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quarta-feira, 2 de março de 2022

DIÁRIOS DE KIEV (saindo de Kiev) – (19 e 20) por Pedro Caldeira Rodrigues (Agência LUSA) – 1 e 2 de Março de 2022


De Kiev à Moldova uma longa viagem com muitos postos de controlos

por Pedro Caldeira Rodrigues, agência Lusa, na Ucrânia ***

Vinnitsa, Ucrânia, 01 mar 2022 (Lusa) – Uma carrinha com 11 pessoas, entre as quais nove jornalistas portugueses, abandonou hoje Kiev rumo à Moldova num percurso de 635 quilómetros, com paragens em muitos postos de controlo, para uma viagem que vai demorar mais de 18 horas.

Com neve e frio, a carrinha fretada pela embaixada portuguesa, com os nove jornalistas e duas cidadãs ucranianas, iniciou a longa viagem pelas 09:00 (07:00 em Lisboa) deixando para trás a capital Kiev, praticamente abandonada, rumo ao sul do país até à fronteira com a Moldova, para percorrer aquela que é considerada uma das rotas mais seguras para abandonar a Ucrânia, invadida pela Rússia na madrugada da passada quinta-feira.

O caminho até chegar à fronteira com a Moldova vai ser longo, os carros andam devagar devido ao tráfego intenso, pelo facto de tantas pessoas quererem fugir de Kiev, nomeadamente mulheres e crianças, na esperança de encontrarem um lugar seguro.

O exército ucraniano estabeleceu vários postos de controlo, tanto em estradas principais como secundárias, para confirmar os documentos dos viajantes, um procedimento que gera grandes engarrafamentos, com filas de carros de vários quilómetros e atrasos de muitas horas.

Também nos postos de combustível, que já começa a escassear, se demora várias horas até abastecer os veículos.

Ao longo de todo o percurso veem-se muitos soldados e civis com braçadeiras amarelas, símbolo adotado pelo exército ucraniano, que já disse ter detetado cidadãos russos infiltrados.

Depois de se abandonar Kiev avistam-se, a espaços, pequenas povoações e vislumbram-se enormes campos de cultivos e muitas árvores. Aí os mais atentos detetam, por vezes, alguns soldados ucranianos escondidos, mas em prontidão.

Além dos postos de controlo os militares ucranianos construíram, em pontos estratégicos, várias barricadas, com blocos de cimento e sacos brancos cheios de areia.

Em Vascilina, a carrinha da embaixada, que está identificada com a bandeira portuguesa, parou para se abastecer de combustível e nessa altura ouviu-se mais uma sirene de aviso de ataque aéreo.

Nessa estação de serviço, estavam vários soldados ucranianos e alguns civis visivelmente nervosos e, constatou a agência Lusa, até com uma abordagem agressiva e sempre com o dedo no gatilho.

Pelas janelas da carrinha da embaixada veem-se várias famílias a despedirem-se de jovens fardados que, certamente, vão a caminho da linha da frente juntar-se ao exército, já que foi instaurada a lei marcial e apenas as mulheres e as crianças têm autorização para sair e procurar refúgio em países vizinhos.

Os últimos dados da ONU apontam para mais de 100 mil deslocados e mais de 660 mil refugiados na Polónia, Hungria, Moldova e Roménia que fugiram da ofensiva militar na Ucrânia que, segundo Kiev, já matou mais de 350 civis, incluindo crianças”.

PEDRO CALDEIRA RODRIGUES (LUSA)

A cidade sem luz

Por Pedro Caldeira Rodrigues, agência Lusa, em Botosani, norte da Roménia ***

Botosani, Roménia, 02 mar 2022 (Lusa) – Com a filha ainda bebé ao colo, Tatiana despede-se do marido entre fortes abraços e lágrimas nos olhos na cidade sem luz de Kamianets-Podilskyi, sudoeste ucraniano, antes de entrar na carrinha que a transportou para Botosani, na vizinha Roménia.

