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quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

O Carnaval na Tradição Popular

Já AQUI falámos nas principais características históricas do Carnaval  urbano português. Contudo as festas de Carnaval enraízam profundamente na tradição popular e rural portuguesa.
 Nalgumas regiões do país,como no Alentejo, o Carnaval iniciava-se oficialmente no dia de S.  Sebastião (20 de Janeiro).Noutros  lugares  iniciava-se no dia de S.Vicente (22 de Janeiro),como, por exemplo,na Ericeira, em Vila Franca de Xira  e Alenquer, sendo desta localidade a expressão popular "dia de S.Vicente brinca toda a gente", que deriva  desse facto,bem como esse costume de, a partir dessa data,os antigos aldeões trocarem o triste barrete preto da Estremadura, pelo alegre barrete verde ribatejano.(1).Começavam então as brincadeiras de Carnaval, que duravam até  à meia-noite da terça-feira gorda.O dia seguinte,Quarta-Feira de Cinzas, era geralmente dedicada à procissão  onde cada um se purificava dos "pecados" do Entrudo, como acontecia no séc. XIX em Torres Vedras.
Em Serpa, nos finais do séc.XIX, as 4 semanas anteriores aos três dias de entrudo eram designadas popularmente por, respectivamente,”semana d'amigos, semana d'amigas, semana de compadres e semana de comadres". Nas quintas- feiras da primeira e terceira dessas semanas, os rapazes do mesmo grupo de amizade reuniam-se em casa de um deles para aí,no meio da alegria comerem,beberem e cantarem.O mesmo faziam as raparigas nas outras semanas(2).
 “Na quarta e quinta-feira de compadres, e nos dias análogos da semana imediata -a das comadres-  o rapazio de algumas aldeias”(do Alentejo)”prepara-se com quantos chocalhos alcance, e em bandos percorre as ruas e arrabaldes, a dar as chocalhadas tradicionais(...) Por onde os rapazes passam, as mulheres  saem à rua e atiram-lhes água para cima (...)”.
“Na quarta e quinta-feira de compadres, ao passo que os moços empunham bandeiras vistosas de lenços de seda, adornados de fitas e flores, como nota festiva da solenidade desses  dias (fantasia de brincadeira, está claro)as moças mostram-lhes outras, de esteirões, ossos, ortigas”(sic)”e pincéis velhos dependurados -ou bonecos de palha a roerem ossos - a demonstrarem que a semana é de fome e não de festas.
“Na véspera e dia das comadres, mudam-se as cenas (...)”(3).
Para Maria Micaela Soares, o Entrudo aldeão é também a ocasião esperada para  “libertação de recalcamentos de circunstância e para ajuste das quezílias entre vizinhos”(4).
É nessa perspectiva que se podem  interpretar  muitos dos rituais e brincadeiras tradicionais desta quadra
Por exemplo, ainda hoje, em Tourém, concelho de Montalegre, no extremo norte da Peneda-Gerês,é tradição, no Domingo Gordo,a realização, no  largo da aldeia da " corida do galo", que consiste na leitura do testamento deixado em herança pelo "galo".Em forma de verso este é lido por um natural da aldeia,“uma espécie de crítica mordaz em que se põem a nu alguns dos actos mais caricatos e falados na povoação durante o ano que passou.
“Através do testamento,combinam-se namoricos e casamentos e criticam-se os mais avarentos da terra ou os mais dados à bebida(...).
“O jogo termina com a morte do galináceo. O animal é escondido na terra à excepção da cabeça,e os participantes, de olhos vendados e um de cada vez, procuram acertar-lhe com uma única estocada(...)".
Para o  padre Fontes, sacerdote e etnógrafo naquela povoação, aquele  jogo terá  origem em certos ritos de culto pagão em que o  sacrifício do galo significará"a morte de um bode expiatório dos pecados da aldeia e dos seus habitantes.O povo atribui ao animal poderes extraordinários, como ave de mau agoiro, especialmente se canta fora de horas (...).
“O galo é também considerado símbolo da vida e, por isso, expulsor da morte, dos espíritos malignos, diabos, bruxas. Há quem defenda, no entanto, que este jogo significa a mortificação do apetite carnal-simbolizado no masculino galo, que deve ser vivida no período da Quaresma.”(5). 
Essa componente de crítica social e dos costumes da comunidade encontra-se documentada   noutras referências carnavalescas.
Era o caso das  "CEGADAS"," danças carnavalescas ,com arcos enfeitados ou um mastro móvel donde pendiam fitas que cada dançarino agarrava.Cantavam-se modas movimentadas e, em poemas facetos, gulosavam-se por vezes os escândalos de maior vulto acontecidos no lugar. Eram sempre constituídas por homens mascarados que marcavam coreografias primárias, ao som de acompanhamento musical também rudimentar. Continuam a ver-se ainda nalgumas terras, englobando já mulheres. Sucedem nos três dias de Entrudo, nos pontos mais concorridos das aldeias e alguns grupos percorrem os arredores.
