portuguesas por si editadas, como aconteceu com o “Cavaleiro Andante” (1952-1962), o “Foguetão” (1961) e o “Zorro” (1962-1966).

A mítica revista “Cavaleiro Andante” publicou muitas das séries da revista belga “Tintin”, devendo-se a ela a divulgação da maior parte dos autores da escola franco-belga em Portugal, tendo mesmo usado as capas da revista belga, adaptadas ao título do “Cavaleiro Andante”.

O “Templo do Sol” foi a primeira aventura de “TinTin” publicada nesta revista, primeiro no corpo da própria revista, a partir do seu primeiro número, em 5 de Janeiro de 1952, e depois continuando a sua publicação no suplemento “Pajem”, entre 5 d Julho de 1952 e 22 de Agosto de 1953.

Ao todo foram publicadas 7 aventuras do TinTin no “Cavaleiro Andante”, algumas pela primeira vez em Portugal, como “Tintin na Lua”, publicando, com o mesmo título, e sem interrupção, as duas aventuras, “Objectivo Lua e “TinTin na Lua”, ao longo de 2 anos, entre 17 de Outubro de 1953 e 31 de Dezembro de 1955, “O Caso Tornesol”, sob o Título de “O Caso da Arma Secreta”, e o “Carvão no Porão (Cocke em Stock)” com o título “Os mercadores de ébano”. Foi republicado o “TinTin na América” e “O Lótus azul”, anteriormente publicados em “O Papagaio”, mas agora na nova versão, actulizada por Hergé.

A última aventura publicada foi “Tim-Tim no Tibete”, entre 18 de Novembro de 1961 e 4 de Agosto de 1962, aventura que tinha começado a ser publicada no “Foguetão” entre Maio e Julho de 1961, mas que tinha ficado incompleta devido à curta vida desta revista.

A última aventura de TinTin publicada em Portugal sob a orientação de Simões Müller foi “As Joias de Catafiore “, sob o título “As Jóias da Prima Dona”, na revista “Zorro”, entre 6 de Abril de 1963 e 6 de Junho de 1964, única aventura dessa série publicada nessa revista.

Foi no “Zorro” que foram publicadas, pela primeira vez em Portugal, as aventuras de outra série de Hergé, “Jo, Zette e Jocko”, em “O “Manitoba” Não Responde” e “A Erupção de Karamako”, entre 20 de Junho de de 1964 e 23 de Junho de 1966. Estas duas aventuras voltariam a ser editadas em Portugal no suplemento “Quadradinhos” do jornal “A Capital”, em 1972 e 1973, conhecendo ainda uma edição em álbum, editado pela Verbo, sob a designação de “Aventuras de Joana, João e do Macaco Simão”, na década de 1980.

Foi com o aparecimento da revista “TinTin” que tivemos, em Portugal, a publicação integral de todas as aventuras do herói criado por Hergé, entre o 1º número, editado em 1 de Junho de 1968, e o último, em 2 de Outubro de 1982. A única aventura não editada na totalidade, devido ao encerramento da edição da revista, foi a reprodução, pela primeira vez em Portugal, da primeira aventura de Tintin, “TinTin no país dos sovietes”, só editada, de forma completa, em álbum, em meados da década de 1980.

TinTin foi ainda publicado em tiras diárias no jornal “Diário de Notícias” e no suplemento “Nau Catrineta”, na década de 1970.

Em 16 de Março de 1960 Simões Müller tinha escrito a Hergé, para conseguir os direitos de autor para editar os primeiros álbuns de Tintin em Portugal.

Hergé responde-lhe,  em 22 de Março, lamentando que tal não seria possível, já que esses direitos tinham sido adquiridos por uma editora brasileira, a Flamboyant, que tinha adquirido igualmente os direitos de os vender, traduzidos no português do Brasil, em território português.

Assim, a edição das aventuras de TinTin em álbum, em português, foram da responsabilidade, até, 1988, daquela editora brasileira, que editou o primeiro álbum do Tintin em língua portuguesa em 1961, “A Estrela Misteriosa”.

Só a partir de 1988 é que a editora Verbo conseguiu os direitos para Portugal, editando os álbuns da série até 1999.

Actualmente os direitos da série pertencem à editora Asa.

Para as gerações mais recentes, o único contaco com TinTin talvez tenha sido através do filme de Spileberg de 2011, intitulado “As Aventuras de TinTin”, mas que se baseia no álbum “O Caranguejo das Tenazes de Ouro”, história publicada pela primeira vez em 1941.

Hergé nunca veio a Portugal. Apenas por duas vezes foi entrevistado por um jornalista português, Luiz Beira, a primeira das quais publicada na revista “Plateia” nº 306 de 13 de Dezembro de 1966, a segunda em Novembro de 1982, uma das últimas concedidas por Hergé, já que faleceu em 3 de Março de 1983.

Esta segunda entrevista manteve-se, contudo, inédita até 1985, sendo finalmente publicada na 5ª série da revista “O Mosquito”, no nº6 de Março de 1985.

Nesta última entrevista, Hergé lamentava-se por nunca ter visitado Portugal, um “belo país” que o atraia, prometendo fazê-lo um “dia, quem sabe?”, bem como pondo a hipótese de “um dia talvez, quem sabe?”, situar uma aventura de Tintin em Portugal. Infelizmente a morte prematura de Hergé impediu-o de concretizar esses desejos.

3 - Hergé, para lá de TinTin

Hergé nasceu com o nome de Geoges Remi,  em Etterbeek, na região de Bruxelas, em 22 de Maio de 1907.

Teve um único irmão, Paul, cinco anos mais novo.

Os seus primeiros desenhos foram feitos nos cadernos escolares da escola de Ixelles que ele frequentou entre 1914 e 1918.

Na escola que frequentou depois, equivalente ao liceu, era um bom aluno em quase todas as disciplinas, menos….em desenho!

Em 1921, com 14 anos, aderiu ao movimento escutista e, no ano seguinte começou a colaborar no jornal dos escuteiros da sua escola, o “Jamais Assez”, bem como na revista da Federação de Escuteiros, “Le boy-scout belge”, publicando aqui as suas primeiras ilustrações.

Assina pela primeira vez um trabalho nesta revista, com o seu nome original, em Fevereiro de 1924.

O pseudónimo   Hergé, que o imortalizou,  com origem nas iniciais invertidas do seu nome verdadeiro, Her para o R de Remi, e Gé, para o G de Georges, surgiu pela primeira vez nessa publicação em Dezembro de 1924.Criou para esta revista, em Julho de 1926, a sua primeira personagem, o escuteiro Totor.

A série, designada como “Totor, Chef de Patrouille des Hannetons” foi publicada, irregularmente, naquela publicação, até Julho de 1929. Curiosamente Totor fez uma breve aparição entre Fevereiro e Julho de 1930, desenhada por “Evany”, tendo sido, assim, a única série crida por Hergé que foi retomada por outro desenhador.

As suas influências têm origem nos heróis da sua infância e juventude, as série norte-americanas Buter Brown , The Yellow Kids, Katzenjammer Kids (Pim Pam Poum),  Krazy Kat e Bringing-up Father, ou nas séries francófonas de Benjamin Rabier, em Bécassine, Pieds Nickelés ou Zig e Puce, de Alain Saint-Ogan.

Em 1923 iniciou-se na ilustração publicitária, acreditando que esse podia ser o seu futuro profissional, mas, em 1924, conseguiu emprego no jornal diário “Le Vigtiéme Siécle”, como responsável pelo serviço de assinaturas e depois como aprendiz de fotógrafo, ilustrador e fotogravador. O padre Norbert Wallez, que dirigia esse diário, cedo se apercebeu das qualidades de Hergé e nomeou-o redactor principal do suplemento infantil desse diário, “Le Petit Vingtiéme”, publicado às 5ªs feiras, cujo primeiro número apareceu em 1 de Novembro de 1928.

Entre Novembro de 1928 e Março de 1929 publicou a única aventura da série “Flup, Nenesse, Poussette et Cochonnett”, a primeira da sua autoria nesse suplemento, três crianças e um porquinho, com argumento de um redactor desportivo do jornal, mas que Hergé não assinará.

Considerando essa série insipida, abandona-a e retoma, nesse suplemento, em 1929, o seu Totor, mas mudando-lhe o nome e fazendo-o acompanhar por um cão Milou. Nascia assim TinTin, cuja figura ainda se assemelhava à figura do escuteiro Totor.

Segundo Hergé, TinTin era “um irmão mais pequeno de Totor, um Totor transformado em jornalista, mas mantendo o espírito escutista” (entrevista a Numa Sadoul).

Mas, sobre a personagem que o imortalizou e a sua evolução, falaremos noutro artigo.

Aliás, inicialmente, Hergé não se fixará em exclusivo em Tintin, criando outras séries para essa publicação

Em 1931 publica uma única história de Fred et Mille, que será percursor de outra série sua que se tornará famosa, Quick et Flupke.

Criada em 23 de Janeiro de 1930, a série Quick et Flupke será quase tão famosa como TinTin, a única, de entre as muitas criadas por Hergé, de longa duração.

Os “enfants terribles” Quick e Flupke terão sido inspiradas em séries que fizeram a delícia da infância de Hergé, como os Katzenjammer Kids criados por Wilhelm Busch em 1865, ou Hans e Fritz série crida em 1911 por Rudolph Dirks.

Ao todo são publicadas 165 episódios dessa série, com duas páginas cada uma,  no “petit-vingttième”.

Mais tarde, a série conheceria um grande sucesso ao ser reeditada em álbum a partir de 1947, bem como na revista “TinTin”, onde serão publicadas algumas dezenas de episódios novos ou inéditos.

Baseando-se no seu herói de infância, o desenhador animalista Benjamin Rabier (que em 1924 ilustrou o “Romance da Raposa” de Aquilino Ribeiro, e sobre o qual se realizou recentemente uma exposição em Portugal, no Museu Bordalo Pinheiro) cria um herói antropomórfico, Tim, o esquilo “herói do Faroeste”, num total de 32 páginas coloridas, sem balões e com as clássicas  legendas por baixo (com já tinha acontecido com a sua primeira personagem, o escuteiro Totor), publicadas em 2 páginas semanais, como suplemento publicitário a uma loja de Bruxelas, saindo às 5ªas feiras, entre 17 de Setembro e 31 de Dezembro de 1931.

Essa série foi o esboço de outras duas séries, “Les Aventures de Tom e Mille” (1933) e “Popol et Virgine Chez Lapin” (1934).

Esta última série teve curta vida nas páginas do “Petit Vingtième”, entre 8 de Feverreiro e 16 de Agosto de 1934, reaparecendo mais tarde na revista “TinTin” entre 29 de Abril e 29 de Julho de 1948.

Popol e Virgine são dois ursos, representando mais uma rara incursão de Hergé no mundo animalista, que ele tanto apreciava na sua infância. A criação desta série obedeceu a uma tentativa de Hergé de romper com o realismo de “TinTin”. Contudo esta série não obteve o entusiasmo dos leitores, que escreveram várias cartas à redacção do jornal para exigir o regresso de TinTin, acabando assim com a continuação daquela série.

Paralelamente à sua colaboração com o “Le Petit Vingtiéme”, Hergé trabalhou noutras publicações, como , em 1928, no semanário satirico e panfletária “Le Sifflet”, que se editou entre 1928 e 1931.

Esta foi uma época em que criou várias séries com fins publicitários, como as tirinhas “Cet Aimable M. Mops” (1932).

Para o folheto “Pim- Vie Heureus” do suplemento juvenil “Pim et Pom” do jornal “Le Meuse”, cria “Les Aventures de Tom et Mille”, 2 episódios curtos baseados nas aventuras do já referido esquilo Tim, mas tendo, desta vez, como personagens, 2 ursos. Para esta série usa o pseudónimo R.G.. A 1ª história, de 2 páginas, a preto e branco, é publicada em 7 de Fevereiro de 1933 e a segunda aventura, de 18 páginas, intitulada “Tom e Mille à le recherche du soleil” em 11 de Abril desse mesmo ano.  

