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terça-feira, 15 de junho de 2021

Tão “liberais” que “nós” somos!!!

Tal como defendi as manifestações do 25 de Abril, do 1º de Maio, a realização da Festa do Avante e dos Congressos de vários partidos, não vi, à partida, nenhum problema na realização de um arraial de Stª António organizado pela Iniciativa Liberal (IL).

Defendi essas manifestações, desde que fossem respeitadas as regras imposta pela Direcção Geral de Saúde, e elas foram cumpridas nos primeiros casos citados.

Não o foram no evento da Iniciativa Liberal e, o pior, é que não foram cumpridas de forma deliberada e provocatória, comportando-se como “putos mimados da linha”.

Mas o pior nem foi isso.

Foi a grande intolerância manifestada pelas “barracas de tiro”. Nem o Chega se lembrou de tanto!

De facto, gente que se diz muito liberal e “educada”, revelou a sua verdadeira face.

Desde um manequim de “um comunista” (segundo a ideia preconceituosa dos líderes desse partido) até um alvo com as fotografias dos “socialistas” de todos os quadrantes, onde nem faltou a fotografia de Rui Rio, valeu de tudo para descarregar ódio e intolerância sobre os adversários.

Eu, que até achava piada a algumas das iniciativas desse partido, fiquei definitivamente esclarecido sobre as suas intenções.

Por detrás do rótulo “fofinho” de “liberais”, esconde-se a “direita” troglodita e rançosa de sempre.

Obrigado, pela iniciativa, pois ficámos esclarecidos sobre as verdadeiras intenções dessa gente.


sexta-feira, 11 de junho de 2021

Da “Bufaria”…ou o estranho caso da “casa” da Rússia!!


Ao longo da História portuguesa, a “bufaria” foi uma das actividades preferidas de gerações de portugueses.

Era assim nos tempos da “Inquisição”, foi assim nos tempos do Estado Novo, devendo este regime muita da sua longevidade a essa edificante actividade, e, ficamos a saber agora, mantem-se bastante activa nos nossos dias democráticos, nas redes sociais e entre autoridades oficiais.

Tudo isto a propósito de mais um “caso”, num país onde a política não se faz de projectos para o país e para os seus cidadãos, mas da exploração demagógicas de “casos”.

Tão bufo é quem (Câmara de Lisboa), num ataque de  “excesso de zelo”, resolve avisar os visados por manifestações, como é aquele (um tal Moedas) ,ou aqueles (comunicação social) que, meses depois do sucedido, denunciam, no momento político mais “adequado”, mais um caso, para gáudio das redes socias e para aumentar audiências.

Mas vamos por partes.

A notícia de que, em Janeiro último, foram fornecidos dados à embaixada russa em Portugal,  sobre os organizadores de uma manifestação anti-Putin, é gravíssima e uma vergonha para o nosso país.

Contudo, o “tempo e modo” como essa notícia foi divulgada, e tudo o que sobre o assunto se tem vindo a saber desde então, levanta uma série de dúvidas e interrogações.

Pelo que se sabe, tudo tem origem numa lei de Agosto de 1974, sobre a realização de manifestações, publicada poucos meses depois do 25 de Abril, dois anos antes de haver uma Constituição.

Mas…calma lá! Não venham já acusar o 25 de Abril ou o “gonçalvismo”!!!. Era óbvio que, derrubado um regime onde não eram autorizadas manifestações, a não ser as “manifestações espontâneas” de apoio a Salazar, era necessário legislar sobre aquilo que passou a ser uma “novidade”, o direito de manifestação.

Desconheço as alterações que essa lei conheceu ao longo dos tempos, mas, no essencial, até 2011, ela era da competência dos Governos Civis. Extintos estes, da forma atabalhoada que toda gente sabe, para “ir além da Troika”, “rapidamente e em força”, a competência de autorizar e organizar as manifestações passou para as Câmaras Municipais das capitais de distrito.

Que se saiba, a lei exige que se informe o município onde se realiza a manifestação, 48 horas antes, sobre o seu percurso e sobre os responsáveis pela sua organização. Se for um sindicato, um partido ou uma associação, não é necessário outro conjunto de dados, sendo fácil responsabilizar essas instituições pelo decorrer da mesma. Contudo, se a manifestação for convocada sem cobertura de instituições legais, a informação deve conter o nome de três organizadores, com as respectivas moradas e profissões, para se saber quem responsabilizar e para as autoridades poderem organizar os fluxos de trânsito e a segurança das mesmas.

Até aqui nada de mal.

O problema está no hábito de se avisarem as entidades, alvo da manifestação, o que também se pode justificar, mas essa informação nunca pode incluir os nomes dos organizadores, principalmente se estivermos perante regimes autoritários, que não respeitam os Direitos Humanos e, até, perseguem, raptam e assassinam os seus opositores fora do seu território nacional, que é o que acontece com a Rússia, mas também com regimes “amigos” como Israel e até já aconteceu com os Estados Unidos, a França e a Grã-Bretanha, sob o mesmo pretexto de Putin de “combater o terrorismo”, sem esquecer a perseguição política da nossa vizinha Espanha em relação aos nacionalistas catalães.

O que é estranho, em tudo isto, é o momento escolhido para denunciar essa situação.

Debitemos, então, algumas das estranhezas que este assunto nos desperta:

- se o caso se reporta a Janeiro último, foi conhecido pela Câmara de Lisboa em Abril, reconhecendo esta o “erro” e procedendo a mudanças de orientação quanto à forma de agir, a partir dessa data, e sendo o tema, segundo as palavras de um dos manifestantes visados, do conhecimento da comunicação social desde essas datas, porque é que só agora, no início de uma campanha autárquica, é que essa mesma comunicação social denuncia a situação?;

- se, já anteriormente, havia queixas desse procedimento, desta vez por parte de manifestantes em favor da causa palestinianas, e da forma como Israel e os seus assassinos da Mossad foram avisados, porque é que a mesma comunicação social e os mesmos políticos, que agora denunciam o caso dos manifestantes russos, não o fizeram, anteriormente, numa situação idêntica?

