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domingo, 23 de agosto de 2009

NA MINHA AUSÊNCIA

Pois é.
Estou de regresso.
Sobrevivi a mais uma aterragem de avião sobre os prédios de Lisboa. Esta é uma das raras ocasiões em que quase me converto ao cristianismo. Algumas vezes até recorro ao islamismo ou ao budismo, até ao xamanismo (não preciso de recorrer ao judaísmo porque já tenho uma costela de judeu, como se comprova pelo apelido).
Depois, quando o avião se endireita na pista, volto a ser o ateu arrogante e empedernido de sempre.
Agora vão ter de me aturar mais um ano.
Muitas coisas se passaram em Portugal e no mundo durante esta nossa ausência da blogosfera.
De Zeca a Solnado
Por cá, o mês de Agosto começou com uma efeméride e uma grande perda.
Se fosse vivo, José Afonso teria feito 80 anos no passado 2 de Agosto.
Distraídos com a política “pimba” nacional, a efeméride quase passou despercebida.
Ignobilmente um dos mais criativos músicos portugueses continua ignorado nas rádios (não todas…) e nas televisões.
Poucos dias depois dessa data, em 8 de Agosto, deixava-nos um outro grande nome das artes em Portugal, Raul Solnado.
Tal como o Zeca, Solnado é uma daquelas figuras que nos custa acreditar que já não andam no meio de nós, talvez porque a sua criatividade seja intemporal.
Lembro-me do Raul Solnado desde que me conheço.
O meu pai coleccionou quase todos os “singles” em vinil com as rábulas de Solnado, que ouvi com deleite, dezenas de vezes, durante a minha infância e juventude.
Recordo-me bem de, no Zip Zip, ainda criança, aguardar com impaciência o momento protagonizado por Raul Solnado.
A colecção de “45 rotações” do meu pai servia ainda para calar o Salazar, o Américo Tomaz e o Marcelo Caetano. Cada vez que algum destes figurões aparecia a discursar na televisão, o meu pai retirava o som do aparelho e colocava um disco do Solnado.
Era divertidíssimo ouvir um daqueles “gabirus” , de ar sério e solene, a “debitar” as histórias do Solnado.
Hoje , a esta distância, surpreende-me como é que a censura deixava passar as “histórias” do Solnado.
Raul Solnado marcou a primeira grande ruptura no humor português, até então ainda muito marcado pela comédia dos anos 40 ou pelo “teatro de revista”.
Ele foi o grande pioneiro que abriu as portas a outras grandes rupturas desse género artístico, como aquelas que foram protagonizadas por Herman José, pelos “Gatos Fedorentos” ou, mais recentemente, pelos “Contemporâneos”.
Do Humor à “ignóbil porcaria”
Mal humorada, tem andado a política indígena.
A “ignóbil porcaria”, ou a “porca da política” (citando o Rafael Bordalo Pinheiro), tem andado muito ocupada em inventar casos, descobrir conspirações ou lançar suspeitas.
Um dos casos mais ridículos que atravessou todo o mês de Agosto foi a “recomendação” da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) para que fossem suspensos os espaços de debate ou as colunas de opinião nos órgãos de comunicação social, onde os seus comentadores ou colunistas sejam candidatos a qualquer cargo nas próximas eleições legislativas e autárquicas.
Uma recomendação ridícula, atentatória da liberdade de opinião e que faz dos eleitores uma imagem de menoridade intelectual.
Quanto a mim, mais grave do que o espaço público de que dispõem alguns candidatos assumidos, é a profusão de “opinadores” , disfarçados de independentes ou especialistas, que, disfarçadamente, procuram levar a agua ao seu moinho direitista e neo-liberal.
Num ponto percebo as preocupações da ERC: entre a maioria dos comentadores e colunistas pontificam os “agentes ideológicos” do centrão, com inclinação para a direita.
Esta polémica passou para segundo plano quando apareceu outro caso ridículo: as presumíveis escutas feitas à presidência da república.
E ainda a “procissão vai no adro”!
É caso para dizer, “santo” Obama e “santa” Europa nos valham, que por cá os nossos políticos andam com pobreza de espírito a mais para nos tirarem da crise e da decadência.

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