Em 1934 Hergé, criou o Atelier Hergé-Publicité, com o objectivo de criar peças publicitárias, tendo elaborado várias bandas desenhadas  publicitárias, logo nesse ano uma em 4 páginas intitulada “Les Mésaventures de Jeff Debakker” e, em 1938, uma série de histórias curtas, para a confeitaria “Antoine”, tendo como personagens “Antoinne, Antoinette, Plouf e Drapsy”, 2 irmãos, um cão e um papagaio, num total de 6 episódios de uma página cada.

A criação dessas personagens publicitárias é vista por muitos estudiosos como percursora da série “Jo, Zette e Jocko” que foi publicada na revista francesa “Coeurs Vaillant”, entre 22 de Outubro de 1936 e 9 de Novembro de 1939, traduzida em Portugal como “Joana, João e o Macaco Simão”. Esta série foi uma encomenda dessa revista ao autor:

“A direcção do jornal [Coeurs Vaillant] disse-me mais ou menos o seguinte: Sabe, o seu “TinTin” não está mal, gostamos muito dele. Mas não tem modo de vida, nem pais, não come nem dorme, isto não é lógico. Não pode criar uma personagem cujo pai trabalhe, que viva com a mãe, a irmãzinha e qualquer animalzinho familiar?”. E foi assim que essa série surgiu.

Dela publicaram-se três aventuras, “le Rayon du mystère” (dividido em dois episódios, “Le testament de M. Pump” e “Destination New-York”), publicada no Coeurs Vaillant entre 22 de Outubro de 1936 e 9 de Novembro de 1938,   “Le Stratoneff H22” (igualmente dividido em 2 episódios, “Le Manitoba ne répond plus” e “L’Eruption du Karamako”), publicada na mesma revista entre 31 de Março de 1938 e 9 de Novembro de 1939,  e “La Vallée des Cobras”, esta publicada apenas entre 30 de Dezembro de 1953 e 22 de Dezembro de 1954, já na revista TinTin.

Na década de 60, num período de alguma crise pessoal, entre 1960 e 1964, Hergé pensou enveredar pela pintura, chegando a criar algumas obras inspiradas em Miró e Dubuffett, mas acabou por desistir, optando por continuar como autor de Banda Desenhada, apesar de se ter tornado um conceituado e informado colecionador de arte, tendo conhecido Andy Warholl que, em 1979, pintou 4 imagens de Hergé no seu estilo peculiar de pop-art.

A partir dos anos 40 e até à sua morte, apenas com a breve deriva acima referida, o autor dedicou-se, em exclusividade à sua icónica série TinTin.

4 - TinTin e Hergé.

É no mencionado “Le Petit Vingtiéme” que Hergé inicia a publicação das aventuras de TinTin, um “repórter” do jornal enviado ao “país dos Soviéticos”. TinTin “parte” para a sua primeira aventura na edição de 10 de Janeiro de 1929.

A aventura “TinTin no País dos Soviéticos” é publicada a preto e branco, como vai acontecer, aliás, com as 5 primeiras aventuras desse “herói”, com a excepção, já referida, da edição portuguesa.

Esta aventura foi sendo desenhada por Hergé ,sem um plano prévio, sem uma previsão quanto à forma como ía terminar, muitas vezes quase desenhada em cima do joelho e no limite do prazo de entrega para poder ser publicada. Finalmente, em 8 de Maio de 1930, era editada a última prancha dessa primeira aventura, que só conheceria outra edição nas páginas da revista francesa Coeurs Vaillants, neste mesmo ano.

Só então Hergé se deu conta do êxito dessa aventura, tendo encenado o regresso da Rússia do herói imaginário, com figuras reais, à estação central de Bruxelas.

Esta primeira aventura será também uma das mais controversas, baseada numa obra de propaganda anti-comunista, “Moscou sans Voiles” (Moscovo sem véus), escrita pelo ex-cônsul belga na Rússia, Joseph Douillet, editado em 1928, best-seller na Bélgica desse tempo.

Hergé, muito jovem ainda, foi também  influenciado pelo espírito conservador do próprio jornal e do seu director, o padre  Wallz, admirador do fascismo italiano, mais tarde preso por colaboracionismo com os ocupantes nazis.

Quando, mais tarde, Hergé resolveu redesenhar os seus primeiros álbuns, recusou-se a fazê-lo com essa primeira obra, que o próprio renegou e impediu que tivesse sido reeditado, até quase ao ano da sua morte, em 1983.

O que é um facto é que essa primeira aventura, se foi muito influenciada pela propaganda anticomunista da época e exagerou na caricatura dos bolcheviques, acabaria por se tornar premonitório em relação ao rumo totalitário que a revolução soviética tomou na década de 1930, sob a terror stalinista.

Fosse como fosse, nessa primeira aventura já se encontravam alguns dos traços que caracterizaram as aventuras de TinTin, como o suspense no final de cada prancha, recorrendo à técnica  que Hergé foi buscar ao cinema de Hitchcock, a simplicidade das linhas, na origem da chamada “linha clara”, e a utilização do balão para as falas dos personagens, em vez da forma tradicional de usar a imagem como simples ilustração de um texto.

O termo “linha clara” para classificar o estilo de Hergé e de outros autores da escola franco-belga teve origem no termo holandês Klare Lijn aplicado pelo desenhador gráfico Joost Swarte, na exposição dedicada a TinTin “Kuifje in Rotterdam”, realizada nesta cidade entre 5 de Fevereiro e 14 de Março de 1977.

Sobre a famosa “linha clara”, para Edgar Pierre Jacobs, esse estilo não passou de um mito, já que foi imposto por razões técnicas, pois alguns pormenores e cores não passavam no tipo de impressão usado nos anos 30/40 do século XX, sendo necessário simplificar o desenho e torna-lo o mais eficaz e legível possível.

Benoît Peeters, biografo de Hergé, afirma que este “introduziu uma revolução discreta na banda desenhada europeia” ao tratar de temas adultos e falando do mundo contemporâneo num jornal infantil.

A segunda aventura da série foi igualmente controversa, “Tintin no Congo”, muito marcado pelo espírito colonialista, num país, como a Bélgica, que tinha no Congo a sua principal colónia africana. Hergé tinha desejado escrever, como segunda aventura, uma aventura na América, mas a direcção do jornal pressionou o autor a escolher uma aventura passada nessa colónia belga, para reforçar a propaganda colonialista que estava no espírito desse órgão de comunicação.

Hergé niciou a publicação dessa aventura em 9 de Julho de 1931, sem, segundo as suas palavras, nada saber desse país, “a não ser o que se dizia na época: Os negros são crianças crescidas, Ainda bem que nós lá estamos, e outras coisas do género”, desenhando “esses africanos segundo tal bitola, no mais puro espírito paternalista, que era aquela que então se vivia na Bélgica” (entrevista com Numa Sadoul).

Contrariado e sem entusiasmo Hergé começou a editar essa segunda aventura em 9 de Julho de 1931.

Mais tarde Hergé, mais maduro e mais politizado, desculpando-se com a juventude e o espírito do tempo, reviu toda aventura em 1946, retirando-lhe as suas características mais colonialistas, revendo diálogos e algumas cenas.

Nessa aventura, TinTin conhece o primeiro de uma galeria de personagens infantis, o negrito Coco, companheiros das aventuras do célebre “repórter”.

Em 1932 consegue, finalmente, iniciar a aventura que tanto desejava desenhar, “TinTin na América”. Esta aventura seria totalmente redesenhada em 1946, reflectindo  muito da influência do cinema norte-americano, cruzando os ambientes do “Cinema negro” e do Western. O filme critica muito do ambiente social norte-americano, denunciando principalmente o racismo e o tratamento dado aos índios.

“Os Cigarros do Faraó” vai ser a quarta aventura de TinTin, que conhece uma nova dimensão, a do mistério e do fantástico, num ambiente e em cenários mais elaborados que nas histórias anteriores.

Será totalmente redesenhada em 1955. Nesta aventura, passada em vários países do Oriente, surgem vários personagens que vão marcar a série, ao longo do tempo, como o vilão Rastapopoulos,  o comerciante português Oliveira da Figueira ou os famosos policias Dupond e Dupont, designados, originalmente, como os agentes X33 e X33bis

Até ao “Lótus Azul”, de 1934 , continuação da aventura anterior, a evolução das aventuras ia-se desenrolando de forma espontânea, sem um plano pré concebido.

Foi o próprio Hergé que afirmou que, até o “Lótus Azul”, as aventuras de TinTin “eram uma série de peripécias cómicas e emotivas (…) sem argumento nem plano de trabalho. (…) Le Petit Vingtième saía às quartas feiras à noite e por vezes acontecia-me não saber na véspera como é que eu libertaria TinTin da má situação da qual eu o tinha abandonado durante a semana anterior”(entrevista a Numa Sadoul).

Foi só a partir desta aventura que Hergé iniciou a forma de trabalhar que seguiria daí para frente, documentando-se com rigor, planeando o desenrolar da acção e usando a tinta da china.

Essa mudança foi provocada por uma carta que Hergé recebeu do abade Gosset.

Tendo sido anunciado no jornal que a próxima aventura se passaria na China, nessa carta este padre,  criticando a falta de rigor que tinha detectado nas aventuras anteriores de TinTin, ofereceu-se para o ajudar na busca documental, e a evitar os clichés sobre a China. Professor da Universidade de Lovaina, onde orientava estudantes chineses, recomendou um jovem chinês, Tchang Tchong-Yen, para o ajudar a documentar-se e a conhecer a realidade chinesa.

Nascido em Xangai, Tchang  era um estudante de pintura e escultura, e entre ele e Hergé, ambos nascidos no mesmo ano de 1907, estabeleceu-se uma sólida amizade.

O jovem Tchang colaborou activamente com Hergé na recolha de documentação sobre a China, ao mesmo tempo que o esclareceu sobre a cultura desse país.

Também o introduziu na técnica do uso da tinta-da-china, que permitiu a Hergé tratar as cenas nocturnas como sombras chinesas.

Como homenagem a essa colaboração, Hergé deu o nome desse novo amigo a um dos personagens dessa nova aventura. Tchang, o personagem de BD, voltará a reaparecer no “TinTin no Tibet”.

No final dos anos de 1930, Tchang, o verdadeiro, regressou à China, onde se tornou um escultor famoso, aderindo à Revolução Chinesa do pós guerra, mas acabando vítima da Revolução cultural dos anos de 1960.

A Guerra europeia e a situação política na China do pós Guerra levou Hergé a perder o rasto de Tchang,  não desistindo, contudo, de o procurar.

Em 1976 conseguiu, finalmente, localizá-lo, e iniciou uma troca de correspondência com o seu amigo da juventude, enviando-lhe exemplares dos álbuns “O Lótus Azul” e “Tintin no Tibet”, onde Tchang aparecia como personagens. Finalmente, em Março de 1981, os dois amigos, já septagenários, reencontraram-se em Bruxelas.

O reencontro será de pouca duração, porque Hergé faleceu dois anos depois. Tchang estabeleceu-se em França e, ainda antes de falecer em 1998, homenageou o seu amigo, esculpindo o busto de Hergé.

A partir de “O Lótus Azul”, as aventuras seguintes de TinTin, “A Orelha Quebrada” (1937), “A Ilha Negra” (1938), e “O Ceptro d’Ottokar” (1939) vão caracterizar-se por um rigor narrativo e um grafismo mais cuidado.

Foi também a partir daquela aventura que Hergé, segundo as suas próprias palavras, se começou a interessar “verdadeiramente pelas pessoas e pelos países aos quais” enviava Tintin.

Além de mudar de método, Hergé beneficiou também de se distanciar da influência ideológica do padre Wallz, afastado do “Vigtiéme Siécle” em 1933, devido às suas simpatias nazi-fascistas.

Se em o “Lótus Azul” Hergé alertava para o perigo do expansionismo do Império Japonês e denunciava os estereótipos em relação ao mundo asiático, em “O Ceptro de Ottokar”, cuja primeira prancha foi publicada em 4 de Agosto de 1938, denunciou, de forma metafórica, o crescente perigo do expansionismo nazi, chegando mesmo a apelidar um dos vilões dessa aventura e “Müsstler”, combinação dos nomes de Mussolini e Hitler.

