terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Morreu Almeida Santos, um dos pilares da democracia portuguesa.


"Encaro a morte com uma naturalidade imensa. Viver e morrer são igualmente naturais", disse um dia Almeida Santos, numa entrevista que deu à revista Sábado, em Novembro de 2006 ( e que pode ser lida integralmente AQUI).

Almeida Santos foi uma das figuras que mais se destacou na luta contra a ditadura, desempenhando um papel activo na construção da democracia portuguesa.

Nasceu em Seia em 15 de Fevereiro de 1926, estudou direito em Coimbra, onde se dedicou também à interpretação do fado de Coimbra, partindo depois para Moçambique, em 1953, onde viveu mais de 20 anos.

Em Moçambique foi um dos mais destacados militantes da Oposição Democrática e, enquanto advogado, defensor de presos políticos.

Regressou a Portugal depois do 25 de Abril, a convite de Spínola, para fazer parte do Primeiro Governo Provisório, mantendo-se nos governos provisórios seguintes (no 2ª, 3ª e 4º, liderados por Vasco Gonçalves, e no 6º, liderado por Pinheiro de Azevedo), desempenhando um papel central nas negociações que levaram à independência das antigas colónias portuguesas e continuando nos dois primeiros governos constitucionais liderados por Mário Soares, aderindo então ao PS.

Foi um dos mais destacados deputados do PS no parlamento, ao qual presidiu. Era o líder do PS quando este foi derrotado por Cavaco em 1985.

Foi um dos principais responsáveis pela elaboração da Constituição Portuguesa e pela legislação democrática.

Deixou escritas várias obras sobre de direito e memorialistas, estas últimas, peças fundamentais para o conhecimento dos bastidores da política nacional nas primeiras décadas da consolidação da democracia.

Apesar dos seus quase 90 anos, Almeida Santos continuava activo e empenhado, tendo aparecido há dois dias numa acção pública da campanha de Maria de Belém, a candidata que ele apoiava neste eleições presidenciais.

Tive o raro privilégio de lhe ter sido apresentado uma vez, há muitos anos, por um grande amigo do meu pai, o médico Mário de Sousa Dias, um dia em Torres Vedras, durante uma acção de campanha do PS.

Foram muitas as vezes que discordei de Almeida Santos , mas reconheço que, com a sua morte, é mais uma grande figura de referência democrática que se perde, um dos últimos exemplos de uma geração de políticos construidos na luta contra a ditadura e na consolidação da democracia, exemplos cada vez mais raros de coerência, coragem e dedicação, aos quais os portugueses, mesmo os seus críticos e adversários, muito devem.

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