“Nas travessas e becos mais populares de Lisboa, organizavam-se também multifacetadas  cegadas, que passaram a orientar-se para a crítica social e política, motivo por que foram reprimidas.” (6).
Alguns estudiosos destingem aquelas danças,conhecidas por "Contra danças",da componente crítica própriamente dita, chamando de "Cegada" apenas a esta .
Outro costume  era o de "DEITAR PULHAS" :“Escarneciam (...) as mazelas escondidas dos  conterrâneos,”deitando pulhas", do alto dos cômoros, encobertos pela noite, as vozes coadas por funis, que as avolumavam.
“Em séries de perguntas precedidas da frase, também deito mais esta, a cujas respostas se seguia barulhento vozear-é verdade, é verdade, ou eh ! eh! -os mancebos da aldeia destemperadamente inquietavam todos os lares”(7). 
Há quem aponte dois tipos de "Pulhas", as inofensivas,de"tipo jocoso", outras mais agressivas, de"tipo ofensivo":"Enquanto o primeiro obedece ao mote:"Esta pulha vai deitada", ou "você deita esta pulha",provocando risos e surridas -o segundo obedece a outro mote :"Assim como é verdade".Este além dos risos e surridas, provoca malqueranças, ódios ,e vinganças."(8). Estes dois tipos de Pulhas eram orais e não escritas. Em Alenquer referencia-se um terceiro tipo de "Pulhas",estas escritas:"Pela "noite fora"um grupo munido de uma caldeira de cal negra vai desenhar ou escrever nas paredes de cada um aqueles motivos de troça conhecidos por todos na mesma aldeia"(9). 
Em Alenquer é ainda referenciada outra tradição, a representação do "Cavalinho do Carnaval",representado por dois personagens,o "dono" e o "cavalinho",no largo principal de algumas terras do concelho,nomeadamente em Casais Brancos: 
"O "Cavalinho" era formado por duas pessoas  debaixo de um pano com uma cabeça recortada em madeira pintada. 
 "Numas terras o desenho da cabeça era de cavalo,noutras de boi. 
"O essencial da representação era a história de um homem que ia vender o seu "cavalinho". 
"A farsa desta"venda"era pretexto para o dono do animal ir fazendo uma crítica mordaz às pessoas do lugar"(10). 
A esta época  estão igualmente ligados manjares rituais, tanto mais que o principal motivo da época se relaciona com o início de proibições  alimentares da Quaresma. 
Era assim que, por exemplo, em Serpa, nos finais do séc.XIX, se costumava saborear  no Entrudo  filhozes, coscorões, ”bolinhólos” e arroz dôce(11). 
Nalgumas aldeias do concelho de Alenquer procedia-se, por esta época ,à  matança do porco, formando-se para isso as "sociedades do porco".Estas  tinham por objectivo,não só suportar os encargos com a compra dos animais,mas também realizar os preparos necessários a essa tarefa e os pratos de "bucho" e "sarrabulho",assim como distribuir equitativamente  a carne que sobrasse da patuscada, realizada naquela ocasião,pelos membros da "sociedade" 
As Brincadeiras:
Em Serpa, nos finais do séc.XIX,brincava-se ao Carnaval pintando letreiros nas paredes fazendo alusões, muitas vezes obscenas, sobre a vida  intima das pessoas. 
“Caqueiradas” era o nome de outra brincadeira.As “caqueiradas” eram  atiradas pelas janelas e portas mal fechadas para dentro das casas.Os "caqueiros" eram formados com terra ou cinzas,cascas de laranja e marisco, pedras, etc .Outra brincadeira era atirar para dentro das casas um pedregulho aquecido ao lume com o objectivo de escaldar as mãos de quem lhe pegasse inadvertidamente.Nos tempos mais antigos atiravam-se laranjas e espetavam-se seringas nas pessoas.Em Serpa, nos finais do século passado, estes costumes tinham sido substituídos, respectivamente, por trigo e papelinhos e por bisnagas (12). 
Também nesses tempos,brincava-se o Carnaval com cartuchos de goma no cabelo,papelinhos picados, doces fingidos, centopeias de cêra espetadas na parede.De janela para janela atiravam-se laranjas e cascas de ovos com gesso.Usavam-se ainda cabaças de cêra pintada,com àgua de cheiro dentro,seringas de cana com as quais se fazia esguichar líquido sobre quem passava. Arremessava-se à cara das pessoas mãos cheias de tremoços, ou feijões ou grãos.Enviavam-se cartas,que os destinatários tinham de pagar(nessa época ainda não existiam selos), no interior das quais viham escritos versos,”chufas” e "pulhas", dirigidas anonimamente ao destinatário. Enchiam-se luvas velhas com qualquer coisa pesada, prendiam-se a um cordel e do alto de uma janela atiravam-se  sobre os chapéus dos transeuntes (13).         
Igualmente em dias de Carnaval, atirava-se pela janela todo o lixo da casa acumulado para essa ocasião ou objectos em barro que atingiam,por vezes com gravidade,quem passava por debaixo das janelas.Estes costumes mais violentos foram sendo substituídos,ao longo do séc.XIX,pelas cabacinhas de cêra com àgua cheirosa e pelos tremoços,feijões,pós e papelinhos(14). 