Recorde-se que, em 12 de Março desse ano tinha acontecido o “Anschluss”, a anexação da Áustria pela Alemanha nazi.

A última prancha de “O Ceptro de Ottokar” foi publicada no “Le Petit Vingtiéme” em 10 de Agosto de 1939, menos de um mês antes do início da Segunda Guerra Mundial, em 1 de Setembro de 1939.

Nos finais de 1939 Hergé é mobilizado para o exército, sendo colocado no norte da Bélgica. Apesar dessas obrigações militares, ele consegue arranjar tempo para enviar 2 pranchas por semana da nova aventura de TinTin, “TinTin no País do Ouro Nego”, que era a continuação da aventura anterior.

Quando em 9 de Maio de 1940 a Bélgica foi ocupada pelos nazis, estes encerram o “Vigtiéme Siécle”, apesar deste jornal ser conservador e simpatizante do fascismo.

Essa situação levou à interrupção da publicação dessa aventura de TinTin, que só será retomada e concluída em 1948, sendo modificado o início da história, assim como a fisionomia dos personagens.

No momento da invasão, e desde 10 de Abril, Hergé encontrava-se em território francês, acompanhado da sua primeira esposa e do seu gato, aguardando em Paris o desenrolar da situação no seu pais.

Regressado à Bélgica, Hergé encontra-se desemprego, recusando um lugar no jornal oficial do movimento rexista, o movimento nazi-fascista belga, mas, para sobreviver, aceita continuar a publicar as aventuras de TinTin no jornal Le Soir, agora totalmente controlado pelos ocupantes nazis.

Hergé cria um suplemento juvenil nesse diário, “Le Soir Junesse”, editado pela primeira vez em 17 de Outubro de 1940, onde reaparecem as aventuras de TinTin, na aventura “O Caranguejo das Tenazes de Ouro”. Quando esse suplemento encerra, em 23 de Setembro de 1941, devido às dificuldades em obter papel para edição, essa aventura continua a ser publicada, mas agora em pequenas  “tiras” diária, na edição principal desse jornal.

Irá publicar ainda, nessa época, outras três aventuras de TinTin, “As Sete Bolas de Cristal”, “O Segredo do Licorne” e a continuação desta aventura, “O Tesouro de Rackan o Vermelho”. Ao contrário das aventuras editadas antes da ocupação, estas histórias não abordam acontecimentos reais, praticando uma “literatura de pura evasão”, única forma de escapar à censura nazi, até porque duas aventuras anteriores a esse período foram proibidas de circular pelo ocupante nazi, “A Ilha Negra”, acusada pela censura nazi de anglófila, por causa das referências à escócia, e “TinTin na América”, por se passar noutro país inimigo, os Estados Unidos. Curiosamente, “O Ceptro d’Ottokar”, por muitos considerada uma história anti-fascista, escapou à censura.

Não podendo explorar a realidade que o rodeava, Hergé vai acabar por enriquecer o mundo interior das aventuras de TinTin, surgindo neste período uma galeria de personagens que vão valorizar a série, do ponto de vista narrativo,  psicológico e dramático.

O capitão Haddock surge pela primeira vez em “O Caranguejo das Tenazes de Ouro”, Nestor e o castelo de Moulinsart em “O Segredo do Licorne”, o professor Tournesol em “O Tesouro de Rackan o Vermelho” e Serafim Lampião nas “Sete Bolas de Cristal”.

Quando a Bélgica é libertada pelos aliados, em 3 de Setembro de 1944, todos os responsáveis e colaboradores do Le Soir são acusados de colaboracionismo. A publicação de “As Sete Bolas de Cristal” nesse jornal é interrompida nessa data. Hergé é preso por quatro vezes e atravessa um período difícil. Só em Maio de 1946 é que Hergé consegue obter das forças aliadas um “certificado de civismo”, pois nunca se descobriu qualquer atitude de Hergé, ou no conteúdo das aventuras de Tintin publicadas durante a ocupação nazi, que revelasse simpatia ou colaboração com os ocupantes.

Recorde-se, aliás, que Hergé tinha publicado, nos anos 1930 desenhos antimilitaristas  anti-Hitler, situação evidente num gag da série Quick e Flupke de 1933, ridicularizando os discursos radiofónicos de Hitler e Mussolini, ou num personagem com uma vida efémera de 4 gags, Monsieur Bellum, publicado em 1939 no semanário belga neutralista “L’Ouest”, onde o personagem, na sequência de um desses gags, escreve numa parede “Hitler est un fou!”, sem esquecer o acima referido“O Ceptro de Ottokar”, publicado também neste ano.

Como já referimos, até 1942 as aventuras de TinTin foram editadas a preto e branco. A primeira aventura passada a cores foi “A Estrela Misteriosa”, para o álbum editado em 1942.

A introdução da cor nas aventuras de TinTin ficaram a dever-se à insistência de Louis Casterman junto de Hergé para que a edição em álbum dessa série fosse a cores, para rentabilizar o uso de uma máquina de offset que esse editor tinha adquirido.

Inicialmente Hergé mostrou-se renitente em colorir a sua série, considerando que a introdução da cor retirava nitidez ao seu desenho, para além de não dominar as técnicas de colorir. Por outro lado, aquele editor também queria que Hergé, para a edição em álbum de TinTin, redesenhasse as aventuras deste personagem para caberem nas 62 páginas de um álbum, limite imposto pela falta de papel durante a guerra, e que se tornou norma. Hergé ficou ainda preocupado com o aumento de trabalho que isso ia provocar.

Para o convencer, Casterman encorajou Hergé a rodear-se de colaboradores. Este então lembra-se de um personagem que lhe tinha sido apresentado em 1942 por Jacques Van Melkebeke, um amigo comum, um tal Edgar Pierre Jacobs, cujo trabalho na revista Bravo, principalmente as suas qualidades de colorista reveladas na aventura aí publicada, Le Rayon U, muito tinham impressionado Hergé.

Meses depois daquele primeiro encontro, ambos iniciam a colaboração para colorir, primeiro “TinTin no Congo”, depois o “Lótus Azul”, “O tesouro de Rackan o Vermelho” e “O Ceptro de Ottokar”. Jacobs, para este último álbum, ajuda Hergé a redesenhar cenários e uniformes.

Jacobs confessaria mais tarde que ambos se divertiram imenso a rever “O Ceptro d’Ottokar”, onde caricaturaram, como personagens dessa aventura,  vários conhecidos e amigos.

Aliás, o próprio Jacobs acabou, anos mais tarde,  caricaturado, dentro de um sarcófago na capa de “Os Cigarros do Faraó”, editada em 1955.

Perante o êxito dessa colaboração, Hergé convidou Jacobs para o ajudar a documentar-se para duas aventuras, o complemento da interrompida “As 7 bolas de cristal” e a nova “O templo do Sol”. Jacobs foi mesmo fundamental na elaboração dos cenários dessas aventuras.

Por essa altura, logo após a libertação,  chegaram a ponderar realizar três histórias diferentes em conjunto, assinando com um pseudónimo comum: OLAV:

Uma das séries era ao estilo Western, outra policial e a terceira passar-se-ia no Pólo Norte.

Chegaram a elabora três pranchas, uma para cada série, mas entregaram-no a um negociante de Bruxelas que desapareceu com elas, ficando essa idéia sem efeito.

Também realizaram em comum o projecto de “Voir e Savoir”, uma colecção de cromos consagrada à história dos meios de transporte, continuada mais tarde pelos “Estúdios Hergé” .

Foi assim, de forma natural, que Hergé convidou Jacobs a fazer parte da equipa fundadora da revista “TinTin”, fundada em 1946 ( e que se publicou até 1988, conhecendo versões em vários países, como em França, cuja edição se iniciou em 28 de Outubro de 1948, na Holanda, onde TinTin foi deignado como Kuifje, e, a partir de 1968, em Portugal) .

O projecto da revista ficou  a dever-se a Raymond Leblanc, que combateu na resistência contra a ocupação nazi, e, durante os 2 primeiros anos, as suas páginas foram partilhadas por 4 autores, para além de Hergé e Jacobs, por Paul Cuvelier e Jacques Laudy.

A edição belga original da revista TinTin publicou o seu último número em 29 de Novembro de 1988, devido ao facto de a Fundação Hergé ter retirado à editora Lombard o direito de publicar um jornal com o título de TinTin.

“O Templo do Sol” foi a primeira aventura de TinTin publicada a partir do 1º número  da revista, saído em 26 de Setembro de 1946.

Jacobs trabalhava durante metade do dia para Hergé e, na outra metade, na primeira aventura de Blake e Mortimer, publicada também logo no primeiro número desse semanário, “O Segredo do Espadão”.

Jacobs acabou por desistir da colaboração com Hergé, em 1947, devido ao excesso de trabalho, mas também, ao que parece, por algumas divergências pessoais, pois Jacobs terá exigido que o seu nome também constasse na autoria das aventuras de TinTin, onde a sua colaboração, como cenarista e colorista, foi fundamental para o êxito da série, até porque Hergé passou a exigir que Jacobs passasse a dedicar-se a 100% a TinTin….mas mantendo Hergé como único autor.

Apesar das divergências, a amizade entre os dois autores manteve-se sempre forte até à morte de Hergé em 1983 (Jacobs só lhe sobreviveu 4 anos, falecendo em 1987).

Para colmatar o afastamento de Jacobs, Hergé fundou, em 1950, os “Studios Hergé”, reunindo à sua volta vários jovens e talentosos colaboradores, tais como Bob de Moor, Jacques Martin, Roger Leloup e Boudouin van den Braden, entre muitos outros.

O primeiro trabalho, sob orientação directa de Hergé, foi retomar e completar a aventura “O País do Ouro Negro”, interrompida quando do encerramento do Le Vigtiéme Siécle em 1940.

Seguiu-se um dos seus projectos mais ambiciosos da série, “Objectivo Lua” e “Em Marcha sobre a Lua”. Seguiram-se “O Caso Tournesol” e “Carvão no Porão”.

Uma outra componente dos Estúdios foi recupere alguns projectos anteriores à guerra, como colorir as histórias mais antigas que ainda não tinham passado por essa transformação, bem como colorir e rever “As Aventuras de Jo, Zette et Jocko” e “As Explorações de Quick e Flupke”, modernizando também alguns detalhes decorativos dessas histórias antigas.

O terceiro tipo de actividades desse estúdio foi dar continuidade à colecção de cromos “Voir et savoir”, elaboração de calendários e folhetos publicitários, usando personagens da série.

A consagração da série atinge o auge nos anos 1950, com traduções das aventuras de TinTin em quase todo o mundo, com tiragens gigantescas dos álbuns, aparecendo também nessa década, em 1959, o primeiro livro consagrado a um autor de Banda Desenhada, “Le Monde de TinTin”, da autoria de Pol Vandromme.

Contudo, o êxito mundial da série coincide com um período de depressão, esgotamento e crise pessoal vivido por Hergé, iniciado em 1958.

Essa situação leva-o a acabar, com grande dificuldade,  a elaboração do álbum “TinTin no Tibet”.

Ultrapassada a crise, com recurso à psicanálise, Hergé edita aquela que é considerada por muitos a sua obra prima, “As Jóias de Castafiore”, aventura publicada em 1963, onde um grupo de ciganos acampados junto a Moulinsart dá oportunidade a Hergé de criticar os preconceitos racistas em relação a essa etnia.

Nos anos de 1960, a série conhece um novo impulso, com a realização de filmes, com personagens reis, baseados na série, o primeiro dos quais foi “O Mistério do Tosão de Ouro”, em 1961, de dois filmes de animação de longa metragem, entre estes a adaptação de “TinTin e o Templo do Sol”, realizado em 1969, e de uma série de cinema de animação para a televisão, saída dos Estúdios Hergé.

