quarta-feira, 8 de abril de 2015

Breve Homenagem a José da Silva Lopes


Foi hoje a sepultar um dos mais prestigiados economistas portugueses, José da Silva Lopes.

Ao contrário da maior parte dos economistas e antigos ministros das finanças, transformados em comentadores políticos, Silvas Lopes, mesmo quando não se concordava com ele, e no nosso caso discordávamos muitas vezes, manifestava as suas  opiniões de forma credível, assentando num vasto conhecimento económico, numa experiência pessoal muito rica e diversificada e numa sensibilidade cultural e social  sinceras.

Silva Lopes não se limitou a “fazer opinião”, teve um papel activo e determinante em períodos históricos difíceis da vida portuguesa ao longo das últimas décadas, agindo com pragmatismo e equilíbrio.

Ainda antes do 25 de Abril teve um papel determinante junto do Ministério da Economia do Estado Novo,  negociando a adesão de Portugal à EFTA,  em 1959, contribuindo para a transformação económica do país que levaria, paradoxalmente, a tornar o regime salazarista obsoleto, incapaz de acompanhar  essa transformações e gerando as contradições interna que levaram ao seu derrube.

Ligado à oposição moderada no final do regime, preconizada na SEDES, foi nomeado secretário de Estado das Finanças do 1º governo provisório saído do 25 de Abril, acendendo a Ministro das Finanças nos dois primeiros governos provisórios, o 2º e o 3ª, presididos por Vasco Gonçalves. Nestas funções foi o responsável pela criação do salário mínimo e do subsidio de Natal. Conduziu ainda o processo de nacionalizações que se seguiu ao 11 de Março de 1975.

Apesar das dificuldades e de remar muitas vezes contra a maré, o seu papel à frente daquele ministério, em período tão conturbado, pautou-se pelo bom senso, evitando situações financeiras dramáticas.

Fez ainda parte do IV governo provisório, como ministro do Comércio Externo, a pedido de Vasco Gonçalves, que procurava manter algum equilíbrio nesse governo, mas acabaria por se demitir, acompanhando a saída do PS do governo.

Com a estabilização democrática nos finais de 1975, foi nomeado para dirigir o Banco de Portugal.

Ao longo da sua vida continuou activo no mundo da banca, mantendo-se uma das vozes mais ouvidas pela comunicação social.

Fazia parte do grupo de economistas e ex-ministros das finanças que defendiam as actuais medidas de austeridade, mas de forma pragmática, sem o fanatismo de outros, e criticando por vezes os excessos do actual governo na aplicação dessas medidas.

Deixou obra escrita, destacando-se uma excelente síntese de história económica, “A Economia Portuguesa desde 1960”, onde se conjuga a sua experiência pessoal com a mais profunda investigação sobre a época.

Era um espírito independente e lúcido, qualidade cada vez mais rara entre os seus pares e aqui lhe prestamos a nossa sentida homenagem.


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