terça-feira, 22 de outubro de 2013

“Obrigado Troika”…uma manifestação que só podia ser mesmo a gozar..




Afinal a manifestação de apoio à troika, convocada por um hipotético grupo auto-intitulado “Obrigado Troika”,não passou de uma original e irónica brincadeira organizada pelos promotores da manifestação do próximo fim-de-semana, o grupo “Que se lixe a Troika!”.

Talvez por isso, e porque se deixaram enganar de forma indecente, os órgãos de comunicação social procuraram disfarçar o ridículo em que caíram silenciando maioritariamente esse “não acontecimento”.

Eu próprio acreditei na iniciativa, pois julgo que, infelizmente, até existirá espaço para uma iniciativa a sério de apoio à troika, pois há muitos que estão a ganhar com esta crise, basta olhar à nossa volta…

Já estava a imaginar uma manifestação liderada por Poiares Maduro, em representação do governo, ombreando como o funcionário da União Europeia em Portugal que redigiu o conhecido vergonhoso documento de chantagem e ataque às instituições democráticas portuguesas, acompanhados por representantes das embaixadas da Alemanha, Holanda, Finlândia e, porque não, de Angola e da China, empunhando megafones de onde debitavam as palavras de ordem da manifestação:

“Portugueses trabalhadores e qualificados fora de Portugal, Já!”;

“Trabalho com direitos Não! Precaridade Sim!”;

“Nem mais um português com Pão, Saúde, Educação e Habitação!”;

“Os funcionários públicos e os pensionistas que paguem a crise!”;

“Sindicalistas? Vamos a eles, carago!”;

“Tribunal Constitucional para a Rua, já!”;

“Constituição? Só por cima do meu caixão!”;

“O povo não aguenta? Ai aguenta, aguenta!!!”;

“Salários, impostos, desempregados e reformados? Não pagamos! Não pagamos! Não pagamos! Não pagamos…”;

“Estado Social? Querias…contenta-te com a sopa dos pobres!”.

Logo atrás, um grupo de banqueiros e grandes empresários, liderado por Eduardo Catroga,  Fernando Ulrich e Ricardo Salgado, marchava à frente de milhares de especuladores bolsistas e de accionistas de grandes empresas, onde estavam representados todos os membros das empresas do PSI 20 que colocaram os seus impostos nos paraísos fiscais, agradecidos pelos sucessivos perdões fiscais e pelo dinheiro do empréstimo da troika, pagos por todos nós, que vieram salvaguardar o seu estilo de vida . Podiam-se ver ainda muitos antigos gestores e accionistas do BPN.

Seguia-se uma ala liderada por Camilo Lourenço, César das Neves, Vitor Bento, e Ricardo Arroja, formada por cerca de 500 manifestantes, que incluíam os comentadores, economistas e jornalistas que circulam revezadamente por jornais e televisões, a tropa de choque da propaganda em favor do memorando e que nos tenta impingir o caminho único, massacrar-nos a convencer-nos da nossa culpa por vivermos “acima das nossas possibilidades”, isto é, vivendo com mais de 600 euros, ou ainda justificando-nos todos os cortes com a “falta de dinheiro” (..mas…o dinheiro não foi queimado, não depende da meteorologia e, se existe na Alemanha, país com a mesma moeda e fazendo parte do mesmo espaço económico comum, porque é que não pode existir em Portugal ou na Grécia???...).

Vinham depois todos aqueles, mais alguns milhares, que conseguiram ludibriar o fisco, e continuam alegremente a exibir os seus sinais  exteriores de riqueza, prova de que é injusto acusar a troika de empobrecer o país. Estes chegaram ligeiramente atrasados, por dificuldade em estacionar os Ferraris, Jaguares , Porches e topos de gama, ainda a cheirar a fresco..

Seguia-se uma impressionante ala de milhares de secretários de Estado, gestores de institutos, fundações e empresas públicas, assessores, representantes de conhecidos escritórios de advogados, representando o empreendedorismo que a troika preserva.

Logo atrás milhares de anónimos militantes do PSD e  do CDS que ainda acreditam no pai Natal nas benesses do estado, na esperança de serem rapidamente promovidos a “boys” para os muitos “jobs” que a troika vai criar com a sua política de “desenvolvimento”.

A encerrar a manifestação, liderados pela srª Isabel Jonet,  os milhares de pobrezinhos que o Paulo Porta citou, que não participam em manifestações da CGTP , mas que marcaram a sua presença nesta grande manifestação, na esperança de poderem partilhar a boda aos pobres prometida para o final.

Chagados ao Largo Jean Monet, juntos da representação da Comissão Europeia em Portugal, foram lida mensagens  de Durão Barroso, de Olli Rehn,  Angela Merkel, srª Lagarde e de, a partir de um sitio qualquer da América Latina, de Cavaco Silva e Passos Coelho (Paulo Portas estava em lugar incerto), de incentivo na luta contra a Constituição, contra  o Tribunal Constitucional, contra os Sindicatos e toda a oposição, contra os direitos sociais e contra os piegas de toda a espécie, e de apoio caloroso ao grande trabalho de empobrecimento colectivo e de salvação dos mercados financeiros, levados a cabo pela nobre acção da troika e dos seus executantes em Portugal .

Terminada a manifestação, instalou-se a confusão à entrada do Gambrinos e do Tavares Rico, aberto até altas horas da madrugada, até esgotar todas as reservas de marisco e o whisky.
Como se vê, uma manifestação como aquela, levada a “sério” até que podia reunir alguns milhares de manifestantes e estar bem compostinha…os 5% dos portugueses que escapam ou beneficiam da crise acentuada pela acção da troika, até podiam encher uma avenida ou … (sem malícia…) o  Campo Pequeno…

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