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quinta-feira, 5 de agosto de 2021

Heróis Olímpicos


Ainda faltam alguns dias para terminar as Olimpíadas de Tóquio, e a delegação olímpica portuguesa já conseguiu o melhor resultado de sempre, em participações olímpicas.

O atleta do Benfica, o luso-cubano Pedro Pichardo, obteve para Portugal, esta madrugada, a 5º medalha de ouro do desporto nacional em Jogos Olímpicos, a 4ª medalha deste ano, record de medalhas em participações portuguesas, iniciadas nos Jogos Olímpicos de Paris, em 1924.

Mas não se pode exigir tanto aos nossos atletas olímpicos, desprezados, esquecidos e abafados pelo domínio esmagador das “futebolês” , ao longo do resto do tempo.

É, aliás, significativo que uma rede portuguesa de canais televisivos, que tem “desporto” no nome, quase só se refira em rodapé às actuais olimpíadas, quando, pelo contrário, enche a sua programação com Futebol, dando mais destaque a um jogo entre solteiros e casados numa remota aldeia da Cochinchina, com direito a transmissão directa, do que à participação de atletas olímpicos portugueses.

Por isso, a simples participação de atletas portugueses em jogos Olímpicos já é, só por si, com ou sem medalhas, uma honra e uma conquista.

E para os detractores, que passam a vida a exigir resultados a esses heróis, como alguns comentadores, só lhes fazia uma pergunta: será que algum deles, alguma vez na vida, na sua actividade profissional, ou no seu hobby, se “classificou” entre, já não digo os 10 ou os 20 melhores do mundo, mas, no mínimo, entre os “cem melhores”?

É ainda significativo que, em apenas 15 dias, o conjunto de atletas olímpicos já tenha conseguido melhores resultados que o futebol português ao longo da sua história.

E já agora, para quem gosta de comparações absurdas, para justificar o seu saudosismo do Estado Novo, já podemos comparar 48 anos de “fascismo” com 48 anos de democracia, em participações Olímpicas: até 1974, Portugal tinha conseguido um total de 2 medalhas de prata e 4 de bronze (sem esquecer mais 1 de bronze na primeira participação, ainda durante a República); desde as Olimpíadas de 1976, até às actuais, Portugal obteve 5 medalhas de ouro, 7 de prata e 10 de bronze…

Estão de parabéns os atletas Olímpicos, que, remando contra a maré da falta de condições, da falta de apoio, pelo menos comparativamente com o Futebol, e da falta de divulgação dos seus feitos, continuam a trazer para Portugal vitórias e participações honrosas, sempre entre os melhores.

domingo, 25 de julho de 2021

OTELO – Revolução, Ilusão, desilusão


Goste-se ou não, apesar de todos os erros e do seu percurso controverso, devemos a Otelo a liberdade e a democracia.

Como todas as grandes personagens da história, existe um lado bom e outro menos bom na sua personalidade.

Personalidades como Otelo são raras, pela forma genuína como se afirmam na vida, pelo entusiasmo como assumem as convicções e pela forma como se retiraram do primeiro plano.


Para a história fica o Otelo militar da Guerra Colonial, o Otelo  do 25 de Abril, o Otelo da acção controversa  do Copcon  e o Otelo das FP “25 de Abril”, este o momento mais negro do seu percurso, apesar de ele sempre ter negado a ligação a este grupo terrorista , ficando sempre a dúvida sobre o seu real envolvimento nessa lamentável aventura.

Contudo, é bom recordar que, apesar de o negar, acabou condenado por essa eventual ligação ao grupo terrorista de extrema- esquerda, cumprindo 5 anos de prisão, antes de ser amnistiado.

O mesmo não se pode dizer dos terroristas da extrema-direita, do ELP e do MDLP, com acções bem mais violentas e prolongadas no tempo, acabando os seus actos por nunca serem julgados, continuando muitos dos seus membros  por aí, a vangloriar-se dos seus crimes, alguns bem instalados em partidos da direita e assumindo, até, funções de destaque na vida democrática.

Pessoalmente os meus sentimentos em relação a Otelo foram-se modificando ao longo do tempo.

 Primeiro vendo nele o líder carismático de uma revolução genuína e utópica, depois reconhecendo a ilusão dessa utopia e, finalmente, a desilusão pelo seu crescente radicalismo, que o terá, no mínimo, aproximado dos terroristas das FP-“25 de Abril”, acção que muito contribuiu para denegrir uma data libertadora.

De tudo, sem o esquecer os seus erros e as ilusões que alimentou, ficará sempre o Otelo do 25 de Abril, um dos muitos a quem devo a Liberdade e a Democracia

quarta-feira, 14 de julho de 2021

Cuba Livre


Hoje é o dia mundial da liberdade de pensamento.

Neste mesmo dia, em Cuba, o poder reforça a repressão sobre os que defendem essa liberdade de pensamento, prendendo e reprimindo manifestantes, impondo a censura, desligando a internet.

Não podemos defender a liberdade (ou as “liberdades”) em Portugal e tentar justificar ou defender que ela seja negada em Cuba, com as mais variadas desculpas.

Uma das desculpas é a defesa dos “feitos” do regime a nível social, principalmente na saúde e na educação, como contrapartida para uma “aceitável” falta de liberdade .

Por cá, vimos, recentemente, no “congresso das direitas”,  argumentos parecidos para desculpar o salazarismo, enaltecendo os seus “feitos” económicos.

Claro que não podemos negar o efeito nefasto de um criminoso embargo de 60 anos, imposto pelos Estados Unidos ao seu vizinho, embargo que, mais do que penalizar as elites dirigentes, penalizou o povo cubano, servindo ainda de alibi para a retórica do regime.

Sabemos que muitos políticos norte-americanos e ocidentais usam dois pesos e duas medidas, não negando o apoio a regimes autoritários e ditatórias, muitos deles bem mais sangrentos do que o Cubano, como aconteceu no passado com o apoio de Saddam Hussein ou a Ossama Bin Laden, antes de estes lhes fugirem do controlo, ou, actualmente,  à Arábia Saudita e a Israel, entre tantas outras “ditaduras convenientes”.

Também não podemos negar a falta de credibilidade de uma oposição dominada pelos extremistas de Miami, sedenta de vingança, muitos deles ligados ao crime organizado e entusiastas apoiantes de Trump.

Tudo o que essa gente tem para oferecer, como alternativa, é o apelo a uma intervenção militar norte-americana.

Esperamos que os Estados Unidos e o  “Ocidente” tenham aprendido com a forma desastrosa como intervieram militarmente do Afeganistão, no Iraque, na Líbia e na Síria, em nome da “defesa da democracia e da liberdade”. O resultado está à vista.

Esperamos também que a preocupação ocidental em relação aos cubanos, se o regime cair,  não seja a mesma que tiveram com a Rússia depois da queda da União Soviética, que foi a de humilhar os “vencidos” em vez de os ajudar, e, assim, “criaram” um Putin.  

Seja como for, têm de ser os cubanos, os que vivem em Cuba e os exilados, a resolver o problema do seu país, devendo o Ocidente, em vez de acicatar ódios, tentar mediar as partes, para conseguir ainda uma transição pacífica para a democracia, que salve as bandeiras sociais do regime, como a saúde e a educação, evitando uma política de “terra queimada”, o que conduziria Cuba a uma nova tragédia.