- por último, percebendo que os manifestantes denunciados às embaixadas, por “erro burocrático” ou excesso de zelo, se sintam preocupados com as suas vidas e as dos seus familiares, não  percebo porque não se coibiram de dar a cara na comunicação social, como se os serviços secretos russos precisassem dos dados do mail da Câmara para conhecerem e identificarem os manifestantes ou como se a embaixada não visse a televisão portuguesa?

É urgente averiguar quais foram os casos em que aquele procedimento burocrático colocou em perigo a vida de pessoas perseguidas, condenar os responsáveis, se se justificar, bem como alterar a lei de forma a proteger os cidadãos da violação de Direitos Humanos, sem desvirtuar o direito de manifestação.

quarta-feira, 2 de junho de 2021

Recordações à solta, dos tempos de infância.

(à porta de casa, na Praceta, 1º dia de escola, Outubro de 1962. O Pedro Rosado, o meu irmão Mário Luís, eu próprio e a minha prima São Rosado. Ao fundo o Tarique, o cão do Mabê)

A propósito do Dia da Criança, pus-me a recordar como foram os meus tempos de criança.

Tenho memórias dos meus 3 anos, vivia então numa vivenda no chamado "Bairro Lisboa", derrubada há poucos anos para dar origem a mais um incaracterístico  prédio de vários andares.

Era “Lisboa” porque esse era o apelido do proprietário das vivendas, mas também podia ter sido baptizado com o nome da capital porque ficava então no limite da vila, na estrada que ía para Lisboa.

Não nasci aí, mas essa é a minha primeira memória (do "mundo" só comecei a ter memórias em 1963, aos 7 anos, como a morte de Edith Piaf ou o assassinato do presidente Kenneddy...). As vivendas tinham um pequeno quintal de onde partia uma pequena escadaria, antecedendo a porta de entrada. Lembro-me das ambulâncias a entrar no hospital, quase em frente da vivenda. Conheci aí os primeiros companheiros de brincadeira. Eramos vizinhos dos pais da Manuela Moura Guedes, tendo ficado na memória, não na minha, mas contada pelos meus pais, uma célebre e dolorosa dentada que levei dela.

(Na escada de entrada da vivenda do Bairro Lisboa. Eu sou o de chapéu e rosto redondo. Os outros dois, segundo nota da foto tirada em Fevereiro de 1959, são o "Tó" e o "Zeca" (??))


Ainda antes de fazer os 4 anos, mudámo-nos para Coimbra e fomos viver para o Bairro das Colónias, na Rua de Guiné. Lembro-me de habitramos uma vivenda de dois andares, vivendo por baixo uma vizinha da minha idade. Não criei muitas raízes por aí, mas lembro-me do comboio que passava por perto e das visitas aos meus avós que viviam perto da Sé Velha e também do sossego desse bairro, afastado do centro de Coimbra, uma espécie de aldeia dentro da cidade.

Foi uma estadia de poucos meses e não deixou muitas memórias, regressando a Torres Vedras ainda com 3 anos, para a casa onde vivi o resto da infância, a juventude e o início da idade adulta, a casa da Praceta ( ainda sem nome na altura, mais tarde baptizada de Afonso Vilela), um prédio de 3 andares (hoje de 4) e onde conheci muitos dos amigos para a vida, não só os do mesmo prédio, mas os de prédios vizinhos ou outros que vinham brincar para aproveitar o sossego e a segurança do local, onde raramente passava um automóvel.

Quando para lá fui, existiam apenas quatro prédios com entrada pela praceta, o meu, o do Alfredo e do Zé Carlinhos, pegado ao nosso, e com quintais quase juntos, um, mais afastado, com um grande poço pelo meio, mais à esquerda (nascente) da entrada do nosso, e outro mais a sul, a poente, separado dos dois em vértice, acima referido, pelo caminho que ligava ao pátio por detrás do Venceslau, do lado poente. Existiam outros dois prédios, a sul, à saida da praceta, um de cada lado, mas com saida para a futura Rua dos Amigos de Olivença, que hoje separa as duas pracetas.

Os prédios tinham grandes quintais, onde muita gente tinha a sua pequena horta e árvores de fruto, ou onde se criavam galinhas e coelhos.

No meu quintal havia um limoeiro, uma videira, uma macieira (que nunca deu nada), sardinheiras e outras flores e um cacto trazido da praia de Santa Cruz. Num dos cantos, uma capoeira, onde a minha mãe criava galinhas, que íam “viver” para a marquise da minha casa em vésperas de nascerem os pintos. Aí também viveu o meu cágado, onde hibernava durante meses e passava outros dias na nossa casa. Eu cheguei a “ensaiar” criar formigueiros numa caixa transparente, obrigando as formigas do quintal a “emigrar”, mas com pouco êxito, pois elas depressa fugiam do formigueiro artificial, invadindo a casa, para desespero da minha mãe. Também “criei” caracóis em gaiolas, para fazer corridas.

Nas aventuras do quintal eramos muitas vezes acompanhados pelo Tarique e pelo Fleg, que aí tinham as suas casotas, cães de caça que pertenciam ao pai do Mabê. O Tarique (ver foto de cima), um grande cão pachorrento, fazia de cavalo para a miudagem…

Vou esquecer alguns, mas, par além do meu irmão Mário Luís, e do  Mabê, “viviam” no quintal e na “praceta” o Nanan a Guigui, o Alfredo, a Ana Maria. a Graça e o Emílio Gomes, o Pedro e a Sãozinha Rosado, estes dois últimos meus primos em segundo grau e vizinhos do andar do lado, o Zé Carlinhos, o João Camilo, o Luís Rodrigues, o Janeca, o Rui e a Paulina Belchior, a Bélinha e, mais tarde, a Peta e a Paula Brás, a Nini, o Raul, o Carlos e o Marcos Ferreira e tantos outros, alguns de prédios ou ruas vizinhas ou familiares dos “pracenterenses”.

Havia uma certa hierárquia na formação dos grupos da brincadeira: em primeiro lugar, os vizinhos do mesmo prédio, depois os vizinhos do prédio ao lado, com o quintal encostado ao nosso, depois amigos e familiares comuns que visitavam os membros do "bando". As raparigas não tinham muito lugar no grupo, a não ser que fossem irmãs de alguém. O mais velhos (poucos), isto é, com mais 2 ou 3 anos de diferença, o os mais novos, com mais de 4 anos de difrença, a não ser irmãos, também não tinham lugar facilitado.