Uma outra brincadeira,referênciada por J.Leite de Vasconcelo,consistia em "pôr rabos": “Tiras de papel ou de pano que se prendiam nas costas dos transeuntes com um alfinete de cabecinha encurvado"(15).Por vezes  acrescentavam-lhes dizeres brincalhões, alguns em versos de pé quebrado.                
Anote-se ainda que nos  primeiros anos do século XX , no concelho de Elvas , era costume  colocar às portas as "pimentoadas"  ,  pimentões com brasas por cima,que provocavam tosse.  As máscaras: 
O uso de máscaras é outro dos elementos característicos do Carnaval. As máscaras tradicionais são feitas de vários materiais, tais como madeira, couro, lata, cortiça, cartão e, recentemente, plástico. 
A máscara é interpretada como“um objecto que representa uma cara ou parte dela, com um disfarce  ou uma aparência enganosa, aquilo que na realidade não se é ou se é mas não se tem a coragem de assumir no quotidiano”(16).Contudo um mascarado não se esgota no disfarce do rosto,antes completa-se com um traje, mais ou menos adequado.
Na Grécia antiga  as  máscaras  eram usadas  no teatro para reforçar o dramatismo de certas cenas, servindo igualmente para amplificar os diálogos entre os  actores . 
Tradicionalmente a uso da máscara  também pode ser relacionado com o culto dos mortos. 
Os  romanos,durante as Festas de Baco e Saturno, no dia de ano novo, invocavam  as “larvas” (o espírito dos mortos) para apaziguar o espírito dos antepassados.Vestiam-se de branco e punham uma máscara no rosto. Acendiam uma grande fogueira onde queimavam um boneco que simbolizava um bruxo ou  espírito maléfico.
Em certas sociedades não europeias o uso de máscaras anda associada a certos rituais religiosos,como entre a tribo"Dan" que vive  na floresta tropical,na fronteira da Costa do Marfim com a Libéria:“As máscaras têm,nesta sociedade,um papel filosófico-espiritual, cultural, político e social. Algumas representam certas divindades,um antepassado,outras servem como elemento transmissor duma cultura não letrada ou ainda de guia protector”(17).
A notícia mais antiga sobre o uso de máscaras carnavalescas em Portugal data de um alvará de 20 de Agosto de 1649,que proibia ”andar a pé pelas ruas, embuçado, com chapéu ou sem ele  e assistir com bioco nas igrejas”(18). Contudo diz-se que esse costume seria mais antigo, pois rezam as crónicas que D. JoãoII teria comparecido ao casamento do filho mascarado.Com a Inquisição,usar máscaras tornou-se uma heresia e atirou muita gente para a fogueira.Só nos finais do séc.XVIII as máscaras voltariam a fazer a sua aparição,principalmente nos majestosos  bailes da corte absolutista de D.João V. 
Uma das mais famosas máscaras do carnaval português foi o “Xéxé", surgido em Lisboa, após a vitória liberal, cuja máscara ridicularizava os miguelistas,também conhecido por “peralta”, ”salsa”  ou  “pisa-flores”, o “xéxé” “envergava, invariavelmente,uma casaca de muitas cores ,  sapato de fivela, cabeleira de estopa, punhos de renda e um imenso chapéu bicorne com uma inscrição mais ou menos obscena. Usava,além disto,um bastão rematado por um chavelho, uma faca enorme e uma luneta”(19).Esta máscara desapareceu por volta de 1910. 
Grupos de mascarados percorriam, no final do século passado, o carnaval lisboeta, em cegadas que recriavam o quotidiano da família lisboeta.Esses grupos eram constituídos por um mínimo de cinco elementos. As suas máscaras representavam normalmente  “o político,  a sopeira,  o janota, o galego, e o apresentador”(20) 
“Destrajos”  é o termo popular atribuído, nalgumas regiões, aos fatos carnavalescos (21). 
No Alentejo os mascarados são apelidados de“ensaiados” e às máscaras que cobrem os rostos chamam “caraças” (22). 
O "travesti" é uma das máscaras mais características desta época.Sendo  o Carnaval   uma época de transgressão,de violação das fronteiras e regras sociais  a  inversão de papéis tradicionais,nomeadamente os domésticos,entre homem e mulher,é dos mais comuns. 
Esse tipo de máscara é conhecido nalgumas terras de Portugal por "madamas","filandorras"  e "mandongueiras":“ainda que estejão de forma exclusiva e constante associadas às Festas de Rapazes, Festas de Santo Estêvão, Festas do Menino; do Ramo e dos Reis, as personagens mascaradas emergem de um conjunto de manifestações festivas, reproduzindo sempre um mesmo discurso de transgressão e licenciosidade.São os caretos, os máscaros, a filandorra, as madamas (Rio de Onor) e as mandongueiras (Guadramil).”(23).   
O enterro do carnaval: 
A "Quarta-feira de Cinzas" marca o final do Entrudo e o início da Quaresma e a esta ocasião estão ligadas várias cerimónias,entre elas a da "Serração da Velha". 
A cerimónia da serração da velha assinala a saída do Inverno e a entrada no Verão. 
A ”velha” simboliza o Inverno  ou  a opressora Quaresma. Entre os àrabes os sete dias do solstício de Inverno são designados por “dias da velha”.Serrar a "velha" ao meio é uma  alegoria à ideia de partir ao meio o ano solar.(24). 