Mas nada disso desculpa a forma como o regime Cubano trata o seu povo, quando este exige liberdade, democracia e respeito.

Em último caso, a culpa pela desgraça de um povo ou de um país, é sempre dos seus governantes, sejam eles legítimos ou não.

Esperemos que, antes de agravar a repressão ou provocar um banho de sangue, o regime tenha um momento de discernimento para ouvir as justas reivindicações do seu povo, porque, apesar de tudo, Cuba não é a Coreia do Norte.

quarta-feira, 7 de julho de 2021

“Filas” e “Queixinhas”

 

Um dos desportos favoritos dos portugueses é fazer queixinhas, e, então, se lhes puserem um microfone à frente, é ver o entusiasmo com que se queixam, aproveitando bem os “15 minutos de fama” que as "queixinhas" lhes rendem.

Noutros tempos davam “bom uso” a esse “desporto”, transformando a “queixinha” em bufaria, nos tempos da Inquisição ou da PIDE.

Agora sobra-lhes o espaço que a comunicação lhes dá, até porque a “queixinha” dá audiência.

A mis recente “queixinha” dos “portugueses de bem” versa o tempo de espera na fila das vacinas.

Os mesmos portugueses, que são capazes de, alegremente e em festa,  acampar à porta e esperar em filas intermináveis junto de bilheteiras, para adquirirem ingressos, pagos com dezenas ou centenas de euro,  para os festivais ou para os jogos de futebol, são os mesmos que agora se insurgem, por terem de esperar uns dois pares de hora para levarem uma vacina que pode salvar a sua vida e a dos seus, e, a prazo, salvar a economia.

Ainda por cima, quando tivemos o vice-almirante Gouveia e Melo, antecipadamente, e com um pedido de desculpas, a explicar porque eram inevitáveis essas filas, neste momento, e que a alternativa seria atrasar o processo de vacinação.

Se é grave e indecente o aproveitamento político dos “queixinhas”, principalmente pelos mesmo que, em tempos, mandaram médicos e enfermeiros emigrar e cotaram nos serviços de saúde, sem se ouvir, então, um protesto de uma ordem profissional, é igualmente grave que, uma comunicação social, havida de audiências, promova os queixinhas em figuras públicas.

Entre “perder” umas horas numa fila, para ser vacinado, ou perder umas horas à porta da urgência de um hospital, ou dias em coma induzido nos cuidados intensivo, seria bom que os “queixinhas” pensassem duas vezes, antes…de fazerem “queixinhas”.

Mas...lá estou em, também...a fazer "queixinhas" dos "queixinhas" !!??

segunda-feira, 5 de julho de 2021

Ainda a propósito do “branqueamento da História” no Congresso do MEL (2)- As falácias de Nuno Palma.


O tão propagandeado “congresso das direitas”  (mais “fel do que MEL”), pouco mais serviu do que para revelar  a pobreza banal e bolorenta das ideias dessa família política portuguesa, incapaz de mobilizar  e inovar, mas revelador do seu desespero perante a possibilidade de se verem arredados do poder nos próximos anos.

Esse desespero terá contribuído para o radicalismo de algumas comunicações, destacando-se, no meio da pobreza geral,  pela retórica cuidada, inteligente e agressiva, a intervenção de Nuno Palma (ver reprodução em baixo).

Tratando de um tema interessante, “as causas míticas da divergência económica portuguesa”, apresentou algumas reflexões a considerar e que, caso orador não se tivesse deixado levar pelo ambiente revanchista dominante, até podiam ter enriquecido evento tão medíocre.

O problema foi quando começou a fazer comparações absurdas entre o Estado Novo e o Regime Democrático.

Partindo de uma verdade histórica, os níveis de crescimento económico observáveis na década de 60, até hoje inigualáveis, procurou extrapolar, de um simples gráfico estrutural, baseado no PIB, sem a devida contextualização, uma certa “superioridade moral” da economia do Estado Novo em relação ao actual regime.

Entusiasmado pela sua aparente “descoberta” e “novidade” (há anos que Fernando Rosa e outros historiadores falam do tema), e pela reacção da plateia, acabou a debitar uma série de falácias, meias-verdades e bombásticas frases propagandísticas, que fizeram estalar o verniz da aparente “objectividade cientifica “da sua “verdade”.

Sobre a correcta análise e contextualização desse gráfico, já outros fizeram a desmontagem do “mito” dessa comunicação de Nuno Palma ( José Pacheco Pereira , “A indústria de falsificação do Estado Novo”, in Público de 5 de Junho de 2021; Fernando Rosas, “O Milagre da economia sem política”, in Público de 20 de Junho de 2021;  Luís Reis Torgal, “E se só a Ciência for revolucionária”, in Público de 28 de Junho de 2021; António Barreto , “Sim, é verdade”, in Público de 3 de Julho de 2021).

Como escreveu Pacheco Pereira noutro texto, usando-se o mesmo estratagema também se conseguia facilmente demonstrar a “superioridade” do modelo de “desenvolvimento económica” do regime hitleriano em relação à República de Weimar ou do Stalinismo em relação ao regime czarista ou  da União Soviética em relação aos primeiros anos de democracia Russa.

Como se sabe, usar a evolução do PIB, a frio, sem contextualização, para comparar níveis de desenvolvimento, é falacioso e tem sido motivo de debate aceso entre economistas e historiadores. Hoje, aliás, têm sido ensaiadas outras formas de medir o desenvolvimento, que distinga o mero crescimento do verdadeiro desenvolvimento económico, que tem de ser também social, humano e cultural, como acontece com o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH)  ou como o índice Gini, que mede a desigualdade económica.

Ambos esses índices não estão isentos de críticas, como sucede com qualquer tipo de rating, que analise situações macroeconómicas, pois, não se pode resumir as complexas relações humanas e socias, a base do estudo histórico e social,  a meros “campeonatos” estatístico.

Muitas vezes o PIB compara economias que "produzem ricos" com economias que produzem riqueza, não distinguindo a desigualdade na distribuição dessa riqueza ou os métodos,muita vezes desumanos e antisocias como ela é alcançada, o que, aliás, acontecia no Potugal doa anos 60.

Mas o mais grave e falacioso da comunicação de Nuno Palma não foi só essa questão.

Uma das frases bombásticas do orador, levado provavelmente pelo ambiente favorável de uma plateia rendida ao radicalismo, foi a de dizer que “desde o 25 de Abril Portugal é um regime de Esquerda”, considerando que, mesmo “a única excepção duradoura é a década de Cavaco Silva com um programa até social-democrata” e que “a nível europeu isto até é centro-esquerda”.

E começa aqui o desfilar entusiástico e delirante de falácias.

Até Cavaco é de “esquerda” (“social-democrata”) e assim arrumam-se, sem hipótese de argumentar, 48 anos de democracia, ideia que pode ser facilmente desmontada consultando a lista e o tempo dos governos, democraticamente eleitos, convém recordar, desde o 25 de Abril.