Por vezes os grupos de cada prédio entravam em guerras de pedrada entre eles, guerras que terminavam, muitas vezes, com aintervenção da avó do Alfredo, que acabava com tudo à vassourada, depois de termos partido algum vidro, e a paz era rápidamente restabelecida.

Lembro-me também de um caso curioso. Quando no prédio soubemos que vinham uns novos vizinhos para o andar de baixo do meu, correu o rumor, para tristeza de todos, que os filhos do novo casal já eram "muito velhos", isto é tinham 15 ou 16 anos. Afinal não era bem assim. Um deles (o António João) era, de facto, mais velho, com essas idades, e não se misturava connosco, mas o outro, o Janeca, era até mais novo do que a maior parte de nós.

Recordo-me do dia em que integrámos o Janeca no grupo do prédio. Tinhamos construido uma cidade, em cima de uma grande porta de madeira velha, deitada num canto comum do quintal, coberta com terra e relva, com "estradas" desenhadas pelo meio, onde "circulávamos" com os nosso carrinhos, quando apareceu um míudo novo (o Janeca), brincando sózinho, num canto, com um carrinho muito sofisticado, que virava as rodas da frente, um grande "avanço tecnológico". Ficámos todos curiosos com o carrinho e conferenciámos entre nós a melhor maneira de o abordarmos. Uns propunham que lhe roubássemos o carro, aproveitando o facto de sermos mais e, alguns, "mais crescidos", outros, que lhe propusessemos deixá-lo brincar connosco, em troca de nos deixar brincar com o carrinho dele. Prevaleceu o bom senso, falámos com ele e o Janeca deixou-nos brincar com o seu carrinho e, desde aí, tornou-se membro do grupo de pleno direito.

(O Mabê e eu, frente ao nosso prédio, primeiro dia de escola primária, Outubro de 1962)
(A GuGui, irmã do Mabê, à porta do prédio, em Março de 1963)

A Praceta era o nosso sol e os quintais dos prédios, os planetas circundantes, as ruas e os pátios em redor, o universo profundo.

Daí só saímos para a escola primária,  perto do cemitério, num caminho de terra batida (ainda não havia Henriques Nogueira), rodeado de vinhas e trigais.

Mais tarde “aventurámo-nos” para um pouco mais longe, para o Liceu, a Escola Técnica, ou a Física, situadas onde está hoje a sede do município.

No Verão, a praceta enchia-se de miudagem a inventar aventuras, a aprender a andar de bicicleta, a jogar à bola e a tantos outros jogos, como as escondidas ou a apanhada, ou em guerras de pedrara, mais tarde nos primeiros “namoros”. Num certo ano resolvemos jogar hóquei, uns com patins muitos rudimentares, outros nem com isso, mas alguém da Física, que ficava a poucos metros da praceta, reparou nos miúdos e levou-nos para essa associação para formar as primeiras equipas de infantis e juniores. Muitos vieram a destacar-se nessa modalidade e pelo menos um , o Luís, ainda treina os miúdos de hoje.

Na praceta não fabricávamos carrinhos de rolamentos, porque não havia “inclinação” para os mover, mas muitas vezes íamos ver as “actuações” dos nossos “vizinhos”, os “malucos das máquinas de rolamentos” da Álvaro Galrão, uma das ruas mais íngremes da vila, a rua onde vivi os meus dois primeiros anos de vida, mas não tendo qualquer recordação desse tempo.

O dia acabava com as mães a chamarem cada um de nós para o jantar, mas no Verão voltávamos à rua, até ser noite.

Havia dias especiais: o Carnaval, ficando a praceta no meio do corso, que circulava pelas ruas vizinhas, e era por isso vivido com muito entusiasmo por todos nós; o Santo António, onde  organizávamos as festas do bairro, enfeitadas com as bandeiras de papel recortadas por nós e coladas com uma mistura de água e farinha, sendo também pretexto para a grande aventura de ir até aos Cucos apanhar as parras de palmeira, enquanto o Venceslau fornecia as sardinhas, o vinho e a gasosa. Com o início do Verão tinha lugar o cinema ao ar livre no ringue da Física, o chamado “Cine Esplanada”. Como a maior parte dos filmes eram para maiores de idade, eram exibidos à noite ou não havia dinheiro para cinema, nas noites de sessão, naquelas em que nos conseguíamos afastar da praceta sem os nossos pais darem por isso, a miudagem rumava para o sítio da hoje chamada escola do avião e “assistiamos” ao filme nas traseiras do écran, por vezes apenas sombras e luzes, e ouvindo as conversa em inglês, que ninguém entendia mas nos permitiam uma noite de emoções. Havia ainda a Feira de S. Pedro, na várzea, onde esgotávamos a parca mesada nos carroceis e nos carrinhos de choque. No Verão, alguns sortudos íam para a praia passar um dia, um mês ou os três meses de férias, conforme as posses da família de cada um, ou para a piscina do “Vimeiro” aos fins-de-semana. Também por essa época juntava-se a minha famíla e a do Mabê no Casal da Paúl, para animadas churrascadas de Verão. Havia também o dia da passagem do Rally de Portugal, por uma rua próxima da praceta, ou de alguma etapa da volta a Portugal em Bicicleta.

(Em Santa Cruz em 1963)


Havia ainda outro local de encontro da rapaziada, o desfile anual dos atletas da Física, onde alguns andavam na ginástica, recebendo eu, nesse dia, as únicas medalhas da vida, “ouro”, “prata” ou “bronze”, não por qualquer acto de “bravura”, mas de acordo com o número de faltas dadas ao longo do ano. Como estava sempre com alergias e faltava muito, que me recorde nunca recebi a medalha de “ouro”.

(eu a receber a medalha na Festa da Física de 9 de Junho de 1961, das mãos do pai do Victor César. Na mesa estão o sr. Vasco Parreira, administrador da Casa Hipóito, o presidente da Câmara, Teixeira de Figueiredo e António Hipólito Júnior)

(Eu, de medalha ao peito, com o Professor Dieguez, em 1965)
(A minha turma de ginástica no desfile da Física em 1966. Sou o terceiro na fila da frente, da direita para a esquerda.São visiveis o Lipa, o Zé Paulo Duarte, o Bacelar e outros rostos que não me são desconhecidos, mas não me lembro do nome)

No Inverno as brincadeiras ficavam mais por casa, pelas varandas das traseiras ou, na melhor das hipóteses, pelo quintal, e restringiam-se aos moradores do prédio.