Data de 1685 a mais antiga referência em Portugal da realização da cerimónia de “serração da velha”.“Esta alegórica festança ocorria numa quarta-feira do meado da Quaresma e consistia numa paródia da gente nova, conluiada, em época de defeso lúdico, para serrar cada velho, no campo ou na cidade. 
“Pela calada da noite, um grupo de embuçados rouquejava, à porta das casas sentenciadas, paródias testamentarias do locatário idoso, enquanto o serrote percutia num bocado de madeira ou de cortiça o seu lúgubre ranger,acompanhando o atroar dos guizos, ferros,latas,cântaros."(25). 
Em finais do séc. XIX, em Cuba,no Alentejo, a cerimónia da “serração da velha” consistia em meterem um cão e um gato dentro de um cortiço hermeticamente fechado.Um homem transportava o cortiço, seguido de outros armados de cassetes e varas. Um rapazito, por vezes vestido de anjo, transportava a serra que deveria servir para serrar o cortiço no lugar escolhido para o suplicio. O cortejo percorria as diversas ruas da localidade e a cerimónia terminava com a serração do cortiço, que simbolizava a velha.Não se refere o destino dos animais (26). 
Outro costume da  Quarta-Feira de Cinzas era o“enterro do Entrudo".Este era um costume antigo,sendo conhecido na antiga Veneza por "Enterro de Baco".Esta tradição era por vezes acompanhada por uma procissão onde se parodiavam várias cenas bíblicas,como ainda acontecia em finais do século XIX no Fundão(27). 
No Alentejo, no "enterro do Entrudo",os"foliões iluminados pela luz de archotes ou lampiões  de petróleo, levavam aos ombros um simulacro de urna funerária que continha um boneco de palha. O caixão era coberto com panos pretos pintados de cruzes brancas e os brincalhões iam fantasiados de viúva e órfãos que carpiam o defunto em alta gritaria. Outros, com saias brancas, fingiam de padres que, sobraçando jornais ou outros papéis velhos, aspergiam com água ou outros líquidos menos próprios os observadores, usando um pincel a simular de hissope. Um,de encarnado, fingia de sacristão e ia fazendo momices e outras brincadeiras, guizalhando um chocalho. Percorriam todas as ruas e o rei momo era finalmente queimado fora de portas. Ia começar o tempo da abstinência e os aldeãos aproveitavam os últimos momentos de alegria consentida” (28).O fogo nesta cerimónia simbolizaria a purificação dos penitentes, perante os pecados do Entrudo. 
Em Alenquer entoavam-se pela ocasião"uns versos em que se diz que o Entrudo deixa sete coisas ridículas a certas pessoas, por exemplo:"sete ratos mortos"(29).
Cerimónia semelhante às  referidas é o"Enterro do Bacalhau ", só que esta costuma realizar-se em Sábado de Aleluia,para festejar o fim das restrições impostas pela Quaresma.
  Aqui ficam algumas notas sobre um Carnaval popular cada vez mais raro.
Notas: (1) -citado por António de Oliveira  Melo, António Rodrigues Guapo e José Eduardo Martins - O Concelho de Alenquer -subsídios para um roteiro de Arte e Etnografia - vol.2, Alanquer 1985; 
(2) - citado por Ladislau Piçarra , em a “Tradição”, p.20, Fevereiro de 1899; 
(3) - PICÃO, José da Silva, Através dos Campos (...), ed. Publicações Europa-América, 1983 (com base na primeira edição de 1903), pp.222 e 223;
(4) - SOARES, Maria Micaela  “A Mudança na Cultura rural portuguesa” in BOLETIM CULTURAL ,  nº 88, 2º tomo 1982 ,  pp.145-400, p. 240;
(5) - reportagem de Pedro Garcia - “Reviver o passado em Tourém” in PÚBLICO de 23-2-93 , p.5;
(6) -Mª Micaela Soares, ob.cit., pp.245-246;
(7) - Maria Micaela Soares, ob. cit., pp.240-241; 
(8) - in O concelho de Alenquer ,ob.cit. ,p.26;
(9)  - idem, ,p.26; 
(10) - idem ,p.27; 
 (11) - citado por Ladislau Piçarra, ob.cit.;
(12) - citado por Ladislau Piçarra, ob ,cit.;
(13) - contado por Chavier da Cunha em  “O Occidente “ , p.32, nº28 de 15 de Fevereiro de l876; 
(14) - citado em “O Occidente”, p.43 de 21 de Fevereiro de 1888, nº330; 
(15) - VASCONCELOS, J.Leite De , Ensaios Etnográficos ,  vol.I , Lisboa , 1886; 
(16) - GAVIZ, Januário, “Máscaras” in Catálogo do Carnaval de Torres de 1990; 
(17) - CAPRISTANO, Zica, “Tribo Dan-o poder das máscaras”, pp.42-48, in“Público Magazine “ de 21-2-93, pág. 46;
(18) - citado por Maria Tavares Dias, Lisboa Desaparecida,  vol I, pp. 135 a 139,  p.135;
(19) - idem, p.136; 
(20) - idem, p. 136;
(21) - referido por Mº Micaela Soares, p.244 ob.cit; 
(22) - in J. da Silva Picão, ob.cit., p.222; 
(23) - in ”Portugal Moderno-tradições”, p. 56; 
(24) - citado por  Theophilo Braga , em "A Tradição" p.49, Abril de l899;  
(25) - in p.251, ob. cit. de Mª Micaela Soares;  
(26) - citado por Fazenda júnior em “A Tradição” , ano 1, p.45, Março de 1899; 
(27) - referido por Álvaro de Castro em “A Tradição”, ano 1 p.122-Agosto de 1889; 
(28) in Maria Micaela Soares, p.246, ob.cit;
(29) in J.Leite de Vasconcelos , Etnografia, ob. cit.