Dando de barato que o PS sempre governou “à esquerda” e que todos os governos provisórios  liderados por Vasco Gonçalves (com ministros do PSD e PS) foram dominados pela esquerda, contabilizamos 286 meses de governo “à esquerda” e 272 à “direita”, mais 29 meses de governos “ao centro”, considerando como centrista o 1º governo provisório, com Sá Carneiro como ministro, o governo de Pinheiro de Azevedo, dominado pelo PSD  e pelo PS, e os governos de Nobre da Costa, Mota Pinto e Maria de Lurdes Pintasilgo, aquele argumento cai pela base.

Recorde-se, aliás, que o “esquerdista” Cavaco Silva chefiou o governo durante 120 meses, grande parte em maioria absoluta.

Recorde-se que a “direita”, coligação entre CDS e PSD, governou também em “maioria absoluta”, 40 meses com a AD e 77 meses com Passos Coelho…ah! mas esta gente, para Palma, é suspeita de governar em “social-democracia” ou ao “centro-esquerda”!!

A única maioria absoluta à “esquerda” aconteceu como o primeiro governo de Sócrates, cerca de 48 meses, um governo, aliás, muito bem recebido por alguns pensadores da direita neoliberal, exactamente por tomar muitas das medidas antissociais preconizadas pelos “Nunos Palma” da época…

A ideia de Palma é quase tão absurda como a cassete das “políticas de direita” do PCP.

Mas Palma vai mais longe nas suas atoardas. Em certo momento, tomado de delírio, vem em defesa do Chega. Porque ilegalizar o Chega? (nós também não concordamos com essa intenção). Segundo ele existem razões, sim, é para ilegalizar a “extrema-esquerda”, o BE ou o PCP, por exemplo, até porque, ao contrário do Chega, “o PCP é um partido anti-democrático” e insurge-se contra o museu do Forte de Peniche que , citando o programa da instituição, é “uma homenagem aos presos políticos que lutaram pela democracia” o que para Palma são “os tais do PCP que lá estiveram presos” (aplauso entusiásticos).

É provável que a maior parte dos presos políticos no Estado Novo, nomeadamente os que estiveram presos em Peniche, fossem do PCP, mas a afirmação ignorante e falaciosa de Palma ignora tantos presos políticos, das mais variadas tendências, que por lá passaram, bem como as razões do papel histórico do PCP no combate à ditadura, afirmação grave feita por um professor universitário que se diz objectivo e contra “as ideologias”.

A forma como ele enfatiza esta parte da sua intervenção, e o entusiasmo que ela provocou entre a assistência, demonstra que entre a assistência há muita gente que acha que, se eram “comunistas”, então até mereceram a prisão!!

Outra afirmação de Palma que mereceu aplausos entusiásticos da assistência: “a extrema-esquerda controla a educação”.

E “extrema-esquerda”, para ele, é o Bloco de Esquerda, o PCP e até sectores  do PS, classificação tão absurda, dita por um professor universitário, como classificar o PSD, o CDS  ou a Iniciativa Liberal como de “extrema-direita”.

E em que é que Palma fundamenta a sua argumentação? na citação cirurgica de uma parte do programa oficial de História do 12º ano : “…reconhecer que [o Estado Novo] …impediu a normalização económica e social do país” e, outra  falácia, como o demostrarei mais à frente, uma sugestão de trabalho sobre o Holocausto, “associando o Holocausto ao Estado Novo”, uma situação que, se fosse verdadeira, eu também consideraria absurda.

Insurge-se ainda com a bibliografia dominada por autores “marxistas”, como Hobsbawn e Fernando Rosas.

Fiz aquilo que Palma recomenda, fui consultar o programa disponível na página do Ministério da Educação e…até eu fiquei espantado com a falta de seriedade das afirmações de Palma!!!:

No Módulo 7, “Crises, embates ideológicos e mutação cultural na Primeira Metade do Século XX”,  o “conteúdo” 2.5 tem como título “Portugal: O Estado Novo” refere, entre outros, um conteúdo especifico sob a seguinte designação: “uma economia submetida aos imperativos políticos: prioridade à estabilidade financeira; defesa da ruralidade; obras públicas e condicionamento industrial; a corporativização  dos sindicatos; a política colonial”.

No final deste módulo refere como “aprendizagem a reter”, reconhecer “ que, no Estado Novo, a defesa da estabilidade  e da autarcia se apoiou na adopção de mecanismos repressivos e impediu a modernização económica e social”.

Esta “prendizagem” não se refere a todo o período do Estado Novo, mas à época antes do final da 2ª Guerra. Palma interpretou-a como uma “aprendizagem” mais generalista porque, ou lhe convinha a meia verdade, ou não reparou que o Estado Novo volta a ser analisado no Módulo 8, referente agora ao período do pós guerra, onde se estuda “Portugal do autoritarismo à democracia”, referindo-se no ponto 2.1 deste capítulo o “imobilismo político e crescimento económico do pós-guerra a 1974”. Repito : “CRESCIMENTO ECONÓMICO”!!!!

E neste ponto indicam-se como “aprendizagens relevantes”, relacionar “ a fragilidade da tentativa liberalizadora e da modernização económica do marcelismo com o anacronismo da sua solução para o problema colonial” e “reconhecer a modernização da sociedade portuguesa nas décadas de 60 e 70, no comportamento demográfico, na modificação de estrutura da população activa e na relativa aproximação a padrões de comportamento europeus”. Sublinho : “RECONHECER A MODERNIZAÇÃO (…) NAS DÉCADAS DE 60 e 70”.

Em relação à sugestão de trabalho sobre o Holocausto, esta, no documento, refere-se a outro tema do módulo 7, apesar de estar referido na mesma página do conteúdo 2.5, situação que se deve à organização das páginas, divididas em 3 tabelas, onde as duas primeiras, “conteúdos” e “conceitos”, estão relacionadas entre si e a terceira, com sugestões de trabalho, faz a listagem de todas as sugestões para todo o módulo. Um professor/investigador não ter reparado nisto e ter feito disto tema da sua comunicação é revelador da “competência” do mesmo em analisar documentos.

Pelo contrário, nesse documento, até surgem como sugestões de leitura, os discurso de Salazar.

Podemos discordar de certos conteúdos ou da ausência de outros, mas não existe no programa qualquer vestígio evidente do controle da educação pela "extrema-esquerda".

Por último, a infeliz referência ao “domínios marxista” da Bibliografia: de facto vem indicadas 3 obras de Hobsbawn, entre elas “A Era dos Extremos”, e 2 de Fernando Rosas, uma delas o “Dicionário de História do Estado Novo” por ele dirigido, mas com a colaboração de autores das mais variadas tendências, ao lado, aliás, dos 3 volumes do Dicionário de História de Portugal, relativos ao Estado Novo, coordenados por António Barreto e Filomena Mónica. Nas dezenas de sugestões de leitura também se incluem obras de “perigosos marxistas” como François Furet, José Mattoso, José Carlos Espada,Nuno Valério, José Hermano Saraiva, Joaquim Veríssimo Serrão, Braga da Cruz, A.H. de Oliveira Marques, Fátima Patriarca, António José Telo ou António Costa Pinto, entre outros.

Quanto muito, podemos criticar uma certa desactualização dessa bibliografia, mas não existe, na que é porposta, qualquer sinal de "domínio marxista".