O ritmo de trabalho de Hergé, ao longo doa anos 60, tornou-se mais lento. Depois de “As joias de Castafiore”, será preciso esperar cinco anos por uma nova aventura de TinTin, “Voo 714 para Sidney”, editado em 1968.

Para a lentidão do seu ritmo de trabalho contribui a sua nova paixão, a pintura, à qual ela chega mesmo a pensar dedicar-se em exclusividade, abandonando a Banda Desenhada. Na mesma época Hergé viaja imenso, não só pela Europa, mas, pela primeira vez, em 1971, aos Estados Unidos, viajando para Taiwan em 1973. Neste caso foi o cumprimento de um desejo, adiado desde 1939, quando tinha sido convidado pelo governo  chinês da altura a visitar o país, como paga pelo “serviço prestado” à causa chinesa, então ameaçada pelos japoneses, no seu álbum “Lótus Azul”.

Em 1972 os estúdios Belvision de Bruxelas estreiam um filme de animação, “Tintin e o Lago dos Tubarões” realizado por Raymond Leblanc, com argumento de Michel Greg e a colaboração de Hergé.

Ao contrário de outros projectos cinematográficos de aventuras de TinTin, que partiam das aventuras já editadas por Hergé, neste caso aconteceu o contrário, publicando-se um álbum que é a cópia da animação, onde Hergé teve um papel secundário na elaboração, tanto do argumento como dos desenhos.

Desta vez será necessário esperar 8 anos  por uma nova aventura de Tintin, a última completada por Hergé, “TinTin e os Picaros”, editada em 1976.

Em 1979, o cinquentenário de Tintin realiza-se com grande fausto e cerimonial em Paris e em Bruxelas, com uma grande exposição que percorrerá a Europa, “O Museu Imaginário de TinTin”.

Durante o principio da década de 1980 as aparições públicas de Hergé tornam-se cada vez mais raras. Por essa altura, o autor anuncia que está a desenhar uma nova aventura que se passará no meio das artes plásticas, ao mesmo tempo que prepara um gigantesco fresco para uma estação de metro em Bruxelas.

Sabe-se, entretanto, que Hergé sofre de leucemia e, em 25 de Fevereiro de 1983, na sequência de uma falência cardíaca, é hospitalizado, acabando por falecer no dia 3 de Março, pelas 22 horas. Tinha 75 anos.

O seu 24º álbum, “TinTin et L’Alph’Art”, passado no meio do mundo da arte, ficou assim inacabado.

Ao contrário de outras séries, Hergé deixou o pedido aos seus herdeiros, a sua 2º esposa, Fanny Remi, 27 anos mais nova, para que a série não voltasse a ser retomada por outros autores.

Tendo-se voltado a casar, com o inglês Nick Rodwell, dono da Loja TinTin em Londres, Fanny fundou com o seu actual marido a Moulinsart , sociedade detentora de todos os direitos da obra de Hergé.

Sabe-se, entretanto, que até 2054, será editada uma nova aventura de Tintin, com o objectivo de evitar que a série e os seus direitos de autor caiam no domínio público, o que acontecerá nesse ano.

As gerações mais novas, que já não viveram as aventuras de TinTin nas revistas entretanto desaparecidas, terão tido um primeiro contacto com a série no filme de Spielberg 2011.

Hergé e a “sua” “linha clara” fizeram escola entre muitos outros autores de BD, como os holandeses Joost Swarte e Theo van den Boogard, os franceses De Floch, Ted Benöir e Serge Clerc e Tardi ou o belga Alain Goffin, sem esquecer Yves Chaland que homenageia as suas influências na série Freddy Lombard, reivindicando-se igualmente como seus “herdeiros” estéticos autores norte-americanos como Charles Burns ou Chris Ware, sem esquecer os muitos autores por ele influenciados que passaram pelos “estúdios Hergé” e pela revista TinTin.

Interrogado sobre a morte e a reincarnação, Hergé respondeu que gostaria de retornar à terra sob a forma de um gato siamês, “mas vivendo no seio de uma boa família”. 

Se virem um por aí, mostrem-lhe um álbum de Tintin e peçam-lhe um autógrafo. No mundo de Hergé, nunca se sabe!!

As Controvérsias

Foram muitas as controvérsias geradas à volta das aventuras de Tintin, como as já referidas à volta de das duas primeiras aventuras.

Houve mesmo quem visse na relação entre Tintin e o capitão Haddock sinais de homossexualidade.

O facto de haver poucas mulheres na série foi outro motivo de polémica.

Defendendo-se desta acusação, Hergé afirmou que essa situação não era por misoginia, mas porque, para ele, “a mulher nada tem a fazer num mundo como o TinTin. É o reino da amizade viril e esta amizade nada tem de equívoco. Claro que aparecem poucas ou nenhumas mulheres. E quando elas surgem são monstros, como Castafiore…Se eu crio uma personagem de rapariga, ela tem de ser bonita, caso contrário não vale a pena, e que fará ela num mundo onde todos os indivíduos são caricaturas?...Amo demasiadamente a mulher para a caricaturar” (entrevista a Numa Sadoul).

Ao longo do tempo surgiram várias versões ilegais da TinTin, algumas parodiando a série, muitas de caracter mais “underground”, variando entre o teor pornográfico, e o uso da série para propaganda política.

Talvez a mais antiga versão pirata de TinTin tenha sido uma tira curta, intitulada “TinTin au pays des nazis”, publicada em 1944 e satirizando o trabalho de Hergé no jornal Le Soir, controlado pelos ocupantes nazis.

Entre as muitas edições piratas usando TinTin para propaganda e paródia política, a mais famosa e disputada por colecionadores é “The Adventure of TinTin – Breaking Free” da autoria de J. Daniels, um pseudónimo não identificado, publicado na revista anarquista britânica Attack Internacional, em 1988 e reeditada em Janeiro de 1999.

Nesta “aventura” de 176 páginas TinTin vive, de forma miserável, num bairro operário londrino e participa numa violenta revolução para derrubar o governo britânico.

Também na revista humorística norte-americana National Lampoom surgiu um “TinTin no Líbano”, uma critica à politica de Ronald Reagan para o médio-oriente.

Do mesmo teor político, são muitas as aventuras de “contrafacção” envolvendo TinTin e o seu universo, como “TinTin no Iraque”, de 2003, “TinTin em El Salvador”, “TinTin dans le Golf”, “L’Énigme du 3ième message”, uma provável referência ao terceiro segredo de Fátima, ou “Les Harpes de Greenmore”, onde TinTin aparece como guerrilheiro do IRA.

São também muitas as obras de teor erótico-pornográfico envolvendo TinTin e outras personagens da série.

Desse teor, as mais conhecidas e reproduzidas são “TinTin en Suisse” e“La Vie Sexuelle de TinTin”.

“TinTin en Suisse” foi desenhado por Charles Callice em 1976, para uma editora de Amesterdão, edições Sombrera.

Esta paródia erótica está interdita na França e na Bélgica, mas a sua edição continua autorizada na Holanda.

Sobre este álbum foi feita, em 1983, uma paródia ao próprio álbum, “Kuifje en de Vervalsers”

Uma versão reciclada dessa aventura ilegal foi realizada por Jan Bucquoy. Este Jan Bucquoy foi responsável pela interdita “La Vie Sexuelle de TinTin”.

Existem muitas outras paródias de tipo erótico-pornográfico explorando o universo de Tintin, como “TinTin na Tailândia” ou “TinTin pour les dames”, numa alusão irónica à quase ausência do universo feminino nas histórias de TinTin.

Mas é aquela “Vida Sexual de TinTin” que mais polémica tem gerado, com edições em várias línguas e um processo judicial que, em 1992, condenou o seu autor Jan Bucquoy.

Este Bucquoy, um autor belga de banda desenhada e com carreira cinematográfica, nascido em 1945 e de tendência anarquista, foi autor de várias bandas desenhadas de teor erótico e mesmo pornográfico, tendo publicado a primeira versão dessa “aventura” no nº3, fora-se-série, da revista “Bede X”, em 1980. Mais tarde essa história foi reeditada pela revista belga “Belge”, motivando o processo judicial referido em cima. Apesar disso essa aventura foi publicada num album de 40 páginas em 1993, com o título “La Vie Sexuelle de TinTin”.

Uma das mais recentes controvérsias à volta da figura de TinTin foi motivada por um conjunto de pranchas e quadros do artista plástico bretão Xavier Marabout, nascido em 1967, representando imaginárias cenas do quotidiano de um TinTin adulto e namoradeiro, em cenas quase eróticas.

Uma parte dessa obra imagina, em duas pranchas “mudas”, uma relação entre TinTin e outra personagem de BD, Yoko Uno, personagem criada por Roger Leloup, um autor de BD que trabalhou nos Estúdios Hergé.

As outras obras em acrílico sobre tela, num total de 23, exploram uma imaginada vida amorosa de TinTin, baseado em obras de Edward Hopper, expoente máximo do chamado híper-realismo.

Como seria de esperar, essa interpretação foi contestada pela “Sociedade Moulinsart”, que detém os direitos de autor da série TinTin, mas que acabou por perder o processo no tribunal de Rennes, que, no início de 2021, decidiu a favor do artista bretão.

Marabout começou as suas obras, usando a figura de TinTin, em 2014 e, em 2015, expôs algumas das suas obras na Bélgica, exposição que motivou a reacção da “Moulinsart”, tendo o processo começado a corre em tribunal em 2017, acabando este por decidir a favor da liberdade artística do pintor bretão.

Além disso, a Moulinsart foi condenada a pagar uma indeminização ao artista plástico, no valor de 10 mil euros, e a pagar as custas do processo, no valor de 20 mil euros.

Marabout não pretende continuara a explorar a série TinTin nas suas obras, mas gostaria de realizar parcerias idênticas às que realizou com TinTin e Hoper, desta vez misturando o universo de Philémon de Fred, com o de Salvador Dalí, ou o de Dragon Ball Z com o de Mark Rothko.

ANEXO 1 - Relação das aventuras de Hergé , publicadas no Mundo e em Portugal:

Título Original/título definitivo

Título em Português

Local da 1º Publicação

Data

1ª publicação em Portugal

Data

Data 1º álbum

Data 1º álbum em língua portuguesa

Les Aventures de TinTin repórter au pays des Soviets/ TinTin au Pays des Soviets

TinTim no País dos Soviéticos

Le Petit Vingtiéme

10-01-1929 a 11-05-1930

TinTin

31-07-1982 a 02-10-1982 (ficou incompleta)

Setembro 1930

1999

Les Aventures de TinTin Reporter au Congo/Tintin au Congo

TinTim no Congo

Le Petit Vingtiéme

05-06-1930 a 11-06-1931

O Papagaio

13-04-1939 a 14-12-1940

(com o Título de “Tim-Tim em Angola”

1931

1978

Les Aventures de TinTin Reporter à Chicago/Tintin en Amérique

TinTim na América

Le Petit Vingtiéme

03-09-1931 a 20-10-1932

O Papagaio

16-04-1936 a 20-05-1937 (1ª aventura de TinTim em Portugal, com o título “Aventuras de Tim-Tim na América do Norte”

1932

1978

Les Aventures de TinTin Reporter en Orient/ Les Cigares du Pharaon

Os Charutos do Faraó

Le Petit Vingtiéme

08—12-1932 a 08-02-1934

O Papagaio

24-06-1937 a 12-05-1938 (com o título “Aventuras de Tim-Tim no Oriente”

1934

1967

Les Aventures de TinTin en Extrême-Orient/Le Lotus Bleu

O Lótus Azul

Le Petit Vingtiéme

09-08-1934 a 17-10-1935

O Papagaio

16-06-1938 a 16-03-1939 (com o título de “Novas Aventuras de Tim-Tim”)

1936

1967

Les Nouvelles Aventures de TinTin/L’Oreille Cassée

A Orelha Quebrada

(ou o Ídolo Roubado)

Le Petit Vingtiéme

05-12-1935 a 25-02-1937

O Papagaio

04-01-1940 a 26-12-1940 (com o título de “Tim-Tim e o mistério da Orelha Quebrada”