"A cidade está sem luz para evitar que seja detetada pelos aviões. E toda a população também desligou as localizações dos telemóveis", indica Tatiana, 43 anos, após ambas se acomodarem na carrinha, onde também viajavam jornalistas portugueses, e com Eva ainda agitada, a perguntar pelo pai. Depois, acalma, desenhos animados no telemóvel, bolachas, e acaba por adormecer.

"Vê muitos vídeos e filmes estrangeiros, quando fala connosco mistura palavras da nossa língua e inglês", diz a mãe, também sempre pegada ao telemóvel para receber e enviar mensagens aos familiares próximos, e atualizar informações.

Tatiana foi uma das três ucranianas que viajaram com os nove jornalistas portugueses – duas equipas da SIC, uma da RTP, uma da CNN Portugal e o enviado da Lusa - que saíram de Kiev pouco passava das 9:00 da manhã de 01 de março, numa debandada de muitos ‘media’ internacionais que se encontravam em reportagem pela capital ucraniana. As duas primeiras acompanharam os jornalistas portugueses desde a capital ucraniana, onde nasceram.

Após muitos contactos e uma tentativa falhada de viajar de comboio em direção a oeste e à fronteira polaca no último dia de fevereiro, a embaixada portuguesa conseguiu contratar um motorista e carrinha, um aluguer de 5.000 dólares repartido pelos jornalistas.

Quando Tatiana e a filha foram recolhidas às 19:00 em Kamianets-Podilskyi, sudoeste da Ucrânia e atravessada pelo rio Smotrich, já parte considerável do percurso de 635 quilómetros, também feito por estradas secundárias e sinuosas, tinha sido percorrido.

A fronteira com a Moldávia não estava longe e já tinham passado dez horas desde a saída de Kiev. Chegou-se ao destino final em plena madrugada, quatro da manhã. Um total de 19 horas.

Quando Tatiana se juntou ao grupo, a cidade estava escura, como breu. Apenas alguns ténues focos de luz que pareciam suspensos, pequenos retângulos provenientes de janelas de alguns dos grandes edifícios junto à estrada. Ou dos semáforos em funcionamento, de um ou outro veículo. Um silêncio arrasador.

A história de Tatiana atravessa as convulsões registadas nesta parte da "outra Europa", eslava e ortodoxa. Nasceu em 1988, cidadã da União Soviética. Obteve a nacionalidade ucraniana após a independência em 1991 após a desagregação da União Soviética. E também tem passaporte português.

O pai era médico cirurgião militar de nacionalidade russa. A mãe também é médica. Antes de Tatiana nascer, foram cooperantes em Moçambique. Após a morte do marido, e por entender português pela sua estadia na antiga colónia, decidiu instalar-se em Portugal após a independência da Ucrânia, também devido aos graves problemas económicos do país, onde se tinha instalado. Hoje, continua a exercer a sua profissão em Torres Novas.

"Tenho muitos amigos russos, continuamos a trocar mensagens. Entendo perfeitamente a língua russa, tudo isto é uma insensatez, e não sei como vai terminar", desabafa.

"A minha mãe adora viver em Portugal, e eu também gosto muito, um país pequeno, mas muito bonito", adianta.

Casou-se em Sintra com o marido, permaneceram algum tempo, arranjaram trabalho. Mas acabaram por regressar, até agora.

"O meu marido está na lista de mobilização, mas espero que não seja chamado para combater. É um especialista em informática, em programação, e julgamos que será útil nessa área", assinala com os seus olhos azuis muito reluzentes, e um sorriso que revela esperança.

A conversa prossegue, a carrinha continua a parar nos muitos postos de controlo montados pelo exército ou milícias ucranianas.

Montes de lenhas acumulam-se, vindas de árvores derrubadas nas pequenas florestas das proximidades. Faz frio e continua escuro. Muitos militares, milicianos, usam lanternas de mineiro presas aos capacetes. Outros descansam nas barricadas ou estão junto das metralhadoras assentes em tripés. Todos fortemente armados.

A fronteira da Moldávia, outra ex-república soviética está próxima. O território ucraniano é abandonado a pé, algumas centenas de metros através de uma terra de ninguém. Já na Moldávia, outra carrinha aguarda para o transporte até à cidade romena de Botosani, extremo norte da Roménia.

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