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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Da “Beleza” do Extremismo


“Terrorista”, “nazi”, “comunista”, “putinista”, “antisemita”,tudo adjectivos com que somos brindados todos os dias para nos “identificar” como “extremistas”,  quando temos opiniões firmes, radicais ou, simplesmente contra a corrente,.

Politólogos, comentadores, analistas políticos, especialistas de relações internacionais, usam e abusam de tais adjectivos para reforçar as suas opiniões “moderadas” a “cientificas”, para se distinguirem da turba da populaça “extremista”.

Confundir o extremismo com opiniões firmes, radicais, e convictas é uma das armas argumentativas dessa gente.

Então se formos para as redes sociais, onde a opinião de um leigo vale o mesmo que a opinião de um cientista, e ganha a ignorância atrevida de quem berra mais alto, de quem leva mais likes e conquista mais seguidores, a confusão entre conceitos agrava-se.

Ser radical nas suas convicções não é a mesma coisa que ser extremista.

Posso ser radical (isto é, profundo, convicto e assertivo na defesa das minhas ideias) sem ser intolerante.

A intolerância, irmã gémea do extremismo, não é exclusivo de quem habita nas franjas mais afastadas do “centro” politico”. Vejo por aí, nas redes sociais  e na comunicação social, muito opinador, mais ou menos encartado, oriundo no chamado “centro politico”, muito mais extremista e intolerante para com os que pensam de maneira diferente do que muitos ditos “radicais”.

Mas, melhor do que ninguém, aqui deixo uma das melhores definições do que é ser extremista, da autoria de um dos fundadores dos Monty Python:

“A maior vantagem do extremismo é, ao fornecer-lhe inimigos, fazê-los sentir-se bem. A grande vantagem de se ter inimigos é poder fingir-se que toda a maldade do mundo está nos nossos inimigos e toda a bondade do mundo está em nós. Irresistível, não é? Se já possuirmos bastante raiva e ressentimento dentro de nós e, por essa razão, gostarmos de abusar das pessoas, podemos fingir que só o fazemos porque os nossos inimigos são pessoas muito más. Se não fossem eles, seriamos sempre bem-dispostos, amáveis e racionais. Assim, se quer sentir-se bem, torne-se num extremista. Agora, há que fazer uma escolha: se se juntar à extrema-esquerda, ser-lhe-á disponibilizada a lista dos inimigos autorizados – quase todos os tipos de autoridade, especialmente polícias, juízes, empresas multinacionais, estabelecimentos de ensino, donos de jornais (vários), caçadores de raposas, generais, traidores de classe e, claro, os moderados. Mas se preferir ser um extremista de extrema direita, não há problema. Serão apenas diferentes: grupos minoritários barulhentos, sindicatos, russos, gente esquisita, manifestantes, assistência social, parasitas da assistência social, clérigos intrometidos, pacifistas, a BBC, grevistas, assistentes sociais, comunistas e, claro, moderados e actores com mania. Uma vez abraçada uma destas superlistas de inimigos, pode ser tão desagradável quanto quiser e ainda assim sentir que o seu comportamento é moralmente justificado. Poderá pavonear-se por aí usando as pessoas e dizendo-lhes que poderia comê-las ao pequeno-almoço, sem deixar por isso de se considerar um campeão da verdade, um combatente do bem maior, e não o triste esquizofrénico paranoico que realmente é”. (John Cleese, Das Vantagens do extremismo, 1987).

Mais actual do que nunca, basta acrescentar alguns “inimigos” à lista!

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Um protesto em nome dos pássaros ou, as árvores morrem de pé!

(fotografia de Carlos Miguel)

Mais uma razia de árvores em Torres Vedras. Não me parece que estivessem todas em perigo. Parece-me o "ir na onda". Quando chegar o verão, com as previsíveis ondas de calor, e quando não se puder andar em certas ruas de Torres por causa do calor, falamos. E onde andam os "protestantes" que tanto barulho fizeram pelo abate (eu incluído), há uns anos, de umas árvores raquíticas. Será que as árvores também têm cor politica? É só um desabafo!