1937

1968

Les Nouvelles Aventures de TinTin et Milou/L’île Noir

A Ilha Negra

Le Petit Vingtiéme

15-04-1937 a 16-06-1938

O Papagaio

16-01-1941 a 26-02-1942 (Tim-Tim na Ilha Negra”

1938

1961

TinTin en Syldavie/Le Sceptre d’Ottokar

O Ceptro de Ottokar

Le Petit Vingtiéme

04-08-1938 a 10-08-1939

Diabrete

09-03-1949 a 18-03-1950 (“Aventuras de Tim-tim e Rom-Rom”)

1939

1961

Les Aventures de TinTin et Milou/Le Crabe aux Pinces d’Or

O Caranguejo das Tenazes de Ouro

Le Soir

17-10-1940 a 18-09-1941

O Papagaio

16-04-1942 a 10-06-1943 (“Tim-Tim no Deserto”)

1941

1964

Les Aventures de TinTin et Milou/L’Étoile Mystérieuse

A Estrela Misteriosa

Le Soir

20-10-1941 a 21-05-1942

O Papagaio

12-08-1943 a 16-08-1945

(=)

 

1942

1961

Les Aventures Extraordinaires de Tintin et Milou/Le Secret de la Licorne

O Segredo do Licorne

Le Soir

11-06-1942 a 14-01-1943

O Papagaio

O6-02-1947 a 15-04-1948

(=)

1943

1961

Les Aventures de TinTin et Milou/Le Trésor de Rackman le Rouge

O Tesouro de Rackham o Terrível

Le Soir

19-02-1943 a 23-09-1943

Diabrete

25-03-1950 a 21-031951 (“O Tesoiro do Cavaleiro da Rosa”)

1945

1962

Les Aventures de TinTin et Milou/Les Sept Boules de Cristal

As 7 Bolas de Cristal

Le Soir

16-12-1943 a 03-09-1944

Diabrete

04-04-1951 a 29-12-1951 (=).

1948

1965

Le Temple du Soleil

O Templo do Sol

TinTin (ed.belga)

26-09-1946 a 22-04-1948

Cavaleiro Andante

05-01-1952 a 22-08-1953 (=).

1949

1965

Au Pays de L’Or Noir

TinTim no País do Ouro Negro

TinTin (ed.belga)

16-09-1948 a 23-02-1950

TinTin

22-03-1980 a 22-11-1980

(=).

1951

1967

On a Marché sur la Lune/ Objectif Lune

Rumo à Lua

TinTin (ed.belga)

30-03-1950 a 30-12-1953

Cavaleiro Andante

17-10-1953 a 31-12-1955

(com o título de “Tim-tim na Lua” edita as duas aventuras em sequência com o mesmo título)

1953

1969

On a Marché sur la Lune

Explorando a Lua

TinTin (ed.belga)

30-03-1950 a 30-12-1953

Cavaleiro Andante

Ver nota em cima

1954

1969

L’Affaire Tournesol

O Caso Girassol

TinTin (ed.belga)

22-12-1954 a 22-02-1956

Cavaleiro Andante

02-03-1957 a 03-05-1958 (“O Caso da Arma Secreta”).

1956

1978

Coke en Stock

Carvão no Porão

TinTin (ed.belga)

31-10-1956 a 01-01-1958

Cavaleiro Andantes

03-10-1959 a 03-12-1960 (“Os mercadores de Ébano”)

1958

1978

TinTin au Tibet

TinTim no Tibete

TinTin (ed.belga)

17-09-1958 a 25-11-1959

Cavaleiro Andante

18-11-1961 a 04-08-1962

1960

1978

Les Bijoux de La Castafiore

As Jóias de Castafiore

TinTin (ed.belga)

04-07-1961 a 04-09-1962

Zorro

06-04-1963 a 06-06-1964 (“As Jóias da Prima Dona”

1963

1978

Vol 714 pour Sidney

Voo 714 para Sydney

TinTin (ed.belga)

27-09-1966 a 28-11-1967

TinTin

30-11-1968 a 24-05-1969

1968

1978

Le Lac aux requiens

Tintim e o Lago dos Tubarões

Casterman

1972

TinTin

02-10-1976 a 26-02-1977

1973

1980

TinTin et les Picaros

Tintim e os Pícaros

TinTin (ed.belga)

16-09-1975 a 13-04-1976

TinTin

17-04-1976 a 25-09-1976

1976

1978

TinTin et L’Alph-Art

TinTin e a Alph-Art

 

 

 

 

1986

2004

 

Anexo 2 - Entre mais de 830 personagens da série TinTin, registe-se as mais importantes:

Personagens

1º aparição

Data

Em álbum

As origens

TinTin

TinTin no País dos Soviético

10 de Janeiro de 1929

Setembro de 1930

O irmão Paul, 5 anos mais novo que Hergé, foi a inspiração para TinTin. O nome é muitas vezes apontado como tendo origem num personagem criado em 1897 por Benjamin Rabier, pioneiro da Bd franco-belga, autor muito apreciado por Hergé na sua infância, e que se chamava TinTin-Lupin, embora Hergé sempre o tenha negado.

Milou

TinTin no País dos Soviético

10 de Janeiro de 1929

Setembro de 1930

0 nome do mais famoso fox-terrier baseou-se na alcunha de uma amiga de Hergé, Marie-Louise Van Cutsem, Malou para os amigos. Curiosamente Hergé gostava mais de gatos do que de cães.

Capitão Archibald Haddock

O Caranguejo das tenazes de Ouro

1941

1941

Baseadono título do filme de 1931 “O Capitão Craddock”. Há também quem defenda, como origem, o almirante Nicholas Haddock, do século XVIII ou o comandante do Titanic, Herbert James Haddock. Quanto ao feitio, Hergé considerava-o, ao lado de TinTin e de Tournesol, um dos seus “alteres-ego”.

Professor Tryphon Tournesol

O Tesouro de Rackan o Terrível

1944

1944

Inspirado no engenheiro suíço Auguste Piccard, recordista na altitude em balão, e também no irlandês John Phillip Holland, inventor do submarino.

Dupond et Dupont

Os Cigarros do Faraó

29 de Dezembro de 1932

1955

Inspirado no pai e no tio de Hergé, Alexis e Léon Remi. Inicialmente designados por X33 e X33bis.

Rastapopoulos

Os Cigarros do Faraó

29 de Dezembro de 1932

1955

Baseado na figura e na vida de Aristoteles Onassis.

Bianca Castafiore

O Ceptro d’Ottokar

5 de Janeiro de 1939

1947

Inspirada nas grandes divas da ópera do século XX, nomeadamente na soprano italiana Renata Tebaldi, a grande rival de Maria Callas.

Séraphin Lampion

O Caso Tournesol

19 de Janeiro de 1955

1955

O chato com que nos cruzamos muitas vezes na vida

Tchang

O Lótus Azul

1934

1936

Uma referência evidente ao chinês Tchang Tchong-jen, amigo da juventude de Hergé.

Abdallah

TinTin no País do Ouro Negro

16 de Junho de 1949

1950

A incarnação da criança insuportável e mimada.

 

BiBliografia consultada e/ou recomendada (Toda ela existente no arquivo pessoal do autor do blog, entre muitas outras obras) :

- De Avonturen van Kuifje in Portugal (A Aventura de TinTin em Portugal), “Sapperloot” nº 5 , 2004;

- BOLÉO, João P., “Hergé fascista ou aventureiro?”, in revista do Expresso de 16 de Janeiro de 1999, pp.34 a 41;

- CALADO, Jorge, “Aventura de TinTin – Objectivo Portugal”, in E –Revista do “Expresso”, 1 de Outubro de 2021, pp.20 a 28;

- CRATO, Nuno, “TinTin e a Ciência”, in “Única”, suplemento do Expresso, 8 de Março de 2003, pp.68 a 72;

- GALLO, Claude le, “TinTin herói do século vinte”, tradução de Vasco Granja, publicada ao longo do 1º ano da edição da revista portuguesa TinTin, de um artigo publicado no nº 4 do 3º timestre de 1967 da revista “Phénix”;

- “Marabout : J´’ai gagné mais j’arrête” (entrevista com o autor dos polémicos quadros de TinTin ao estilo Hooper), in Casemate nº 147 de Junho de 2021, pp.8 a 12;

- MARMELEIRA, José, “No Museu de Hergé”, in Ípsilon-Público, de 1 de Outubro de 2021;

- MENDES, Pedro Boucherie, “TinTin, a Eurostar”, in E-Revista do “Expresso”, pág.27, 1 de Outubro de 2021;

- LE Musée Imaginaire de TinTin, Sociéte des expositions du Palais des Beaux-Arts de Bruxelles, 1979;

- PESSOA, Carlos, As Aventuras de TinTin no Público – Guia de Leitura, ed. Público/Oficina do Livro,2004;

- PESSOA, Carlos, “Hergé – Morte e vida de um mito”, in Público Magazine, nº 157 de 7 de Março de 1993, pp.14 a 25;

- PESSOA, Carlos “TinTin Partiu há 70 anos para o país dos soviéticos”, in “Pública” (suplemento dominical do jornal Público),10 de Janeiro de 1999,  pp. 20 a 27

- PEETERS, Benoît, Hérge – Filho de TinTin, ed. Verbo 2003 ( a mais completa biografia de Hergé);

- “Porquoi on aime le capitaine Haddock?”, dossier da revista Les Cahiers de La BD, nº 15, Julho/Setembro de 2021, pp.90  a 115;

- Le rire de Tintin – les secrets du génie comique d’Hergé, nº especial L’Espress/BeauxArts magazine, 2014;

- La Saga du Journal TinTin, número especial da revista Paris-Match, 2016;

- Special Hergé, Schtroumpf-Les Cahiers de La Bande Dessinée, nº14/15, Setembro/Dezembro de 1971 (inclui uma longa e célebre entrevista dada por Hergé a Numa Sadoul, publicada na revista portuguesa “TinTin”, ao longo do 6º ano da sua edição, com tradução de Vasco Granja);

- Special Hegé – Vive TinTin, número especial da revista (A Suivre) publicado por ocasião da morte de Hergé em Abril de 1983;

- TAVARES, João Miguel, “Hergé em formato familiar – As “Aventuras de Joana, João e do Macaco Simão” são mais um tijolo no edifício da linha clara erguido pelo mestre belga”, in Diário de Notícias, 30 de Julho de 2001;

- Tintin – C’est l’aventure, nº 9, Setembro/Novembro de 2021, ed. Geo

- TinTin – L’Aventure Continue, “hors série” da revista Télérama, Janeiro de 2003;

- TinTin grand Voygeur du siècle, nº especial da revista GEO, 2000;

- TinTin – survivra-t-il? , Haga – Revue de Bande Dessinee, nº16-17 , Inverno de 1974;

- “La Vie Sentimentale de TinTin – Hergé contre Hoper”, in Les Cahiers de La BD, nº8, Julho/Setembro de 2019, pp.65 a 77;

segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

Tempo de Natal


Para todos os seguidores dos nossos blogs aqui deixamos os desejos de um Feliz Natal, com humor (negro!!!).

sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

O Fim do "Inimigo Público"

 

A desculpa é a de sempre. Dificuldades económicas, novas prioridades, alterações editoriais...

Enfim...o blá! blá" do costume par justificar o silenciar de vozes incómodas, irreverentes e independentes.

Porque será que, em Portugal, quando chega o aperto financeiro, muitas vezes mera desculpa para uma censura disfarçada, é sempre o elo mais fraco da cultura, da criatividade e da inovação que tem de ser descartado?

De facto, durante 18 anos, o "Inimigo Público", suplemento humorístico do Público, incomodou muita gente.

A desculpa das dificuldades financeiras para acabar com o suplemento das 6ªas feiras, não convence.

Se o problema é finaceiro, talvez pudessem começar por cortar no excesso opinativo, algum mera propaganda política ou obedecendo a agendas de carreirismo pessoal.

O humor em Portugal tem sido sempre incómodo para todos os poderes.

