Depois, como as coisas foram correndo bem, alarguei um pouco
o espaço temporal desse desejo, ver a minha filha a atingir a maioridade.
Felizmente este desejo também se concretizou.
Percebendo que o risco de mortalidade se ia afastando,
atrevi-me a fazer um último desejo: chegar aos 70 anos e o resto era ganho.
E aqui estou!
Agora é viver o tempo restante, enquanto valer a pena, quer
do ponto de vista físico, quer do ponto de vista intelectual.
Até aos 80 é planear ano a ano, ou de dois em dois anos como
vai acontecer com a renovação da carta, dos 80 aos 90, se lá chegar, é planear
mês a mês e, se por ironia do destino, chegar aos 90, desde que autónomo física
e mentalmente , é planear semana a semana.
No historial de família, excluindo o caso do meu pai que não
chegou aos 50 e a minha avó paterna que faleceu ao 79, ambos os avôs faleceram
aos 83, a minha avó materna aos 94, até agora a recordista, a minha mãe já
conta 93 e as minhas tias viveram todas até aos 90.
Há pouco mais de 150 anos, como pude confirmar numas listas
censitárias para este concelho, os 70 anos eram mesmo o limite, contando-se
pelos dedos das mãos os que ultrapassavam aquela barreira.
Como me sinto ao chegar aqui? A mesma pessoa que fui
crescendo ao longo destas 7 décadas, que tem as primeiras memórias de
acontecimentos familiares e de vizinhança a partir dos 3 anos, (várias mudanças
de casa e de terra em 1959, fixando-me finalmente na Praceta Afonso Vilela onde
fiz os 4 anos em 10 de Fevereiro de 1960), mas só se apercebeu que havia um mundo mais
vasto pelos 6/7 anos, como se comprova pela datação dos primeiros
acontecimentos de que me lembro : o “grande assalto ao comboio” em Inglaterra
em 8 de Agosto de 1963, muito comentado nas noticias e lá por casa; a morte de
Edith Piaf (notícia que me lembro de ouvir anunciada na rádio) em 10 de Outubro
de 1963; o assassinato de John Kennedy em 22 de Novembro de 1963, cujas imagens
vistas na TV, muito me impressionaram.
Além disso faço, parte de uma geração que viveu grandes
acontecimentos e grande mudanças. Só para citar algumas dessas mudanças, antes
de atingir a maioridade, os Jogos Olímpicos de 1964, em Tóquio, os primeiros a
serem transmitidos para todo o mundo pela televisão, a inauguração da ponte
sobre o Tejo em 6 de Agosto de 1966, a morte de Walt Disney em 15 de Dezembro
de 1966 (ávido leitor dos Tio Patinhas, Zé Cariocas e Mickeys que o meu avô me
dava, essa morte foi a primeira morte que senti profundamente como uma perda
pessoal, passando a ter a noção de como a morte ceifa as referências que
julgávamos imortais), a Conquita do Espaço, cujas aventuras seguíamos com
entusiasmo aqui por casa, e que culminou com a chegada do Homem à Lua em 20 de
Julho de 1969, o despertar do rock and roll, à volta dos êxitos do Beatles, as
grandes cheias de 1967 e o terramoto de 1969, a agitação politica de 1969 e
1973 e, finalmente, entre outros acontecimentos, o 25 de Abril de 1974, que me
apanhou nos meus 18 anos.
Esse ano distante de 1956, sem que tivesse então
consciência, foi também um ano rico em acontecimentos que marcariam o rumo do
mundo: em 26 de fevereiro Nikita
Kruschev denunciou os crimes do stalinismo, em Outubro a invasão da Hungria pelas
tropas soviéticas. Nesse ano Marrocos e a Tunísia tornaram-se independentes, e
deu-se a nacionalização do Canal do Suez por parte de Nasser do Egipto,
provocando uma curta guerra no Médio Oriente. Juan Manuel Fangio sagrou-se pela
4ª vez campeão de Fórmula 1 e tiveram lugar os Jogos Olímpicos de Melbourne. Na
musica, Elvis Presley era uma das grande novidades. Nesse mesmo ano morria
Bertolt Brecht enquanto Fidel Castro iniciava, na Sierra Maestra, o movimento
que levaria o “castrismo” ao poder na ilha de Cuba três anos depois. Em
Portugal a Fundação Gulbenkian iniciaou a sua actividade.
Esse foi o último ano sem televisão em Portugal mas, ainda
nesse ano, em 4 de Setembro de 1956, tiveram lugar emissões experimentais da
RTP na da Feira Popular, preparando o inicio de emissões regulares que se
realizaram a partir de 7 de Março de 1957.
Numa geração marcada pela cultura da imagem (cinema, Banda
Desenhada e Televisão), que começou a substituir a geração anterior muito
marcada pela cultura literária e tendo-me tornado um apaixonado pelo cinema, a
lista de filmes estreados nesse ano de 1956 é, só por si, uma mostra invejável
do melhor da história da 7ª arte : Os Dez Mandamentos de Cecil B. DeMille;…e
Deus criou a mulher de Roger Vadim com Brigitte Bardot; O Gigante de George
Srevens com James Dean, Elisabeth Taylor e Denins Hopper; O Pecado Mora ao lado
de Billy Wilder com Marilyn Monroe; O Homem que Sabia de Mais de Alfred
Hitchcock; O Sétimo Selo de Ingmar Bergman; A Desaparecida de John Ford; Fugiu
um condenado à morte de Robert Bresson; Um Roubo no Hipódromo de Stanley
Kubrick; Moby Dick de John Huston;Noite e Nevoeiro de Alain Resnais, entre
tantos outros.
Na outra arte que povoou
a minha infância, a Banda Desenhada, assinale-se nesse ano de 1956 a
edição em álbum da aventura “Marca Amarela” da série Blake e Mortimer, um dos
meus álbuns preferidos da minha série e autor preferido, bem como a criação da
série Gil Jourdan, de Maurice Tellieux, o inicio das aventuras da série
espanhola “EL Capitan Trueno”, criada
pela dupla Victor Mora e Ambros, editada em Portugal nuns pequenos livrinhos em
formato italiano com o nome de “Capitão Trovão”, cujas aventuras eu devorei na
infância. Dois outros gigantes da BD, Jules Feiffer e Benito Jacovitti,
iniciaram a sua actividade nesse ano de 1956. A grande revista de BD que então
se publicava em Portugal era o “Cavaleiro Andante”.
O país vivia então sob a ditadura de Salazar, sujeito a uma
censura férrea, que castrava iniciativas culturais, informativas e
jornalística, ao mesmo tempo que a PIDE e os seus informadores vigiavam
qualquer conversa de café. Depois da agitação do pós guerra, com o MUD Juvenil
em 1946, e a dois anos do abalo das eleições de 1958 de Humberto Delgado, o
regime ditatorial vivia um período e alguma acalmia e estabilidade.
O que mais custa é ver numa tão longa caminhada é a lei da
morte a despovoar as nossas referências, nas amizades, na cultura, na política,
no desporto , na arte ou no simples encontro de rua.
O mundo que me viu nascer era um outro mundo muito diferente
do actual. Ter testemunhado tantas mudanças é um dos grande privilégios de se
chegar a esta idade.
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