Onde se fala no Carnaval Torriense dos finais do Século XIX :

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Justiça e ética, bens cada vez mais raros.


Não sei porquê…ou até sei…mas os recentes casos de corrupção, divulgados publicamente, levam-me a uma pergunta: porque é que pessoas, com cargos de responsabilidade, com visibilidade pública, que, só em função dos cargos que exercem, vivem muito acima das possibilidades do comum dos mortais, se envolvem nas malhas da corrupção para aumentarem um pecúlio já de si generoso?

Claro que sei que existe uma justiça selectiva que alimenta inadmissíveis fugas de informação, muitas vezes para desviar as atenções de outros corruptos de tendência diferente e alimentando, mais do que a procura de justiça, um certo desejo populista e mórbido de justicialismo….

Mas, nãos sei porquê…,ou até sei..., mas estes tristes casos de corrupção fizeram-me recordar uma história, que aqui vou revelar.

Existiu um homem que, nunca pactuando com as injustiças deste mundo, acabou por estragar a sua vida e acabou preso dois anos por razões politicas e por denunciar e combater essas injustiça.

Esse homem refez a sua vida numa terra que lhe era estranha, que até desconfiava do “estrangeiro”, mas a sua personalidade, de homem culto, activo, preocupado com os outros, um bom profissional, um contabilista honesto e de confiança levaram a que a sua personalidade se impusesse e se tornasse uma pessoa considerada, mesmo pelos seus adversários políticos.

Bom profissional, desempenhou funções de responsabilidade na maior empresa do concelho, sendo requisitado por outras empresas da região para, em part-time, organizar a contabilidade de muitas dessas empresas.

A sua honestidade levou a que, apesar das suas funções de responsabilidade, nunca tenha vivido acima das possibilidades médias de um cidadão desses tempos difíceis, sujeitos à miséria generalizada e a uma ditadura que impedia qualquer oposicionistas de conseguir singrar profissionalmente.

Como ele era um contabilista encartado, a sua assinatura tinha valor legal e era fundamental para algumas actividades fiscais e financeiras.

Um dia alguém o abordou. Era preciso a assinatura de um contabilista encartado para fechar um negócio legal. Só que esse negócio era uma venda de armas para África.

Em troca da assinatura, num processo que era legal, esse homem receberia o equivalente nos nossos dias a um valor que dava para comprar uma casa (ele que vivia em casa alugada), um automóvel (ele que se deslocava a pé) , para umas grandes férias com a família (ele que só saiu uma vez do país para ir  Madrid e que passava férias com a família numa praia a pouco mais de dez quilómetros da sua habitação) e ainda sobrava algum dinheiro.

Mas o negócio era contra os seus princípios, o seu pacifismo , a critica que fazia à guerra como principal factor de injustiça e maldade, tudo o que ele abominava e sempre tinha combatido.

Por isso recusou-se a assinar. Quem o abordou para o negócio tentou insistir, argumentando que o negócio fazia-se à mesma porque, se ele não assinasse, outro qualquer contabilista  assinaria, ganhando aquela quantia.

Ele manteve-se firme, continuou a viver de forma “remediada”, como então se dizia da vida das classes médias, mas morreu com a sua consciência tranquila.

Não sei porquê…ou talvez saiba…mas sempre que surgem estes casos de corrupção  e de falta de ética económica e social, recordo-me sempre daquela história..

Ah….o homem que referi acima…é meu pai!


Surpresa na Praça da Batata; atentado, brincadeira de Carnaval ou "renovação"?

Festival de BD de Angoulême recorda o Maio de 68

BêDêZine: Festival de BD de Angoulême recorda o Maio de 68: O Festival de BD de Angoulême, que decorreu no passado fim-de-semana, entre muitas outras iniciativa, resolveu comemorar o 50º aniversário do Maio de 68 (ler e ver mais clicando em cima).

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

O Cartoon da Semana


"Zep" no seu atelier

BêDêZine: "Zep" no seu atelier: Zep é o pseudónimo do autor suiço de Banda Desenhada Philippe Chappuis e criador da série Titeuf. (clicar para ler e ver)-

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

A realidade Brasileira em Banda Desenhada

BêDêZine: A realidade Brasileira em Banda Desenhada: O Brasil vive dias complicados. Uma realidade desde há muito abordada por Sama, aliás Eduardo Filipe, artista e autor de banda desenhada residente em Portugal (ver mais clicando em cima).

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

A Arte do Otimismo


O meu “Dia Normal” com a Comunicação social


Depois de dormir mal, com o nariz tapado e os brônquios atacados, levanto-me para a higiene diária, oiço as primeiras notícias, como sempre, na Antena 1, a melhor rádio portuguesa (talvez mesmo o melhor meio de comunicação em Portugal), com a vantagem de não passar publicidade e de ter os melhores jornalistas e comentadores do país ao seu serviço…

Tomo o pequeno almoço, acompanhando as notícias na RTP1 ou na RTP 3, dando razão aos que defendem a existências de canais públicos.

Ao longo do dia, ficando por casa, ou oiço um CD, ou continuo a acompanhar o dia na Antena 1, enquanto arrumo ou investigo, se for dia de ir tomar um café, leio o Publico (cada vez menos…), e vou acompanhando outras notícias nos sítios da internet, ora no Publico  espanhol (o El Páis já deixei de seguir, mostrou toda a sua intolerência e falta de escrúpulos no caso catalão…) ora no Liberation…não dominando tanto o inglês, lá vou consultando o The Guardian ou o Independent…

Se for no carro, ora oiço um cd ora  oiço a  Antena 1, mais raramente a Antena 3 ou a M80.

Só volto à televisão à noite para ver o noticiários entre a SIC e a RTP 1, abandonando a primeira  quando a SIC anda em “campanha eleitoral” ou abre as notícias com mais um crime ou futebol…

Depois, se não tiver nenhum filme em DVD para ver ou par alugar, sigo a melhor informação televisiva, a do Canal 2, e, ultimamente, aí me deixo ficar a ver as melhores séries da TV, os melhores filmes e os melhores documentários…pertenço à feliz enorme minoria (cerca d 1,5% de audiência) que defende, cada vez mais, as característica de grande qualidade desse canal.

Fora disto, vejo o programa Epehemera na TVI24, que deixo a gravar,  alguns documentários da SIC e a Quadratura do Circulo neste mesmo canal….o resto é quase tudo lixo “jornalístico”…

Pelo meio leio, investigo, passeio, relaciono-me com familiares e amigos, colaboro em "n" iniciativas...

Sou da geração que não perde muito tempo com televisões e “redes socias”…mas não as ignoto.


Aqui sentado, à espera que a constipação me passa, dei por mim a reflectir sobre o “dia perfeito” com a comunicação social…

...felizmente são raras as constipações ...e  muito os dia de sol!!!