Noutros tempos, em condições mais difícies, enfrentando uma censura real, e não a actual censura disfarçada, recordamo-nos da coragem editorial do "Diário de Lisboa", com a edição de "A Mosca", um dos mais criativos suplementos humoristicos.

Mas esse era um tempo, apesar da censura e da PIDE, em que existia um jornalismo feito por jornalistas e onde o trabalho destes era respeitado e influente na linha editorials, ao contrário dos nossos dias em que os jornalistas se têm de submeter a editores que, muitas vezes, são meros  mercenários ao serviço do poder económico ou político.

Ficam as boas recordações das leituras do "Inimigo Público" ao longo dos últimos 18 anos.

domingo, 12 de dezembro de 2021

Lewis Hamilton, o “meu” campeão do Mundo.


Confesso, a fórmula 1 é o meu “pequeno vício burguês”.

Segui quase todas as provas pela televisão (e uma vez em directo) nas décadas de 60/70/80 do século passado.

Depois, a partir do momento em que a proliferação de televisões obrigou os fãs a pagar para assistirem às provas (o dito “pluralismo” dos negócios da comunicação social!!!!), deixei de acompanhar essas provas e só voltei a elas este ano, muito por influência da série da neteflix sobre a fórmula 1.

E vim logo cair num dos anos mais competitivos dos últimos anos.

Desde logo tornei-me fã de Lewis Hamilton, mas, por azar este foi o ano em que se abateu sobre esse piloto uma das maiores injustiças, ao ter perdido hoje, na última volta, a possibilidade conquistar o título.

Do que assisti, ganhou um dos pilotos mais arrogantes e anti desportistas que “conheci até hoje, um tal Max Verstappen, cujo perfil não destoa do holandês típico (ou não tivesse sido o apartheid uma triste “invenção” de colonos holandeses, sem esquecer a forma como se entregaram ao nazismo durante a 2ª guerra, ou, mais recentemente, a forma como se comportaram em relação aos países do sul na crise de 2008, um país que vive de esquemas, dos paraísos fiscais aos diamentes de sangue ao tráfico de droga!!!).

Não tendo conseguido atirar Hamilton para fora da pista na primeira volta, beneficiou de uma decisão controversa em relação ao recomeço da corrida com safty car.

Mas nem a vitória amansou a arrogância de Verstappen, como se viu com o seu comportamento no pódio, contrastando com o desportivismo e a simpatia de Hamilton.

Nos ano 80 houve um duelo parecido, entre um irrascível James Hunt e o campeão Niki Lauda. O primeiro venceu foi campeão do mundo na última prova, mas dele, se não fosse o filme Rush, poucos se recordarão, ao contrário de Niki Lauda, que depois desse episódio voltou a ser campeão por várias vezes.

Hamilton continuará eterno e é, para mim, o “campeão do mundo”. Verstappen? A continuar com a mesma atitude, provavelmente já ninguém se vai lembra dele daqui a uns anos, quanto muito constará numa nota de rodapé da história da fórmula 1.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

A Minha pequena colecção de cromos


Não vou falar dos “cromos vivos” que nos passam os dias a sarrazinar na política, no comentário jornalístico ou em tantas outras ocasiões da nossa vida terrena.

Davam uma bela colecção, mas ninguém compraria uma caderneta onde um deles pudesse sair.

Refiro-me aos verdadeiros, aquelas pequenas imagens que saiam de um pequeno invólucro  que abriamos expectantes, à espera que surgisse aquele raro ou aquele outro que nos faltava para completar a colecção.

Dei por mim a pensar na minha infância a abrir saquetas, um momento sempre mágico e cheio de surpresas, uma magia que apenas encontramos na infância e que raramente conseguimos reproduzir na idade adulta, ao observar alguns quiosques, onde vou comprar jornais e revistas, e uma ou outra raspadinha, “forrados” a cadernetas de cromos, do futebol, à vida animal, dos heróis dos vídeos jogos, à fórmula 1.

Pus-me a notar que este é um pequeno hábito da magia da infância que continua a atravessar gerações, talvez o único.

As qualidades de impressão e a forma de os colar, mudou, para melhor.

Os temas não variam muito: os heróis do desporto, principalmente do futebol, os heróis da infância (estes, sim, mudaram), a História ou o mundo animal.

O entusiasmo é tal que até as grandes superfícies já aderiram ao fenómeno, oferecendo aos clientes colecções de cromos, uma forma habilidosa de os adultos se verem obrigados a comprar mais e no mesmo sítio para satisfazerem a birra dos petizes.

Fui à procura dos álbuns que guardei da minha infância e lá encontrei uma dúzia deles, alguns ainda incompletos, onde encontro a reprodução dos filmes da Disney, da Bela Adormecida, à Alice no país das maravilhas, este o mais antigo, herdado da minha mãe, uma colecção de cromos distribuída nos primeiros chocolates da Regina.

Entre os temas que encontrei, lá está a História de Portugal, o Património de Portugal, a Vida dos Animais, a História dos automóveis de corrida…

Entre as preciosidades, uma colecção de 60 cromos, com muito texto, intitulada O Homem no Espaço, cromos que eram incluídos nas sobremesas Royal, editada pelos anos 60 do século passado, com texto de Eurico da Fonseca, a voz e o rosto sempre associado à minha infância de espectador pasmado das emissões de televisão sobre as viagens da missão Apolo e outras, naquela que foi (e ainda é) a última grande aventura humana. Os desenhos dessa série são do consagrado autor português de histórias aos quadradinhos (para usar o termo tradicional) Vitór Péon.

Dessa dúzia de cadernetas que guardei, a maior parte foi editada pela Agência Portuguesa de Revistas ou pelas edições Íbis e Bertrand, mas também as há editadas por marcas de gelados, como  a Olá, ou pela revista Mickey.

Não encontrei uma colecção dedicada aos jogadores portugueses de hóquei em patins, que colecionei na minha infância, ou as dos jogadores de futebol, as mais populares.

Lembro-me, a propósito destas, que os cromos vinham embrulhados nuns rebuçados, comprados num quiosque de uma velhota ( a mãe do Tavares da Maçaneta, o pide mais “famoso” da vila), onde hoje está o da papelaria União, na Avenida, dentro de uma grande lata metálica.

Rumor ou não, dizia-se que o último cromo da caixa oferecia uma bola de futebol a sério. Isso levou um colega nosso a roubar dinheiro ao pai para comprar a caixa inteira, com esperança de, assim, conseguir a bola. Não me lembro se o conseguiu, lembro-me sim que levou uma valente tareia quando o pai descobriu o feito.

Uma das mais antigas colecções de que me lembro, e da qual guardo ainda 3 ou 4 cromos, era uma dedicada aos Beatles, a cores, num papel grosso, impresso na Inglaterra e que, antes das nacionais “Gorila”, eram distribuídos e incluídos nas primeiras pastilhas elástica surgidas em Portugal, em pleno auge dessa banda.

Para além da divertida troca de repetidos, entre amigos e colegas da escola, havia ainda um jogo para arrebatar cromos às outras crianças que passava por coloca-los numa superfície lisa, com a imagem para baixo, e depois, com a mão, dar uma palmada. Os que se virassem eram conquistados pelo sortudo que tinha conseguido o feito, uma situação que gerava, muitas vezes, conflitos, que às vezes acabavam ao sopapo.

Não deixa de ser surpreendente que, depois da televisão, da internet e dos jogos de computador, as velhas colecções de cromos tenham sobrevivido ao tempo.

Que seja longa a vida desse pequeno prazer de infância!

domingo, 14 de novembro de 2021

COP 26 …foi mesmo “blá!,blá, blá…!!”


Dizia um velho ditado índio que “herdamos a terra dos nosso filhos”.

Os herdeiros dos colonizadores europeus da América, ditos “civilizados”, não só nunca perceberam o sentido dessas palavras como massacraram os seus autores, naquele que foi o maior genocídio da história.

Hoje talvez se comece a perceber o sentido dessas sábias palavras.

Desde pelo menos os anos de 1960, centenas ou milhares de activistas e cientistas vêem alertando para os efeitos da nossa economia de mercado, da sociedade de consumo e do capitalismo selvagem neoliberal no futuro da Terra.

Hoje só os burros e os ignorantes  continuam a acreditar numa sociedade de crescimento de consumo ilimitado e infinito e a negar o efeito da economia humana no clima e na sobrevivência da vida à face da terra.

Apesar disso, políticos ignorantes, ou mandantes de grandes interesses económicos e financeiros, com as petrolíferas à cabeça, conseguiram adiar, mais uma vez, a urgência de medidas para travar a catástrofe previsível.

O que se passou em Glasgow, como já previa a sábia, por vezes ingénua,  activista Greta Thunberg, não passou de mais uma enorme produção de papel cheio de blá!blá!blá!...

…É melhor começarmo-nos a preparar para o pior!!!

sexta-feira, 5 de novembro de 2021

Os Cães de João Rendeiro


Li por aí (Ana Cristina Leonardo, na sua crónica de hoje do suplemento ípsilon) que, no casarão do fugitivo banqueiro João Rendeiro, (que roubava aos ricos para dar aos…ainda mais ricos), vivem três “pobres” cães, uma cadela yorkshire terrier, uma schnauzer e um rafeiro encontrado na rua.

Esses três canídeos pareciam ter sido bafejados pela sorte de viverem numa casa farta e espaçosa…a não ser que fossem meras “peças decorativas”, para mostrar a amigos ou afugentar indesejáveis, amarrados a uma casota ou presos num canil do quintal, sem autorização para frequentar o casarão da família dos multimilionários…ladrões!

Desconheço a história real dos animais e os seus dramas “pessoais”, mas fico a pensar que, nos “grandes” dramas humanos, a sorte desses companheiros de quatro patas é rapidamente esquecida, passando despercebida aos focos da comunicação social.

Não sei se as autoridades, quando prendem os criminosos em suas casas, têm a preocupação de resgatar e tratar dignamente os companheiros de quatro patas que aí habitam, alheados da natureza dos seus donos (e não é porque sofrem de alzheimer…), muitas vezes os únicos seres vivos honestos que as habitam, ou se, pelo contrário, os abandonam à sua sorte, como últimas vítimas inocentes dos actos criminosos dos seus donos.

Pode ser que algum vizinho do luxoso condomínio de Alcabideche, referido, porque sempre dá mais estatuto do que aquele topónimo que remete para a origem saloia do lugar, como “situado nos arredores de Cascais”, se condoía com o destino desses animais, para quem se previa um futuro risonho, mas agora ficam privados da companhia dos donos, um em fuga, outro em prisão preventiva.

É o que se chama “ver a vida a andar para trás” ou, como se costuma dizer, porque um cão não escolhe os donos que lhe canham na rifa, “até para ser cão é preciso ter sorte”!

...e esses, "pensando" que tinham tido sorte...tiveram azar!!!

quarta-feira, 3 de novembro de 2021

SIC “apanhada” em excesso de velocidade, ou, uma SIC cada vez mais “radical”!!!


No afã de procurar reportagens cada vez mais populistas, a SIC não tem problema em violar a lei…para mostra violações da lei.

A SIC ( e outros canais que vão atrás do “estilo” arrogante e agressivo desse canal) não se coíbe de confundir “reportagem” com perseguição “pidesca”.

Esse canal de “informação” escolhe os seus alvos de forma selectiva e parcial, recorrendo a todos os meios, de forma impune, e adoçando tudo com  uma narrativa moralista.

Numa reportagem difundida no principio desta semana, o objectivo foi perseguir um dos ódios de estimação desse canal e dos donos dele, o ministro Pedro Nuno Santos (outro dos alvos selectivos tem sido o ministro Eduardo Cabrita), para o “apanhar” em excesso de velocidade.

Não tenho simpatia especial por esses ministros, muito pouca pelo segundo, mas os fins não justificam os meios.

Deram-se mesmo ao trabalho de calcular uma viagem que Pedro Santos fez entre duas localidades, para mostrar o excesso de velocidade da comitiva oficial, ou seja, num percurso, quase todo feito em auto estrada ou via rápida, a deslocação foi feita uma média ligeiramente superior a 135Km/hora.

