segunda-feira, 3 de abril de 2017

A história dos irmãos comunistas que salvaram a capela de Nossa Senhora


Fui hoje apresentado a um velho militante comunista, natural de uma aldeia do concelho de Torres Vedras, mas que saiu deste concelho poucos anos depois do 25 de Abril, tendo vivido num concelho do Alentejo, no qual chegou a desempenhar o cargo de vereador.

Não vou aqui identifica-lo, nem a ele nem à aldeia onde se passou  a saborosa história que ele me contou, e que vou tentar reproduzir aqui.

Ele e os irmãos já eram comunistas antes do 25 de Abril e, na sua noção muito peculiar de comunismo, procuraram contribuir para melhorar as condições de vida dos habitantes de uma aldeia que vivia isolada, no topo de uma serra, das muitas que enxameiam este concelho, sem estrada, sem àgua e sem luz.

Para isso estiveram na origem da criação de uma Comissão de Melhoramentos ( já que no regime anterior não se podiam designar pelo “revolucionário” nome de Comissão de Moradores) e tentaram tomar várias medidas para atenuar a dureza do isolamento dos aldeões, homens do campo que trabalhavam nas terras das quintas próximas.

Começaram por construir a sede da Comissão, equipada com uma televisão, que funcionava com gerador, para que os seus habitantes, que não tinham luz em casa, pudessem ter alguns momentos de lazer no intervalo da sua dura labuta diária.

Depois tentaram melhorar os caminhos de acesso, quer à então vila, quer à aldeia sede de freguesia vizinha, para facilitar a deslocação para o trabalho e para a escola, levar a àgua à aldeia, nas difíceis condições de uma aldeia situada num sitio bastante alto, trabalho que encontrou uma situação mais favorável após o 25 de Abril, altura em que se tornou também possível fazer chegar a iluminação à aldeia.

Conhecendo o carácter dinâmico dos irmãos comunistas, e apesar de não professar das suas ideias, uma prima deles, devota da Nossa Senhora padroeira da aldeia, pediu-lhes que usassem os seus conhecimentos e a sua capacidade de trabalho para salvarem a capela que corria sérios riscos de derrocada.

Estes prontificaram-se a ajudar, em parte porque ajudar os vizinhos estava na sua noção se “comunismo”, em parte para desmentir a ideia que muitos faziam do seu comunismo, e, em parte, porque tinha circulado a notícia, talvez falsa, segundo a qual uns comunistas do norte do país tinham deitado a baixo uma outra capela.

Contudo, eles propuseram que não fossem eles a surgir publicamente como autores da iniciativa, porque, por um lado muitos desconfiavam dos irmãos “comunistas”, e, por outro, para salvar a capela e construir um  muro de protecção, era preciso derrubar umas árvores e construir um muro na propriedade de um rico proprietário local, pouco dado a colaborar com comunistas.

E foi assim que propuseram à prima que, juntamente com a esposa do irmão que nos contou a história e outras duas devotas da aldeia, formassem uma comissão de mulheres da Igreja que angariassem fundos para obra e se deslocassem ao tal proprietário a  pedir para que ele deixasse cortara as árvores, cujas raízes estavam a destruir as paredes da capela, e permitisse a construção do muro que evitasse a queda eminente do edifício.

O tal proprietário foi convidado a visitar a capela. Este, ao entrar, e depois de se ajoelhar perante a imagem da Santa, anuiu em fazer tudo o que pudesse para “salvar a Nossa Senhora”.

Após conseguirem o apoio do dono das terras junto à capela, os quatro irmãos comunistas angariaram materiais e voluntários, arrancaram as árvores que estavam a arruinar a capela e construíram um grande muro para proteger um dos raros monumentos da aldeia, símbolo da sua identidade.

Foi com apreensão que esperaram pelo inverno pois, se algo corresse mal e a capela, apesar da obras que eles conduziram, sofresse alguma ruina, diriam sempre que foram os “comunistas” que não fizeram nada para a salvar ou, pior ainda, tinham sabotado a obra.

Para alegria de todos, a capela, não só sobreviveu a esse inverno, como hoje, 40 anos depois, e para orgulho do meu interlocutor, continua de pé sem a mais leve beliscadura.

O “irmão comunista” que hoje, à mesa de um café, me contou esta história, conta reunir esta e outras histórias da sua aldeia, mas não resisti a antecipar-me e contar este pequeno episódio.
(Parte da História que contámos pode ser vista AQUI)
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