Brincava-se com as caricas, construindo-se com elas e com os carrinhos feitos de caixas de fósforos, com rodas de rolha, grandes países, onde por vezes entrávamos em “guerra” com o país de caricas dos vizinhos. Outras vezes fazíamos com essas caricas (tampinhas de refrigerantes) corridas de “bicicleta” (que se prolongavam nas areias da praia de Santa Cruz), “jogos Olímpicos”, viagens “espaciais” ao ´´armário mais alto lá de casa. Eu cheguei a fazer um jornal manuscrito sobre a vida do meu “país das caricas”.

O “mundo” das caricas permitiu-me “viajar” para mais longe, para a casa do Carrilho ou do To Zé, quase no extermo oposto da vila, gosto partilhado também com o Jorge Pereira.

A “loucura” pelas caricas motivou, aliás, uma das maiores aventuras desses dias de criança. O exame da 4ª classe era feito em Lisboa, no Liceu Passos Manuel e, nessa ocasião, fiquei alguns dias hospedado em Lisboa com a minha mãe, juntando-se a nós o Jorge Pereira e o Rogério, com as respectivas mães. Acabado o exame, e tendo todos passado, fomos dar uma volta por Lisboa. No Rossio existiam muitas esplanadas e muitas “caricas” espalhadas pelo chão, algumas “raras” de encontrar em Torres Vedras. Comecei a apanhá-las e, às tantas, dei por mim, sozinho, no meio de uma imensidão de gente. Pouco depois encontrei o Jorge Pereira e, ainda mais à frente, o Rogério, todos perdidos das mães. Fomos andando até ao início da rua do Coliseu, ao lado do D. Maria. Aí juntou-se uma pequena multidão à nossa volta, até aparecer um polícia, que nos deu “vinte e cinco tostões” para irmos para casa (como se nós soubéssemos onde estávamos hospedados!). De repente, chegaram as nossas mães, muito aflitas, o Jorge levou logo uma palmada, a minha mãe, com o nervosismo, desatou a rir. Resolvido o assunto, e como o polícia já tinha desaparecido, comprei um gelado com o dinheiro que ele me deu e continuámos o nosso passeio, não acabando por aí a ventura. No Castelo de S. Jorge, chamado pelo Jorge para ver uns patos bébés, resolvi atalhar caminho por cima de umas nenúfares, mergulhando todo vestido num lago. Para mim, só havia plantas em terra firme, e não conhecia a capacidade das nenúfares de viverem no meio da aquático. Só regressámos aos nossos aposentos depois da roupa ter secado, ao sol, nas muralhas do Castelo de S. Jorge.

(Fotografia para o exame da 4ª classe. Só voltei a usar gravata para defender Tese de Mestrado!!)


Nos tempos de “hibernação” em casa, também “produzia” “revistas” de Banda Desenhada, com um único exemplar, o “Gavião” (“imitando” o Falcão), o “Pato Zé Zó”, imitando as revistas do Pato Donald, e outras tantas, onde colaboravam o meu irmão, o Janeca, o Marcos e o Carlos Ferreira.

Mais tarde, o gosto pela BD resultou na criação do fanzine Impulso no Liceu, juntando mais um “lote” de novos amigos para a vida (Mário Rui, Vilhena, Antero, Esteves, Zico, Calisto…).

Como o meu avô tinha uma papelaria, oferecia-me muitas revistas de BD, um dos passatempos caseiros, lendo as aventuras das revistas “Zorro”, “Falcão”, “O Foguetão” ou, mais tarde, o “TinTin”, sem esquecer a leitura das páginas dominicais do “Reizinho” e do “Príncipe Valente” do Primeiro de Janeiro ou dos Peanuts nas páginas do Diário de Lisboa.

Outro passatempo era a compra e troca de cromos, com vários temas, dos eternos jogadores de futebol, ao jogadores de hóquei, passando pelo filmes da Disney, pela história natural e de Portugal, pelos monumentos ou pelos cromos das pastilhas elásticas como os Beatles.

(A papelaria do meu avô, na 9 de Abril, onde me "abasteciam" de revistas de BD e cromos )


No Natal era obrigatória uma visita da miudagem do prédio à casa do Pedro e da São Rosado, pois o pai, o sr. Manuel Rosado, que hoje ainda vive nesse andar com mais de 90 anos, ocupava toda a marquise com um imenso presépio, cheio de figuras, noras em movimento, vários objectos animados. Era uma festa.

Também por essa altura, íamos aos Cucos apanhar musgo para os nossos presépio mais modestos. O meu era feitocom figuras de papel, pertencentes à minha mãe, com origem em figuras editadas pelas revistas da sua infância, o Diabrete, o Mosquito, ou o Cavaleiro Andante. Mais tarde a árvore de Natal, um pinheiro que o meu pai comprava, tornou-se dominante na época natalícia.

Anualmente, uma vez pelo Natal, outra vez pelo Verão, deslocava-me para “fora do Universo” da Praceta.

No Natal, ia com a minha mãe, de comboio, a Lisboa, à zona do Chiado para as compras de Natal, e lembro-me da forma como ficava a salivar com as montras cheias de brinquedos que eu nem imaginava que existiam.

No Verão, íamos todos de comboio, numa viagem interminável, até Coimbra, visitar os meus avós paternos.

Fomos fazendo outros amigos para a vida no Liceu e nas férias de Verão de Santa Cruz, e íamos crescendo à medida que o nosso universo se alargava, cada vez em maior velocidade, até chegarmos à idade adulta.

Muito fica por contar e recordar, mas aqui deixamos um pequeno apontamento de alguém que teve uma infância privilegiada, sem saudosismos balofos, nem confundindo os belos tempos da infância com os “negros” tempos da sociedade portuguesa de então.

segunda-feira, 31 de maio de 2021

À Direita, muito fel, pouco “MEL”.

 

(cartoon de ANTÓNIO GASPAR)

A direita portuguesa tem andado muito activa nas últimas semanas.