Para dar uns ares de “objectividade”, recorrendo aos manuais das escolas de jornalismo, a reportagem foi ver a lei e esta permite que as comitivas oficiais se desloquem sem limite de velocidade, tal como acontece com serviços de urgência e com os carros de polícia.

Como tinham de encontra alguma coisa que justificasse a reportagem, lá descobriram que a comitiva ministerial, em certos troços do percurso, desligava ou não usava a sinalização de urgência a que a lei obriga.

Só que, para o fazerem, os jornalistas tiveram de, eles próprios, violar a lei, deslocando-se em excesso de velocidade, que os mesmos, não sei se por ingenuidade se por pura arrogância e sentido de impunidade, resolveram exibir e filmar, mostrando o registo de velocidade do automóvel em que os mesmos se deslocavam, chegando mesmo a ultrapassar o carro do ministro.

Contudo “esqueceram-se” de um pormenor!!

Os “jornalistas” não estão incluídos na excepção da lei.

Ou seja, o ministro violou, parcialmente, a lei num ponto, ao não assinalar, ocasionalmente, o serviço de urgência.

Já os “jornalistas” violaram toda a lei, já que estão sujeitos às regras do comum dos condutores.

Por menos do que isso já eu tive de pagar uma multa de 200 euros, fiquei com dois pontos a menos na carta e ainda tive a carta cativada por 6 meses, com pena suspensa (era uma noite de chuva, ía a 110Km numa via dupla, de cerca de 100 metros, com separador central, de aceso a uma auto-estrada, com uma unica saida para um posto de gasolina, onde havia um radar e um sinal, escondido por um arbusto, indicando um limite de 70 Km/hora...) .

Quem violou a lei, de forma gritante, e ainda por cima exibido-o impunemente, foram os “jornalistas” da SIC!!

Espero que esse afã moralista, em perseguir ministros, para os apanhar em falta, continue tão empenhado quando, um dia destes, que espero que venha longe,  tivermos ministros da cor política dos donos da SIC.

E já agora, uma prova da “objectividade” desse “jornalismo” seria perseguir, do mesmo modo pidesco, Carlos Moedas, Cavaco Silva, Paulo Rangel, Rui Rio ou Passos Coelho, quando estes se deslocam para cerimónias publicas ou oficias!!!

quarta-feira, 27 de outubro de 2021

(última ?) “Carta Aberta” ao PCP e ao BE!


À beira de concretizarem a última e pior asneira da vossa história, eu, que, maioritariamente, desde 1976, em eleições legislativas, sempre votei, ou no BE (ou nos partidos que o formaram) ou no PCP, venho fazer um último apelo para que, se eventualmente alguém com influência nas decisões desses partidos me leia, faça chamar esses partidos à razão, e emendem uma decisão e uma asneira que vai prejudicar os trabalhadores, os reformados, os jovens em trabalho precário, os desempregados, os pobres e o “povo” que tanto dizem defender.

De facto, este não é um bom orçamento, mas é o melhor dos últimos anos, melhor que muitos dos que vocês aprovaram ou legitimaram nos últimos 7 anos.

É um orçamento "poucochinho"? É! Mas é sempre preferível o "pouco" deste orçamento, ao  "coisa nenhuma" de um governo de maioria absoluta ou de centrão, ou ao "menos" e aos "cortes" do orçamento de um governos à direita, pois estas duas últimas são as  alternativas a este orçamento.

Claro que o PS tem culpas, por promessas sucessivamente adiadas, pela cobardia em relação aos poderes de Bruxelas ou por manter medidas antissociais dos tempos da Troika, ou mesmo do governo socrático de má memória.

Ao chumbarem este orçamento, vamos ter de “lamber”, no futuro próximo, e provavelmente por muitos anos, com governos revanchistas muito mais à direita do que a sua origem histórica, mais interessados em defenderem os interesses do corrupto poder financeiro e dos mandantes de Bruxelas e das agências de rating, do que na defesa do cidadão comum, e em retomarem as medidas antissociais do “além da Troika”, cuja aplicação foi interrompida nos governos da geringonça .

Também o PS não voltará a estar aberto a negociar à esquerda, voltando aos velhos e estafados governos do “centrão”, de má memória, com o aumento de influência, no seu seio, com muita mais força, da estafada e corrupta tralha socrática e pelo velho PS das negociatas.

Pela minha parte, se provocarem eleições antecipadas, amigos do BE e do PCP, não contem com o meu voto, pelo menos enquanto me lembrar da vossa atitude em relação a este orçamento.

Claro que não vou votar numa direita cada vez mais extremada e radical, mas também não posso votar num PS cada vez mais dominado pela tralha socrática.

Neste momento, ao contrário do que sempre pensei, só me restam duas alternativas, para não recorrer ao inútil voto em branco ou ainda à mais inútil, e antidemocrática, abstenção.

Restam-me, no horizonte, ou o Livre, apesar da péssima prestação da sua única deputada eleita, ou o PAN, apesar de algum radicalismo na defesa das suas propostas.

Estes dois partidos são os únicos, à esquerda ou ao centro esquerda, a revelarem, neste momento, algum bom senso.

Não é preciso aprovar um orçamento que fica aquém das expectativas, basta a abstenção, para evitarem o ónus de se aliarem à direita, cada vez mais radical e revanchista, e abrirem caminho a uma alternativa ainda pior do que a actual.

Espero que o bom senso volte a dominar à esquerda, para bem dos trabalhadores, dos pensionistas, dos jovens precários, dos desempregados, dos mais pobres e do “povo” que dizem defender.

...Senão, e durante muito tempo, não contem com o meu voto!

terça-feira, 26 de outubro de 2021

Adeus “Esquerda”!!!??


Fixem esta data: Dia 25 de Outubro de 2021.

Este foi o dia em que a esquerda portuguesa fez haraquíri.

A história do suicídio da “esquerda” portuguesa não começa hoje.

Começou quando, no início desta legislatura, o PS resolveu dificultar um acordo escrito com, pelo menos, um dos partidos à sua esquerda, jogando no medo destes em serem penalizados por não deixarem passar orçamentos pouco ambiciosos, do ponto de vista social, e com medo de confrontar os burocratas de Bruxelas.

Ficou evidente que esta legislatura não chegaria ao fim quando o BE resolveu colocar-se ao lado da direita para votar contra o anterior orçamento.

O PCP cedeu então na abstenção, convencido que iriam ser cumpridas algumas das medidas com ele negociadas, mas que o governo se foi “esquecendo” pelo caminho, ficando por cumprir muto desse orçamento.

Em relação a este orçamento para 2022, já se percebia que havia um impasse e uma desconfiança mútua entre os partidos da esquerda, situação que culminou na confirmação de que este orçamento não vai passar com os votos à sua esquerda.

A catadupa de medidas apressadas, apresentadas nos últimos dias pelo PS, para tentar agradar à sua esquerda, mais não eram do que o início da campanha eleitoral, por parte desse partido, para entalar os partidos à sua esquerda, que ficam com o ónus de derrubarem o governo mais à esquerda que tivemos desde o 25 de Abril.

Claro que, pelo meio, estava o desejo de alguns sectores do PS, a tralha socrática, com o incendiário Carlos César à cabeça, de controlar a “BazuKa” e de beneficiar, com esta, as suas habituais clientelas .

Mas, à esquerda, havia sempre a possibilidade da abstenção, quanto a mim a única forma de saírem “airosos” desta situação.

Agora, mesmo que possam ter razão nas críticas ou em sentirem-se enganados, os partidos à esquerda do PS vão ficar com o ónus, entre a maior parte do eleitorado de esquerda, de terem optado por uma situação bem pior que é a que vai resultar do chumbo deste orçamento.

Existem 3 alternativas, todas piores para a esquerda, para os trabalhadores, para os pensionistas e para os cidadãos comuns em geral.

A primeira alternativa é as eleições darem um resultado ainda mais complexo de ingovernabilidade, mas favorável ao malfadado centrão das negociatas e da corrupção, com capacidade de desbaratar, a seu favor e da sua clientela habitual, os fundos da “Bazuka”.

A outra alternativa é um PS com maioria absoluta, igualmente marcando o regresso da tralha socrática, das negociatas e da corrupção, igualmente com capacidade de desbaratar a favor da sua clientela os fundos da “Bazuka".

A terceira alternativa é o regresso da direita “além-da-Troika”, revanchista, desejosa de retomar as medidas antissociais que foram interrompidas pelo primeiro governo de Costa, a direita das negociatas e da corrupção, desbaratando os fundos da “Bazuka”, desta vez apenas a favor do poder financeiro e das grandes empresas, pois o que temos à direita não é, nem o PSD liberal, a roçar alguns princípios da social-democracia, do tempo de Sá Carneiro, nem o CDS, democrata-cristão, com preocupações sociais, do tempo de Freitas do Amaral.

Pelo contrário, à direita o que vamos ter, muito provavelmente, é um radical como Paulo Rangel, à frente do PSD, e um extremista, como Nuno Melo, à frente do CDS, com um discurso para agradar à extrema-direita, com o desejo de privatizar tudo, da escola pública à saúde, de agradar ao corrupto sistema financeiro que rege a União Europeia, de agradar aos defensores das politica “austeritárias” da União Europeia, que estão de volta, para continuar na senda, iniciada nos tempos do  “ir além da Troika”, de destruir tudo o que lhes cheire a “Estado Social”, de combate às desigualdades ou de serviço público.

Por isso, tudo o que vier, como resultado do chumbo deste Orçamento, é sempre pior.

Infelizmente, ao contrário da direita, que se divide quando está na oposição, mas se sabe unir, no essencial do seu projecto antisocial, quando chega ao poder, a esquerda, que se une no “protesto” quando está na oposição, tem dificuldade em unir-se, com pragmatismo, para executar as suas políticas sociais, quando chega ao poder, como estamos a assistir mais uma vez.

Claro que nem tudo será negativo com a antecipação de eleições.

Em primeiro lugar, prevendo-se uma situação de grande instabilidade económica e social que se vai viver, um pouco por todo o mundo, e na União Europeia, nos próximos anos ( em resultado da tempestade perfeita, que combina os trágicos efeitos socias da pandemia, com a degradação ambiental sem fim à vista, motivada e acentuada pelos grandes interesses financeiros ligados ao sector energético, com o agravamento da própria crise energética, com o regresso das politicas orçamentais autotitárias da “troika” à União Europeia, com as crescentes tensões político-militares entre a China e os Estados Unidos e a Rússia e a União Europeia...) que vai provocar o aumento do descontentamento e das desigualdades sociais, com um impacto muito maior em países com uma economia frágil, como a portuguesa, o regresso de partidos, como o PCP e o BE à oposição poderá evitar que todo esse descontentamento fique refém do populismo e do oportunismo de extrema-direita, voltando alguma esquerda a absorver e a enquadrar esse crescente descontentamento num combate mais consequente e positivo contra aqueles males crescentes.

Em segundo lugar, em democracia, o voto é sempre soberano e, perante a desagregação das relações entre os partidos à esquerda nos últimos dois anos, nada melhor do que clarificar a situação com a força e a legitimidade do voto.

Lamento que a esquerda, mais uma vez, não se consiga entender no essencial.

Lamento que, mais uma vez, a esquerda não se consiga unir no essencial para por em prática uma verdadeira política social, de combate aos salários baixos, às desigualdades sociais e de progresso que beneficie quem trabalha .

Provávelmente não voltaremos a ter oportunidade de ver aplicadas essas políticas sociais nas próximas décadas e, seja qual for o resultado eleitoral, vamos assistir à degradação de salários e de pensões, dos serviços de saúde e de educação, dos direitos socias e laboriais.

Mas, em democracia, não há que dramatizar.

Vá-se a voto, e clarifique-se a situação porque o voto é a arma do Povo!

sexta-feira, 15 de outubro de 2021

Tragédias de um Orçamento.


Por vezes, interrogo-me se a actual geração de jornalistas estudou numa escola de jornalismo ou, se não terá estudado, antes, numa escola de produção de telenovelas!!!