Pela reacção do público de "direita" a esta comunicação, ficámos a "saber" que, na falta de um projecto económico para Portugal, alternativo ao mítico "modelo socialista", só têm para oferecer um "modelo económico" como o  do Estado Novo...sem Salazar (...eventualmente...sem ditadura!!), uma economia que "produz ricos", em vez de produzir riqueza, baseada na desigualdade na distribuição dessa riqueza, na perseguição aos sindicatos, na remessas da emigração provocada pela miséria das populações rurais, nos baixos salários e na negação de direitos sociais.

quinta-feira, 1 de julho de 2021

Ainda a propósito do “branqueamento da História” no Congresso do MEL (1).


 Dei-me, finalmente, ao penoso trabalho de assistir às duas intervenções do Congresso do Movimento “Europa e Liberdade” que mais polémica geraram, a de Maria Fátima Bonifácio e a de Nuno Palma.

A primeira, e menos interessante, a de Maria de Fátima Bonifácio, que numa comunicação indigente, “relatou”, em tom monocórdico e cansado, como se falasse para uma plateia de ignorantes,  a “história” da consolidação do “Estado” português, desde D. Afonso Henriques, uma história cheia de lugares comuns e de interpretações forçadas, para nos conduzir ao elogio de “um tirano duro e frio”, mas “inteligente e patriota”, que, mesmo “prendendo, deportando e perseguindo”, impusesse “à estima do mundo um povo”, libertando-o de políticos torpes e estúpidos, citando as palavras de Basílio Teles no final da monarquia,  palavras com as quais nos conduziu, desta vez citando Fernando Pessoa, para justificar, com elas,  “porque motivo o país estava a pedir um Salazar”, o “salvador desse país  cativado pelo Estado, e por um parlamento “eloquente e palavroso” , na “sua simplicidade, dura e fria”.

“Esqueceu-se”, a eminente historiadora, que Fernando Pessoa rapidamente se desiludiu com mítico “salvador”, ainda no início da construção do Estado Novo. Ao que parece, para a sua mal preparado comunicação, não leu a obra “Fernando Pessoa – Sobre Fascismo, Ditadura Militar e Salazar”, de José Barreto, editado em 2015 pela Tinta-da-China, de onde transcrevemos este esclarecedor poema:

“Poema sobre Salazar

 

António de Oliveira Salazar

Três nomes em sequência regular...

António é António.

Oliveira é uma árvore.

Salazar é só apelido.

Até aí está bem.

O que não faz sentido

É o sentido que tudo isto tem

 

Este senhor Salazar

E feito de sal e azar.

Se um dia chove,

A água dissolve o sal,

E sob o céu

Fica só azar, é natural.

 

Oh, c’os diabos!

Parece que já choveu...

... ... ... ... ... ... ... ... ...

 

Coitadinho

Do tiraninho!

Não bebe vinho.

Nem sequer sozinho...

 

Bebe a verdade

E a liberdade.

E com tal agrado

Que já começam

A escassear no mercado.

Coitadinho

Do tiraninho!

O meu vizinho

Está na Guiné

E o meu padrinho

No Limoeiro

Aqui ao pé.

Mas ninguém sabe porquê.

Mas enfim é

Certo e certeiro

Que isto consola

E nos dá fé:

Que o coitadinho

Do tiraninho

Não bebe vinho,

Nem até

Café

 

Fernando Pessoa

ANTOLOGIA in Sobre o Fascismo, a Ditadura Militar e Salazar,

de Fernando Pessoa 5-4-1935

Do painel onde participou a dita historiadora, salvaram-se as intervenções de Jaime Nogueira Pinto e de José Miguel Júdice que, de forma indirecta, irónica e respeitosa, desmontaram o essencial da comunicação de Fátima Bonifácio, facto que a mesma parece não ter percebido.

À segunda intervenção, a mais interessante,  a de Nuno Palma, voltaremos a em próxima ocasião.



sexta-feira, 25 de junho de 2021

Apesar de você (Um Hino contra a Censura e o Autoritarismo)


Foi em Março de 1970 que Chico Buarque, regressado do exîlio, gravou um dos seus temas mais icónico, "Apesar de Você".

A letra da musica era uma crítica indirecta,  à Ditadura Militar Brasileira, disfarçada de uma briga entre amantes.

Ao enviar a canção à Censura, como era obrigatório, os censores não perceberam o segundo sentido da letra, tendo autorizado a sua edição em vinil.

Lá, como cá, muitos censores eram incultos e idiotas, não percebendo o princípio das metáforas.

Só em Fevereiro de 1971, perante o êxito da canção, é que a ditadura se apercebeu do sentido a mesma, proibindo de imediato a sua passagem nas rádios e mandando os gorilas da polícia política à sede local da editora Philips, destruindo todas as cópias ainda aí existentes.

Felizmente não destruiram a matriz, permitindo que a canção fosse gravada mais tarde, já em democracia.

O censor que deixou passar a musica foi igualmente punido e Chico Buarque teve de prestar declarações à polícia que, em certo momento do interrogatório lhe perguntou quem era o "você" da musica, ao que o musico respondeu: "é uma mulher muito mandona, muiti autoritária".

Até ao fim da ditadura Chico Buarque ficou marcado e foi perseguido em várias ocasiões.

Para fugir à censura, Chico Buarque chegou  compor com pseudónimos, como "Julinho de Adelaide" ou "Leonel Paiva", mas o estratagema também foi descoberto pela censura.

A canção também tinha sido gravada pela cantora Clara Nunes em 7 de Janeiro de 1971, que também não tinha percebido o duplo sentido da canção, sendo obrigada, para escapar à perseguição, a colaborar com a própria ditadura, obrigada a gravar canções que faziam a apologia do regime.

Só em 1978 é que a canção foi incluida num album em vinil, "Chico Buarque (1978)", tendo também sido interpretada por outros cantores como Maria Bathânia, Benito de Paulo, Beth de Carvalho ou Daniel Mercury.

"Apesar de Você" tornou-se um hino contra as ditaduras, um hino cada vez mais actual, quer contra "velhas" ditaduras (China, Coreia do Norte...) ou "ditaduras de novo estilo", disfarçadas ou não de rituais "democráticos" (Irão, Arábia Saudita, Venezuela, Nicarágua, Rússia, Turquia, Hungria, Polónia, Ucrânia, Israel, Bielorrússia, Brasil...).

Para memória futura, pois pode tornar-se necessário saber cantá-la, aqui fica a letra desse hino contra todas as formas de autoritarismo e ditadura:

APEASAR DE VOCÊ

(por Chico Buarque de Holanda)

Amanhã vai ser outro dia

Amanhã vai ser outro dia

Amanhã vai ser outro dia

Hoje você é quem manda, falou, tá falado

Não tem discussão, não

A minha gente hoje anda

Falando de lado e olhando pro chão, viu?

Você que inventou esse estado

Que inventou de inventar toda a escuridão

Você que inventou o pecado

Esqueceu-se de inventar o perdão

Apesar de você amanhã há de ser outro dia

Eu pergunto a você

Onde vai se esconder da enorme euforia?

Como vai proibir

Quando o galo insistir em cantar?