“Ele” foi a Convenção do MEL (Movimento Europa e Liberdade)!

“Ele” foi o 3º Congresso do Chega!

Em ambos os eventos, a direita assumiu um discurso cada vez mais extremista, intolerante e arrogante.

Para o país, nem uma ideia nova.

Sobre o Chega estamos “falados”, já sabemos ao que vem, assumindo-se como partido extremista da direita, no próprio discurso do líder, xenófobo nas atitudes, que vem para “limpar o país”, sabendo nós o que representa essa “limpeza”.

Da Convenção do MEL esperava-se um pouco mais, mas o que ficou foi o branqueamento e a recuperação do salazarismo, pela mão de uma “eminente” historiadora, Fátima Bonifácio, foi o ressuscitar de Passsos Coelho e do ir “além da Troika”, e foi a “normalização” do CHEGA.

Não deixa de ser curiosa a recuperação da figura de Salazar numa convenção que se intitula da “Europa” e da “Liberdade”, se nos lembrarmos que Salazar foi o construtor e o símbolo da mais longa ditadura da nossa história nos últimos cem anos e o defensor do “orgulhosamente sós”.

Apelidar o movimento que defende tais ideias de “Europa e Liberdade”, faz lembra as velhas designações  de Repúblicas “Democráticas” e “Populares” dos regimes ditos “comunistas” do leste ou da actual Coreia do Norte.

Não se ouviu uma palavra sobre o que essa gente pensa dos problemas do país: a crise da habitação, os salarios baixos, a precariedade do emprego, as desigualdades socias, a corrupção. Quanto muito, mas de forma dissimulada, defendeu-se a redução ou mesmo a total ausência do  Estado na educação e na saúde, com a privatização de tudo, menos da justiça e da segurança, a entregar à “gente de bem”.

O silêncio sobre essas questões contrastou com o “ruído em surdina” à volta do sebastianismo de Passos Coelho, atitude que é suficiente para ficarmos a conhecer, nas entrelinhas do endeusamento do ex-primeiro-ministro, o “programa” social para o país: o revanchismo do “mais do mesmo”,  do “ir além da troika”, ou seja, privatização do Estado, entregue à gestão de amigos e “empresários de bem”, brutal aumento de impostos para as classes médias, esmagamento dos direitos sociais, cortes salariais, precariedade do emprego, substituição da solidariedade social pela caridadezinha, total submissão aos ditames do corrupto sector financeiro, pois esse foi, até agora, em democracia, o único programa executado pela direita mais consequente, a do “passos-coelhismo” (o outro "programa" conhecido foi o do salazarismo).

Por último, a terceira “cereja” no "pote" do MEL, a promoção de André Ventura e do seu discurso assumidamente extremista no seio da família da direita, contrastando com o desprezo demonstrado pelas posições moderadas da direita, representadas por Rui Rio, um dos bombos dessa “festa”.

Da direita sobra pouco “mel” e destila-se, cada vez mais, muito “fel”!

quarta-feira, 26 de maio de 2021

Israel e Bielorrússia, os dois pesos e duas medidas da União Europeia.


O desvio de um avião de passageiros é um acto de terrorismo.

Quando esse acto ignóbil é organizado pelo governo de um Estado, reconhecido internacionalmente, estamos perante um acto de terrorismo de Estado que tem de ter uma resposta firme da comunidade internacional.

Foi isso que fez, e bem, a União Europeia, com rapidez e firmeza, rapidez e firmeza pouco habitual noutras situações.

Ainda recentemente tivemos uma semana de acções criminosas levada a cabo por um Estado “amigo” da União Europeia, o Estado de Israel.

Aliás, essa acção criminosa levada a cabo por Israel, ao contrário do acto de pirataria promovido pelo ditador Lukashenko, provocou mais de duas centenas de mortos, a maior parte civis.

Ao contrário do que aconteceu agora, a União Europeia, e o mesmo podemos dizer da NATO,  foi demorada e tímida e parca a condenar os crimes israelitas.

O que nos leva a concluir que a União Europeia usa dois pesos e duas medidas, para tomar posição contra actos tresloucados de figuras repugnantes como um Lukashenko ou um Natanyahu, cada um à sua maneira, “exemplos” de  “democratas iliberais”.

Aliás, tanto a União Europeia, como a NATO, têm os seus telhados de vidro, como Viktor Orbán no seio da UE, que tem seguidores em todos os países do leste, e não só, ou Recep Erdogan, na Turquia, país este com um dos mais poderosos exércitos da NATO.

Lukashenko, Natanyahu, Erdogan, Órban , tal como Putin, Maduro, Bolsonaro e, cada vez mais, tantos outros por esse mundo fora, estão todos ao mesmo nível no desrespeito pelos Direitos Humanos, pala Liberdade e pela Democracia.

Mas na União Europeia parece que,se são todos autoritários e repelentes, …. alguns são mais autoritários e repelentes do que outros!!!

domingo, 16 de maio de 2021

quarta-feira, 12 de maio de 2021

Quem Estragou a Festa, pá!!???


Aquilo a que assistimos ontem, no exterior do Estádio de Alvalade, foi lamentável, a todos os níveis e levanta várias interrogações.

Sem distanciamento, com máscaras mal colocadas ou sem elas, com comportamentos a roçar o puro vandalismo, milhares de adeptos puseram em causa todas as medidas sanitárias recomendadas.

Veremos qual a situação epidemiológica na Grande Lisboa daqui a 15 dias, para percebermos melhor as consequências desse comportamento.