Há árvores e árvores. Algumas tinham de ser arrancadas, mas penso que se entrou numa euforia de cortes. A segurança das mesmas não se prende com as alturas, depende da espécie e da localização e, depois dos últimos temporais, e do ciclone de anos atrás, já deu para ver as que aguentam e parece-me que foram algumas destas a ser arrancadas, com o pretexto da segurança. Não sei se tenho razão, mas parece-me que faltou informação à população sobre os critérios e que prevaleceu a mentalidade do ´século XIX de encarar a natureza como inimiga do homem.

(Uma resposta esclarecedora do meu amigo José Manuel Pinto Gouveia:

“Em Portugal, os critérios sustentáveis para o abate de árvores em cidades regem-se principalmente pela Lei n.º 59/2021, que prioriza a proteção do arvoredo urbano e impõe análises técnicas rigorosas.[1]

## Critérios Principais para Abate

O abate só é permitido em casos de perigo comprovado por análise biomecânica ou fitossanitária, elaborada por técnico qualificado (arborista), como risco de danos a pessoas, bens ou estruturas. Pode ocorrer também se a árvore ameaçar segurança, obstruir mobilidade urbana sem alternativas ou tiver baixa vitalidade com vantagens na substituição por espécies mais adequadas.[2][1]

## Requisitos Obrigatórios

Exige autorização municipal prévia (exceto urgências), fundamentação documentada com fotos e acompanhamento técnico. Após abate, deve haver reposição de arvoredo que duplique o sequestro de CO₂, preferencialmente com árvores nativas no concelho (raio ≤10 km).[1]

## Medidas Sustentáveis

A gestão segue princípios como precaução, ciência e não regressividade do coberto arbóreo, com inventários municipais e regulamentos locais. Proíbe abates sem autorização, promovendo transplantes ou podas como alternativas. Em Lisboa ou Torres Vedras, contacte a câmara municipal para regulamentos específicos.[3][4][1]

Fontes

[1] Lei n.º 59/2021 | DR https://diariodarepublica.pt/dr/detalhe/lei/59-2021-169780050

[2] ::: Lei n.º 59/2021, de 18 de Agosto https://www.pgdlisboa.pt/leis/lei_mostra_articulado.php?nid=3445&tabela=leis&so_miolo=

[3] Saiba como proceder em caso de necessidade de abate ... https://cm-sintra.pt/atualidade/ambiente/info-saiba-como-proceder-em-caso-de-necessidade-de-abate-de-arvores

[4] 27174 https://www.lisboa.pt/fileadmin/info_administrativa/normativas/regulamentos/ambiente/Regulamento_Municipal_do_Arvoredo_de_Lisboa.pdf

[5] Artigo 23.º - Abate - Lei nº 59/2021 de 18-08-2021 - BDJUR http://bdjur.almedina.net/item.php?field=node_id&value=2472546

[6] ::: Lei n.º 59/2021, de 18 de Agosto https://www.pgdlisboa.pt/leis/lei_mostra_articulado.php?artigo_id=3445A0019&nid=3445&tabela=leis&pagina=1&ficha=1&so_miolo=&nversao=

[7] ::: Lei n.º 59/2021, de 18 de Agosto https://www.pgdlisboa.pt/leis/lei_mostra_articulado.php?artigo_id=3445A0017&nid=3445&tabela=leis&pagina=1&ficha=1&so_miolo=&nversao=

[8] Guia de Boas Práticas para a Gestão do Arvoredo Urbano https://www.icnf.pt/florestas/protecaodearvoredo/arvoredourbano

[9] Em que situações é permitido e proibido o corte de árvores? https://www.tomaconta.com/blog/corte-de-arvores

[10] Gestão do arvoredo urbano https://revistajardins.pt/jardinagem/tarefas-de-jardinagem/gestao-do-arvoredo-urbano/

Lei n.º 59/2021

DIARIODAREPUBLICA.PT”

(José Gouveia obrigado amigo pela tudo preciosa informação. Agora todos têm o caminho facilitado: a oposição pode pegar nessa informação e procurar saber se houve erros na aplicação da lei; o poder municipal só terá de provar que essa lei foi aplicada; a comunicação social tem a papinha feita para investigar e informar; nós cidadãos temos meios para estar atentos e exigir provas a quem de direito de que não houve abusos ou ilegalidades. Pela minha parte vou fazer chegar a tua preciosa informação ao único candidato eleito na Assembleia Municipal que eu elegi para ele agir em conformidade. Abraço.)