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

O Monumento do Carnaval de Torres 2018

Inauguração do Monumento do Carnaval de Torres


Sob o lema "Mares e Oceanos", começou o Carnaval de Torres  com a inauguração do "Monumento", no passado Sábado, dia 20 de Janeiro, tendo como tema de inspiração a "ira de Neptuno" : 


 












quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

O Grupo Bilderberg e os “trabalhos” de Rui Rio


Está cumprido o desígnio, traçado para Portugal, pelo influente e semissecreto Grupo Bilderberg em 2008 (sobre este grupo, leia-se o que escrevemos AQUI).

Esse grupo, conhecido por reunir os políticos, jornalistas , empresários e economistas mais influentes do mundo e acusado pelos seus detractores de funcionar como uma espécie de máfia que decide os destinos do mundo, e que costuma convidara e lançar figuras da sua confiança na vida politica, convidou em 2008 duas figuras, então de segundo plano nos respetivos partidos : António Costa e….Rui Rio.

Portuguesas, só costumam ser convidadas figuras do PS ou do PSD. Paulo Portas foi a única excepção.

Portugal tem direito a três convidados, escolhidos até 2015 por Pinto Balsemão, nada mais nada menos que o patrão dos órgãos de comunicação social que mais influencia têm em Portugal na “formatação” da opinião pública e, por isso, com poder para vender políticos com quem vende sabão…

Em 2015 Balsemão foi substituído na tarefa junto daquele grupo por Durão Barroso. O que é um facto é que nunca mais se ouviu falar nas reuniões daquele grupo.

Quando em 2008 António Costa e Rui Rio compareceram naquela reunião especulou-se sobre o destino que o grupo reservava àquelas figuras, falando-se na facilidade de entendimento entre eles para reforçar um bloco central em Portugal.

António Costa é hoje primeiro-ministro, mas talvez em circunstâncias não previsíveis por aquela elite de gente influente, dando-nos alguma esperança de que aquela gente pode ser contrariada democraticamente e os seus objectivos podem ser travados pelas circunstâncias da história,  apesar de todos os poderes manipulatórios que aquele grupo e outros do género (maçonarias , Opus Dei…) têm ao seu dispor.

Mas é um facto que os objectivos da “geringonça” estão praticamente cumpridos, que estamos a pouco mais de um ano de eleições legislativas, que os desentendimentos entre aliados no governo começam a ser frequentes e que um certo estilo “socrático”,  que estava adormecido no PS, começa a reerguer-se.

Ora, a imprevisível eleição de Rui Rio para liderar o PSD  parece surgir num momento chave para iniciar a reconstrução do centrão após as próximas eleições legislativas, até porque a “geringonça” está no limite do equilíbrio entre as imposições da burocracia de Bruxelas e o programa social da esquerda.

Claro que Rui Rio não tem o seu lugar seguro e também existe alguma imprevisibilidade na sua manutenção, já que o “passoscoelhismo” controla o grupo parlamentar e as estruturas do partido.

Rui Rio arrisca-se, caso não obtenha um bom resultado eleitoral, a ser um líder a prazo, abrindo caminho a um regresso triunfal de Passos Coelho e/ou de alguém que lhe seja próximo.

Mas, se as coisas correrem de "feição", com o aval do Presidente da República, que também já esteve em Bilderberg, corre-se o risco de assistirmos ao regresso do famigerado “centrão” de má memória, que nos conduziu à bancarrota “socrática” e ao “austeritarismo” troikista do “passoscoelhismo” e à vitória da estratégia antissocial daquele influente grupo de “opinião”.

Oxalá estejamos errados!


sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Eleições no PSD …ou a “era do vazio”…

(Fonte: Inimigo Público, Jornal Público de 12/1/2018)

Este fim-de-semana vai ser eleito o novo dirigente do PPD/PSD, o maior partido da oposição e, para alguns, e de acordo com as últimas legislativas, o maior partido português (situação recentemente desmentida pelas eleições autárquicas e pelas mais recentes sondagens…).

Sob a direcção de Passos Coelho, esse partido, um dos fundadores do actual regime democrático, abandonou o que restava da sua componente “social-democrática”, imprimida no seu ADN pelo  fundador Sá Carneiro, e tornou-se um partido que substituiu o “social” pelo “neoliberalismo” e o “democrático” pelo “populismo”.

Na “campanha”, onde se enfrentaram Rio e Santana, pouco se discutiu sobre uma alternativa para o país ou sobre uma alternativa ao rumo interno imposto por Coelho.

Essa “campanha” serviu apenas para cada um dos candidatos exibir um total vazio de ideias, limitando-se ao mero ataque pessoal, à exibição de vaidades própria e a uma constrangedora tentativa de limpar um passado de falta de fidelidade ao “chefe” (Passos Coelho) que nenhum deles, nesta campanha, se atreveu a questionar: “espelho meu, espelho meu, existe alguém mais passoscoelhista e neoliberal do que eu???” !!!!

Parecendo improvável uma vitória eleitoral do  PPD/PSD nas próximas legislativas, tudo aponta para que o próximo eleito se limite a ser um gestor de um partido com dificuldades de afirmação, abrindo  caminho ao regresso, como “salvador”, de… Passos Coelho.

Para o comum dos mortais, a boa notícia é que vamos deixar de ter os noticiários cheios de “Rios” e “Santanas” a abrir emissões e a ocuparem espaços informativos… a má notícia é que esse espaço volta a ser ocupado pelos “casos” do futebol!!!

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

#MeToo...ou talvez não!

Sei que me vou meter num terreno movediço e me arrisco a sofrer as consequências.