A forma como se tem vindo a dramatizar a apresentação do próximo Orçamento de Estado, mais parece, de facto, uma telenovela do que um trabalho lúcido de informação, como seria de esperar por parte dos órgãos de comunicação social.

Ou talvez a escola seja a escola do ministro da propaganda nazi, Goebels, aliás um excelente professor para quem quer aprende como funcionam, eficazmente, a propaganda e a publicidade.

Uma das técnicas desta “escola” é aquela, segundo a qual, uma mentira várias vezes repetida se torna verdade, ou, adaptando aos dias de hoje, várias frases descontextualizadas e meias verdades repetidas até à exaustão e ampliadas pelo megafone de vários comentadores encartados, acaba por condicionar a própria realidade.

Aquilo que sempre foi perfeitamente normal na apresentação de orçamentos, em especial quando não há governos de maioria absoluta, como aconteceu em mais de 3/4 de governos democráticos, que é apresentar um projecto, que depois pode ser alterado após negociações, sempre duras, entre os partidos parlamentares, foi transformado numa novela tágico-cómica, como, aliás, se tem transformado qualquer caso e casinho nos últimos tempos.

O problema é quando esse ambiente de doidos,  criado por uma comunicação social ávida de escândalos e espectáculos para aumentar audiências, contamina a vida política dos partidos ditos “sérios”.

É ver o frenesim que reina nos partidos da direita tradicional, só com a possibilidade remota de voltarem ao poder nos próximos tempos (principalmente, o de controlarem os dinheios da "bauka", que é o que os move....).

Pode-se dizer que a direita anda com a pontaria desafinada, pois se alguém foi atingido pela agitação provocada à volta do Orçamento, não foi o orçamento, mas a liderança e o  interior dos próprios partidos de direita.

O aparecimento de dois candidatos, um no CDS, outro no PSD, ambos com experiência política e pessoas cultas, mas com um discurso extremista, fanaticamente ideológico e revanchista, não augura nada de bom para o futuro desses partidos, a não ser retirar campo de manobra à extrema-direita.

Se ambos ganharem a liderança desses partidos, o PS vai agradecer, pois o voto centrista vai fuigir desses partidos.

À esquerda espera-se, pelo contrário, bom senso. Para quem acha, dentro do BE e do PCP,  que estes perdem pelo facto de facilitarem a vida ao orçamento socialista, a realidade das últimas presidênciais e das autárquicas, aí está para o desmentir, ao contrário da falácia de algum jornalismo e de alguns comentadores, interessados em provocar o caos à esquerda.

Basta ver o que aconteceu a esses dois partidos à esquerda do PS, pelo facto de terem tomado decisões diferentes em relação ao último orçamento.

O BE, que votou contra o orçamento, pensando beneficiar à custa do PCP e do afastamento em relação ao PS, teve duas estrondosas derrotas nesses actos eleitorais, perdendo quase tudo o que tinha conquistado no tempo da geringonça.

Pelo contrário, o PCP, que aprovou o orçamento, tendo perdido alguma coisa, perdeu pouco, e aguentou-se, estabilizando dentro do histórico. Mesmo onde perdeu ou não conseguiu aumentar, como em Loures ou em Almada, continua uma força política considerável e com capacidade de  dar cartas por muito tempo.

No caso das presidênciais e das autárquicas em Lisboa, mais no segundo que no primeiro caso, até conseguiu um bom resultado com João Ferreira.

As perdas do PCP não se devem à sua “aliança” com o PS, mas a uma crise mais estrutural, de falta de renovação e de adaptação aos novos tempos. 

Foi, pelo contrário, a sua capacidade de negociação, ganha com a "geringonça", que travou a sua perda de influência e lhe pode dar, no futuro, um novo alento.

Espera-se, por isso, que à esquerda, ao contrário do frenesim que vai à direita, reine o bom senso.

Este Orçamento não é o ideal, se houver bom senso ainda pode ser aperfeiçoado nas negociações à esquerda, mas a alternativa é a realização de eleições antecipadas, que iriam beneficiar o PS (e o Chega), aprovando-se depois um orçamento menos social, e para o qual o PS, sentindo-se traido pela sua esquerda, seria tentado a negociar à direita, ou, na hipótese remota de uma vitória da direita, um orçamento revanchista, do ponto de vista social, e integrando o resto do “ir além da Troika” que não foi cumprido, com prejuízo para reformados, trabalhadores, pequenas e médias empresas, do país em geral.

terça-feira, 12 de outubro de 2021

Qual a utilidade, em democracia, das Ordens Profissionais?

 


Anda por aí uma grande polémica sobre uma projecto governamental que, grosso modo, pretende colocar limites à autonomia das ordens profissionais.

O decreto é do PS, mas já se sabe que o PSD se vai abster na sua votação e que a Iniciativa Liberal vai ainda mais longe, ao propor a extinção de 11 das 20 ordens existentes (ler em baixo).

Vê-se assim que esta questão não é uma questão de “esquerda ou “direita”.

Aliás, esta tentativa de retirar o poder, não democrático, detido pelas corporações profissionais, fazia parte do programa inicial da Troika, mas os executantes desse programa, desejando "ir além da Troika", preferiram fazer as "reformas" poupando os poderosos e falando de alto aos "fracos", não se atrevendo a mexer nesse assunto. 

De facto, quanto a mim, as ordens profissionais não passam de reminiscências medievais, recuperadas pelo fascismo, um movimento corporativista, e copiado para Portugal pela ditadura Militar e pelo Estado Novo, que não tem lugar numa democracia estável, ou, quanto muito, não faz mais sentido que uma Maçonaria ou uma Opus Dei.

De facto, a primeira ordem profissional, a dos advogados, foi criada em 12 de Junho de 1926, uma das primeiras medidas acordadas pelo novo regime político, iniciado pela Ditadura Militar, instaurado poucos dias antes daquela data, em 28 de Maio de 1926.

O papel das ordens profissionais na construção do Estado Novo, criado em 1933 a partir dessa ditadura, tornou-se evidente quando iniciou funções, em 1935, um dos pilares do regime ditatorial, a  Câmara Corporativa, seguindo o modelo do fascismo italiano, na qual tinham lugar os representantes da ordens profissionais.

Com o estabelecimento do regime democrático em Portugal, a partir de 1974, não houve coragem para acabar com essa excrescência corporativista num regime democrático.

Talvez o facto de algumas dessas ordens, em determinados momentos da sua história, terem tomado posição contra o regime e na defesa dos presos políticos, como aconteceu com a poderosa Ordem dos Advogados, tenha levado o novo regime a “fechar os olhos” a essa realidade, limitando-se a regulamentar as suas funções.

Diga-se, em abono da verdade, que muitas das ordens se souberam adaptar ao novo regime democrático e desempenham, hoje, um verdadeiro serviço público, como acontece, por exemplo, com a ordem dos Psicólogos, ou junto dos seus profissionais.

Contudo, nos últimos tempos, temos visto três das mais poderosas corporações profissionais, a do Advogados, a dos Médico e a dos Enfermeiros (aos quais se parece juntar agora a dos Arquitectos), abandonarem as suas funções meramente profissionais para se substituírem às funções de sindicatos, de associações patronais e de partidos políticos, e virem a terreiro fazer campanha politico-ideológica, trasvestindo-se muitos dos seus líderes em comentadores políticos, ao mesmo tempo que usam todos os meios para controlar e travar o acesso à profissão por parte dos mais novos e protegem associados com actividades muitas vezes eticamente duvidosa, alguns a enfrentar problemas com a justiça.

Como cidadão, não me esqueço de uma Ordem dos Médico que, ao mesmo tempo que se queixa da falta de médicos , (sem que a tenha visto preocupada com isso quando a Troika e o “ir além da Troika” obrigaram muitos profissionais de saúde a emigrar), critique a abertura de novas escolas médicas e de mais vagas, como se houvesse grande diferença de vocação entre um aluno que entra na faculdade com 17, 18 (ou mesmo 16) valores e outro com 19 ou 20.

Mais do que os valores com que se entra numa universidade, o importante é a qualidade de ensino ministrado nessa universidade.

Também não me esqueço de uma conversa a que assisti numa rádio pública, no inicio da pandemia, quando vários enfermeiros brasileiros que estavam em Portugal se ofereceram para ajudar, e a presidente da Ordem dos Enfermeiros veio opor-se, de forma violenta, ao reconhecimento desses profissionais, mesmo que a título provisório, como se um enfermeiro brasileiro não estivesse habilitado a enfrentar situações muito mais complicada no país de origem do que aquelas que existem em Portugal. Aliás, essa líder da Ordem, militante do PSD e admiradora do líder do Chega, tem vindo a tornar essa ordem num verdadeiro sindicato, desvirtuando aquilo que devia ser uma Ordem Profissional.

Também seria interessante perguntar ao sr. Provedor da Ordem dos Advogados o que tem feito para combater o papel de escritórios de advogados na organização de fugas de impostos para off-shores e em muitas outras negociatas, senão ilegais, pelo menos eticamente reprováveis, levadas a cabo por associados seus, alguns até já tendo exercido importantes funções nessa Ordem.

Por mim, devem ser as Universidades, nalguns casos as escolas profissionais e os politécnicos, a qualificar os profissionais,  a lei a julgar do cumprimento das regras inerentes a cada profissão e o Estado, através de órgãos de controle democrático, a fiscalizar essa qualidade e esse cumprimento.

Não vejo, pelo menos tendo em conta a acção pública dos provedores das ordens acima referidas, qual a utilidade da existência, ou da manutenção do poder social, das referidas ordens, num regime democrático.

“Iniciativa Liberal propõe extinção de 11 ordens profissionais

Por Leonardo Ralha

In O Jornal Económico de 11 de Outubro de 2021

“Um projeto de lei da Iniciativa Liberal propõe a extinção de 11 ordens profissionais, o que seria mais de metade dos 20 atualmente existentes, sendo esse número algo que o partido considera ser “algo inédito e incomparável em países desenvolvidos da União Europeia”. Entre as entidades que desapareceriam caso essa iniciativa legislativa fosse aprovada incluem-se a Ordem dos Economistas, a Ordem dos Contabilistas Certificados, a Ordem dos Despachantes Oficiais e a Ordem dos Revisores Oficiais de Contas.

“Segundo a Iniciativa Liberal, existe uma diferença entre as ordens existentes “nos casos em que a natureza da profissão exige uma prática continuada séria e certificada, relacionada diretamente com os direitos fundamentais dos cidadãos”, e aquelas que o partido considera terem sido constituídas “sem lógica nem critério, a não ser por motivos eleitoralistas de alguns partidos presentes na Assembleia da República”.

“No primeiro grupo encontram-se algumas das principais ordens profissionais portuguesas, como a Ordem dos Advogados e a Ordem dos Médicos. No entanto, mesmo nesses casos o partido advoga mais limites. “Muitas ordens profissionais cuja existência é justificada têm abandonado o seu papel-base e têm-se transformado em corporações de defesa dos interesses instalados nestas profissões, para prejuízo dos novos profissionais e, sobretudo, dos consumidores”, defende a Iniciativa Liberal, que por isso mesmo propõe a revogação da norma que estipula que a cada profissão regulada corresponda apenas uma única associação pública profissional.

“Também é proposta no projeto de lei da Iniciativa Liberal a abolição de regras profissionais que resultem num “obstáculo desproporcional e desnecessário” à livre prestação de serviços, à liberdade de escolha de profissão e à iniciativa privada. Até porque foi permitido na transposição da diretiva comunitária para a legislação portuguesa que os estatutos das ordens profissionais pudessem estabelecer entraves às sociedasdes multidisciplinares. Algo que o partido considera configurar “uma desvantagem competitiva dos profissionais portugueses face aos seus homólogos europeus”.

“A lista total das ordens profissionais que os liberais pretendem ver desaparecer inclui as dos Biólogos, Contabilistas Certificados, Despachantes Oficiais , Economistas, Médicos Veterinários, Notários, Nutricionistas, Revisores Oficiais de Contas, Solicitadores e Agentes de Execução, Fisioterapeutas e Assistentes Sociais”.