Pesquisar neste blogue

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

70 velas

(primeiras páginas do Jornal "Diário de Lisboa" de 10 e 11 de Fevereiro de 1956)

Há uns anos, quando passei por um problema de saúde grave, temendo não sobreviver muito tempo, fiz um primeiro desejo, chegar ao fim daquele ano para assistir à primeira eleição de um presidente negro nos Estados Unidos (Obama). Esse desejo concretizou-se.

Depois, como as coisas foram correndo bem, alarguei um pouco o espaço temporal desse desejo, ver a minha filha a atingir a maioridade. Felizmente este desejo também se concretizou.

Percebendo que o risco de mortalidade se ia afastando, atrevi-me a fazer um último desejo: chegar aos 70 anos e o resto era ganho.

E aqui estou!

Agora é viver o tempo restante, enquanto valer a pena, quer do ponto de vista físico, quer do ponto de vista intelectual.

Até aos 80 é planear ano a ano, ou de dois em dois anos como vai acontecer com a renovação da carta, dos 80 aos 90, se lá chegar, é planear mês a mês e, se por ironia do destino, chegar aos 90, desde que autónomo física e mentalmente , é planear semana a semana.

No historial de família, excluindo o caso do meu pai que não chegou aos 50 e a minha avó paterna que faleceu ao 79, ambos os avôs faleceram aos 83, a minha avó materna aos 94, até agora a recordista, a minha mãe já conta 93 e as minhas tias viveram todas até aos 90.

Há pouco mais de 150 anos, como pude confirmar numas listas censitárias para este concelho, os 70 anos eram mesmo o limite, contando-se pelos dedos das mãos os que ultrapassavam aquela barreira.

Como me sinto ao chegar aqui? A mesma pessoa que fui crescendo ao longo destas 7 décadas, que tem as primeiras memórias de acontecimentos familiares e de vizinhança a partir dos 3 anos, (várias mudanças de casa e de terra em 1959, fixando-me finalmente na Praceta Afonso Vilela onde fiz os 4 anos em 10 de Fevereiro de 1960),  mas só se apercebeu que havia um mundo mais vasto pelos 6/7 anos, como se comprova pela datação dos primeiros acontecimentos de que me lembro : o “grande assalto ao comboio” em Inglaterra em 8 de Agosto de 1963, muito comentado nas noticias e lá por casa; a morte de Edith Piaf (notícia que me lembro de ouvir anunciada na rádio) em 10 de Outubro de 1963; o assassinato de John Kennedy em 22 de Novembro de 1963, cujas imagens vistas na TV, muito me impressionaram.

Além disso faço, parte de uma geração que viveu grandes acontecimentos e grande mudanças. Só para citar algumas dessas mudanças, antes de atingir a maioridade, os Jogos Olímpicos de 1964, em Tóquio, os primeiros a serem transmitidos para todo o mundo pela televisão, a inauguração da ponte sobre o Tejo em 6 de Agosto de 1966, a morte de Walt Disney em 15 de Dezembro de 1966 (ávido leitor dos Tio Patinhas, Zé Cariocas e Mickeys que o meu avô me dava, essa morte foi a primeira morte que senti profundamente como uma perda pessoal, passando a ter a noção de como a morte ceifa as referências que julgávamos imortais), a Conquita do Espaço, cujas aventuras seguíamos com entusiasmo aqui por casa, e que culminou com a chegada do Homem à Lua em 20 de Julho de 1969, o despertar do rock and roll, à volta dos êxitos do Beatles, as grandes cheias de 1967 e o terramoto de 1969, a agitação politica de 1969 e 1973 e, finalmente, entre outros acontecimentos, o 25 de Abril de 1974, que me apanhou nos meus 18 anos.

Esse ano distante de 1956, sem que tivesse então consciência, foi também um ano rico em acontecimentos que marcariam o rumo do mundo: em 26 de fevereiro  Nikita Kruschev denunciou os crimes do stalinismo, em Outubro a invasão da Hungria pelas tropas soviéticas. Nesse ano Marrocos e a Tunísia tornaram-se independentes, e deu-se a nacionalização do Canal do Suez por parte de Nasser do Egipto, provocando uma curta guerra no Médio Oriente. Juan Manuel Fangio sagrou-se pela 4ª vez campeão de Fórmula 1 e tiveram lugar os Jogos Olímpicos de Melbourne. Na musica, Elvis Presley era uma das grande novidades. Nesse mesmo ano morria Bertolt Brecht enquanto Fidel Castro iniciava, na Sierra Maestra, o movimento que levaria o “castrismo” ao poder na ilha de Cuba três anos depois. Em Portugal a Fundação Gulbenkian iniciaou a sua actividade.

Esse foi o último ano sem televisão em Portugal mas, ainda nesse ano, em 4 de Setembro de 1956, tiveram lugar emissões experimentais da RTP na da Feira Popular, preparando o inicio de emissões regulares que se realizaram a partir de 7 de Março de 1957.

Numa geração marcada pela cultura da imagem (cinema, Banda Desenhada e Televisão), que começou a substituir a geração anterior muito marcada pela cultura literária e tendo-me tornado um apaixonado pelo cinema, a lista de filmes estreados nesse ano de 1956 é, só por si, uma mostra invejável do melhor da história da 7ª arte : Os Dez Mandamentos de Cecil B. DeMille;…e Deus criou a mulher de Roger Vadim com Brigitte Bardot; O Gigante de George Srevens com James Dean, Elisabeth Taylor e Denins Hopper; O Pecado Mora ao lado de Billy Wilder com Marilyn Monroe; O Homem que Sabia de Mais de Alfred Hitchcock; O Sétimo Selo de Ingmar Bergman; A Desaparecida de John Ford; Fugiu um condenado à morte de Robert Bresson; Um Roubo no Hipódromo de Stanley Kubrick; Moby Dick de John Huston;Noite e Nevoeiro de Alain Resnais, entre tantos outros.

Na outra arte que povoou  a minha infância, a Banda Desenhada, assinale-se nesse ano de 1956 a edição em álbum da aventura “Marca Amarela” da série Blake e Mortimer, um dos meus álbuns preferidos da minha série e autor preferido, bem como a criação da série Gil Jourdan, de Maurice Tellieux, o inicio das aventuras da série espanhola  “EL Capitan Trueno”, criada pela dupla Victor Mora e Ambros, editada em Portugal nuns pequenos livrinhos em formato italiano com o nome de “Capitão Trovão”, cujas aventuras eu devorei na infância. Dois outros gigantes da BD, Jules Feiffer e Benito Jacovitti, iniciaram a sua actividade nesse ano de 1956. A grande revista de BD que então se publicava em Portugal era o “Cavaleiro Andante”.

O país vivia então sob a ditadura de Salazar, sujeito a uma censura férrea, que castrava iniciativas culturais, informativas e jornalística, ao mesmo tempo que a PIDE e os seus informadores vigiavam qualquer conversa de café. Depois da agitação do pós guerra, com o MUD Juvenil em 1946, e a dois anos do abalo das eleições de 1958 de Humberto Delgado, o regime ditatorial vivia um período e alguma acalmia e estabilidade.

O que mais custa é ver numa tão longa caminhada é a lei da morte a despovoar as nossas referências, nas amizades, na cultura, na política, no desporto , na arte ou no simples encontro de rua.

O mundo que me viu nascer era um outro mundo muito diferente do actual. Ter testemunhado tantas mudanças é um dos grande privilégios de se chegar a esta idade.