Mas a forma com está a ser tratada a questão do assédio sexual pelo movimento #MeToo  parece-me estar a ultrapassar todos os limites do bom senso.

Confundir um reles piropo com o verdadeiro assédio sexual parece-me ser um mau contributo para combater a violência contra as mulheres.

Não distinguir a chantagem profissional usada no assédio sexual com um qualquer arrebatamento machista momentâneo sem outra consequências que não seja a de envergonhar o próprio, parece-me ser um mau contributo para a causa feminista.

Foi para voltar a por o debate nos carris que Catherine Deneuve e outras mulheres francesas ligadas ao mundo das artes, da literatura e do espectáculo vieram assinar um manifesto contra o fundamentalismo que se vive neste momento no debate sobre essa questão.

A resposta javarda de trinta "feministas" (???) francesas àquele manifesto em nada contribui para o debate e só vieram dar razão às primeiras.

(leia-se a propósito aqui o que sobre o assunto se escreve no jornal espanhol Publico , no francês  Liberation ou no português Publico ).

A violência doméstica, maioritariamente contra as mulheres ou a violação estão devidamente criminalizadas. É preciso apoiar a coragem de quem as denuncia e, até certo ponto, o movimento #MeToo deu um importante contributo.

A chantagem sexual exercida sobre mulheres no local de trabalho, chantageando-as com o desemprego ou na progressão da carreira, muito comum no mundo do cinema, das artes e do jornalismo, sendo mais difícil de provar, deve ser igualmente denunciada e criminalizada e foi por aqui que parece ter começado o movimento #MeToo.

Infelizmente rapidamente se passou do bom senso para o fundamentalismo puritano, onde tudo se confunde e onde quem grita mais alto é quem ganha a razão.

O movimento #MeToo  teve o mérito de por a questão na agenda, mas a opinião de Catherine Deneuve e das suas colegas subscritoras é importante para repor a discussão em termos éticos.


quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

2018 e ...uma “breve história” dos anos terminados em “8”…


De há cem anos a esta parte que os anos terminados em “8” parecem fadados para marcar a história que vivemos.´

Embora não seja dado a “adivinhações” ou a “previsões” astrológicas, não possuindo qualquer dom premonitório, dei por mim a reflectir sobre a importância dos anos terminados em 8, como aquele que agora se inicia.

Recuando apenas ao principio do Século  XX, 1908 foi marcado por um acontecimento fulcral para o  futuro de Portugal , o regicídio  de Fevereiro que acelerou a decadência inevitável da monarquia, que recebeu a estocada final dois anos depois.
À distância dos nossos valores de hoje esse acto condenável foi, na época, para muitos, um sinal de esperança por um tempo novo, o da República, que acabaria por se revelar menos promissor do que alguns julgavam. Isso não impediu que, por exemplo, poucos dias após o regicídio, ainda com os corpos “quentes” do rei e príncipe herdeiro , Torres Vedras assistisse ao primeiro grande Carnaval de rua, vivido com entusiasmo, muito por iniciativa das elites republicanas locais.

Dez anos depois, outro ano fulcral, o de 1918, encerrou a mais violenta guerra que a Europa até então tinha conhecido, terminando com a vã esperança que aquela fosse a última de todas as guerras, acabando com os grandes Impérios europeus e anunciando um “radioso” futuro “socialista”.

Mais dez anos volvidos e o ano de 1928 seria marcado por cá com a “eleição” de Carmona para presidente de Portugal, em 25 de Março, terminando com as esperanças dos Republicanos de que o 28 de Maio de 1926 fosse um mero interregno regenerador do regime republicano. Com a eleição de Carmona, no ano em que o fascismo italiano já levava 6 anos de vida, afirmou-se o novo regime como uma ditadura militar que rompia definitivamente com a “desordem” e a instabilidade da 1ª República e conduziria o país ao Estado Novo salazarista…

Mais negro ainda se perfilava o horizonte de 1938, com a afirmação plena de Hitler, sombra negra  a pairar sobre uma Europa amedrontada, com os nazis a anexar a Áustria, conseguindo encostar os “aliados” à parede levando-os a abdicar de tudo nos acordos de Munique, sentindo-se à vontade para iniciar a perseguição aos judeus, que teve com tiro de partida a ignóbil “Noite de Cristal” de 9 de Novembro, ao mesmo tempo que o nazi-fascismo se mostrava em toda a sua força em Espanha, onde os Republicanos sofriam uma estocada final na Batalha do Ebro e com o inicio do cerco a Barcelona em 23 de Dezembro.

Depois de uma Guerra sangrenta de 6 anos, chegava-se a 1948, novamente em clima de guerra, a pairar no horizonte quando com o bloqueio a Berlim, iniciado por Estaline em Junho desse ano, dava  início formal à “Guerra Fria”, ano igualmente marcado pela fundação de duas novas nações que, 70 anos depois, continuam hoje a provocar instabilidade e imprevisibilidade no inicio deste 2018: Israel, independente em 14 de Maio de 1948, e a Coreia do Norte, fundada em 9 de Setembro desse mesmo ano.

1958 marca novamente o destino português, quando um general sem medo, Humberto Delgado, com o apoio de toda a oposição, abala o regime salazarista que inicia aí o seu caminho de decadência e instabilidade, que se agravará pouco depois com o inicio da Guerra Colonial.