Existem, à partida, vários responsáveis pela grave situação a que assistimos ontem:

- em primeiro lugar a claque “Juventude leonina”, conhecida por agir acima da lei e de forma impune, com comportamentos arruaceiros no seu historial( tal como outras claques de outros clubes), instalando ilegalmente um sistema de som e imagem de grandes dimensões, quando um simples evento de rua tem grandes dificuldades em ser autorizado, nas actuais circunstâncias;

- em segundo lugar, as autoridades, em última instância o Ministro da Administração Interna, que, tendo olhos para ver como qualquer cidadão que passasse pelo local a partir das 15 horas ou visse as imagens televisivas, tiveram mais do que tempo para por cobro à situação ou, no mínimo, criar condições de segurança sanitária para os festejos. Aliás, só agiram na pior altura, no intervalo do jogo, quando já não era possível controlar a situação, a não ser da forma violenta e desproporcionada como acabou por acontecer ;

- em terceiro lugar, as televisões que, ao desculpabilizarem e desvalorizarem a dimensão da situação, “incentivaram” os adeptos a deslocarem-se em massa ao local;

- em quarto lugar, alguns “epidemiologistas” e comentadores , que se prestaram a essa desculpabilização e a essa desvalorização. Curiosamente alguns desses “especialistas” foram os mesmo a indignar-se com a realização das comemorações do 25 de Abril, do 1º de Maio, da Festa do Avante ou do Congresso do PCP. Contudo, qualquer comparação com estes eventos é puro absurdo, já que estes tiveram lugar de forma ordenada, com regras rigorosas de controle sanitário e com o distanciamento devido, em alturas,  pelo menos nalguns casos, em que a situação era menos grave;

- em quinto lugar, mas beneficiando da cumplicidade e complacência das entidades acima referidas, o comportamento arruaceiro de alguns adeptos, provocando a polícia e que muito contribuiu para o desfecho violento desses festejos.

E já agora, onde param os indignados das redes socias, sempre tão prontos a destilar o veneno da sua intolerância contra o 25 de Abril, o 1º de Maio, a Festa do Avante ou o Congresso do PCP??

Depois do que vimos ontem, o que dirão os organizadores de Festivais, os trabalhadores e empresários dos Circos, os donos de carrocéis, os donos de discotecas e bares?

De certeza que qualquer destes eventos se pode realizar em melhores condições de segurança sanitária do que os festejos de ontem.

Se a culpa voltar a morrer solteira, preparem-se para o que pode vir a seguir!!

terça-feira, 4 de maio de 2021

Carlos Bernardes, o Homem!


Torres Vedras entardeceu, em choque, na tarde desta 2ª feira.

O Presidente da Câmara tinha falecido, em circunstâncias ainda não devidamente esclarecidas, embora tudo aponte para suicídio.

Antes de ser presidente, conheci Carlos Bernardes noutras ocasiões.

Em três delas, por volta de 1990, realizámos juntos três visitas de estudo com alunos de Torres Vedras, uma a Sevilha, outra a Ceuta e outra à Mealhada, Almeida e Salamanca, eu como professor acompanhante de turmas e alunos, no primeiro caso, e como júri de um concurso sobre as invasões francesas nos dois outros, ele como responsável da Câmara.

Carlos Bernardes foi sempre um simpático, alegre e bom companheiro, e , desde então, sempre nos fomos encontrando por aí, com respeito e amizade.

Mais tarde, já com ele como vereador, tive a honra de ser seu professor numa disciplina de História da Arte da licenciatura de Turismo, revelando-se aluno inteligente, atento, curioso e empenhado, homem alegre e simples, mas já então um pouco tímido, tratando-me sempre, a partir daí, de forma carinhosa, com um “como vai professor?”.

Não partilhando as mesmas posições política, embora não tão distantes como isso, tal nunca impediu uma relação de respeito mútuo.

Cometeu alguns erros, como o de se deixar deslumbrar pelo título de “Doutor”, mais por ingenuidade e para se afirmar no meio de “tubarões da política”, do que pela necessidade real de provar o quer que fosse.

De facto, ele não precisava do “título” para chegar onde chegou. Bastava o seu entusiasmo, entrega e empenho em tudo o que fazia na Câmara, em prol daquilo que ele acreditava que era o melhor para os torrienses.

Foi um empenhado militante em defesa das questões ambientais, muito antes de estas se tornarem a “moda” nos nossos dias.

Apesar dos erros,  deu sempre provas de uma grande entrega à comunidade, como se revelou neste últimos meses pelo modo como dirigiu o combate local à epidemia, o que lhe custou ter sido  ele próprio contaminado e  sofrer um grave acidente de automóvel, devido ao desgaste do stress causado pela grave situação sanitária em que vivemos.

Por trágica ironia,  quis o destino  que um dos seus últimos actos públicos tenha sido a inauguração do popularmente designado “Museu do Carnaval”, uma causa que o motivava e onde colocou todo o seu empenho e entusiasmo. Mesmo assim não escapou à polémica.

Ultimamente, vivia uma situação de grande desgaste político, devido a cisões no seio da sua família política e a um confronto directo e violento com elementos da sua vereação.

Teve razão em afastar uma vereadora, por suspeitas, não esclarecidas e provavelmente infundadas, de corrupção, quando devia ter sido a própria vereadora a colocar o seu lugar à disposição, até ao devido esclarecimento dos factos , mas falhou ao não permitir, ou outro por si, o devido esclarecimento público da situação.

A tudo isso temos de juntar o efeito nefasto das redes sociais, onde, em vez de se discutirem ideias e projectos e se recorrer à crítica fundada, Carlos Bernardes, homem sensivel, era vítima constante de autêntico “bulling”, com ataques e insultos boçais e tentativas de humilhação pessoal.

Estes eram alguns dos momentos tensos que se viviam em Torres Vedras, que podem ter contribuído para uma situação de excessivo strees, que conduziu a tão trágico desfecho.

Como cidadão, espero que os motivos próximos desta tragédia sejam devidamente esclarecidos.

Como amigo, ficarão sempre na memória os momentos de leal e são convívio vividos no passado.

Que tenha encontrado a paz que procurava.

Os sentidos pêsames à família.

segunda-feira, 3 de maio de 2021

“Torres Vedras Amordaçada”, na opinião de Duarte Pacheco


Foi preciso assistir a um programa humorístico na SIC, para ser confrontado com o absurdo das afirmações do candidato da coligação de centro-direita à Câmara de Torres Vedras, o deputado Duarte Pacheco.

Afirmou o candidato, na sessão de apresentação realizada a semana passada em Torres Vedras, qualquer coisa como “existir” medo em Torres Vedras de falar e fazer oposição ao poder “socialista”, que governa a Câmara local há 45 anos, e “existir” perseguição aos seus autores.

Sou muito crítico da governação “socialista” e só votei 2 ou 3 vezes no PS para a Câmara e outras tantas para a junta de freguesia, em quase uma dúzia de eleições autárquicas.