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

70 velas

(primeiras páginas do Jornal "Diário de Lisboa" de 10 e 11 de Fevereiro de 1956)

Há uns anos, quando passei por um problema de saúde grave, temendo não sobreviver muito tempo, fiz um primeiro desejo, chegar ao fim daquele ano para assistir à primeira eleição de um presidente negro nos Estados Unidos (Obama). Esse desejo concretizou-se.

Depois, como as coisas foram correndo bem, alarguei um pouco o espaço temporal desse desejo, ver a minha filha a atingir a maioridade. Felizmente este desejo também se concretizou.

Percebendo que o risco de mortalidade se ia afastando, atrevi-me a fazer um último desejo: chegar aos 70 anos e o resto era ganho.

E aqui estou!

Agora é viver o tempo restante, enquanto valer a pena, quer do ponto de vista físico, quer do ponto de vista intelectual.

Até aos 80 é planear ano a ano, ou de dois em dois anos como vai acontecer com a renovação da carta, dos 80 aos 90, se lá chegar, é planear mês a mês e, se por ironia do destino, chegar aos 90, desde que autónomo física e mentalmente , é planear semana a semana.

No historial de família, excluindo o caso do meu pai que não chegou aos 50 e a minha avó paterna que faleceu ao 79, ambos os avôs faleceram aos 83, a minha avó materna aos 94, até agora a recordista, a minha mãe já conta 93 e as minhas tias viveram todas até aos 90.

Há pouco mais de 150 anos, como pude confirmar numas listas censitárias para este concelho, os 70 anos eram mesmo o limite, contando-se pelos dedos das mãos os que ultrapassavam aquela barreira.

Como me sinto ao chegar aqui? A mesma pessoa que fui crescendo ao longo destas 7 décadas, que tem as primeiras memórias de acontecimentos familiares e de vizinhança a partir dos 3 anos, (várias mudanças de casa e de terra em 1959, fixando-me finalmente na Praceta Afonso Vilela onde fiz os 4 anos em 10 de Fevereiro de 1960),  mas só se apercebeu que havia um mundo mais vasto pelos 6/7 anos, como se comprova pela datação dos primeiros acontecimentos de que me lembro : o “grande assalto ao comboio” em Inglaterra em 8 de Agosto de 1963, muito comentado nas noticias e lá por casa; a morte de Edith Piaf (notícia que me lembro de ouvir anunciada na rádio) em 10 de Outubro de 1963; o assassinato de John Kennedy em 22 de Novembro de 1963, cujas imagens vistas na TV, muito me impressionaram.

Além disso faço, parte de uma geração que viveu grandes acontecimentos e grande mudanças. Só para citar algumas dessas mudanças, antes de atingir a maioridade, os Jogos Olímpicos de 1964, em Tóquio, os primeiros a serem transmitidos para todo o mundo pela televisão, a inauguração da ponte sobre o Tejo em 6 de Agosto de 1966, a morte de Walt Disney em 15 de Dezembro de 1966 (ávido leitor dos Tio Patinhas, Zé Cariocas e Mickeys que o meu avô me dava, essa morte foi a primeira morte que senti profundamente como uma perda pessoal, passando a ter a noção de como a morte ceifa as referências que julgávamos imortais), a Conquita do Espaço, cujas aventuras seguíamos com entusiasmo aqui por casa, e que culminou com a chegada do Homem à Lua em 20 de Julho de 1969, o despertar do rock and roll, à volta dos êxitos do Beatles, as grandes cheias de 1967 e o terramoto de 1969, a agitação politica de 1969 e 1973 e, finalmente, entre outros acontecimentos, o 25 de Abril de 1974, que me apanhou nos meus 18 anos.