Essa decadência encontra um aliado numa cadeira que se partiu em 3 de Agosto de 1968, arrastando o ditador para uns delirantes dois anos, que foram de ténue esperança com Marcelo Caetano, mas onde o medo da recuperação de Salazar levou os seus ministro a tratarem com ele com se ainda mandasse.
Esse foi também o ano do auge da guerra do Vietname, nuns Estados Unidos em ebulição, com os assassinatos de Luther King e Robert Kennedy a ensombrarem a eleição de Nixon como presidente, enquanto na Europa os estudantes se revoltavam num Maio que fez abalar as estruturas conservadoras e as verdades feitas de “trinta gloriosos”, onde a juventude se afirmou como uma força a ter em conta. E embora a maior parte dos lideres dessa geração tenham acabado engravatados a gerir negociatas e a defender o neoliberalismo, o mundo ocidental nunca mais foi o mesmo. Foram também os estudantes que na Checoslováquia, em Agosto, iniciaram um movimento que, apesar de calado pela força das armas, abalou em definitivo as estruturas de um “socialismo real” cada vez mais repressivo e anquilosado.
Ainda nesse extraordinário 1968, na noite de Natal, pela primeira vez uma nave tripulada, a Apolo 8,  faz a circum-navegação da Lua, preparando o caminho para a chegada do homem ao nosso planeta irmão no ano seguinte.

Em 1978, enquanto por cá a Revolução dos Cravos ia arrefecendo, a Igreja conhecia um ano delirante, conhecendo três papas em três meses: Paulo VI morre em 6 de Agosto, João Paulo I sucede-lhe e governa um mês e dois dias, morrendo em circunstância mal esclarecidas e o papado foge ao controle da Igreja italiana dando o lugar, pela primeira vez, a um bispo vindo do leste comunista, o polaco João Paulo II.

Gorbachev, em 1988, no seu terceiro ano de poder, abandona neste ano a “doutrina de soberania limitada” a que estavam sujeitos os países do leste, abrindo caminho para a revolução democrática nesses países, que terá o seu auge no ano seguinte com o derrubar do muro de Berlim. Também por iniciativa do homem da perestroika, a União Soviética inicia em 15 de Maio a sua retirada do Afeganistão, abrindo caminho ao fim de uma guerra sangrenta que tinha provocado o declínio soviético, mas também à ascensão de um então ilustre desconhecido, de seu nome…Bin Laden…

Em 1998 já a União Soviética tinha desaparecido e vivia-se a anunciada euforia do “fim da história” que ia marcar o “cantado” novo século que se aproximava, euforia que em Portugal foi marcado pela realização da Expo 98. Parecia que Portugal entrava finalmente no mundo dos ricos e dos países desenvolvidos, com dinheiro a jorros de fundos europeus, fomentando as negociatas e a euforia consumista. A cobrança veio depois.

Em 2008 iniciava-se a crise financeira que terminou com o “sonho” de um caminho glorioso para o capitalismo neoliberal e iniciou o declínio de uma Europa cada vez menos solidária e refém do crescimento da xenofobia e do populismo de extrema-direita.

E chegamos a 2018, no meio de 40 conflitos militares sangrentos, de uma instabilidade global em termos económicos, sociais a políticos e, apesar de Guterres à frente das Nações Unidas ou de um papa chamado Francisco, com o Mundo liderado pela  mais incompetente, ignorante e perigosa geração de políticos, onde se destacam nomes como Trump, Putin, Erdogan, Assad, Duterte, Netanyahu, Orban, Poroshenko, Rajoy, Maduro, Kim Jong-Un, e tantos outros, cada um a concorrer para ver quem é mais perigoso ou incompetente….

2018, tal como todos os anos terminados em “8” promete não cair no esquecimento da história, e, embora tudo pareça indicar que o vai ser pelas piores razões…pode ser que nos surpreenda!

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Iniciar o ano a cavalgar a demagogia


O ano de 2017  foi um ano bipolar, onde se viveram momentos únicos, com grandes conquistas para Portugal em vários domínios, mas onde se revelou outra face menos abonatória, como a tragédia dos incêndios ou a ignóbil situação da Raríssima, só para recordar dois casos.

Foi também o ano em que, talvez para seguir a moda de Trump, a politica e o jornalismo se foi fazendo ao sabor da gritaria das redes sociais, revelando alguma desorientação entre governantes e oposição.

O último caso foi o da aprovação da “lei do financiamento dos partidos”, que trouxe ao de cima duas faces do pior que existe na politica e na comunicação social, o secretismo das decisões e a mais pura demagogia dos que a elas de opuseram.

E, como não podia deixar de ser, o Presidente da República acabou por tomar a única decisão lógica, que foi a de vetar essa lei, sem contudo se ter demarcado da onda demagógica que se tem gerado à volta desse facto.

Para mim, parece-me que a lei em si tem aspectos positivos, tendo em vista fiscalizar melhor as contas dos partidos. O problema foi a forma atabalhoada como tudo foi decidido.

Os partidos aprovaram a lei quase em segredo, talvez com receio da demagogia que essa medida ia provocar nas redes sociais, sem coragem para a enfrentar e denunciar.

Os que não a aprovaram, em especial o CDS, pelo contrário, procuraram navegar e alimentar a onda  demagógica que tal medida provocou.

Todos eles, apoiantes da lei e detractores, têm  agora uma oportunidade soberana para emendarem a mão e explicarem as virtualidades da lei, clarificando e emendando o que de menos claro ela contem.

A alternativa é o crescimento da demagogia populista anti partido e antidemocrática à qual o país tem escapado, mas dominante nas redes socias.

É um mau presságio para o inicio do ano.

...mesmo assim, Bom Ano para todos!


Há 210 anos, Torres Vedras ocupada pelas tropas francesas

(Junot, comandante da 1ª Invasão)
VEDROGRAFIAS: Há 210 anos, Torres Vedras ocupada pelas tropas francesas (clicar para ler)