Já escrevi, por aqui e na imprensa local, muitas críticas ao poder autárquico do PS e fiz oposição ao mesmo, na Assembleia Municipal, por uma meia dúzia de anos, mas nunca me senti perseguido ou impedido de manifestar as minhas críticas ao longo poder “socialista”.

Fiquei surpreendido com a escolha do PSD para a candidatura, como se não houvesse por cá gente, dessa área política, com condições para disputar as eleições locais.

Essas afirmações veem confirmar a meu espanto por essa escolha.

Considero, aliás, que este é um autêntico “tiro no pé” do PSD e do CDS locais, num ano em que até existem condições para disputar, de forma renhida, o poder “socialista”, mas, se há novidades, elas não veem da coligação de centro-direita.

Parece que, desta vez, dominou o espírito provinciano e futebolístico de apostar em figuras públicas, da “rádio e da TV”, pouco conhecedoras da realidade local e com pouca ligação ao meio.

Ao que parece, o candidato andou a estudar por cá, nos tempos da juventude , tal como aconteceu a muito boa gente da sua geração dos concelhos vizinhos, sem que dele se conheça qualquer ligação posterior à vida do concelho, a não ser uns escritos no jornal “Badaladas”, a partir do seu lugar como deputado, mera propaganda política sem qualquer conteúdo de interesse local.

Mas, o pior de tudo, foram as tais afirmações, descrevendo este concelho como uma espécie de ilha totalitária, onde domina a perseguição e o terror político.

Quando não se apresentam ideias novas, argumenta-se com o absurdo.

Ainda bem, para quem é dessa área política,  que o centro direita tem duas alternativas credíveis a essa triste candidatura vazia de ideias.

sexta-feira, 30 de abril de 2021

Arruaceiros ao Poder…os outros já dirigem o futebol!

(caricatura de Herman José à candidata Suzana Garcia)

Parece que o que está na moda na política já não é debater projectos e ideias, mas sim ver quem grita mais alto ou diz o maior disparate ou a maior alarvidade.

É isso que dá direito a comentários nas redes socias ou a aparecer em programas de reality show e nos debates televisivos, para aumentar audiências e ganhar votos.

Suzana Garcia, a candidata à Câmara da Amadora do PSD, é a prova mais recente do grau zero a que chegou o debate político.

Confesso que não me recordo, nas últimas décadas, de ouvir alguém em Portugal, candidato num partido com representação parlamentar, ou mesmo noutros, defender a “exterminação” de adversários políticos.

Foi isso que a candidata afirmou, numa entrevista a um programa de reality show: “Eu espero mesmo que o Bloco de Esquerda seja EXTREMINADO”.

Depois, questionada pelo entrevistador sobre se defendia o mesmo para o CHEGA, acabou por dar a resposta “politicamente correcta”, para parecer independente : “Também”.

Confesso que, desde o nazismo, não me lembro de alguém defender em público a “exterminação” de adversários ou de quem quer que fosse (o que não quer dizer que não se tenha feito, mas raramente assumindo).

O nível arruaceiro a que já estamos habituados no meio futebolista, como tivemos ocasião de assistir ainda na última semana, parece ter agora descido de vez ao mundo da política, tanto mais que não estamos a falar de uma candidata de um qualquer grupo marginal, da direita ou da esquerda, mas da candidata de um partido responsável, fundador da democracia.

Estranho também é o silêncio das redes socias, sempre tão indignadas quando o disparate vem da esquerda, revelando o grau de infiltração e influência, nesse meio, do extremismo de direita, de onde é oriunda a boçal Suzana Garcia.

A arruaça, dominante nos debates das redes sociais, parece estra agora preparada para tomar conta do poder do debate político.

sexta-feira, 23 de abril de 2021

Mais um “servicinho” do Expresso ao Chega


Este é mais um daqueles títulos falaciosos e tendenciosos, à “correio da manhã”,  a que o Expresso nos tem vindo a habituar nas últimas duas décadas.

Está feito para dar força à voz daqueles que não acreditam no regime democrático e que procuram todos os argumentos para o denegrir.

O título não é inocente, serve para alimentar o comentário fácil de cinco tipos de gente que convive mal com a democracia e os seus defeitos:

- os saudosos da “democracia orgânica” do Estado Novo;

- os saudosos das “democracias populares” de triste memória;

- os ultra neoliberais  que acham que a “verdadeira democracia” só existe com a total privatização da economia e sem direitos sociais;

- os defensores de uma “IV República” para os “portugueses de bem”;

- os anarcas de todas as tendências, estes talvez os únicos bem intencionados.

Para todos esses, por razões diferentes, não havendo uma “democracia plena”, então a democracia em que vivemos não merece ser defendida.

Contudo, olhando com atenção para os dados da sondagem em causa, os resultados não são exactamente aqueles que o título falacioso do Expresso pretende.

De facto, se me colocassem a  questão, eu responderia aquela que foi, de facto, a opção mais votada: “Portugal é uma democracia…apesar de ter pequenos defeitos” (47% dos inquiridos).

Não foi idêntica a essa a reposta de Churchill,  uma das figuras mítica da democracia liberal?

Aliás, não deixa também de ser estranho que o dito inquérito não inclua a possibilidade de uma resposta intermédia, entre o de a democracia “ter pequenos defeitos” e o de a democracia ter “muitos defeitos”.

Para mim, a mais correcto era, exactamente, a resposta intermédia, inexistente nesse inquérito algo tendencioso : “Portugal é uma democracia com ALGUNS defeitos”, e por isso é preciso lutar todos os dias por melhorá-la, em vez a denegrir.

O título correcto, se não houvesse intensão de  manipular a informação, era " 57% acreditam que Portugal é uma democracia plena ou com pequenos defeitos".

Mas isso pouco interessa aos responsáveis pelo tendencioso título do Expresso, mais um bom contributo para a “causa” do Chega e afins.

segunda-feira, 12 de abril de 2021

A Corrupção é “um lugar estranho”.

 


A leitura da decisão instrutória da “Operação Marquês”, ao contrário do que uma opinião apressada, ignorante, tendenciosa e cega pode fazer crer, foi uma autêntica lição sobre a forma como a grande corrupção em Portugal funciona e como a nossa lei e a  nossa justiça se mostram incapazes de a combater eficazmente.