Esse ano distante de 1956, sem que tivesse então consciência, foi também um ano rico em acontecimentos que marcariam o rumo do mundo: em 26 de fevereiro  Nikita Kruschev denunciou os crimes do stalinismo, em Outubro a invasão da Hungria pelas tropas soviéticas. Nesse ano Marrocos e a Tunísia tornaram-se independentes, e deu-se a nacionalização do Canal do Suez por parte de Nasser do Egipto, provocando uma curta guerra no Médio Oriente. Juan Manuel Fangio sagrou-se pela 4ª vez campeão de Fórmula 1 e tiveram lugar os Jogos Olímpicos de Melbourne. Na musica, Elvis Presley era uma das grande novidades. Nesse mesmo ano morria Bertolt Brecht enquanto Fidel Castro iniciava, na Sierra Maestra, o movimento que levaria o “castrismo” ao poder na ilha de Cuba três anos depois. Em Portugal a Fundação Gulbenkian iniciaou a sua actividade.

Esse foi o último ano sem televisão em Portugal mas, ainda nesse ano, em 4 de Setembro de 1956, tiveram lugar emissões experimentais da RTP na da Feira Popular, preparando o inicio de emissões regulares que se realizaram a partir de 7 de Março de 1957.

Numa geração marcada pela cultura da imagem (cinema, Banda Desenhada e Televisão), que começou a substituir a geração anterior muito marcada pela cultura literária e tendo-me tornado um apaixonado pelo cinema, a lista de filmes estreados nesse ano de 1956 é, só por si, uma mostra invejável do melhor da história da 7ª arte : Os Dez Mandamentos de Cecil B. DeMille;…e Deus criou a mulher de Roger Vadim com Brigitte Bardot; O Gigante de George Srevens com James Dean, Elisabeth Taylor e Denins Hopper; O Pecado Mora ao lado de Billy Wilder com Marilyn Monroe; O Homem que Sabia de Mais de Alfred Hitchcock; O Sétimo Selo de Ingmar Bergman; A Desaparecida de John Ford; Fugiu um condenado à morte de Robert Bresson; Um Roubo no Hipódromo de Stanley Kubrick; Moby Dick de John Huston;Noite e Nevoeiro de Alain Resnais, entre tantos outros.

Na outra arte que povoou  a minha infância, a Banda Desenhada, assinale-se nesse ano de 1956 a edição em álbum da aventura “Marca Amarela” da série Blake e Mortimer, um dos meus álbuns preferidos da minha série e autor preferido, bem como a criação da série Gil Jourdan, de Maurice Tellieux, o inicio das aventuras da série espanhola  “EL Capitan Trueno”, criada pela dupla Victor Mora e Ambros, editada em Portugal nuns pequenos livrinhos em formato italiano com o nome de “Capitão Trovão”, cujas aventuras eu devorei na infância. Dois outros gigantes da BD, Jules Feiffer e Benito Jacovitti, iniciaram a sua actividade nesse ano de 1956. A grande revista de BD que então se publicava em Portugal era o “Cavaleiro Andante”.

O país vivia então sob a ditadura de Salazar, sujeito a uma censura férrea, que castrava iniciativas culturais, informativas e jornalística, ao mesmo tempo que a PIDE e os seus informadores vigiavam qualquer conversa de café. Depois da agitação do pós guerra, com o MUD Juvenil em 1946, e a dois anos do abalo das eleições de 1958 de Humberto Delgado, o regime ditatorial vivia um período e alguma acalmia e estabilidade.

O que mais custa é ver numa tão longa caminhada é a lei da morte a despovoar as nossas referências, nas amizades, na cultura, na política, no desporto , na arte ou no simples encontro de rua.

O mundo que me viu nascer era um outro mundo muito diferente do actual. Ter testemunhado tantas mudanças é um dos grande privilégios de se chegar a esta idade.