Água nova brotando

E a gente se amando sem parar

Quando chegar o momento, esse meu sofrimento

Vou cobrar com juros, juro

Todo esse amor reprimido, esse grito contido

Este samba no escuro

Você que inventou a tristeza

Ora, tenha a fineza de desinventar

Você vai pagar e é dobrado

Cada lágrima rolada nesse meu penar

Apesar de você amanhã há de ser outro dia

Inda pago pra ver o jardim florescer

Qual você não queria

Você vai se amargar

Vendo o dia raiar sem lhe pedir licença

E eu vou morrer de rir

Que esse dia há de vir antes do que você pensa

Apesar de você

Apesar de você amanhã há de ser outro dia

Você vai ter que ver a manhã renascer

E esbanjar poesia

Como vai se explicar vendo o céu clarear

De repente, impunemente?

Como vai abafar

Nosso coro a cantar na sua frente?

Apesar de você

Apesar de você amanhã há de ser outro dia

Você vai se dar mal, etcetera e tal

Laraiá laraiá lá

Laraiá laraiá, laraiá laraiá

Lá laiá lá

Laraiá laraiá, laraiá laraiá

Lararará

Apesar de você...

quarta-feira, 16 de junho de 2021

Com “activistas” como estes, Putin pode continuar a dormir descansado


Uma coisa, é a gravidade dos procedimentos “habituais” da Câmara de Lisboa em denunciar organizadores de manifestações às embaixadas dos países visados, muitos com um historial sinistro na perseguição, rapto ou eliminação física de  gente “inconveniente”, fora das suas fronteiras ( sejam eles regimes democráticos, como a  França, a Espanha, a Grã-Bretanha ou os Estados Unidos, ou regimes sinistros, como os da Rússia, da Ucrânia, de  Israel, ou da Venezuela, entre tantos outros), outra coisa é o oportunismo político em continuar a explorar o “filão” do mais recente escândalo na denuncia de activistas russos.

Oportunismo que se estende aos próprios activistas que foram vítima desse procedimento.

Já aqui manifestámos a nossa estranheza pelo facto desses mesmos activistas darem a cara nas televisões, quando a principal preocupação era manter a sua identidade em segredo, para evitarem represálias, sendo a violação da sua identidade a principal queixa que fazem contra o município da capital.

Quem teme represálias contra si ou contra os seus não aparece em público nas televisões.

Mas o mais grave desse despudorado oportunismo, de quem busca a todo custo os seus 15 minutos de fama, veio agora a saber-se pelas páginas da edição de hoje do renascido semanário Tal & Qual.

Passo a citar:

“Afinal, não era preciso que a Câmara de Lisboa tivesse enviado os nomes dos manifestantes contra Putin à embaixada da Rússia. Os ativistas puserem tudo no seu facebook, muito antes da manifestação, para toda a gente ver. Pavel Elizarov e Ksenia Ashrafullina, que agora se queixam de terem sido “entregues” por Fernando Medina a Moscovo, criaram uma publicação naquela rede social onde convocam a manifestação em frente à embaixada da Rússia e lá escrevem os seus nomes e contactos, além de assumir a autoria do polémico protesto. A seguir, tiraram fotos de grupo em frente à embaixada e espalharam pelas redes sociais. Tudo gratuito e de boa vontade!

“Mais ainda: carregando em cima do nome de cada um deles os serviços secretos russos podem consultar os perfis dos organizadores e, com tranquilidade, ver fotos e posts onde os ativistas contam quase tudo: há fotos deles em casa, com amigos, na rua onde moram, belas imagens de fins-de-semana com amigos…

“(…)

“Em suma, Moscovo pode estar descansado. Os organizadores dos protestos em Portugal são generosos a dar informações pessoais em todas as redes”, informações muito mais completas e detalhadas do que aquelas que foram reveladas nos mails do município lisboeta.

Aliás, consultando a página de um dos activistas, o que domina nos últimos tempos é o deslumbramento pelo facto de serem notícia em Portugal.

Perante tudo isto, pedir indemnizações ao Estado português, como pretendem fazer, não passa de um simples acto de oportunismo, ou então aprendessem com a família Coxi, ficando-se por um pedido de desculpas, que foi o que já fez Fernando Medina.

Mas isso era se, o que os move, fosse a justiça e a indignação, e não o desejo de fama e vantagem financeira à custa de uma situação lamentável.

Com oposicionistas como este, bem pode Putin continuar a dormir descansado.

 

 

 

 

 

terça-feira, 15 de junho de 2021

Tão “liberais” que “nós” somos!!!

Tal como defendi as manifestações do 25 de Abril, do 1º de Maio, a realização da Festa do Avante e dos Congressos de vários partidos, não vi, à partida, nenhum problema na realização de um arraial de Stª António organizado pela Iniciativa Liberal (IL).

Defendi essas manifestações, desde que fossem respeitadas as regras imposta pela Direcção Geral de Saúde, e elas foram cumpridas nos primeiros casos citados.

Não o foram no evento da Iniciativa Liberal e, o pior, é que não foram cumpridas de forma deliberada e provocatória, comportando-se como “putos mimados da linha”.

Mas o pior nem foi isso.

Foi a grande intolerância manifestada pelas “barracas de tiro”. Nem o Chega se lembrou de tanto!

De facto, gente que se diz muito liberal e “educada”, revelou a sua verdadeira face.

Desde um manequim de “um comunista” (segundo a ideia preconceituosa dos líderes desse partido) até um alvo com as fotografias dos “socialistas” de todos os quadrantes, onde nem faltou a fotografia de Rui Rio, valeu de tudo para descarregar ódio e intolerância sobre os adversários.

Eu, que até achava piada a algumas das iniciativas desse partido, fiquei definitivamente esclarecido sobre as suas intenções.

Por detrás do rótulo “fofinho” de “liberais”, esconde-se a “direita” troglodita e rançosa de sempre.

Obrigado, pela iniciativa, pois ficámos esclarecidos sobre as verdadeiras intenções dessa gente.


sexta-feira, 11 de junho de 2021

Da “Bufaria”…ou o estranho caso da “casa” da Rússia!!


Ao longo da História portuguesa, a “bufaria” foi uma das actividades preferidas de gerações de portugueses.

Era assim nos tempos da “Inquisição”, foi assim nos tempos do Estado Novo, devendo este regime muita da sua longevidade a essa edificante actividade, e, ficamos a saber agora, mantem-se bastante activa nos nossos dias democráticos, nas redes sociais e entre autoridades oficiais.

Tudo isto a propósito de mais um “caso”, num país onde a política não se faz de projectos para o país e para os seus cidadãos, mas da exploração demagógicas de “casos”.

Tão bufo é quem (Câmara de Lisboa), num ataque de  “excesso de zelo”, resolve avisar os visados por manifestações, como é aquele (um tal Moedas) ,ou aqueles (comunicação social) que, meses depois do sucedido, denunciam, no momento político mais “adequado”, mais um caso, para gáudio das redes socias e para aumentar audiências.

Mas vamos por partes.

A notícia de que, em Janeiro último, foram fornecidos dados à embaixada russa em Portugal,  sobre os organizadores de uma manifestação anti-Putin, é gravíssima e uma vergonha para o nosso país.

Contudo, o “tempo e modo” como essa notícia foi divulgada, e tudo o que sobre o assunto se tem vindo a saber desde então, levanta uma série de dúvidas e interrogações.