Mostra também que aquilo que qualquer cidadão comum, gozando de plenas capacidades mentais, identifica como corrupção, está, muitas vezes, protegido pela lei ou pela impossibilidade da prova.

Muito do que consideramos como eticamente reprovável, vulgo “corrupção”, é “apenas” isso, eticamente reprovável, mas está  protegido pela lei ou pelo silêncio.

Aliás, a grande corrupção não é mais nem menos que a “ética do capitalismo” e da “economia de mercado”.

Como diz a voz popular, uma grande fortuna esconde um grande crime.

Olhando para a história do capitalismo, este desenvolveu-se, ao longo dos seus vários séculos de história, com base nos crimes mais hediondos: na pirataria e no saque da propriedade e dos recursos alheios, no esclavagismo, no genocídio, no crime organizado, na guerra, na destruição dos ecossistemas e, mais recentemente, no branqueamento de capitais, na fuga aos impostos, nos negócios de armamento e da droga.

A dificuldade em seguir as movimentações de dinheiro , obtido pela corrupção, agravou-se pela   forma como funciona a globalização e a circulação de capitais, e pela forma como o poder financeiro está, há muito, contaminado pela origem duvidosa da maior parte dos seu capital (branqueamento de capitais oriundo do crime organizado, da especulação financeira , da fuga de impostos, do negócio ilegal de armamento, alimento do terrorismo internacional e de regimes criminosos…), pela manutenção de paraísos fiscais, não deixando de ser “surpreendente” que a própria União Europeia, sempre pronta ao discurso “politicamente correcto” do “ataque à corrupção”, permita a existência, no seu seio, desses mesmos paraísos fiscais, como acontece, por exemplo, com a Holanda, cujos governos estão sempre prontos a defender a retirada de direitos socias aos países pobres da UE e a defender a austeridade dos outros, mas que é um país historicamente fundado nos lucros da pirataria, do esclavagismo e do colonialismo, devendo , actualmente, a sua prosperidade económica à forma como protege as grandes empresas de pagarem impostos no território onde operam, prejudicando países como Portugal. Mas não é caso único no seio da UE.

Infelizmente, as “alternativas” históricas ao modelo capitalista mostraram-se tão criminosas como este, nalguns casos ainda mais corruptas e desumanas.

Uma outra vantagem deste processo é mostrar que, apesar de tudo, a forma como a democracia enfrenta este tema da corrupção é sempre superior ao de qualquer ditadura. Pelo menos os cidadãos sabem agora com que justiça contam e podem agora exercer, com mais coerência, o seu direito de cidadania, que é o de exigir alterações na lei, principalmente no que respeita à obtenção de provas, na alteração ao escandaloso arrastamento dos processos e  ao ignóbil principio da “prescrição” da prova.

Acima de tudo, o cidadão tem o dever de não pactuar com a corrupção, que começa nos actos mais simples do dia a dia e termina no favorecimento de fortunas ilícitas.

Muitos dirão, do alto da sua ignorância e da sua intolerância, que na “ditadura” não havia corrupção.

“Não havia” porque não se podia falar nela, sob ameaça da censura ou de prisão, para além dos corruptos serem protegidos pelo poder, com leis, tribunais e uma polícia politica que obrigava ao silêncio

Mas a ditadura, qualquer uma, é a pior de todas as corrupções, que é a usurpação do poder sobre um país ou um povo, em benefício de uma pessoa, de uma elite, de uma religião, de uma ideologia, de  uma classe ou de um partido.

Por isso, apesar de a decisão instrutória da “Operação Marquês” poder não ser o que esperávamos, embora a história ainda não tenha terminado, ela teve o condão de nos alertar sobre os “caminhos da corrupção”, para as limitações da lei e da justiça no combate à grande corrupção, e para a necessidade de estarmos todos muito mais atentos ao que se passa à nossa volta.

Agora é a vez da cidadania.

sexta-feira, 9 de abril de 2021

Calma! Sócrates ainda não se safou! (...antes pelo contrário...ou ...aprendendo com Al Capone!)


Não tendo seguido em pormenor a sessão de hoje da leitura do  processo contra José Sócrates, houve duas ou três coisas que, mesmo assim, percebi e ficaram evidentes:

- a total incompetência do Ministério Público pela  forma como investiga os crimes de corrupção de colarinho branco. Já tinha sido assim como BPN e com o caso dos “Submarinos”, aconteceu agora com a “operação marquês”;

- a total incompetência do juiz Carlos Alexandre na forma como conduziu a acusação, acusando primeiro e procurando as provas depois e deixando escapar partes do processo para a comunicação social, que é o contrário do que uma investigação competente deve fazer. Claro que ia dar buraco, como ficou hoje evidente;

- Ivo Rosa fez aquilo que era possível fazer para salvar ainda alguma coisa do processo, que foi eliminar o que é impossível provar ou estava contaminado pela incompetência do Ministério Público e de Carlos Alexandre, mantendo as acusações com fundamento, mesmo que menos espectaculares. Foi assim que os Estados Unidos conseguiram apanhar Al Capone;

- Sendo quase impossível provar crimes de corrupção, Ivo Rosa, de forma inteligente, manteve a suspeita social desses crimes cometidos por José Sócrates, o que, aliás muito irritou o suspeito. Com isso, retirou a Sócrates qualquer hipótese de sair “limpo” e voltar à vida política. Desta forma, com subtileza, Ivo Rosa prestou um grande serviço ao país;

- Ficou provada a existência de crimes graves cometidos pelo arguido, mas que já prescreveram, devido, mais uma vez, à incompetência do Ministério Público e do juiz Carlos Alexandre, pela forma com este conduziu o processo, mas também devido a esse absurdo princípio da “prescrição”, usado por quem pode pagar a advogados astutos para arrastar processos. Neste campo, algo de urgente tem de mudar na justiça, se querem preservar a sua credibilidade.

Ao contrário do que uma opinião apressada e sectária pode julgar, José Sócrates não se safou e agora, perante a solidez da acusação, mesmo que seja menos espectacular e mais restrita, vai ter mais dificuldade em escapar à justiça.