Pelo que se sabe, tudo tem origem numa lei de Agosto de 1974, sobre a realização de manifestações, publicada poucos meses depois do 25 de Abril, dois anos antes de haver uma Constituição.

Mas…calma lá! Não venham já acusar o 25 de Abril ou o “gonçalvismo”!!!. Era óbvio que, derrubado um regime onde não eram autorizadas manifestações, a não ser as “manifestações espontâneas” de apoio a Salazar, era necessário legislar sobre aquilo que passou a ser uma “novidade”, o direito de manifestação.

Desconheço as alterações que essa lei conheceu ao longo dos tempos, mas, no essencial, até 2011, ela era da competência dos Governos Civis. Extintos estes, da forma atabalhoada que toda gente sabe, para “ir além da Troika”, “rapidamente e em força”, a competência de autorizar e organizar as manifestações passou para as Câmaras Municipais das capitais de distrito.

Que se saiba, a lei exige que se informe o município onde se realiza a manifestação, 48 horas antes, sobre o seu percurso e sobre os responsáveis pela sua organização. Se for um sindicato, um partido ou uma associação, não é necessário outro conjunto de dados, sendo fácil responsabilizar essas instituições pelo decorrer da mesma. Contudo, se a manifestação for convocada sem cobertura de instituições legais, a informação deve conter o nome de três organizadores, com as respectivas moradas e profissões, para se saber quem responsabilizar e para as autoridades poderem organizar os fluxos de trânsito e a segurança das mesmas.

Até aqui nada de mal.

O problema está no hábito de se avisarem as entidades, alvo da manifestação, o que também se pode justificar, mas essa informação nunca pode incluir os nomes dos organizadores, principalmente se estivermos perante regimes autoritários, que não respeitam os Direitos Humanos e, até, perseguem, raptam e assassinam os seus opositores fora do seu território nacional, que é o que acontece com a Rússia, mas também com regimes “amigos” como Israel e até já aconteceu com os Estados Unidos, a França e a Grã-Bretanha, sob o mesmo pretexto de Putin de “combater o terrorismo”, sem esquecer a perseguição política da nossa vizinha Espanha em relação aos nacionalistas catalães.

O que é estranho, em tudo isto, é o momento escolhido para denunciar essa situação.

Debitemos, então, algumas das estranhezas que este assunto nos desperta:

- se o caso se reporta a Janeiro último, foi conhecido pela Câmara de Lisboa em Abril, reconhecendo esta o “erro” e procedendo a mudanças de orientação quanto à forma de agir, a partir dessa data, e sendo o tema, segundo as palavras de um dos manifestantes visados, do conhecimento da comunicação social desde essas datas, porque é que só agora, no início de uma campanha autárquica, é que essa mesma comunicação social denuncia a situação?;

- se, já anteriormente, havia queixas desse procedimento, desta vez por parte de manifestantes em favor da causa palestinianas, e da forma como Israel e os seus assassinos da Mossad foram avisados, porque é que a mesma comunicação social e os mesmos políticos, que agora denunciam o caso dos manifestantes russos, não o fizeram, anteriormente, numa situação idêntica?

- por último, percebendo que os manifestantes denunciados às embaixadas, por “erro burocrático” ou excesso de zelo, se sintam preocupados com as suas vidas e as dos seus familiares, não  percebo porque não se coibiram de dar a cara na comunicação social, como se os serviços secretos russos precisassem dos dados do mail da Câmara para conhecerem e identificarem os manifestantes ou como se a embaixada não visse a televisão portuguesa?

É urgente averiguar quais foram os casos em que aquele procedimento burocrático colocou em perigo a vida de pessoas perseguidas, condenar os responsáveis, se se justificar, bem como alterar a lei de forma a proteger os cidadãos da violação de Direitos Humanos, sem desvirtuar o direito de manifestação.

quarta-feira, 2 de junho de 2021

Recordações à solta, dos tempos de infância.

(à porta de casa, na Praceta, 1º dia de escola, Outubro de 1962. O Pedro Rosado, o meu irmão Mário Luís, eu próprio e a minha prima São Rosado. Ao fundo o Tarique, o cão do Mabê)

A propósito do Dia da Criança, pus-me a recordar como foram os meus tempos de criança.

Tenho memórias dos meus 3 anos, vivia então numa vivenda no chamado "Bairro Lisboa", derrubada há poucos anos para dar origem a mais um incaracterístico  prédio de vários andares.

Era “Lisboa” porque esse era o apelido do proprietário das vivendas, mas também podia ter sido baptizado com o nome da capital porque ficava então no limite da vila, na estrada que ía para Lisboa.

Não nasci aí, mas essa é a minha primeira memória (do "mundo" só comecei a ter memórias em 1963, aos 7 anos, como a morte de Edith Piaf ou o assassinato do presidente Kenneddy...). As vivendas tinham um pequeno quintal de onde partia uma pequena escadaria, antecedendo a porta de entrada. Lembro-me das ambulâncias a entrar no hospital, quase em frente da vivenda. Conheci aí os primeiros companheiros de brincadeira. Eramos vizinhos dos pais da Manuela Moura Guedes, tendo ficado na memória, não na minha, mas contada pelos meus pais, uma célebre e dolorosa dentada que levei dela.

(Na escada de entrada da vivenda do Bairro Lisboa. Eu sou o de chapéu e rosto redondo. Os outros dois, segundo nota da foto tirada em Fevereiro de 1959, são o "Tó" e o "Zeca" (??))


Ainda antes de fazer os 4 anos, mudámo-nos para Coimbra e fomos viver para o Bairro das Colónias, na Rua de Guiné. Lembro-me de habitramos uma vivenda de dois andares, vivendo por baixo uma vizinha da minha idade. Não criei muitas raízes por aí, mas lembro-me do comboio que passava por perto e das visitas aos meus avós que viviam perto da Sé Velha e também do sossego desse bairro, afastado do centro de Coimbra, uma espécie de aldeia dentro da cidade.

Foi uma estadia de poucos meses e não deixou muitas memórias, regressando a Torres Vedras ainda com 3 anos, para a casa onde vivi o resto da infância, a juventude e o início da idade adulta, a casa da Praceta ( ainda sem nome na altura, mais tarde baptizada de Afonso Vilela), um prédio de 3 andares (hoje de 4) e onde conheci muitos dos amigos para a vida, não só os do mesmo prédio, mas os de prédios vizinhos ou outros que vinham brincar para aproveitar o sossego e a segurança do local, onde raramente passava um automóvel.

Quando para lá fui, existiam apenas quatro prédios com entrada pela praceta, o meu, o do Alfredo e do Zé Carlinhos, pegado ao nosso, e com quintais quase juntos, um, mais afastado, com um grande poço pelo meio, mais à esquerda (nascente) da entrada do nosso, e outro mais a sul, a poente, separado dos dois em vértice, acima referido, pelo caminho que ligava ao pátio por detrás do Venceslau, do lado poente. Existiam outros dois prédios, a sul, à saida da praceta, um de cada lado, mas com saida para a futura Rua dos Amigos de Olivença, que hoje separa as duas pracetas.

Os prédios tinham grandes quintais, onde muita gente tinha a sua pequena horta e árvores de fruto, ou onde se criavam galinhas e coelhos.

No meu quintal havia um limoeiro, uma videira, uma macieira (que nunca deu nada), sardinheiras e outras flores e um cacto trazido da praia de Santa Cruz. Num dos cantos, uma capoeira, onde a minha mãe criava galinhas, que íam “viver” para a marquise da minha casa em vésperas de nascerem os pintos. Aí também viveu o meu cágado, onde hibernava durante meses e passava outros dias na nossa casa. Eu cheguei a “ensaiar” criar formigueiros numa caixa transparente, obrigando as formigas do quintal a “emigrar”, mas com pouco êxito, pois elas depressa fugiam do formigueiro artificial, invadindo a casa, para desespero da minha mãe. Também “criei” caracóis em gaiolas, para fazer corridas.

Nas aventuras do quintal eramos muitas vezes acompanhados pelo Tarique e pelo Fleg, que aí tinham as suas casotas, cães de caça que pertenciam ao pai do Mabê. O Tarique (ver foto de cima), um grande cão pachorrento, fazia de cavalo para a miudagem…

Vou esquecer alguns, mas, par além do meu irmão Mário Luís, e do  Mabê, “viviam” no quintal e na “praceta” o Nanan a Guigui, o Alfredo, a Ana Maria. a Graça e o Emílio Gomes, o Pedro e a Sãozinha Rosado, estes dois últimos meus primos em segundo grau e vizinhos do andar do lado, o Zé Carlinhos, o João Camilo, o Luís Rodrigues, o Janeca, o Rui e a Paulina Belchior, a Bélinha e, mais tarde, a Peta e a Paula Brás, a Nini, o Raul, o Carlos e o Marcos Ferreira e tantos outros, alguns de prédios ou ruas vizinhas ou familiares dos “pracenterenses”.

Havia uma certa hierárquia na formação dos grupos da brincadeira: em primeiro lugar, os vizinhos do mesmo prédio, depois os vizinhos do prédio ao lado, com o quintal encostado ao nosso, depois amigos e familiares comuns que visitavam os membros do "bando". As raparigas não tinham muito lugar no grupo, a não ser que fossem irmãs de alguém. O mais velhos (poucos), isto é, com mais 2 ou 3 anos de diferença, o os mais novos, com mais de 4 anos de difrença, a não ser irmãos, também não tinham lugar facilitado.

Por vezes os grupos de cada prédio entravam em guerras de pedrada entre eles, guerras que terminavam, muitas vezes, com aintervenção da avó do Alfredo, que acabava com tudo à vassourada, depois de termos partido algum vidro, e a paz era rápidamente restabelecida.

Lembro-me também de um caso curioso. Quando no prédio soubemos que vinham uns novos vizinhos para o andar de baixo do meu, correu o rumor, para tristeza de todos, que os filhos do novo casal já eram "muito velhos", isto é tinham 15 ou 16 anos. Afinal não era bem assim. Um deles (o António João) era, de facto, mais velho, com essas idades, e não se misturava connosco, mas o outro, o Janeca, era até mais novo do que a maior parte de nós.

Recordo-me do dia em que integrámos o Janeca no grupo do prédio. Tinhamos construido uma cidade, em cima de uma grande porta de madeira velha, deitada num canto comum do quintal, coberta com terra e relva, com "estradas" desenhadas pelo meio, onde "circulávamos" com os nosso carrinhos, quando apareceu um míudo novo (o Janeca), brincando sózinho, num canto, com um carrinho muito sofisticado, que virava as rodas da frente, um grande "avanço tecnológico". Ficámos todos curiosos com o carrinho e conferenciámos entre nós a melhor maneira de o abordarmos. Uns propunham que lhe roubássemos o carro, aproveitando o facto de sermos mais e, alguns, "mais crescidos", outros, que lhe propusessemos deixá-lo brincar connosco, em troca de nos deixar brincar com o carrinho dele. Prevaleceu o bom senso, falámos com ele e o Janeca deixou-nos brincar com o seu carrinho e, desde aí, tornou-se membro do grupo de pleno direito.

(O Mabê e eu, frente ao nosso prédio, primeiro dia de escola primária, Outubro de 1962)
(A GuGui, irmã do Mabê, à porta do prédio, em Março de 1963)

A Praceta era o nosso sol e os quintais dos prédios, os planetas circundantes, as ruas e os pátios em redor, o universo profundo.

Daí só saímos para a escola primária,  perto do cemitério, num caminho de terra batida (ainda não havia Henriques Nogueira), rodeado de vinhas e trigais.

Mais tarde “aventurámo-nos” para um pouco mais longe, para o Liceu, a Escola Técnica, ou a Física, situadas onde está hoje a sede do município.

No Verão, a praceta enchia-se de miudagem a inventar aventuras, a aprender a andar de bicicleta, a jogar à bola e a tantos outros jogos, como as escondidas ou a apanhada, ou em guerras de pedrara, mais tarde nos primeiros “namoros”. Num certo ano resolvemos jogar hóquei, uns com patins muitos rudimentares, outros nem com isso, mas alguém da Física, que ficava a poucos metros da praceta, reparou nos miúdos e levou-nos para essa associação para formar as primeiras equipas de infantis e juniores. Muitos vieram a destacar-se nessa modalidade e pelo menos um , o Luís, ainda treina os miúdos de hoje.

Na praceta não fabricávamos carrinhos de rolamentos, porque não havia “inclinação” para os mover, mas muitas vezes íamos ver as “actuações” dos nossos “vizinhos”, os “malucos das máquinas de rolamentos” da Álvaro Galrão, uma das ruas mais íngremes da vila, a rua onde vivi os meus dois primeiros anos de vida, mas não tendo qualquer recordação desse tempo.

O dia acabava com as mães a chamarem cada um de nós para o jantar, mas no Verão voltávamos à rua, até ser noite.

Havia dias especiais: o Carnaval, ficando a praceta no meio do corso, que circulava pelas ruas vizinhas, e era por isso vivido com muito entusiasmo por todos nós; o Santo António, onde  organizávamos as festas do bairro, enfeitadas com as bandeiras de papel recortadas por nós e coladas com uma mistura de água e farinha, sendo também pretexto para a grande aventura de ir até aos Cucos apanhar as parras de palmeira, enquanto o Venceslau fornecia as sardinhas, o vinho e a gasosa. Com o início do Verão tinha lugar o cinema ao ar livre no ringue da Física, o chamado “Cine Esplanada”. Como a maior parte dos filmes eram para maiores de idade, eram exibidos à noite ou não havia dinheiro para cinema, nas noites de sessão, naquelas em que nos conseguíamos afastar da praceta sem os nossos pais darem por isso, a miudagem rumava para o sítio da hoje chamada escola do avião e “assistiamos” ao filme nas traseiras do écran, por vezes apenas sombras e luzes, e ouvindo as conversa em inglês, que ninguém entendia mas nos permitiam uma noite de emoções. Havia ainda a Feira de S. Pedro, na várzea, onde esgotávamos a parca mesada nos carroceis e nos carrinhos de choque. No Verão, alguns sortudos íam para a praia passar um dia, um mês ou os três meses de férias, conforme as posses da família de cada um, ou para a piscina do “Vimeiro” aos fins-de-semana. Também por essa época juntava-se a minha famíla e a do Mabê no Casal da Paúl, para animadas churrascadas de Verão. Havia também o dia da passagem do Rally de Portugal, por uma rua próxima da praceta, ou de alguma etapa da volta a Portugal em Bicicleta.

(Em Santa Cruz em 1963)


Havia ainda outro local de encontro da rapaziada, o desfile anual dos atletas da Física, onde alguns andavam na ginástica, recebendo eu, nesse dia, as únicas medalhas da vida, “ouro”, “prata” ou “bronze”, não por qualquer acto de “bravura”, mas de acordo com o número de faltas dadas ao longo do ano. Como estava sempre com alergias e faltava muito, que me recorde nunca recebi a medalha de “ouro”.

(eu a receber a medalha na Festa da Física de 9 de Junho de 1961, das mãos do pai do Victor César. Na mesa estão o sr. Vasco Parreira, administrador da Casa Hipóito, o presidente da Câmara, Teixeira de Figueiredo e António Hipólito Júnior)

(Eu, de medalha ao peito, com o Professor Dieguez, em 1965)
(A minha turma de ginástica no desfile da Física em 1966. Sou o terceiro na fila da frente, da direita para a esquerda.São visiveis o Lipa, o Zé Paulo Duarte, o Bacelar e outros rostos que não me são desconhecidos, mas não me lembro do nome)

No Inverno as brincadeiras ficavam mais por casa, pelas varandas das traseiras ou, na melhor das hipóteses, pelo quintal, e restringiam-se aos moradores do prédio.

Brincava-se com as caricas, construindo-se com elas e com os carrinhos feitos de caixas de fósforos, com rodas de rolha, grandes países, onde por vezes entrávamos em “guerra” com o país de caricas dos vizinhos. Outras vezes fazíamos com essas caricas (tampinhas de refrigerantes) corridas de “bicicleta” (que se prolongavam nas areias da praia de Santa Cruz), “jogos Olímpicos”, viagens “espaciais” ao ´´armário mais alto lá de casa. Eu cheguei a fazer um jornal manuscrito sobre a vida do meu “país das caricas”.

O “mundo” das caricas permitiu-me “viajar” para mais longe, para a casa do Carrilho ou do To Zé, quase no extermo oposto da vila, gosto partilhado também com o Jorge Pereira.

A “loucura” pelas caricas motivou, aliás, uma das maiores aventuras desses dias de criança. O exame da 4ª classe era feito em Lisboa, no Liceu Passos Manuel e, nessa ocasião, fiquei alguns dias hospedado em Lisboa com a minha mãe, juntando-se a nós o Jorge Pereira e o Rogério, com as respectivas mães. Acabado o exame, e tendo todos passado, fomos dar uma volta por Lisboa. No Rossio existiam muitas esplanadas e muitas “caricas” espalhadas pelo chão, algumas “raras” de encontrar em Torres Vedras. Comecei a apanhá-las e, às tantas, dei por mim, sozinho, no meio de uma imensidão de gente. Pouco depois encontrei o Jorge Pereira e, ainda mais à frente, o Rogério, todos perdidos das mães. Fomos andando até ao início da rua do Coliseu, ao lado do D. Maria. Aí juntou-se uma pequena multidão à nossa volta, até aparecer um polícia, que nos deu “vinte e cinco tostões” para irmos para casa (como se nós soubéssemos onde estávamos hospedados!). De repente, chegaram as nossas mães, muito aflitas, o Jorge levou logo uma palmada, a minha mãe, com o nervosismo, desatou a rir. Resolvido o assunto, e como o polícia já tinha desaparecido, comprei um gelado com o dinheiro que ele me deu e continuámos o nosso passeio, não acabando por aí a ventura. No Castelo de S. Jorge, chamado pelo Jorge para ver uns patos bébés, resolvi atalhar caminho por cima de umas nenúfares, mergulhando todo vestido num lago. Para mim, só havia plantas em terra firme, e não conhecia a capacidade das nenúfares de viverem no meio da aquático. Só regressámos aos nossos aposentos depois da roupa ter secado, ao sol, nas muralhas do Castelo de S. Jorge.

(Fotografia para o exame da 4ª classe. Só voltei a usar gravata para defender Tese de Mestrado!!)


Nos tempos de “hibernação” em casa, também “produzia” “revistas” de Banda Desenhada, com um único exemplar, o “Gavião” (“imitando” o Falcão), o “Pato Zé Zó”, imitando as revistas do Pato Donald, e outras tantas, onde colaboravam o meu irmão, o Janeca, o Marcos e o Carlos Ferreira.

Mais tarde, o gosto pela BD resultou na criação do fanzine Impulso no Liceu, juntando mais um “lote” de novos amigos para a vida (Mário Rui, Vilhena, Antero, Esteves, Zico, Calisto…).

Como o meu avô tinha uma papelaria, oferecia-me muitas revistas de BD, um dos passatempos caseiros, lendo as aventuras das revistas “Zorro”, “Falcão”, “O Foguetão” ou, mais tarde, o “TinTin”, sem esquecer a leitura das páginas dominicais do “Reizinho” e do “Príncipe Valente” do Primeiro de Janeiro ou dos Peanuts nas páginas do Diário de Lisboa.

Outro passatempo era a compra e troca de cromos, com vários temas, dos eternos jogadores de futebol, ao jogadores de hóquei, passando pelo filmes da Disney, pela história natural e de Portugal, pelos monumentos ou pelos cromos das pastilhas elásticas como os Beatles.

(A papelaria do meu avô, na 9 de Abril, onde me "abasteciam" de revistas de BD e cromos )


No Natal era obrigatória uma visita da miudagem do prédio à casa do Pedro e da São Rosado, pois o pai, o sr. Manuel Rosado, que hoje ainda vive nesse andar com mais de 90 anos, ocupava toda a marquise com um imenso presépio, cheio de figuras, noras em movimento, vários objectos animados. Era uma festa.

Também por essa altura, íamos aos Cucos apanhar musgo para os nossos presépio mais modestos. O meu era feitocom figuras de papel, pertencentes à minha mãe, com origem em figuras editadas pelas revistas da sua infância, o Diabrete, o Mosquito, ou o Cavaleiro Andante. Mais tarde a árvore de Natal, um pinheiro que o meu pai comprava, tornou-se dominante na época natalícia.

Anualmente, uma vez pelo Natal, outra vez pelo Verão, deslocava-me para “fora do Universo” da Praceta.

No Natal, ia com a minha mãe, de comboio, a Lisboa, à zona do Chiado para as compras de Natal, e lembro-me da forma como ficava a salivar com as montras cheias de brinquedos que eu nem imaginava que existiam.

No Verão, íamos todos de comboio, numa viagem interminável, até Coimbra, visitar os meus avós paternos.

Fomos fazendo outros amigos para a vida no Liceu e nas férias de Verão de Santa Cruz, e íamos crescendo à medida que o nosso universo se alargava, cada vez em maior velocidade, até chegarmos à idade adulta.

Muito fica por contar e recordar, mas aqui deixamos um pequeno apontamento de alguém que teve uma infância privilegiada, sem saudosismos balofos, nem confundindo os belos tempos da infância com os “negros” tempos da sociedade portuguesa de então.